Capítulo Paralelo: Apenas sentir, sem pensar
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Havia canteiros de flores abaixo da janela. Embora eles fossem quase imperceptíveis de dentro do quarto - pois eram rentes à terra - o aroma perfumado se espalhava pela casa.
A fragrância era tão gostosa que arrancava pelo menos um sorriso de cada transeunte que passava na calçada. Também pudera, afinal, as moradoras daquela casa eram reconhecidas pelas suas exímias habilidades relacionadas à fauna e flora.
Como Inoshi sempre dizia: Aquela era a casa das flores.
"Ino, cuidado com esse vaso." Ia dizendo Kyoko, desamarrando o avental.
Yamanaka Kyoko era morena e tinha olhos azuis celestiais. O rosto era redondo, os cabelos fazendo o contorno da face, caindo até os ombros. A verdadeira beleza estava em seus olhos, que haviam sido herdados por Ino com igual singularidade.
Cuidava das suas flores e da floricultura com tanto amor quanto cuidava das pessoas que amava, sem nunca perder a tranqüilidade.
Ino tinha os cabelos curtos nos seus oito anos e carregava o vaso laranja na direção do jardim. "Não se preocupe, mamãe."
"Eu adoro rosas. Lá lá lá." Saltitava.
Ela atravessou a porta, atingindo a pequena estradinha que perpassava sobre a grama, levando em direção ao portão da casa. O colorido era impressionante. E as flores cresciam e cresciam, dos mais diversos tipos, as folhas balançando lentamente com a brisa.
Era Ino quem cuidava do jardim. Gostava de plantá-las e regar uma por uma toda manhã.
Quando não estava na floricultura, ficava ali, observando as joaninhas que vez ou outra apareciam sobre as flores. As punha sobre os dedos e ficava vendo-as caminharem por toda extensão da sua mão, até tornar a soltá-las em alguma de suas plantas preferidas.
Com Kyoko, Ino aprendera a amar, respeitar e valorizar a natureza.
"Deixo esse vaso aqui e logo vou busca o out-"
O barulho de algo caindo dentro de casa chamou sua atenção e ela se ergueu, esquecendo o vaso laranja perto das roseiras.
Caminhou até a porta da casa. "Mamãe?"
Silêncio.
Ela adentrou aos poucos.
"Mamãe, cadê você?" Perguntou, levando a mão ao batente da porta, enquanto parava em frente à cozinha. "Mamãe?"
Havia um corpo caído no chão, os cabelos castanhos espalhados por todos os lados. Cacos de vidro estavam sobre o piso e por baixo da mesa e armário.
"Mamãe!"
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"Ino, ande logo."
Shikamaru a sacudia.
Ela abandonou seus pensamentos, voltando os olhos para ele.
Konoha estava com um clima agradável naquela tarde e, pela primeira vez de tantas que sequer saberia, Ino havia aceitado o convite para observar as nuvens.
Com tudo que passava por sua cabeça, tanto em que pensar, alguns minutos não fariam diferença.
Ele a cutucou. "Você precisa ir. Tem treino agora."
Por um momento, Ino se esqueceu de que Shikamaru era um chuunin.
Ficou em silêncio, observando-o. Tão inteligente e habilidoso como era, embora preguiçoso, não a admirava que ele fosse merecedor daquele ridículo casaco em que circulava para lá e para cá. Mas, de uma maneira que jamais fora capaz de imaginar, sentia falta de Shikamaru.
Era estranho não vê-lo todos os dias e se tornava cansativo ficar apenas com Chouji. Às vezes, mesmo sem saber, sempre sentia estar aprendendo algo com Shikamaru. Mas Chouji era realmente deprimente.
Aos poucos, a motivação inicial para continuar com aquela brincadeira de faz-de-conta ia se esvaecendo. Ino sabia que não havia nascido para lutas e para jutsus. Ela gostava daquela excitação que cada novo desafio trazia, mas, ao mesmo tempo, se sentia estafada com as dificuldades e desmotivada a ultrapassá-las.
Sentia-se estúpida por manter objetivos inúteis.
"Shika," Ino, ainda deitada sobre a grama, não olhava para ele. "eu sou deprimente?"
Talvez, no fundo, ela fosse como Chouji.
"Hm?" Ele tirou os olhos do céu.
"Eu realmente sou tão deprimente como às vezes penso ser?"
"Você é apenas problemática."
Ela quase teve vontade de sorrir com a resposta.
Seus dedos se enroscaram na grama alta, distraidamente. Haviam folhas secas presas entre os fios do seu cabelo, caídas da árvore logo atrás deles.
Suspirou. "Hoje é o dia em que minha mãe morreu." Disse, com uma naturalidade que era apenas fajuta.
"Hm."
Ino não esperava ouvir palavras de consolo ou sentir uma mão rodeando seus ombros - tampouco tencionava pedir por qualquer tipo de conforto. Ela já havia superado aquilo e, também, não era do feitio de Shikamaru demonstrar grandes pesares ou grandes afobações.
Ele era apenas um cara pela metade. Tudo na sua vida era um meio termo.
"Faz nove anos e parece que sinto a mesma dor daquele dia." Murmurou Ino, mais para si mesma do que para ele. Sua voz soava tranqüila e segura, mesmo com a expressão impassível. "Aprendi a suportar e, mesmo assim, parece tão patético forjar uma estúpida calma diante da tristeza."
Ela não notava o olhar perscrutador sobre si.
"Minha vida é feita de coisas patéticas." Disse.
"Ino," Shikamaru suspirou, cansado. "você é tão problemática."
Ambos ficaram em silêncio, a brisa balançando seus cabelos.
"Sua vida só é patética porque você faz dela patética."
"Que frase idiota, Shikamaru."
Jamais admitiria a exatidão do seu comentário.
Ino apenas sorriu.
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Yamanaka Inoshi soltou um suspiro. Os cabelos loiros já estavam salpicados de fios brancos nas têmporas e, ao contrário de muitos homens, aquilo não o deixava mais charmoso ou mais sexy.
A casa estava vazia. Havia poucas flores, havia pouco colorido e já pouco existiam aqueles risos fantásticos que tinham a capacidade de contagiá-lo cada vez que colocava os pés na soleira da porta. Era tudo tão estranhamente silencioso que por diversas vezes se pegara perguntando se aquele era mesmo o seu lar.
Seus olhos observavam as fotos do álbum, deslizando a ponta do indicador sobre algumas faces.
Não gostava de pensar naquilo, mas desde a morte de Kyoko tudo era triste.
Em pensar nos dias perdidos enquanto estava preso em missões, no passo-a-passo da caminhada de Ino do qual simplesmente não participara. Primeiras palavras, sorrisos, fraldas. Tão ocupado com problemas maiores e apenas fizera parte de uma ínfima parte. Parte.
"Não seja bobo, querido." Kyoko dizia, enquanto o abraçava nas noites em que ficava em casa. Ela acariciava seu peito com aqueles dedos pequeninos e suaves. "Você é um pai maravilhoso e se preocupa com Ino mais que tudo no mundo."
Ele sempre sorria, sem jamais se convencer daquilo.
"Não se atormente. Você terá sua chance de provar isso." E Kyoko dormia, suavemente.
Talvez eu preferisse não ter.
De repente, ele foi se sentindo apagar devagar e então tudo escureceu.
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Quando Shikamaru se foi, Ino permaneceu deitada sobre a grama.
Ela pensou que os papéis se invertiam, ironicamente. Mas Shikamaru tinha uma missão dali a pouco e era obrigado a abandonar sua interessantíssima atividade. Saiu resmungando "problemático, problemático" sem que fosse possível disfarçar seu descontentamento.
Sentia falta dele. De maneira que nem ela sabia, sentia falta. Do fundo do seu coração, sentia falta. E aquilo era tão patético que jamais se atreveria a falar em voz alta.
Os cabelos espalhados sobre a grama, os olhos voltados para o céu, as nuvens mexiam-se devagar ao ritmo do vento. O sibilar baixinho cantava em seus ouvidos, enquanto trazia fios de cabelo para frente dos seus olhos. O vento ia e vinha sem que se pudesse distinguir seu trajeto.
As lembranças pipocavam em sua cabeça, pedindo para serem recordadas – mais uma vez.
Ela ouviu passos, que tornaram a afastar seus pensamentos para longe. Engolindo o suspiro de satisfação, ergueu-se para ver quem chegava. Talvez Shikamaru...?
Quem é...? Suas sobrancelhas franziram.
"Ahh." Murmurou em entendimento.
Sabaku no Gaara, pensou consigo.
Os cabelos vermelhos, o olhar distante. Havia uma expressão de indiferença e desapego, o negrume estampado em seus orbes. Era uma criatura solitária, impassível e apática.
Ele apenas sentou-se e ficou lá.
Não sorriu, não a olhou. Seu maxilar mexeu apenas uma vez, abrindo uma pequena brecha entre os lábios para sugar o ar.
Os minutos iam passando devagar, escorrendo. A brisa movia a grama e a superfície do lago logo adiante. As águas tranqüilas pareciam adormecidas, como um animal em hibernação. Tampouco o vento ou o sol ou qualquer coisa poderia despertá-las.
Para Ino, tudo era irrelevante. A beleza do lugar ou mesmo os seus pensamentos, ambos eram inúteis. Ao menos naquele dia, queria silêncio.
Brincava com a grama entre seus dedos, assim como ia jogando suas memórias para um lugar distante dentro dela.
Mamãe! Mamãe...!, ela se ouvia anos atrás. Sua voz parecia irreconhecível em meio ao zumbido na sua cabeça.
"I can taste the sweetness of the past. Doko ni mo anata wa inai kedo, I'll be alright, me o tsubureba soko ni. Kawaranai ai o, I believe..." Kyoko cantava, enquanto acariciava seus cabelos loiros, na primeira das noites de Natal em que Inoshi não estivera presente.
"...Haru no hikari atsumetara hana sakasete. Natsu wa tsuki ukabu umi de mitsumete." Cantarolou baixinho a continuação da música.
"Por que papai não está?"
"Ele está numa missão muito importante. Quando voltar, vai trazer um presente maravilhoso para sua princesinha."
"Aki no kaze fuyu no yuki mo. Sono toiki de atatamete hoshii."
"O que é, mamãe? O que é?"
"Surpresa!" e Kyoko sorria, a tristeza em seus olhos.
"Four seasons with your love. Mou ichi dou." Ino fechou os olhos. "Negai dake no yakusoku wa. Toki ga tateba iroaseru... Anna ni kasaneta omoi nara. We'll be alright. Shinjite ireba sou. Donna tookute mo..." ela parou quando percebeu que aquela música era estúpida.
Sentimentos, desejos, o que era aquilo tudo? Se pudesse pedir qualquer coisa, apenas pediria pela sua mãe. Por que seus pedidos não foram atendidos?
"...Stay with me." Ino ainda podia escutar sua mãe cantando em seus sonhos.
A mágoa invadiu seus olhos. "Você não ficou comigo, mamãe." Sussurrou, amargamente.
"Às vezes, as pessoas não podem."
Subitamente, ela voltou-se para Sabaku no Gaara. "O que está dizendo?" Ino estreitou os olhos.
Ele observou-a, perscrutador. Não havia qualquer coisa em seus olhos. "Ela simplesmente não pôde." E Gaara arqueou os ombros, como se estivesse falando consigo mesmo. "Então ela se foi..." Voltou o rosto para o lago.
O vento sacudiu as folhas da árvore, arrancando algumas de seus galhos.
A superfície da água ficou salpicada com o verde das folhas, até que uma caiu suavemente entre os dois.
Ino se foi, sem saber que Gaara falava da própria mãe.
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Temari caminhava para lá e para cá, as mãos na cintura, furiosa.
"Onde diabos se enfiou o Gaara?" esbravejou, gritando na cara de um dos chuunins que ficaram encarregados da proteção do Kazekage.
"Sinto muito, Temari-sama." O ninja encolheu-se. "Ele sumiu de repente em meio a uma tempestade de areia."
"Aquele estúpido!" Bateu com o punho sobre a mesa.
Suspirou.
"Oi Temari."
Ela voltou-se para a porta e viu Shikamaru. Então, sorriu.
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"Ino!"
Quando viu, estava cara-a-cara com Tsunade.
"Hokage-sama?" Ela mostrou-se surpresa.
"Ino, venha comigo, por favor."
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Sakura baixou os olhos, mordendo o lábio.
"Sasuke-kun, eu..."
"Tudo bem." Sasuke arqueou os ombros. "Você está realmente decidida a manter essa estúpida promessa com a Yamanaka?"
Era Ino ou Sasuke, para sempre.
"Não." Maneou a cabeça, sem saber o que pensar.
"Ótimo." Sasuke deu um daqueles seus sorrisos arrasadores, erguendo o rosto dela com a ponta dos dedos, de uma maneira suave que Sakura jamais pôde imaginar.
Ela fechou os olhos, deixando-se levar.
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"Seu pai teve uma isquemia cerebral, Ino."
Não havia mais ninguém além dela e Tsunade no quarto.
Na cama, coberto por lençóis brancos, estava Inoshi, inconsciente. O quarto cheirava aquele cheiro característico dos hospitais, impecavelmente limpo.
Ino não respondeu.
" A isquemia cerebral é o bloqueio da circulação em artérias que fornecem sangue ao encéfalo." Explicou Tsunade, lentamente. "Integridade orgânica e funcional do encéfalo depende do afluxo contínuo de sangue arterial. Isto significa que a produção de energia necessária para a manutenção dessa integridade é feita à custa do suprimento ininterrupto de oxigênio e glicose, distribuídos aos neurônios pelo sangue arterial. Está me entendendo?"
Silêncio.
"Como conseqüência da deficiente nutrição e oxigenação dos neurônios, estas células perdem a capacidade de regular eficientemente o ambiente intracelular, libertando para o meio extracelular grandes quantidades de substâncias químicas excitatórias." Tsunade pegou a ficha dele, os olhos baixos.
O barulho do aparelho respiratório ia cortando o mórbido silêncio, a cada segundo. Mas, ainda assim, a voz de Ino negava-se a sair e ela não tinha certeza se realmente queria falar alguma coisa.
Tsunade riscava e riscava naquela folha, os dedos espalmados na planilha. "Estas substâncias tornam-se tóxicas quando presentes em grandes quantidades, induzindo a morte de neurônios nessa zona cerebral, fazendo com que o sangue pare de fluir naquela parte."
Silêncio.
O silêncio era tão estranho.
"Afetou uma grande parte do seu cérebro, Ino. Ele está em coma."
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"I-Ino, eu...eu estou namorando o Sasuke-kun."
Não há mais nada pra mim aqui, foi a única coisa que ela foi capaz de pensar em meio ao seu mundo desabado.
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N/A: Gente, aqui um capitulo paralelo para explicar mais ou menos a história que se passou antes de Ino ir para a Vila da Areia. Talvez apareçam mais dessas cenas, para ajudá-los a se introduzir melhor no universo dos personagens. Vou tentar postar esses caps – se houverem - sempre contíguos ao próximo da história.
A música cantada por Kyoko e posteriormente por Ino é Four Seasons, cantada por Naomi Amuro. Uma tradução livre dos que foi cantado, para quem ficou curioso:
Eu posso provar a doçura do passado / Apesar de você não esta em qualquer lugar / Eu estarei bem / Se fechar meus olhos para isso / O amor não mudará / Eu acredito nisso - Quando a luz da primavera aquece, as flores desabrocham / No verão, eu olho para a lua flutuando no mar / O vento do outono, e a neve da primavera / Com esse suspiro, eu desejo ser aquecido / Quatro estações com o seu amor / Mais uma vez. - A promessa daquele único desejo / Vai sumindo enquanto o tempo passa / Se esses sentimentos voltarem / Nós estaremos bem / Não importa o quão longe você está / Fique comigo.
