Capítulo Oito: E você pode sentir o amor esta noite?

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Gaara olhou para as próprias mãos.

Sentado sobre o telhado, ele pensava sobre o que fazer. Tsunade – estranhamente - concordara com o seu pedido (concordara não era bem a palavra certa, apenas não mostrara oposição). Ela bateu palmas, estalou a língua, os dedos também. Caras e bocas enquanto ia falando, como se estivesse cantando uma música que só ela mesma sabia o compasso.

A fama de demente da Hokage se alastrava por outras vilas, apesar do seu reconhecido conhecimento médico, e ele precisava concordar com as más línguas. Tsunade era realmente uma pessoa...digamos, excêntrica.

"Você a ama?" Ela perguntou.

Silêncio. Ele fora incapaz de responder.

"Eu não posso proibir Ino de partir." Tsunade falou, depois de algum tempo. "Você não precisa reclamar a posse dela a mim. Ela está livre para ir e vir, meu caro. A quem você tem que pedir para permanecer em Suna, é a ela."

Mas agora Gaara pensava: para quê, afinal? Coisas como os sorrisos dela e o balançar dos seus cabelos rondavam sua mente, mesmo quando estava longe. O cheiro havia impregnado seu quarto, sua cama, seus lençóis. Todas as manhãs, acordava com a sensação de estar dormindo num jardim de uma flor só.

A pergunta de Tsunade matutava em sua cabeça. O amor era algo que Gaara enxergava apenas em Ino. Ela era a única forma de amor na qual ele conseguia pensar e ainda assim sem um grande afinco.

Se ele pedisse, pela segunda vez, para que ela permanecesse ao seu lado, seria então sinal de que a amava?

Amar é permanecer?, indagou-se, erguendo os olhos para observar o céu nublado.

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"Amanhã, no Ichiraku." Ia dizendo Tenten, quando já estava fechando o portão. "Não falte."

Ino acenou concordando, mas não sabia se poderia – ou queria – ir. Tinha outros planos em mente. E, tanto por eles como pela falta de sociabilidade de Gaara, o Ichiraku seria um dos poucos lugares que não visitaria na sua curta estada em Konoha.

Porém, pensou ela enquanto observava as meninas se afastarem, seria divertido rever o resto do pessoal. Queria saber de Shikamaru, de Chouji, de Asuma-sensei, até mesmo de Naruto.

Será que ele continua o mesmo idiota de antes? Deu uma risadinha.

Um trovão cortou o silêncio, assustando-a. A noite caía, mas não havia serenidade no céu. Viria chuva e Gaara estava fora.

Àquela constatação, ele voltou aos seus pensamentos. Empolgada com a conversa, contando e ouvindo fofocas e novidades de Konoha, havia esquecido da presença de Gaara – ou da falta dela. Ele já estava fora há horas e, se isso não a havia deixado preocupada antes, deixava agora.

Quando entrou, fechou a porta atrás de si, mas não passou a chave. Encaminhou-se para o sofá da sala, atirando-se nele.

Com o excesso de movimentação, o acumulo de pó dançou pelo ar.

"Preciso limpar isso." Resmungou, abanando a mão. Mas depois, concluiu em pensamentos.

Por duas horas, observando o céu pela janela da sala, Ino esperou que Gaara voltasse. Mas ele não voltou.

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"A Ino estava diferente, né?" Tenten e Hinata tomavam chá, na casa desta última.

Sentadas sobre o tatami, olhavam o treinamento de Neji no jardim, o shoji aberto. O suor escorria pela testa dele, perdendo-se em meio aos fios de cabelo, mas não era o bastante para que tirasse sua concentração.

De quando em quando, ele lançava olhares rápidos na direção de ambas, como se dissesse "A conversa de vocês me atrapalha. Saiam", coisa que tanto Tenten quanto Hinata haviam decidido ignorar. E, vendo que elas realmente não tinham intenção de deixá-lo só, ele, silencioso, continuava a executar seus exercícios habituais.

"Diferente como, Tenten-chan?" Tímida, Hinata levava a xícara à altura dos lábios, assoprando-a.

"Sei lá." Gesticulando, a morena tomou outro gole do seu chá. "Sempre achei que a Suna fosse uma porcaria. Não gosto de calor. Mas daí a Ino, que é mais fresca do que eu, vem de lá cheia de novidades, como se fosse a oitava maravilha do mundo. É de se estranhar, não?"

"Não."

Diante da calma de Hinata, Tenten ergueu as sobrancelhas. "Não?"

E Hinata negou.

"A I-ino" começou ela, brincando com os dedos. "falou tantas vezes de uma certa pessoa e com tanto carinho. Eu acho, Tenten-chan, que a Ino-chan está apaixonada."

"Apaixonada!?"

"Pelo Gaara-sama."

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O chuvisco batendo na janela despertou-a. As nuvens enegreciam o céu e a sala estava escura.

"Hmm." Ino gemeu, coçando a cabeça.

Ela ergueu-se, bocejando. Tudo estava silencioso. Gaara ainda não deve ter voltado, mordeu os lábios.

"Ino." E Ino deu um grito.

"Ai-Deus!" Reconheceu Gaara escorado no umbral da porta do corredor, as roupas molhadas e os cabelos pingando. Ela não reparou de imediato no seu estado. Bateu os braços ao lado do corpo, furiosa e com as sobrancelhas franzidas. "Não me assuste desse jeito!" Exclamou.

Ele sequer se mexeu.

Ino tateou a parede perto do sofá a procura do interruptor e acendeu a luz.

"Onde você es-O que houve?" Seus olhos estavam fixos nas vestes dele, uma pequena poça d'água se acumulando aos seus pés. "Por que pegou chuva?" E postou a mão ao lado da cintura, aborrecida. "As tempestades aqui são mais frias que as da Suna, Gaara. Você pode ficar doente."

Gaara torceu o nariz, como se não tivesse gostado da constatação.

Dando as costas para a loira, seguiu na direção do banheiro, tirando a camiseta. A pele era de um branco leitoso, não havendo cicatrizes ou sinais de nascença. Ino podia notar com precisão os músculos nas costas e nos braços dele.

"Gaara!" Chamou-o, num tom cantado. Seguindo-o pelo corredor, ela arrancou a camiseta da mão dele antes que fosse parar no chão. Ao rápido contato de suas mãos, notou a frieza da pele de Gaara. "Você está gelado!" Exclamou ela, espalmando os dedos quentes sobre as costas dele.

Gaara tremeu, parando de andar. "Não faça isso, Ino!" Trincou os dentes.

"Por quê?" Ela deixou que a camiseta caísse sobre o carpete do corredor, abraçando-o completamente. "Você está tão gelado." Murmurou, esfregando a bochecha no ombro dele.

Como se acometida por um choque térmico, a frieza da pele de Gaara foi se desfazendo, derretendo e ele constatou, com insatisfação, que seu corpo começava a ficar aquecido.

Fechou os olhos, irritado.

"Solte-me." Em vão.

Os orbes verdes abriram-se de súbito ao sentir os lábios dela sobre a dobra do seu pescoço, numa carícia.

"Ino, não faça." Segurando as mãos pequeninas, afastou-as de si.

Gaara tornou a andar em direção ao quarto, os pingos d'água que caíam dos seus cabelos batiam nas costas quentes, frios como atavios de gelo.

A chuva balançava as árvores e batia com força contra o vidro da janela.

Quando parou em frente à porta do quarto dela, apoiou a mão no batente, passando a outra pela cabeça, bagunçando os fios ruivos. O gesto fez com que água voasse pelo ar, respingando a porta. Ele observava a decoração azul, os ursos de pelúcia jogados no chão e a cama desarrumada.

Havia fotos sobre a escrivaninha, canetas coloridas e bibelôs. O abajur era de porcelana, posto sobre uma toalha bordada em tricô. Os babados da cortina batiam no chão.

Esse é o quarto da Ino, pensou.

Suspirou.

"Gaara." Ela chamou ao lado do seu ouvido num sussurro, docemente.

Ele observou-a com o canto de olho.

"Você tem medo do que eu faço com o seu coração?" Ino sorriu.

"Não." Respondeu Gaara, simplesmente.

"Vira pra cá."

Ele olhou-a.

Ino levou as mãos às alças do vestido, deixando-o deslizar pelo seu corpo e Gaara, surpreso, encarou a nudez dela, os olhos percorrendo a suavidade dos braços, da cintura e das pernas, as pintas pela barriga, ao lado do ombro, na coxa e no pescoço. Era uma nudez diferente da que vira pela primeira vez.

A pele rosada parecia macia – contrastava perfeitamente com a camisola que ela usava no dia em que seu cheiro de flores do campo passara a persegui-lo.

Ele não negou a vontade de tocá-la.

"Toca." Disse Ino, notando a expressão do rosto dele.

Gaara ergueu os olhos para ela.

"Você está me provocando?" perguntou, sério.

Ino deu um sorriso desdenhoso.

"Você não sabe o que é fazer amor, Gaara?" Aproximou-se do corpo dele, suavemente. "Não sabe o que é querer tocar em alguém?" Sussurrou, acariciando seu peito, arranhando-o com a unha. "O que é sentir seu corpo tremer e ter vontade de..." Ela agarrou a mão dele, levando-a até o seu seio direito. Os dedos de Gaara automaticamente fecharam-se sobre ele. "gritar?" Deu um pequeno sorriso.

Levando a mão até sua cintura, Gaara puxou o corpo dela contra o seu, de maneira que os seios rosados ficaram espremidos contra seu peito. Ino arrepiou-se ao sentir o gelado da água que ainda havia sobre a pele dele.

Segurando a nuca dela, sentindo o cabelo dourado roçar em seus dedos, ele baixou o rosto até ficar a centímetros da boca vermelha, encarando-a. "É agarrar você desse jeito?" Apanhando as madeixas, puxou a cabeça dela para trás, deixando-a de lábios entreabertos. "É apertar a sua pele?" Os dedos dele, que seguravam sua cintura, apertaram-na mais fortes. "É isso que você chama de sentir seu corpo tremer?" Indagou, ao vê-la fechar os olhos.

Ele sentia o cheiro dela e enxergava seus cílios loiros com perfeição.

"Gaara," Ino murmurou, dando um sorriso. "meu corpo sempre treme perto do seu. Eu estou toda arrepiada." Disse, abrindo os olhos suavemente. "Me beija. Eu te amo."

Você a ama?

Gaara puxou-a para si com uma urgência que deixou até ele mesmo surpreso.

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Quando a manhã veio, Ino acordou sozinha na cama.

"Droga, Gaara." Soltou um muxoxo, encolhendo-se embaixo das cobertas, o corpo nu. "Você não podia ao menos esperar eu acordar para resolver sair por aí?" Perguntou, mesmo sabendo que ele não escutaria.

Ino suspirou, recordando-se dos beijos dele, e seus olhos fecharam-se.

Hmm. Você é tão-tão-tão gostoso, pensou, dando uma risadinha.

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Daquela vez, Tsunade assustou-se quando se deparou com Gaara parado ao lado da sua mesa.

"Diabos!" Jogou seu copo de saquê para o alto, sem perceber, e o barulho de vidro quebrando encheu o ar, depois do silêncio que se seguiu ao grito dela.

Respingos de saquê molharam a calça dele.

Tsunade respirou fundo, levando a mão ao coração. "Você quer me matar de susto, garoto?"

"O que é amar alguém?" Os olhos de Gaara estavam sérios.

Ela piscou, como se não tivesse entendido a pergunta.

"É querer tocar alguém? É sentir seu corpo tremer e ter vontade de gritar?" Repetiu as palavras de Ino, lembrando a sensação que os dedos dela lhe traziam ao deslizar pelo seu peito. "É agarrá-la e apertar sua pele? É ouvir os gemidos dela no seu ouvido?"

"Opa, opa. Espera aí, mocinho." Tsunade deu um sorriso malicioso, balançando o braço. "Isso não é apenas amar alguém, isso é fazer amor."

Ele encarou-a, esperando a resposta.

"Amar uma pessoa é tudo isso que você disse, mas não isso. É querer estar perto e abraçar, beijar, cuidar. É se preocupar e mimar, é sorrir, é sentir saudade e é ficar bravo também. É chorar de ciúme e dar cartas. É levar tabefes por ter olhado para a fulana. É pedir perdão e saber perdoar-"

"Você diz que isso é amor?" Ele interrompeu-a, arqueando as sobrancelhas. "Isso mais parece um sentimento horrível."

Tsunade riu.

"Gaara, pensa na Ino. Pensou?" Gaara confirmou. "Pois bem. Você não tem vontade de ficar perto dela? Você, mesmo que só às vezes, não gosta de sentir a boca dela na sua? Você não fica aborrecido quando ela te atrapalha, mas mais ainda quando ela vai embora? Você não se irrita com a maneira espalhafatosa dela e briga com ela e logo depois ela vem te fazendo carinho e você logo muda de opinião?"

Silêncio.

Os olhos da Hokage o observavam analiticamente e ela sorriu. "Pela expressão do seu rosto, eu estou certa. Meu bem, amar é tudo isso que eu te falei e muito mais."

Tsunade suspirou, voltando o rosto para a janela, sonhadora.

"Quando eu era jovem-" começou, virando-se para ele. Mas Gaara não estava mais lá. "Ué. Se foi."

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"Ino."

Eram dez horas da manhã quando ela sentiu os dedos de Gaara no seu cabelo.

"Que foi?" Indagou, sonolenta.

"Eu te amo." E ela tornou a pegar no sono.

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N/A: Buenas, reta final. Acredito que esse tenha sido o penúltimo capítulo. Não me matem, mas dessa vez não teve hentai, gente huauhauha. É que achei que um hentai não comportava ao ritmo da história. Posto hoje, como presente de Natal. E espero que tenha correspondido às expectativas, pois foi maravilhoso escrever essa história. Empaquei muito no cap, mas aqui está! Fresquinho pra vocês n.n

Respondendo a uma pergunta: reclamar a Ino, significa...não sei explicar xD É como se fosse pedir a mão dela ao responsável, entende? É como pedir para ser responsável por ela. E a outra pergunta: Me formo esse ano sim, aliás, já me formei! Minha cerimônia de formatura é em janeiro. Estão todos convidados n.n

Galera, obrigada por estarem acompanhando. Brigada pelas reveiws e continuem dando aquele go ali embaixo xD