Poison Love
Capítulo 2
"I just can't live without you
I love you, I hate you, I can't get around you
I breathe you, I taste you, I can't live without you
I just can't take anymore, this life of solitude
I guess that I'm out the door and now I'm done with you."
O sol brilhava forte, indicando que já era de tarde, invadindo com seus raios luminosos as cortinas carmesins do templo de Escorpião. Seu dono movimentou-se languidamente, protegendo os olhos da luz incômoda com o braço, enquanto o outro braço vasculhava a cama, procurando um corpo ao seu lado. Encontrando o lençol vazio e frio, franziu as sobrancelhas.
Abriu os olhos e afastou o braço, olhando para o lado, ainda um tanto confuso.
- Camus?
Recebeu resposta alguma, indicando que havia ninguém no templo. Então algo veio a sua mente e arregalou os olhos, sentando-se na cama e gemendo logo em seguida. "Um sonho...", suspirou.
Mal processara tal pensamento, quando visualizou o caos em seu quarto. Havia roupas espalhadas pelo chão, rasgadas, eram suas. Vestígios de sangue e sêmen manchando o mármore escuro. Pôs a mão na cabeça, esfregando-a e estreitando os olhos, murmurando algo. As lembranças dos acontecimentos do dia anterior vieram com força, fazendo-o tremer nervoso e procurar o maço de cigarros jogado sobre o criado mudo, acendendo um e tragando profundamente.
Passara a noite com Shura e Afrodite naquele clube, confere. Voltara para a casa de madrugada e... encontrara Camus em seu quarto... certo. Havia voltado da viagem e estava nervoso, com um comportamento que nunca vira antes nele. Discutiram e... e ele... Zeus!
Lágrimas escorreram pelo rosto bronzeado enquanto acendia outro cigarro. Lembrou-se dos toques nada gentis, sentindo as dores da noite anterior voltarem. As costas doíam e seu interior ardia.
- Merda... - encolheu-se gemendo.
oOo
Shun estava acostumado aos habituais atrasos de Milo. Não que fosse um mestre ruim, mas tinha um sério problema com horas e pontualidade. Problema acentuado quando Camus não estava no santuário para acordá-lo e forçá-lo a sair da cama para dar suas aulas. Mas naquele dia havia passado dos limites! Já passavam das duas da tarde e nada dele aparecer para iniciar a aula. O pobre discípulo, que esperava sob o sol do coliseu desde as dez da manhã acabou por subir as casas zodiacais a fim de conseguir uma explicação. Se Milo não queria treiná-lo, que o dispensasse pelo menos.
- Mestre? - a voz ecoou na casa aparentemente vazia.
Preocupado, o menino seguiu para os aposentos pessoais de Escorpião. Alguns poucos archotes ainda ardiam no amplo corredor dando a impressão de que Milo dormira em casa, ao menos. Parou ao chegar à porta entreaberta e constatar o estado do quarto. Não havia marcas de combate, mas era possível ver sangue no chão. Junto ao sangue... Andrômeda sentiu o corpo retesar. Ergueu o olhar lentamente e viu Milo deitado encolhido na cama.
- Mestre? - repetiu ainda na porta.
oOo
Shun? Oh merda! Tinha esquecido completamente! Milo forçou seu corpo a girar na direção da porta.
- Bom dia Andrômeda - forçou-se a falar, a voz saindo mais fraca do que imaginara.
- Boa tarde, já passou do meio dia mestre. - a voz falhou levemente.
- Ah... - suspirou resignado e tornou a fechar os olhos.
- Mestre... O senhor está bem?
- Hnm. Entre no quarto, Shun... Você me fará alguns favores.
- Sim senhor...
Shun ainda hesitou um momento antes de entrar, mas logo que entrou no quarto e viu o estado em que se encontrava, correu e ajoelhou-se ao lado da cama.
- Mestre, quem fez isso com o senhor?
- Ninguém. Por favor, pegue as roupas do chão e empilhe sobre a poltrona... Depois, se você puder passar um pano no chão eu agradeceria... Sabe onde ficam os materiais de limpeza?
- Sim senhor, só um minuto.
O garoto esperou um pouco, em dúvida do que fazer, mas se levantou e correu para fazer o que lhe era pedido. O grego suspirou ajeitando-se delicadamente sobre a cama para tentar ressonar novamente.
Não queria encará-lo tão cedo, para ser sincero, queria nunca mais ter de olhar para aqueles olhos frios e cruéis, nunca mais. Mas lembrou-se das últimas palavras que proferira antes de deixá-lo e suspirou frustrado. Ora, não tinha como escapar, uma vez que um cavaleiro é desafiado, não importa as circunstâncias, é seu dever e honra aceitar.
oOo
Meia hora depois Shun fora dispensado. Não queria companhia. Ainda assim pediu que o menino fizesse-lhe um último favor: entregar um bilhete a Camus. Andrômeda ainda tentou insistir em ficar cuidando dele, mas foi categórico: não suportaria a presença de quem quer que fosse o encarando naquele estado lamentável.
Shun encontrou Camus sentado no chão da casa de Aquário, de olhos fechados e cenho franzido. Parecia estar aborrecido com algo, o ar em volta dele estava absurdamente gelado, o fez espirrar e denunciando sua chegada. O francês abriu os olhos e mirou o rapaz. Apontou para a porta de um dos quartos.
- Hyoga está lá dentro, mas está estudando, poderia esperar?
O comentário fez Shun adquirir uma suave tonalidade rosada.
- Não vim falar com ele senhor. - murmurou com o olhar baixo - Mestre Milo pediu que eu trouxesse-lhe isso. - ofereceu o bilhete.
Camus desdobrou o pequeno pedaço de papel e viu a letra forte e levemente inclinada de Milo:
"Querido Aquário;
Levando em conta os últimos acontecimentos, temo que não estarei em condições para nosso duelo de hoje. Peço gentilmente que transfira para a próxima semana, prometo estar preparado e de saúde restabelecida para enfrentá-lo em combate.
Grato pela compreensão,
Escorpião"
Trincou os dentes e amassou o papel em suas mãos. Sempre provocador, não é mesmo? Percebeu que Shun o olhava assustado, vendo-o massacrar o pedaço de papel. O garoto pulou quando sua voz fria ecoou pelas paredes.
- Diga-lhe que será como ele quiser...
Esperou até o rapaz assentir e sair rapidamente, descendo as escadarias. Picou o papel em minúsculos pedacinhos e deixou que o vento carregasse. Encostou-se em uma das colunas, observando o garoto japonês descer as escadas apressado, e então divisou o templo de Escorpião. Uma semana, ahn? Bom, era o suficiente...
Tocou os braços enfaixados. Hyoga o encontrara de manhã, o sorriso substituído por uma expressão preocupada ao ver seus braços marcados e banhados de sangue seco. Mandou que não perguntasse nada e que lhe trouxesse ataduras e álcool para tratar as feridas. Feridas que felizmente podiam ser desinfetadas, curadas e virar cicatrizes logo... Mas não as que ele ganhara em seu coração.
oOo
Um tapa seguido de outro. E outro. E outro mais forte. Mais um. Sangue fluindo. Dor.
Milo acordou assustado. Os olhos arregalados, o corpo suado e tremendo. Maldito sonho! Sentia seu interior se contrair e as costas arderem. Fechou os olhos. A dor pungente atacando o corpo, apertando o coração. Promessas destroçadas. Esperanças destruídas. Era sempre assim, então por que acreditava? Por que se esforçava em amá-lo? Por que se era em vão? Inútil. Completamente inútil. O odiava. Com todo seu ser. Mas o perdoaria, mais cedo ou mais tarde. E se odiaria por isso.
Levantou-se e buscou no armário da cozinha uma garrafa de vinho. Estava quente, mas não importava. Colou os lábios ao gargalo, engolindo o líquido rapidamente, sentindo as faces aquecerem ao findar o primeiro gole. Não dormiria mais essa noite.
oOo
As horas passaram devagar, mas assim que Milo acordou no dia do desafio parecia que haviam voado.
Acordara diversas vezes naquela noite, pesadelos sem fim o perseguindo e acabou por desistir de dormir por volta das três e meia da manhã. Tentara se ocupar, tentara esquecer, mas era em vão. Deitado na cama acabou por adormecer novamente algumas horas depois, com o sol já subindo no horizonte, acordando novamente quando o sol já estava alto, iluminando de forma insuportável seu quarto. Levantou e resolveu tomar um banho. Passou longos minutos dentro da banheira tentando, sem sucesso, relaxar. O corpo estava bem recuperado do abuso sofrido. Fisicamente estava bem. Fisicamente...
Afundou a cabeça na água, voltando a respirar somente quando sentiu que perderia os sentidos se não o fizesse. Suicídio. A idéia passou-lhe pela cabeça dezenas de vezes nos últimos dias. Talvez não tivesse abandonado sua mente um segundo que fosse. Desejava morrer a ter de lutar com Camus, mais do que isso preferia morrer pelas mãos dele.
Endireitou-se alarmado ao sentir alguém dentro do Templo, mas logo relaxou, sentindo o cosmo calmo de Shun. Ficou quieto dentro do banheiro, ouvindo os passos e movimentos do garoto arrumando a bagunça que encontrava pela frente. Ultimamente a casa vivia no caos, assim como ele próprio, e estaria pior, se não fosse os cuidados de Andrômeda.
Cerrou os olhos e respirou fundo, encostando a cabeça na borda da banheira. Shun bateu de leve na porta, continuou em silêncio. Quando o garoto insistiu e chamou seu nome, suspirou e respondeu.
- O que quer, Shun?
- O almoço está pronto... O senhor vem comer?
- Almoço? Já passa das três da tarde...
- Mas acredito que o senhor não comeu nada ainda. A cozinha estava limpa quando cheguei.
A voz do menino estava carregada de preocupação, mais do que costumava ser. Era sutil, mas Milo conhecia muito bem seu pupilo para notar. Disse-lhe que estava indo, ainda sentiu a hesitação dele, antes de se afastar da porta e voltar para a cozinha. Tomou coragem para abandonar a banheira, começando a se enxugar. Evitou olhar no espelho e notar como a pele ainda trazia as marcas do abuso.
Balançou a cabeça e saiu para o quarto, se vestindo. O cheiro gostoso da refeição que Shun preparara invadiu os corredores da casa, não sentia mais o estômago revirar, como nos dois primeiros dias. Só percebeu o quanto de fome sentia quando se sentou à mesa e comeu o primeiro pedaço da comida.
Shun o observava comer meio perturbado, roia as unhas de ansiedade. O grego comia tranqüilo, até que não agüentou aquele menino daquele jeito do seu lado. Largou o talher e respirou fundo, encostando-se ao espaldar da cadeira e lançando um olhar para Shun, que pulou de susto.
- O que foi, Shun?
- É que... eu... eu fiquei sabendo de um boato de que o senhor teve uma briga... feia... com Camus...
Encarou o rapaz, abismado. Então eram essas as notícias que rodavam o Santuário? Ora, não devia se surpreender, há dias ficava apenas em casa e não saía, fora que ele e Camus não se encontravam. Todos sabiam que eram como unha e carne, que viviam andando juntos ou dormiam na casa de um ou do outro. E agora que voltara de viagem, estavam separados.
Olhou de novo para o garoto, estava visivelmente preocupado com essa história, saberia da luta marcada?
- Mestre, eu andei falando com o Hyoga, e o mestre dele também está estranho. O que aconteceu, afinal?
Não respondeu, apenas empurrou a xícara pra longe de si e baixou o rosto. Respirou fundo algumas vezes antes de levantá-lo de novo e olhar fundo nos olhos de Shun. O olhar transmitia confiança e... ansiedade. Um pouco de medo talvez.
- Shun... o que eu vou falar agora, nunca foi dito para alguém. Você já deve ter ouvido falar muito de mim nesse santuário, o que não falta são histórias pra contar... Alguma vez você ouviu alguém mencionar o nome de Saga junto ao meu?
- Acho que sim... Algo de quando o senhor era mais novo...
- Sobre eu ser assassino?
- É o que mais ouço...
- Muito bem. Eu conheci Saga quando tinha dez anos. Foi antes de sequer conhecer o Camus. 1 - o olhar adquiriu algo de distante enquanto Milo começava a narrar os fatos - Era um bobo, permiti me apaixonar. - suspirou - Foi nessa época que ele começou a desenvolver aquele 'probleminha' de dupla personalidade... Dá pra acreditar que ele me forçava? - soltou uma risada amarga.
- Mestre! - Shun estava horrorizado.
- É. E não foi só uma vez... Todas as noites que dormíamos juntos e o 'outro' tomava conta ele me forçava.
"O verdadeiro Saga a princípio não lembrava de nada. Mas o tempo foi passando. E ele começou a lembrar.
"Pobre Saga, se remoia de remorso sempre que estávamos juntos. A culpa e o remorso eram portas para o outro. E com o tempo o meu Saga desapareceu.
"O relacionamento acabou e eu ainda o amava. Não o outro, mas o Saga com quem me deitei pela primeira vez. Por isso aceitei me tornar um assassino a mando do Santuário"
Milo fechou com força os olhos e quando os abriu novamente, sorria.
- É isso que dizem por aí?
Era quase doloroso o olhar incrédulo do discípulo, sobre ele. Shun admirava-o, sabia disso. E podia-se dizer que tudo o que corria pelo santuário, as piores coisas possíveis, eram verdade.
- Claro que não foi apenas eu me tornei um assassino, como você bem sabe. Shura, Afrodite e Máscara da Morte também, todos manipulados por ele. - respirou fundo - Eu tinha treze anos quando Camus chegou ao Santuário, carregando sua armadura dourada nas costas. Acho que não é necessário dizer que me apaixonei por Camus, e estive assim sem revelar meus sentimentos por algum tempo.
"Enquanto isso meu coração ficava cada vez mais gelado com o novo Saga, mas eu ainda fazia parte das atividades sórdidas que rolavam entre seus subordinados. Era uma coisa que eu mantinha escondida de Camus, na verdade várias coisas..."
Viu Shun franzir as sobrancelhas, confuso, como dizer algumas coisas para um garoto tão sensível? Já era constrangedor revelar aquilo para alguém.
- Saga já com seus poderes de mestre, mantinha alguns aposentos secretos no Templo de Atena. Para orgias um tanto quanto... excêntricas... - olhou para o rapazinho na mesa. - Creio que conheça algo chamado sadomasoquismo...
Andrômeda piscou os olhos pego de surpresa, e logo fez um sinal afirmativo com a cabeça envergonhado. Sorriu de canto e continuou.
- Alguns sentem prazer na dor, e eu fui acostumado a ela junto com o sexo. E parecia que o lado negro de Saga apreciava aquilo bem mais, trazia muitos para aquele lugar. Não importava se eram servas de luxúria, meninos jovens como nós, e todos juntos.
O garoto encolheu-se impressionado e ruborizado com o que lhe era relatado. Milo chegou a rir de leve com a situação.
- Naquela noite me lembro que eu tinha Afrodite sob meu poder, transformando aquela pele macia e branca em marcas avermelhadas. Possuindo o cavaleiro mais belo que já se viu nesse Santuário. - o grego desfez seu sorriso e olhou para um canto da cozinha, o olhar vazio. - Ele observava em seu trono, com o manto sagrado e uma taça de vinho na mão, se divertindo com uma serva e observando-nos. Uma hora percebi que se levantara e olhava para a porta, para então cobrir o rosto com a máscara e sair do aposento, mas não dei muita importância, continuávamos no mesmo ritmo.
"Também não dei muita importância quando voltou, e com alguém... talvez mais um aprendiz que lhe agradara, não era raro atraí-los. A voz do garoto ecoava pelos corredores junto com a voz do mestre, alegres. As vozes cerraram de súbito, e inconscientemente virei meus olhos para a entrada. Paralisei, ignorando o protesto do meu companheiro.
"Camus... parado bem na minha frente... Saga atrás de si acariciava seus cabelos e segurava seus ombros, aproximando sua boca de seu ouvido chamando-o. Em vão, o olhar dele só encontrava o meu e o meu o dele. E o que vi foi decepção. Nosso contato durou alguns minutos, antes de ele se desvencilhar de Saga e sair correndo dali. Não pensei duas vezes antes de pegar a primeira peça de roupa na minha frente e correr atrás dele. Era uma túnica curta, que mal chegava à metade das coxas, decotada. Mostrava mais do que cobria.
"O segui até sua casa, chorei, implorei, supliquei e contei o que eu era. Jorrava palavras a esmo e soluçava. Lembro-me das últimas palavras que disse antes de cair no chão exausto.
'Eu te amo'"
Shun piscou os olhos surpreso, Milo guiou a mão para os lábios, passando os dedos levemente.
- Camus se virou incrédulo, me encarando. Um silêncio assustador se seguiu, eu podia ouvir meus soluços e meu coração batendo acelerado. Longos minutos passaram, até que ele se agachou e pegou meu rosto entre as mãos.
"Ele me beijou... Uma, duas vezes... transamos... Prometi que nunca mais me envolveria com aquilo de novo, afinal, Camus não parecia ser um apreciador dessas... práticas... E eu o traí de novo, porque o traí de novo?"
- Mestre!
Escorregou até o chão, escondendo o rosto entre os joelhos, recomeçando a chorar. Engraçado, achava que não havia mais lágrimas para chorar depois dos últimos dias. Shun tocou em seu ombro preocupado, ele tremia. Não sabendo o que fazer acabou por passar os braços sobre seus ombros, tentando acalmá-lo.
- Eu senti medo naquela noite, por um momento o vi de novo, se apossar de Camus e me tomar, me machucar. A culpa é minha, ele nunca ia me deixar, fui estúpido demais para não confiar nele. E Camus confiou em mim, e eu o traí!
Calou-se e deixou-se estar nos braços do discípulo por um tempo, a cabeça ainda escondida. Então moveu, se afastando gentilmente do abraço, levantando-se e limpando os vestígios no seu rosto.
Andrômeda levantou-se também e olhou preocupado, mas Milo logo se recompôs, tratando de pôr um sorriso maroto nos lábios. Passou a mão nos cabelos verdes, desalinhando os fios e se dirigiu para fora da cozinha, vestindo sua roupa de treinamento, os sapatos e cintos de couro, ombreiras e joelheiras.
- Bom, pelo o que me lembro tenho um encontro importante hoje... - sorriu e acenou da entrada do seu templo - Não me espere para o jantar.
oOo
Usava uma túnica curtíssima, idêntica a que usara dez anos atrás, naquela noite em que o francês levou-o para cama pela primeira vez. Não poderia mentir, ainda possuía esperanças. Só não sabia ao certo esperança de quê. Talvez tivesse esperanças de que, vestido da mesma forma, arrebataria o corpo e o coração de Camus novamente.
Trazia no queixo as duas feridas causadas pelas longas unhas de Aquário. Feridas envoltas por grandes marcas arroxeadas que contrastavam fortemente contra a pele morena. O tecido leve da túnica também deixava boa parte do peito a mostra, revelando assim outros hematomas, piores e maiores.
Estava recostado displicentemente contra uma das muitas colunas que circundavam a arena de treinos, a franja cobrindo parte do rosto, escondendo a dor do olhar. O cabelo estava preso numa trança frouxa que fizera enquanto descia as escadarias.
O sol começava a se pôr. Camus logo estaria ali.
oOo
O tom avermelhado do crepúsculo começava a tingir o céu quando Camus chegou à arena. Vestia-se com uma túnica cinza que descia diligentemente até os joelhos, cingida por uma faixa simples na cintura, azul escura. Trazia os cabelos metodicamente presos ao alto da cabeça e calçava sandálias de couro que trançavam até os tornozelos semelhantes às de Milo.
O sol tocava o horizonte quando os cavaleiros prostraram-se no meio da arena para dar início ao duelo. Os olhares sustentando-se, criando um clima pesado entre eles.
- Gostaria de reconsiderar? - a voz de Milo se elevou pouco, no limite do audível.
- ...Não.
- Certo. - a frieza de sempre ainda o afetava - Espero que tenhamos uma luta justa, apenas combate corporal, de acordo?
- Sim.
Vários aprendizes e servos que transitavam próximos à arena pararam para acompanhar o que acontecia. Até mesmo alguns cavaleiros de ouro como Mu, Shura e Aioros que treinavam seus discípulos aproximaram-se.
- Mu, importa-se em ser o juiz em nosso embate? - perguntou Milo sem voltar-se para ele.
- Vocês vão...?
- Faça-o Mu, prometo que não demoraremos.
- Sinto muito, não posso fazer isso. Não com vocês. Vamos Kiki.
- Estão malucos? Sabem que é proibido lutar entre si por razões pessoais! - Aioros estava igualmente indignado.
- Esse problema é nosso! - disse com voz firme, apenas olhando de esguelha para o cavaleiro de Sagitário – Shura, importa-se?
- Claro que não Milo.
- Quando quiser, Shura.
Com um sorriso cínico no rosto, Capricórnio ergueu o braço, descendo-o rapidamente, dando início ao combate.
Sem hesitar, Camus foi o primeiro a se mover, socando o rosto de Milo, este contra atacou com um chute em seu dorso, entre as costelas. No instante em que o francês baixou sua guarda para tocar a parte atingida sua outra perna veio contra seu rosto lançando-o ao chão, longe de seu atacante.
A luta ficou paralisada. No chão, Camus tossia enquanto a substância viscosa e vermelha escorria de seus lábios. Escorpião estava de pé, ofegante e tremendo visivelmente. Assim que se levantou, dirigiu-lhe um olhar irritado e murmurou entre os dentes:
- Isso é uma luta de vida ou morte! Se você me golpear como fazia há quinze anos, irá perder!
- Não posso machucá-lo, Camus...
Atingido pelas palavras sussurradas fechou os olhos e quando os abriu novamente investiu novamente contra o grego, desferindo uma seqüência de socos e chutes que o atingiram no rosto e no dorso seguidas vezes.
Sem perdão, repetiu a seqüência várias e várias vezes e em nenhuma delas encontrou sequer um esboço de defesa vinda de Milo. Estava recebendo os golpes em silêncio e sem qualquer resistência. Assim que percebeu que de nada adiantava, parou de golpear e observou o que havia feito. Estirado num canto da arena, rosto e corpo inchados, sangue cobrindo lábios e queixo, olhos fechados – Milo havia desfalecido. (1)
O silêncio tomou conta da arena. Nem mesmo os gemidos e gritos emitidos pelos jovens aprendizes ao ver Milo apanhando era ouvido. Estava anoitecendo. Um Camus ofegante encarava o corpo estendido diante de si.
- A luta está terminada, vitória de Camus de Aquário.
A imobilidade permaneceu mesmo depois do aviso de Shura. Havia algo no ar. Expectativa. Todos os olhares dirigiam-se a Aquário, sabiam do tipo de relacionamento que os dois mantinham, não entendiam o motivo do embate, mas ainda assim esperavam que algo acontecesse.
O cavaleiro do gelo finalmente se moveu, com o rosto e olhos inexpressivos de sempre, aparentando uma indiferença impressionante. Seu amante estava ali, sangrando e derrotado, causando pena em todos os presentes. Ainda assim, era como um estranho encarando um corpo qualquer.
Chegando perto a passos calmos, ajoelhou-se ao seu lado. Os dedos gelados se dirigiram a face ferida, afastando os fios de cabelo espalhados, revelando as pálpebras cerradas. As acariciou com as pontas dos dedos levemente.
- Uma luta justa, ahn?
Disse em um murmúrio, ninguém ouvira suas palavras. "Seu grande idiota!". Cerrou os punhos com força, sem perceber que com isso as unhas entravam na carne de sua palma reabrindo as feridas. Ergueu-se com o rosto abaixado, escondendo os olhos com a franja farta. Abriu e fechou a boca, sem emitir som algum.
Com a voz controlada, chamou pelo cavaleiro de Sagitário sem erguer o rosto. Abria os punhos, algumas gotas de sangue escorrendo pelas mãos.
- Aioros, por favor, me ajude aqui.
O grego acenou e veio correndo na direção dos dois, agachando-se e virando o corpo de Milo com cuidado. Antes de ajudar o outro, encarou Shura em um canto da arena, dardejando farpas pelos olhos frios.
oOo
Continua...
Agosto/2004
1 - Estou supondo que eles receberam as armaduras aos 12 ou 13 anos, o que faz eles possuírem um 28 anos enquanto a fic vai ocorrendo.
- Trecho de "Always", do Saliva.
N.A.:
Mudoh Belial: Hahahahhahaha!!! Demorou, vocês tentaram me degolar, mas saiu, viram??? Esse capítulo não ficou muito dramático, não? Eu sei que o final foi cruel, mas entendam como algo necessário... Até o final do ano vocês verão o final da história (espero)!
Senhorita Mizuki: Nós duas juntas conseguimos demorar mais que uma só para escrever, nossa... Tô falando que vou virar escritora de novela mexicana, ainda consigo um emprego na Televisa, huahuahua! Até eu tô ficando com pena do Milo, só apanha, affe...
