Tudo o que vejo flutua com o vento
- Todos os milagres da água
São milagres jamais vistos
De algum modo a minha vida começa agora
- Essa música que tem sido tocada ao longo do tempo
Agora começa a chegar aos meus pés
É como a inundação de tudo aquilo que preciso
- A partir da harmonia da eternidade
soam as melodias do mar
E você saberá que estou a caminho
- Estou voltando para meus inimigos
Estou retornando
Simplesmente estarei voltando aos meus últimos dias
Estou regressando ao mar!
Então...por que você não vem comigo, meu amigo?
Emoções...como as que já sentimos antes
A esperança...jamais revelando o mesmo
Para um homem solitário
Desde o dia em que deixamos a terra
Temos estado ansiosos pela chegada
O Capitão continuava mostrando seus planos:
"Sob as velas nós iremos!"
No azul profundo do oceano eu vejo
A minha alma refletida
Conosco nós temos um convidado especial
E a ele fazemos um brinde
Carolina IV levou um rio para o céu
Sete homens participando a bordo
Para levar seus corações ao redor
A o redor de todo o mundo!
Tudo o que lembro daquele dia
Naquele dia exato
Todas as mãos erguidas contra a névoa
Enquanto tentávamos voltar
Carolina IV levou o rio para o céu
Um homem a menos a bordo – os sonhos dos homens
Às vezes custam suas vidas
Suas vidas inteiras sonhando
Eu fui tão tolo
Eu tive tanto medo
Do meu coração eu lhe digo
- Eu estou aqui para ficar
Quase nada restou do barco
Muitos anos vieram e se foram
Ainda assim, não consigo esquecer o passado
E aqueles que deixei em casa
Carolina IV levou o rio para o céu
Noites de barulhenta ventania
Me fizeram velejar entrando no olho do vento
Agora vou morrer cantando:
Eu fui tão tolo
Eu tive tanto medo
Do meu coração eu digo:
- Eu estou aqui para ficar
VII
LAR
Quando fechei a porta atrás de mim, percebi o quanto as coisas...a vida...muda de repente. Assim, de uma hora pra outra...É tudo tão estranho e, ao mesmo tempo, tão comum. Tudo muda, a todo instante, e nem percebemos isso.
Andava pelo parque da Fundação, pensando em toda aquela discussão e me perguntando como aquela ruivinha sabe tanto sobre nós enquanto tentamos desvendar esses segredos que a rondam. É... ela deve ter motivos para seus mistérios, assim como todos nós...
Definitivamente não é só ela que tem mistérios, quase falei isso em voz alta...
Ao longe, a vi. Sentada em um dos muitos bancos por ali espalhados, não me viu aproximar. Observando-a, admirando-a, maravilhado por tão belo ser vivo... Parecia-me uma deusa ou rainha solitária, ou ainda, criança a procura de algo perdido... Seus olhos eram da exata cor da madeira que me lembro ter visto nas poucas florestas da Sibéria e eles expressavam a mesma força daquelas árvores que, mesmo no pior inverno sobrevivem, que caem e se erguem novamente, mesmo que demorem anos para tal coisa. Olhando-a assim percebo que ela espera por algo, não sei o que... Talvez espere pela força que a fará crescer novamente ou por aquele que a liberte da prisão de sua própria vida. Engraçado, tenho a leve impressão de que ela já o encontrou e, infelizmente (ou felizmente, ainda não sei ao certo), essa pessoa não sou...
Um suspiro longo e profundo chega a meus ouvidos, como se ela lê-se meus pensamentos, porém, sei que não o fez... as coincidências da vida as vezes são inexplicáveis, não? Sentei-me ao seu lado e, durante longo tempo, a contemplei estonteado. Minha mente voava em todas as direções, não apenas para ela eram os meus pensamentos, mas sim, minha vida toda começou a ser passada a limpo enquanto os cabelos daquela encantadora mulher dançavam ao som do vento daquele final de tarde.
Olhando atentamente as cores do céu, lembrei-me de repente da última aurora boreal que lembro ter visto. Estava excepcionalmente frio naquele dia, mas o céu estava dando um verdadeiro espetáculo de luz. Eu e Hiyoga fomos até um lugar mais alto depois do treinamento, para que pudéssemos presenciar aquele fenômeno divino. Recordo-me desse dia com pesar, foi a última vez que nos falamos, tentava convencê-lo que não era pela sua família apenas que precisava lutar, mas por algo maior. Ele precisava pensar como eu naquele instante, pensar em proteger aquilo que estávamos vendo naquele momento: a vida, a natureza, o mundo... Não adiantou.
Hoje eu penso que fiz minha parte corretamente, pois agora vi que ele mudou. Agora, podemos voltar a sermos os grandes amigos de antigamente...ah, quantas coisas já não aprontamos juntos? E em cada uma das vezes ele se lembrava sorrindo da irmã mais nova. Tinha a certeza que ela havia morrido como sua mãe, então, por vezes, nós passávamos noites em claro. Ele, por conta dos pesadelos e eu pra tentar animá-lo um pouco. Quantas vezes não tomei bronca de Kristal por estar quase dormindo no treinamento? Hiyoga se sentia um pouco culpado, mas eu sempre dizia que amigo era pra essas coisas.
Acredito que Hiyoga sentia medo de me dizer que apenas lutava pela sua mãe e irmã e não por uma causa menos egoísta, sabia que eu iria ficar muito nervoso e chateado. Na época, depois do acidente, não consegui enxergar esse lado mais amigo dele, de querer fazer eu acreditar que ele não era egoísta como eu pensava que fosse, mas hoje - literalmente hoje - eu percebi o quanto esse meu grande amigo me fez falta... e outros, além dele...
Preciso parar esse meu louco devaneio, está indo longe demais, não é hora para lembrar-me de tantas coisas, assim, tudo de uma vez, faria com que eu ficasse mais pirado do que já sou...
Volto para a realidade, volto a perceber que ela, a princesa, se encontra na minha frente. E, ao olhá-la novamente, posso perceber que ela sorri, um meio sorriso na verdade... ela olha para algo ou alguém, não sei ao certo. Só aí é que vou olhar na direção em que também olhavas e então, me pego a sorrir também! Hiyoga abraça com força o anjo ruivo que lhe mostrara a verdade e Gabrielle chorava no ombro do grande amigo que ganhara. Hum, será que...
- Hi...
É o que escuto de Bianca naquele instante: uma pequena risada que me fez gargalhar alto! Pela primeira vez em toda aquela troca de olhares e pensamentos que eu sabia que ela escutava, pela primeira vez em toda aquela conversa que não necessitou de palavras, nos olhamos diretamente e, cara, foi ótimo os dois com "aquele" sorriso cínico ao mesmo tempo!!!
Nos levantamos as pressas ao perceber que nosso casalzinho já tinha "pulado fora", andávamos tranqüilamente, sem deixar de sorrir, um ao lado do outro. Como se conversássemos sem falar absolutamente nada e como se nos conhecêssemos há tempos! Já era noite, nem tínhamos prestado atenção a isso, todos já estavam lá dentro e entramos pelas portas da Fundação.
Acreditem: o Isaac filósofo ficou pra trás, conheçam agora o Isaac MALUCO!!!!!
Pois bem, e não é que quando entramos demos de cara com o casal vinte: Hyoga e Gabi, sentados no sofá?! Só que...
- Então, Hyoga...lembra daquela vez...
A cena é assim descrita: Shiryu sentado no sofá ENTRE a Gabrielle e o Hyoga, conversando animadamente naquele seu temperamento gentil e pacifico. Não sei ao certo se ele é ingênuo demais ou de menos...Olhei para Bianca e questionei:
- Ele é sempre assim?
- Pior! (Bia)
E enquanto eu ficava tentando entender o que o chinês estava fazendo e quais as verdadeiras intenções dele (sim, porque ou ele era muito inteligente e já tinha sacado tudo ou então era muito, mas muito...pasmão!), Bianca foi até eles e... bem, como não podia deixar de ser...foi direto ao assunto!
- Shiryu o que você ta fazendo aqui?
Percebi o vermelho começar a subir pelo pescoço da Gabrielle e passar por todo o seu rosto até ficar quase da cor do cabelo, Hyoga então...tive que segurar uma risada, não sabia onde enfiar a cara! Claro que os dois haviam percebido claramente as intenções da moça...mas o Shiryu...alguém precisa ensinar umas coisas pra ele!
- Então, Shiryu...será que você não...er...como dizer?...
E ela gesticulava e gesticulava, parecia até que estava engasgada com alguma coisa e eu tive que ajudar...sim, sim...sem dúvida foi mais forte que eu:
- ...SE TOCA?!
Meu amigo, o que eu fiz? A Gabi foi se afundando no sofá aos poucos e eu pude sentir como o cavaleiro de Cisne melhorou em termos de 0 absoluto...mas o que mais me espanta...é que o Dragão simplesmente me olhava...e me olhava, com aquele jeito sábio, de quem entende exatamente o que esta acontecendo mas tem a incrível capacidade de fingir perfeitamente que não. Saca?
- Se toca do que Isaac? (Hiyoga)
Como eu pude esquecer que ele era tão cínico?
- Você sabe, Hiyoga, que eu também não tenho a mínima idéia do que eles estão falando? (Ikky)
Eu disse que o Hiyoga era cínico? Não, não é não! O Ikky é que é monstruoso! Eu já mencionei cruel?
- É...o que está acontecendo? (Shun)
- Ah, a gente tava aqui falando de como o Hiyoga é lerdo, tímido...
- Já falou cínico? (Bia)
- E lerdo.
- Eu diria devagar. (Bia)
- Lerdo e não se fala mais nisso!
Eu tava começando a me empolgar!
- Mas porque vocês estão falando isso? (Shun)
E o Seiya responde encostado numa pilastra atrás de nós:
- Só porque eles estavam ainda a pouco feito dois pombinhos no telhado... (Seiya)
Aquilo tava fervendo! Eu já tava vendo a hora da Gabi levantar dali e do Hiyoga congelar alguém, mas...Perái? De onde saiu todo mundo? Camuflagem? Não! Quem camufla é só o Shun...quer saber?! Eu não vou tentar entender! Eles são os Cavaleiros do Zodíaco, protetores de Athena!...Eles podem aparecer quando bem entenderem!
- Isaac, o que eu quero mesmo saber é o que você estava fazendo com a minha irmã lá fora? (Hiyoga)
Ele conseguiu me deixar totalmente sem resposta...e sem jeito também.
- Hâ...eu? Ah...bem...
- Hiyoga não tenta fugir que você sabe muito bem que uma coisa não tem nada a ver com a outra...(Ikky)
- É, Hiyoga, ele tem razão. Você nunca percebeu que o Ikky é que ta sempre defendendo a Bianca? Se eu fosse você, ficava de olho nele e não no Isaac...(Gabi)
Neste momento a atenção voltou-se para o burburinho da discussão...e a Bia, num acesso de "vamos embora daqui agora senão vai sujar pra mim" pegou o braço da Gabrielle e...escafedeu-se!
- Cala a boca! (Ikky)
- Ikky, como você é estúpido! Isso é jeito de falar com a Gabrielle? (Shun)
- Por falar em podre, Shun...onde é que você estava? (Seiya)
- Ah...eu...(Shun)
- Na casa da loira, eu aposto! (Ikky)
Hm? Eu não sabia que o Shun tinha uma namora...
- Ei, cadê as meninas? (Shiryu)
Ela abriu a porta sem muito barulho, pra não atrair a atenção de ninguém mesmo. Desde que Gabi chegou, esperou por um momento em que pudessem conversar sozinhas. Sabia de tudo, claro, e para ela doía entender que, devido à magia invocada no mar ao salvar Julien, Gabrielle jamais lembraria que um dia se conheceram. Gostaria, então, de recomeçar a amizade...Como da ultima vez.
- A patricinha me cedeu este quarto por enquanto, mas eu espero que consiga comprar ou alugar um apê logo...Não agüento essa coisa de ter hora pra acordar ou aquele bando de marmanjo me enchendo o saco!
- Como patricinha entendo que seja a Saori, é isso?
Fala Gabi com uma risada, observando alguns pertences no criado-mudo e a mala jogada em um canto, junto do capacete.
- Então, somos duas motociclistas?
- Pois é...
Bia dá um sorriso enigmático e cínico...sinto problemas vindo dessas duas.
- Se você quiser, já consegui alguns contatos na região...Podemos sair esta noite...
- Acho que hoje, não...estou exausta, vim de tão longe...
A morena percebe o rastro de tristeza que estas ultimas palavras causaram na ruiva...Não deve ter sido muito fácil aceitar este fardo, o fardo de defender a vida após atentar contra a própria. Bianca sentiu um aperto no peito, conhecia tão bem esta menina a sua frente...Sim, uma menina. Sabia do sofrimento que passara ao perder tudo, tudo o que amava de uma só vez. Imaginava a dor que sentira, e numa visão repentina pôde sentir o impacto...o impacto do chão sobre seu corpo em uma queda. Era isso o que aquela a sua frente fizera, e até hoje não entendia o porque. Gabrielle se adiantou e abriu as grandes janelas do quarto, fazendo balançar as cortinas e seus cabelos com a brisa da noite...cruzou os braços, tentando se proteger do frio...percebia sobre si a força do olhar de Bianca, a força de seus pensamentos e preocupações. Sua face, de frágil, delicada, meiga...de anjo que era Gabrielle, tudo isso...era só fachada.
- Eu não sei ao certo... por qual razão você quer esconder isso deles...
Bianca pensou não ter entendido. Na verdade, ela não queria entender...não podia estar acontecendo aquilo:
- ...mas eu respeito esta decisão, eu fiz a mesma coisa, não é?
Não...não era certo – ela pensava – como conseguiu quebrar a magia? O que ela sentia era tão forte assim? E agora? Será que ela também se lembrava de todos eles? Será que entendia o que estava acontecendo como ela – Bianca – também sabia? Num lapso egoísta e dolorido pensou em Kevin, ou melhor, em Julien...e sentiu seu corpo fraquejar...Mas ao ver Gabrielle se virar com os olhos mareados, a fitá-la com saudade e dor, não mais como criança, consegue compreender que o que pensava era supérfluo, o importante era estarem ali juntas agora...para se apoiarem, pois Gabrielle amadurecera forçadamente, assim como Bianca:
- Tenho certeza que é por um bom motivo que esta fazendo isso...Alexandra.
Lagrimas caem dos olhos das amigas. Gabi se pergunta interiormente como Bianca conseguiu segurar isto por todo este tempo, tudo o que passaram antes e ela já procurava pelo irmão. Bianca se encaminha para a janela, segurava os cabelos...pois o vento aumentara, a chuva logo chegaria. Que cena aquela! Duas amigas afogadas em suas próprias tristezas se reencontrando com a missão de reerguerem-se. Conseguiriam depois de tudo? A tempestade era o reflexo que vinha da alma da menina-mulher Alexandra...Bianca. Uma lágrima rola sozinha pela face da amazona de gelo na sacada, e Gabi toma sua mão:
- Me perdoa...eu abandonei você, não foi?
Bianca ouve estas palavras com profundo pesar, de alguma forma, dentro de seu coração, ela acha que foi o contrário. Aproxima-se mais da amiga na janela, sentindo o perfume da chuva:
- Eu devia ter contado, Bárbara...Que eu...
Gabrielle sorri, fazendo ela encostar sua cabeça em seu ombro. Mas no coração uma dor forte se instala ao escutar aquele nome novamente...SEU nome, como ninguém nunca jamais falara nos últimos anos:
- Você não precisava contar. Mesmo assim, hoje eu sei, que você nem podia...
Os cabelos se mesclam, soltos no vento da chuva... Raios cortavam o céu e elas admiravam a chegada das nuvens na escuridão. Estas irmãs em espírito, tão diferentes, tão semelhantes. Ambas com seus sofrimentos, suas mudanças, paixões, alegrias. Entendiam-se perfeitamente...nem precisavam de palavras. Abraçaram-se por fim, timidamente, sem demonstrar todo o sentimento preso...era provável que isso demorasse um pouco para acontecer. Mas elas também sabiam disso. E isto não as incomodava.
- Mas o que tanto ficaram conversando naquele telhado? Essa é a pergunta que não quer calar, eu to mais que curioso! (Seiya)
- Você é sempre curioso, Seiya! (Shun)
- Ah, cala a boca, Shun! (Seiya)
- Ei, vocês, tenham mais respeito com a Srta. (Tatsume)
- Eles parecem duas crianças... (Shiryu)
A mesa já estava posta e todos estávamos apenas aguardando as donzelas descerem para que o jantar fosse servido. Acabei por conhecer a Srta. Kido – famosa Athena – e fiquei encantado com sua delicadeza...Entendendo o porque de tanta irritação por parte da Bianca ou Ikky com relação a ela, pois tudo nela era muito apático. Ela sorria neste momento, aparentemente gostava muito de ver seus cavaleiros, não, mais que isso, seus amigos conversando tão alegremente e em paz. Pra ser honesto, eu também me sentia muito bem ali, daquela maneira. Eu conseguia, naquele momento, ter uma noção do que seria...um lar.
- O que eu gostaria mesmo de saber, Hiyoga, é se ela esta melhor.
Polidamente, Saori consegue tirar dele tudo o que gostaríamos de ouvir. Ela é esperta, pelo menos!
- Sim, Saori, acredito que sim...Pude pedir desculpas a ela e entender um pouco mais do que aconteceu com os p...
- É por isso que esta chovendo! (Ikky)
- Concordo!
Eu e o Ikky JAMAIS iríamos perder uma oportunidade como essa, mas nunca MESMO! Hyoga já fechou a cara, fazendo um bico digno de fotografia! Os outros ficaram meio na interrogação:
- Claro, para o Hiyoga pedir desculpas a alguém? Srta. Saori, é melhor avisar os empregados, pois eles terão trabalho...esta chuva não vai parar hoje!
Todos riam, inclusive a anfitriã, principalmente porque a cara que ele fazia era deveras engraçada! Ao seu lado, quase tomei uma cotovelada nas costelas, mas logo revidei dando-lhe um "soco" no ombro...desatei a rir, fazendo Hyoga rir também!
- Tinha me esquecido do quanto você é panaca, Isaac!
- São seus olhos, lorão!
Todos gargalham diante do apelido, e Hiyoga também ri da situação, provavelmente lembrando dos tempos da Sibéria. Ele balança a cabeça em negativa, e tenta continuar a história, para que não fique tão ruim para o seu lado:
- O fato, é que me surpreendi com o que ela me contou. (Hiyoga)
- Sobre a reencarnação de Niké? (Saori)
- Não... (Hiyoga)
Ele se torna sério de repente...posso perceber a preocupação em seu rosto, era muito mais que isso:
- Srta. Saori, a Gabrielle é uma amazona de Zeus. (Hyoga)
- Como?! (todos)
Fiquei espantado, nunca iria imaginar que aquela tristeza que a rondava era por conta disso.
- Houve um momento em que meu mestre comentou sobre estes cavaleiros, mas jamais pensei que eles realmente existissem. (Shiryu)
- Kristal nos contou certa vez, não é, Hiyoga? As amazonas de Zeus não usam mascaras reais porque a mascara esta na alma delas...
- Que triste...(Shun)
- Mais que isso, Shun...Preocupa-me o fato de uma amazona de meu pai estar presente na Terra e, em especial, conosco.
- Será que teremos alguma batalha em breve, Saori? (Seiya)
- Pode não ser isso, Athena. Meu mestre disse uma vez que esses guerreiros são como guardiões, como verdadeiros protetores da vida humana. Eles cercam e contêm aqueles que desejam a morte, para que ocorra o equilíbrio na Terra. (Shiryu)
- Mas acredito que ninguém saiba quem são eles, não?
Todos ficamos em silencio ao ouvir aquela pergunta. Com certeza, a amazona dos céus havia dito isso a Hiyoga...uma angustia se apoderou de mim, uma sensação ruim...pois meu amigo estava com uma expressão muito dolorida ao falar isso:
- Estes guerreiros que protegem a vida...são todos suicidas.
O ar parecia parado ao nosso redor, de repente, eu me senti enjoado...
- São verdadeiros anjos que, em uma nova chance, tem que trazer a felicidade àqueles que, como eles, desistiram de tudo. É a forma que encontraram para se redimir.
- Isso quer dizer que... (Shun)
- Algum de nós pensou em... (Seiya)
- Ou alguns. (Ikky)
Nos olhamos apenas por um instante. Todos nós, em nossos corações tentando assimilar a idéia de que, em algum momento da vida, desejamos a morte, desejamos a paz eterna...o descanso merecido após tanto sofrimento.
- A Gabrielle é uma dessas amazonas sem mascaras, um desses guerreiros solitários, um anjo que veio em boa hora...pra mostrar sentido na nossa união. (Hiyoga)
- Mostrar o valor que isso tem. (Shun)
- Mas...o que me intriga é que, se todos no Olimpo são suicidas isto quer dizer que a Gabrielle também...
Eu mal consegui pensar no que o Seiya terminara de falar. Respirei tão fundo e parecia que o ar não vinha. Não entendia porque aquela menina, aquela meiga garota...
- Bem, pelo visto vou ter que esclarecer algumas coisas...
Mal havíamos sentido seu cosmo se aproximar...já estava nos últimos lances da escada e sorria. Um sorriso que fez dissipar a névoa da conversa em muitos ali, mas que, em mim, só fez piorar...naquele sorriso eu podia ver...podia ver além da máscara. Hiyoga estava hipnotizado, ela estava com um leve vestido que a fazia parecer a própria primavera...e ignorando onde estava – o centro da Fundação Graad – caminhava até nós descalça. E continuou sua fala:
- Sim, atentei contra minha própria vida. Joguei com ela...e ganhei.
Deu a volta no sofá, ninguém desgrudava os olhos do anjo, em especial o amigo ao meu lado:
- ...o que nos leva à outro problema, e o respondo já: sim, eu morri.
Não havia ar na sala, tudo era atenção...voltada à Gabrielle:
- Ou seja: sim, sou uma amazona de Zeus, sem máscaras...solitária...mas não...
Ela sentou-se em uma poltrona gentilmente cedida por Tatsume e sorriu num misto de malicia e cinismo a todos nós, demoradamente fitando Hyoga no ultimo instante:
- ...ah, não...eu não tenho nada de anjo.
Percebi Ikky dando um sorriso também cínico a estas ultimas palavras enquanto todos os outros riam-se e Hiyoga parecia tentar esconder o quanto ficou abalado com aquele olhar. Dei um cutucão nele, que ficou a disfarçar um instante...e então cochichei:
- Não me parece que foi só disso que vocês conversaram lá em cima, Hiyoga...
- Não me enche, Isaac...
- Mas é verdade, lorão...até parece que só você não percebeu que...
- Isso é comigo, você não acha?
- Ora ora, num foi você quem falou pra ela que não ia mais ser egoísta? Vai fazer tudo sozinho de novo?
- Cala a boca, isso não tem nada a ver com egoísmo!
Dei risada...
- Sim, claro...só acho que você desaprendeu a ter um amigo, Hiyoga.
Ele virou o rosto para mim, tentando descobrir o que eu queria dizer com aquilo...um pouco surpreso, na verdade, enquanto eu sorria...e no calor da conversa não pude perceber o súbito silêncio...e na hora em que me dei conta do que estava acontecendo...não consegui conter um pensamento em voz alta:
- Minha nossa...
Era uma deusa descendo aquelas escadarias, só podia ser...Acredito que nenhum de nós pôde pensar em outra coisa! Perdi a percepção de todo o resto e só tinha olhos para aquela que vinha em nossa direção...e se Gabrielle era a primavera, Bianca só podia ser o verão...se a primeira era o anjo, aquele ser a nossa frente devia ter algo de demoníaco...E por todas as geleiras da Sibéria, eu daria tudo pra ir ao inferno se ela estivesse nele! Nada ao meu entorno era sentido, eu só tinha olhos para Bianca vestida com apenas um baby-doll preto e suficientemente sensual para deixar mesmo Shun ou Shiryu de queixo caído e completamente vermelhos. Gabi não conseguia segurar a risada por muito mais tempo e Hiyoga, tremendo não sei se de raiva, vergonha ou de perceber que sua irmã era muito mais que uma menininha, levantava-se lentamente para ir até ela.
Para desespero de todos nós, quando Bianca completou a descida, começou a desfazer o coque do cabelo lentamente...pude ouvir Ikky engolindo em seco. Hiyoga se aproxima dela com as mãos fechadas, sentia-se péssimo...não conseguia olhar para trás, devido um pouco ao constrangimento e outro tanto por ciúme. Murmurou a ela apenas:
- O que você pensa que esta fazendo?
E com aquele sorriso que acabou com todo o resto de nossas defesas ela respondeu em alto e bom som:
- Calma, lorão...aquele salto estava me matando e eu estou com calor, então vê se não pesa ta?
Talvez a melhor pessoa para descrever a situação de todos nós fosse a Gabrielle, imparcial em todo o processo, somente tendo que segurar risos e abafar gargalhadas...aquelas duas pareciam ter muito mais relacionamento que qualquer um ali, essas mulheres para se tornarem cúmplices não precisa de muito mesmo! Sei que até mesmo Saori estava vermelha visto os trajes e atitudes de Bianca...o que, claro que todos sabemos, não estava nos planos da irmã de Hiyoga mas, sem dúvida, veio a calhar e ela gostou da idéia. Ainda bem que Gabi tem um pouco mais de bom senso nestes momentos, e acabou por levantar-se também, antes que acontecesse uma tragédia:
- Ainda não consegui descobrir aquilo que você me pediu, Bia!
- Ah, Gabi, você é muito mole!
As duas riam-se...e agora quem ficou sem ação foi Hiyoga, a proximidade do anjo fazia isso a ele:
- Ei, Ikky, o que vamos ter para jantar? (Bia)
Ele sequer piscou...com certeza estava pensando no mesmo que eu: que aquela alça teimosa não parava um segundo no ombro de Bianca e que seria muito interessante poder ir até lá e...
- Ikky?! (Bia)
Gabrielle explodiu em uma gargalhada, seguida da amiga e seus olhares pareciam ser o mesmo quando se encontraram. No fim das contas houve um único que levou a melhor e causou inveja mortal em todos os restantes...
- Vem, Tatsume, vamos ali até a cozinha porque eu quero saber o que vai ter pra jantar. (Bia)
- Estou morrendo de fome!! Vamos lá, vai? (Gabi)
E as duas beldades se penduraram uma em cada braço do mordomo puxa-saco e saíram risonhas e saltitantes...quem iria negar isso aquelas duas? Vez ou outra olhando de soslaio para ver qual nossa reação. Sabiam exatamente o que estavam fazendo!!!
Quando ambas sumiram pela porta lateral, houve um momento de repentino silêncio, seguido de desculpas esfarrapadas de cada um de nós para podermos nos retirar a um local próximo e isolado a fim de recuperar nossa sanidade. Somente Hiyoga permaneceu parado no mesmo lugar que falou com sua irmã e Saori que, vermelha até o momento, se encontrava quase que pregada na sua cadeira:
- Sua irmã é um tanto...diferente de você, Hiyoga.
Ele, de costas para a deusa, suspira profundamente e, desolado, coloca a mão na testa:
- Eu diria que não tanto quanto parece, Srta. Acredito que ela apenas não esta acostumada com tudo isso que tem aqui...
Hiyoga tentava se desvencilhar daquilo, pois sabia que não haveria nada nem ninguém que pudesse impedir essas atitudes de sua irmã. Aquilo fazia dela o que ela era e, neste pensamento, Cisne sorriu. Que adiantava toda aquela preocupação? Ele sentira era mesmo uma grande falta daquilo, não imaginara que ela não mudara em nada – naquele sentido, claro.
E enquanto isso na sala de justiça (do lado de fora da mansão, no caso), Batman e Robin confabulam:
- Força de vontade.
- Em qual nível? (Ikky)
- Em qual você esta?
Rimos.
- Nunca pensei que um treinamento para cavaleiro iria me ajudar num momento como esse.
- Seu cosmo controla o gelo, não é? (Ikky)
- Bom pra mim.
- Hm. (Ikky)
Em pouco mais de vinte minutos todos estávamos, devidamente controlados, sentados à mesa da mansão Kido jantando solenemente e estranhamente quietos, não sei ao certo o motivo (!!!). Bianca fez questão de sentar-se ao lado do irmão, eu estava do outro lado. Gabrielle tomou um lugar próximo à Srta. Saori, seguido por Seiya do outro lado. A anfitriã se encontrava na ponta, logicamente. Ikky sentava-se estratégico na frente de Bianca. Shun se encontrava de frente para Hiyoga e Shiryu a mim.
Ao servirem a sobremesa é que a conversa começou a fluir de melhor forma...o vinho já aliviara toda a tensão, sem exageros...e todos nós estávamos rindo e nos divertindo com histórias do Orfanato Filhos das Estrelas ou mesmo das divertidas fábulas que eu e Hiyoga tivemos na Sibéria. Quando os irmãos russos começaram a contar suas aventuras da infância é que a coisa desandou...Ninguém mais conseguia deixar de rir-se ou recordar-se de algo. Nossos olhos passaram a brilhar mais forte e nossos sorrisos a ter mais sinceridade e felicidade...nossas atitudes e palavras naquele momento pareciam tão mais reais e humanas. Esquecendo por aqueles poucos instantes que até dois ou três dias atrás éramos inimigos, que lutávamos em batalhas de morte certa ou que não podíamos nos dar ao luxo de sentir algo por alguém – que fosse amizade, carinho, paixão.
Eu, de repente, a pensar em tudo isso...parei de falar um pouco e fiquei apenas a observar. E me senti como nunca antes, eu e meus olhos mareados...pude me sentir finalmente...em casa.
- Srta. Kido?! (Tatsume)
E parece que não só eu senti isso. Não era a deusa que derramava aquelas lagrimas, era aquele ser humano belo e passível de erros e acertos, a menina Saori...que naquela situação, chorava de felicidade. Gabrielle sorria e segurava sua mão, o silencio de fez na mesa:
- Vocês podem sim. (Gabi)
E a moça de cabelos cor de lavanda suspirou a soluçar, parecia a nós que o anjo lia o que se passava na mente de Saori, e não duvido deste poder...porque neste instante ela olhou diretamente para mim com aquele mesmo sorriso, e este era pleno de alegria...como alguém que sente o dever ser cumprido.
- Porque não poderiam? Porque alguém iria negar a felicidade de uma família a vocês?
- Como assim, Gabrielle? Com exceção de Hiyoga ou Ikky todos nós somos órf...
E antes que Seiya pudesse terminar a frase, ele entendeu. Como podiam se chamar órfãos naquele jantar e naquela situação? Como ousavam tamanha mentira?
- São mesmo? Eu não vejo desta forma...Aqui eu vejo uma família muito bem estruturada, por sinal. E é nisso que todos vocês devem se apoiar daqui por diante: nestes momentos juntos. Porque estes são tempos de paz. E mesmo que venha a dificuldade, o qual toda e qualquer estrutura familiar possui, vocês podem lutar contra isso juntos e unidos.
- Sim, nós podemos. (Saori)
Saori apertou com carinho a mão do anjo, e olhou a todos nós...
- Nós podemos fazer isso... (Saori)
- E já estamos fazendo, não? (Shun)
- Melhor do que muita gente, suponho. (Shiryu)
- Concordo. (Ikky)
Uma surpresa geral tomou conta da mesa ao escutar essa aceitação por parte justamente de Fênix:
- Oras, toda família tem uma ou outra ovelha negra não é? (Ikky)
- Neste caso, creio que temos duas...
- Esta falando por você, Isaac? (Bia)
- A carapuça serviu, Batgirl? (Ikky)
- Não falei nada de mais, ovelhinha... (Bia)
- Então qual a razão do incomodo, baixinha? (Ikky)
- Peraí! Baixinha, não! Pô, eu sou mais alta que o Seiya! (Bia)
- Isso não quer dizer muita coisa, Bianca. (Hiyoga)
- Eeeiii!!! (Seiya)
E tudo fluía na conversa, às vezes um papo mais cabeça com o Shiryu ou Saori. Até mesmo Shun entrava nas discussões, muito para defender as visitantes das minhas brincadeiras ou das irritações do irmão. Nas conversas com Hiyoga eu podia cada vez mais compreender qual foi à razão que o levou a lutar, de verdade. Gabrielle fazia às vezes de incluir Saori nas conversas mais informais, mas também brincava muito e fazia piadinhas junto de Bianca. Seus olhares eram inevitáveis para Hiyoga...Sendo a recíproca verdadeira. Eu já tinha noção de que aquilo daria certo, mas não seria fácil assim quanto parecia. Bia também tinha percebido isso e sei que estava tramando alguma pra aquilo ir pra frente de uma vez.
Sei que a conversa chegou num ponto em que ninguém mais perdia uma brecha sequer, dando vezes para cada vez mais risadas e memórias de infância...Um tanto nostálgico, mas era tudo o que precisávamos naquele instante. Um dos momentos mais memoráveis foi uma dessas aberturas que Seiya aproveitou, falávamos de que não tinha como esquecer estas aventuras dos nossos tempos de moleque...e Pégaso concluiu:
- Pois é...pelo menos não tem como o Ikky esquecer, nele está MARCADO!...
Foi uma explosão tamanha de gargalhadas que até mesmo Saori se permitiu fazer um pequeno e notável escândalo. Shun subitamente ficou vermelho como um tomate e eu não sei ao certo se Ikky ficou sem graça ou com vontade de mandar todo mundo praquele lugar. Eu, Bia e Gabi não tínhamos a mínima noção do que acontecera.
- Vocês se lembram?! Eles não se desgrudavam!!! (Hiyoga)
Acho que foi a única briga que vi entre os dois, não é verdade, Shun?! (Saori)
- É, porque o Ikky deve ter ficado esperto depois dessa! Se cada briga que eles tivessem saísse uma dessa...Já pensou?! (Seiya)
Mais gargalhadas. Eu já via a hora do Ikky soltar um Ave Fênix e tudo ir pelos ares!! Eu e as meninas cada vez mais curiosos, e entre todos os comentários, de repente uma voz se faz ouvir, um tanto irritada por assim dizer:
- A gente tinha ganhado as roupas naquele dia, vocês se lembram! (Shun)
- Você não tinha o direito de... (Ikky)
- Como se você tivesse o de me estourar o joelho! Eu mordi mesmo! (Shun)
- Escuta aqui, até hoje você não sabe quem te empurrou! (Ikky)
- E até hoje você não tem vergonha na cara pra falar que foi você!!! (Shun)
Coloquei a mão na boca, incrédulo. Aquele rapaz pacato que, aparentemente, nem gostava de ser cavaleiro ou de brigas ou de qualquer coisa mais semelhante à vida de um adolescente normal do sexo masculino, acabara de enfrentar Ikky de Fênix – o machão do zodíaco! Bianca e Gabrielle não seguravam o riso, acabavam de descobrir que Shun talvez fosse o único à não ter medo algum do irmão! Os dois se encaravam ferozmente e nós tivemos que intervir para não gerar uma nova "briga" ali no meio da sala de jantar...E como todos tinham amor a vida, acabei sobrando:
- Escuta...eu ainda não quero morrer, e se esses olhares continuarem vocês acabam alcançando o sétimo sentido e todos nós acabaremos na terrinha da Gabi. Então, que tal? Os dois contam pra gente o porque da discórdia, de forma amigável, e nós vamos dar risadas tranqüilas e agradáveis como fizemos com todo mundo...
Shun e Ikky esboçaram um sorriso, da mesma forma que os outros...porque eu fiz questão de parecer mais desesperado do que eu estava realmente. Logo em seguida os dois emburraram de novo, só pra fazer charminho, acredito. Percebendo o jogo, Seiya aproveitou:
- Ta bom, então a gente conta!!!
Pronto, Ikky quase engasgou e Shun fez uma careta de "ah, Deus!". Hiyoga e Shiryu riram alto, sabiam que não tinha mais volta...
- Não!! Nem adianta fazer essa cara agora, quem vai contar sou EU e não se fala mais nisso!
Seiya também estava gostando de toda a bagunça, fazia tempo que não podia ter essa liberdade que tinha agora. Brincar e zoar junto de seus "irmãos", esquecendo-se por completo que tinham a responsabilidade do mundo em suas costas. Ikky soltou um palavrão mais parecido com um resmungo e Shun fingia que não estava ali. Eu e as meninas, atentos a tudo, riamos contentes por nos ser permitido participar de algo tão deles.
- Era uma linda manhã de sol...
- Ahhh!!!
- Uuuuhhh!
Vaias para todos os lados, mais risos:
- Não enrola. (Ikky)
- Então, que um pessoal tinha trazido roupas novas para os órfãos aqui... (Seiya)
- Nossa, aquele dia... (Hiyoga)
Os cinco cavaleiros e a deusa trocaram olhares cúmplices, olhares que traziam de volta as cenas vividas e a saudade dos bons momentos que passaram...e assim a tensão foi embora!
- É! Tava todo mundo na maior empolgação! Sabe como é, criança é fogo! (Seiya)
- Duvido que tenha mudado muito daquela época...(Bia)
Outra que não perde uma...Seiya ia falar algo de atravessado, mas Shiryu percebeu o perigo e continuou:
- Já tinham acontecido algumas discussões por causa de roupa...
- Não muda as coisas, Shiryu – disse Hiyoga sorrindo – aquilo passava longe de discussão! Eram brigas mesmo!
- Ah...mas nenhuma, e eu digo ne-nhu-ma chegou aos pés dessa do Ikky e do Shun!!!
Agora as risadas eram gerais, porque eu, Bia e Gabi conseguíamos entender e, chocados, imaginávamos os dois brigando por causa de uma bermuda ou camiseta!
- É, mas não foi por causa da roupa. (Ikky)
Pareceu que ele leu nossos pensamentos:
- Foi por causa do que ele fez com a MINHA roupa nova. (Shun)
Aí é que foi a gota! Ninguém prestava atenção em mais nada...daqui a pouco Saori estaria passando mal, junto com a Gabi! Os dois começaram a discutir de novo e o pessoal não se preocupava, só ria de imaginar a cena!
- Ei! Ei! Deixa eu terminar! Eles precisam saber do "grand finale"!!! (Seiya)
Aos poucos controlamos a respiração:
- O Ikky tava zoando com todo mundo, porque ele tinha ficado sem as roupas, ele sempre foi muito alto, e nenhuma serviu. (Seiya)
- Ta vendo o que dá ser poste? (Bia)
Fênix até levantou para responder, mas foi contido por Shiryu e pelo irmão – um de cada lado. Claro que houve o olhar fulminante, sem dúvida...
- Vai ter que fazer melhor que isso pra eu ficar com medo... (Bia)
Desta feita foi Hiyoga que colocou a mão sobre o braço da irmã, pedindo silenciosamente um tempo. Já bastava o ânimo do Ikky estar alterado...
- Shhh, deixa eu terminar! (Seiya)
Gabrielle ria e também segurava o braço de Bianca por vê-la frustrada em sua tentativa de irritar Ikky.
- Daí, que numa dessas brincadeiras sem graça, ele deu um empurrão no Shun...que nunca foi lá muito forte! (Seiya)
- Não é bem assim...(Shun)
Ele falou baixinho, quase um fio de voz...e ficando cada vez mais roxo:
- E caiu barranco abaixo, estragando a calça no-vi-nha!
- Seiya, explica melhor... (Saori)
Não foi só a calça que rasgou...foi a perna dele! (Hiyoga)
- Aí eu não sei se o Shun estava muito cansado de ser o chorão da turma, ou o que...só sei que de joelho estourado e tudo ele... (Seiya)
- Caiu pra cima do Ikky!
O coro dos 3 amigos quase me matou de rir:
- Quem tinha coragem pra separar os dois? (Shiryu)
- A gente que pensava que o Shun não tinha força, ele tinha era uma arma secreta... (Seiya)
Então, com caras de quem esta aprontando alguma, se olharam fazendo suspense e novamente responderam em conjunto, como não podia deixar de ser naquela situação:
- A MORDIDA!!!
Saori acabara de pedir mais água a ser servida, porque ninguém se agüentava mais:
- Mostra pra eles, Ikky, a cicatriz... (Seiya)
- CICATRIZ?
Quem fez corinho agora fomos nós, os ouvintes. Agora eu entendia o porque de tanta resistência por parte do Fênix para contar essa historia...claro que iríamos perguntar o que todo mundo quer saber:
- Onde foi que você mordeu ele, Shun?
Gabrielle fez às vezes de nós três, sendo que ela era a menos pior desse trio. E um Ikky, agora sim, sem jeito acabou por responder:
- Na coxa.
- Perto do joelho também. (Shun)
- Os dois tem cicatrizes no mesmo lugar quase. (Saori)
- Saori...como você tem tanta certeza disso? Você já viu? (Gabi)
Ah, eu tenho certeza que foi proposital! E Gabrielle conseguiu deixar os três sem graça e Saori sem ter como fugir! Nessas e outras a conversa ia se intrincando, embrenhando, acusando, brincando, brigando...e tudo estava muito bom!
Ninguém perguntou sobre nada da minha vida, todos eles simplesmente me acolheram como quem traz para casa um igual em sofrimento e vida. Estranhei também ninguém tecer sequer um comentário sobre minha cicatriz...não por ser feia, mas o contrario. Ela quase não aparecia em meu rosto. Estranha sensação e misteriosa cura...
Não conseguia compreender qual o grau ali de amizade, talvez o tempo pudesse me dizer o que ocorreria. E eu esperava com todas as minhas forças que isso demorasse muito, para que eu aproveitasse toda aquela felicidade até o fim de meus dias.
Na sala de estar, a conversa diminuiu um pouco seu tom e situações mais sérias foram sendo colocadas em pauta. Nenhuma delas preocupante, somente assuntos que geravam menos risadas. As horas iam passando, e o primeiro a se retirar – não para seus aposentos, logicamente – foi Ikky. Poucos perceberam sua saída, só se deram conta um tempo após, na sua ausência somente. Pude ver o olhar trocado com a menina Bianca que, sem palavras, negou o convite do passeio de Fênix. Gabrielle e Hiyoga - consegui observar - tinham o mesmo estranho grau de relacionamento que eu e Bianca. O anjo sentado ao lado de Cisne lutava bravamente contra o sono que a acometeu e Bia distraia minha atenção fazendo piadinhas e brincadeiras para tirar tanto a mim quanto a Hiyoga do sério. A tática deu certo, porque quando ambos percebemos Gabi tinha adormecido encostada no ombro do loiro. E ao contrário do que eu ou ela – Bianca – imaginamos, ele não ficou constrangido...
- Acho que foi um pouco demais pra ela...tanto tempo sozinha e de repente...tudo isso. (Hiyoga)
Ele não tinha esquecido um minuto sequer do escudo que ela usava. Por nenhum momento, eu percebia agora, ele ficou desatento...a cada instante ele tentava traze-la para este mundo. Sabia da regra das amazonas, e por isso mesmo, lutava para tirar a mascara de Gabrielle.
- Ela estava cansada demais, Alex... (Bia)
- Sim, eu sei... (Hiyoga)
Nos vimos só os quatro no salão.
- Não deve ser uma viajem lá muito fácil...vir do Templo de Zeus para cá.
- Tem muitas outras coisas que não devem ser fáceis pra ela, Isaac... (Hiyoga)
Bianca se aproximou com olhar melancólico e, ao mesmo tempo, carinhoso...tirou a mecha de cabelo vermelho que caia no rosto tranqüilo e até mesmo sorridente da dorminhoca. Tocou sua mão de leve, para não assusta-la no sono. Afinal, ela jamais ficaria em paz se algum de nós a carregasse para o quarto (principalmente se fosse Hiyoga)!!! Em pouco tempo ela acordou, envergonhada claro!
- Me desculpem por isso, eu só... (Gabi)
- Relaxa, Gabi! Ta tudo bem... (Bia)
Hiyoga nem ao menos se movia, apenas sorria feito um bobo...fazendo com que a alta moça ficasse ainda mais sem jeito. Eu não posso dizer nada, pois possivelmente faria o mesmo se fosse eu o apaixonado. E era gratificante poder vê-lo daquela maneira. Bianca então levou Gabrielle ao quarto que Saori indicou como sendo o de hóspedes, enquanto eu podia, finalmente, ter uma conversa sozinho com meu amigo e explicar-lhe tudo o que ocorreu naqueles anos enquanto ao mesmo tempo escutava a versão dele.
Era início da madrugada quando acabamos por nos recolher. E foi só neste momento que percebi o que Bia havia aprontado. Dei um sorriso quando vi que o quarto de hospedes reservado a Gabi e a mim estava vazio. Essa irmã do Hiyoga é muito mais esperta do que eu esperava...Só torço para que seu plano dê certo e que Gabrielle não precise ir ao banheiro!
CONTINUA...
Nota da Ephe-chan: Não, não é uma miragem. Estamos de volta a ativa e, pelo jeito, pra escrever uns 3 ou 4 capítulos novos desta verdadeira saga! Nem adianta eu pedir desculpas...tem dois anos que a gente não atualiza e a culpa é inteiramente minha. O bendito do jantar acima não saía de jeito maneira, tive que sugar ele do meu cérebro à força! Como agora eu to em casa (desempregado é uma merda ou uma benção, depende do ponto de vista), agüenta que logo vem atualização!
Alguns esclarecimentos necessários:
Esta historia começou em 1996, portanto na época em que ninguém (ou quase ninguém) sabia de nada de Cavaleiros a não ser o que se passava na Manchete, o restante eram boatos que não sabíamos se verdadeiros ou não. Neste caso, como é uma fic que evoluiu a partir de então, nos permitimos não mudar a linha de pensamento mesmo sabendo das verdades. Resumindo a ópera: nós NÃO seguimos a linha do mangá (sendo então que eles NÃO são irmãos de sangue) e também NÃO conhecemos a saga de Hades, parando na famigerada saga de Poseidon.
Nós nos mantemos através de seus comentários e de suas cobranças...se quiserem amigos novos também, mantenham contato! Podem deixar reviews e, caso queiram, um e-mail é muito bem vindo: setimo.sentido uol com br
