Poison Love
Capítulo 5
"Let's play master and servant
Domination's
the name of the game
In bed or in life
They're both just the
same
Except in one you're fulfilled
At the end of the day
(…)
It's love"
Não voltou para casa de Aquário, ao invés disso, ao sair do Templo de Atena resolveu andar um pouco. Esfriar a cabeça e pensar no que lhe fora dito. Mu estava em seu templo cuidando do grego, não havia problema. E pensando bem, não queria vê-lo sem antes pesar o que acontecera nos poucos dias.
Enfiou as mãos nos bolsos da calça, deu alguns passos e uma leve careta de dor surgiu em seu rosto. Encostou-se em uma coluna próxima, um servo parou e perguntou se estava bem. Resmungou um 'não se preocupe' e se afastou aborrecido, um constante ardor inconfortável. 'É minha punição', riu amargo para si mesmo.
Decidiu encontrar um lugar afastado das arenas e das residências, onde pudesse se sentar e espairecer em paz. Dirigiu-se a algumas ruínas antigas, onde sabia que dificilmente alguém visitaria àquela hora do dia. Estirou-se no chão de pedra e recostou-se a fragmentos da construção, suspirando esgotado. Cerrou os olhos, podiam-se ouvir ecos distantes dos treinos, gritos, explosões.
Sim, aquela era o domínio da deusa da justiça.
O mesmo que conhecera há mais de dez anos, um estranho das terras geladas do Norte pisando pela primeira vez em terreno grego. Recordava-se de que sentira vontade de arrancar as suas vestes, tamanho o calor sufocante que lhe invadira. Um adolescente grego de mesma idade que a sua, de cabelos ondulados e loiros a rir-se de seu óbvio desconforto, os dentes brancos surgiam através da boca carnuda ao sorrir.
O mesmo grego dos dias atuais apenas parecia uma versão crescida, ria da mesma maneira de suas atitudes e de seu ar orgulhoso. Brindava-o com um sorriso igualmente lindo. O som daquela risada, o adorava. Ainda que fosse o primeiro cavaleiro com quem implicara, Milo havia sido seu primeiro amigo. Não apenas na Grécia, mas da sua vida. O garoto teimoso o seguia onde quer que fosse logo aos dias seguintes a sua chegada. E antes que percebesse, tornaram-se uma dupla.
Com o passar do tempo notara ligeiramente que o companheiro ficara estranho, geralmente era distraído e centrado em si mesmo demais para perceber a mudança. Suas ausências continuavam, e nunca perguntara sobre, mas depois de dois anos achava-se abatido por conta delas. Fingia não entender os avanços ou movimentos mais íntimos do grego. Por todos os deuses, ambos eram rapazes e cavaleiros, cuja prioridade era a de tornarem-se defensores de Atena!
Não imaginava que seus ideais quebrassem em uma noite apenas.
Aquele homem, o segundo no comando abaixo de Shion, conhecido como mestre Ares. Fora cativado pela voz suave e sua gentileza, além de Milo, a pessoa mais próxima a qual se permitira chegar. As tardes de visita a sua biblioteca particular eram memoráveis, os gestos e toques calorosos. Não se importava...
Como conseguira ser tão cego?
As cenas torpes ainda estavam vivas nas suas lembranças, feições conhecidas misturando-se em atos que lhe revolviam o estômago. Justamente aquele rosto no meio deles. A mão anteriormente gentil apertando seu ombro, uma voz provocante a sussurrar em seus ouvidos.
Fugira da mão em um impulso, lançando-se em corredores sem fim, a mente difusa. Sentindo todo o muro ao seu redor desmoronar, queria vomitar. Quando se achava nauseado demais para continuar, o viu correr até onde estava, a expressão chorosa e abalada. Atropelava as palavras, com a voz embargada, o discurso era confuso aos seus ouvidos. Talvez tenha ouvido duas ou quatro coisas, ou apenas o final, antes que caísse esgotado.
Como a fuga de alguns minutos atrás em um impulso se ajoelhara e beijara o jovem cavaleiro de Escorpião. O doce gosto da boca, não se importava se pertencia ao outro que beijara antes, naqueles aposentos.
Provara seu corpo adolescente, assim como o grego provou o seu. Fizera-o prometer repetidas vezes, entre beijos e gemidos. Promessas essas que os anos o fizeram esquecer. Tiveram de crescer rápido, tornaram-se adultos precocemente. Havia lutas divinas a serem travadas.
Rumores chegaram a seus ouvidos, mas novamente, nunca questionara a ele, se eram fato ou não.
Não conseguira mais encarar a fria máscara do homem que se dizia ser Ares, sua náusea sempre voltava. Algumas vezes jurava que podia sentir um sentimento ressentido na sua voz quando se encontravam, outras, um prazer sádico e mordaz ao perceber seu desconforto. Aquele homem era Saga, que tivera mais de Milo do que gostaria de admitir.
Não sentia mais repulsa nem ódio, nem rancor. Difícil explicar, talvez porque entendia seu sofrimento causado pelo seu outro lado, perdoara pecados cometidos pelo outro. Por essa razão a reunião íntima de algumas horas atrás lhe parecera muito com as tardes na biblioteca.
Franziu o cenho e reabriu os olhos, sentindo seus membros adormecidos doerem. Fitou o horizonte através da vista enevoada, as nuvens pareciam generosas pinceladas de um laranja misturado ao rosa. A tarde findava e logo os treinos seriam encerrados, se já não os estivessem. Olhou para o pulso nu, sentindo falta do relógio. Ergueu-se e espanou a poeira da calça, era hora de voltar.
Moveu-se em direção das doze casas, vendo ao longe jovens excitados voltarem em grupos das arenas. Hyoga e Shun deviam estar em um deles, orientara-os para que treinassem juntos enquanto o grego se recuperava. Ultimamente não estivera em condições de cuidar de Cisne, quanto mais dele e do namoradinho. O canto de sua boca curvou-se em um breve sorriso, ficara feliz pelo discípulo russo, as coisas felizmente foram muito diferentes para ele.
Caminhando com a cabeça baixa, ouviu três vozes familiares, causando-lhe um arrepio na espinha. Voltou os olhos para a origem, encontrando Afrodite, Máscara da Morte e Shura reunidos embaixo de uma árvore. Cerrou os punhos com força e trincou os dentes, decidindo dar as costas e mudar de caminho antes que o percebessem. Mas era tarde, a voz melodiosa de Peixes o chamava, fazendo-o parar onde estava.
- Ora, ora. Quem temos aqui? Não devia estar cuidando de certo escorpiãozinho?
Virou-se com um olhar frio, vendo Afrodite descer afetado do muro onde estivera sentado e se aproximar com um sorriso enervante nos lábios rosados. Os outros dois o seguiram um pouco afastados, tinham o mesmo sorriso irritante. Logo se viu rodeado pelos três cavaleiros de ouro.
- Mas que olhar feio... Quase posso morrer de tesão com ele. – mordiscou o lábio inferior, ao som das risadas de Shura e Máscara.
Camus não revidou. O belo sueco chegou bem perto, em uma tentativa de capturar sua boca, o perfume atordoante encheu as narinas do francês. Em reflexo se afastou, trombando com o italiano atrás de si, esse riu divertido e segurou seus braços.
- O que foi, não gostou do meu perfume? Oh, eu sei, seu namorado cheirava a ele naquela noite, não?
O cavaleiro de gelo trincou os dentes mais uma vez e suas pálpebras tremeram. Peixes alargou o sorriso satisfeito, em cheio!
- Existem tantas coisas que Milo sequer pensou em mencionar a você, não é mesmo, Camus? – Máscara disse contra sua orelha.
- Me solta! – disse em uma voz firme e quase controlada, antes de se soltar dos braços fortes de Câncer. Afastou-se alguns passos, olhando-os cauteloso.
- O deixem em paz.
Shura completou com um movimento da mão, cruzando os braços e mirando atenciosamente um já agitado Aquário. Devolveu com um olhar furioso, o mesmo que lhe lançara no dia do duelo.
Junto com Saga, o espanhol esteve no limbo com ele. Confiara nos dois, para seguirem juntos enfrentando espectros e seus próprios companheiros. Suas dores compartilhadas, a dor da traição e do sangue amigo e amado derramado.
Depois de tudo que passaram, encarara Saga novamente, mas Shura... Desde o episódio com Milo, sentira mais nada além da vontade de arrancar sua cabeça. Como ele pôde?
Mesmo sentindo a animosidade do francês, Capricórnio tranquilamente se aproximou. Puxou o maço de cigarros do bolso, pegando um com a boca e guardando o maço. Prontamente Máscara ofereceu um isqueiro aceso, onde acendeu o cigarro, tragando algumas vezes. Cercou o cavaleiro de gelo, soltando fumaça enquanto andava ao seu redor. Parou de costas para ele, mirando seu relógio de pulso.
- Em algumas horas estaremos indo para... – deu uma pausa significativa – Creio que imagina para onde. – virou-se para ele, com um sorriso provocante. – Diga, Camus. Gostaria de vir conosco?
Shura ignorou as exclamações surpresas dos dois companheiros. Os três fitaram ansiosos o frio cavaleiro. Um grupo de aprendizes passou por eles, mergulhando-os em suas vozes altas e animadas.
oOo
Milo
'A dor pelo prazer;
a dor pelo prazer;
Com você não preciso mais morrer...'
Isso era algo que eu cantarolava quando tinha treze anos. Algo que aprendi com Saga. Ele costumava cantar ao meu ouvido antes que eu dormisse. Eu gostava dela. Gostava de ser a âncora dele. O que o mantinha preso a esse mundo. Era uma grande responsabilidade. E não quis abandoná-la mesmo depois de ele ter mudado completamente. Daí provinha parte de meu amor por ele: minha responsabilidade sobre sua vida.
Será que é errado sentir prazer na dor? Sentindo dor, provocando a dor?
Ninguém nunca me disse. Eu realmente não sei. Só sei que gosto de provocar a dor. Ainda lembro da primeira vez que tomei Afrodite de forma violenta. Ele passara a noite me instigando à distância na reunião que houvera na casa vazia de libra. Acompanhara-me até meu templo, sussurrando como preferia ser possuído.
- Gosto de ser prensado, jogado, empurrado. Gosto que subam em meu corpo, provocando até que eu grite que preciso ser possuído.
E sorrira de forma lasciva enquanto indicava meu templo com a cabeça.
Algo me impeliu contra ele e, antes que eu notasse, estava prensando-o, de costas para mim, contra uma das pilastras que circundavam a entrada principal.
- É assim que gosta? – sussurrei num tom duro, que o fez responder com um gemido.
Sorri. E descobri que gostava daquilo. Esfreguei-me atrás dele e Afrodite rebolou em resposta. Puxei-o pelo braço, arrastando-o para meus aposentos privados, onde o joguei em minha cama. Circundei-a observando o corpo quase feminino de Afrodite, praticamente exposto, coberto por uma túnica insignificante. Podia ouvir o suave chiar de sua respiração enquanto a excitação crescia.
Sentei-me na cama, arrancando a fronha de um dos travesseiros, amarrando o pulso esquerdo de Afrodite à cabeceira. Puxei mais uma fronha, firmando o outro pulso à barra de metal. Ele sorria, excitado e ansioso. Sequer tentava disfarçar. Deixei que a unha do indicador crescesse como que para desferir o "Agulha Escarlate" e a deixei correr sobre o peito dele. Desci e subi, cortando o linho fino. Tornei o movimento, não baixando o dedo além da linha do umbigo, observando a primeira marca surgir na pele. Continuei enquanto o vergão tornava-se cada vez mais rubro, até que um filete de sangue brotou. Antes de perceber o que estava fazendo, baixei o rosto e lambi a longa marca. Sorri ao sentir a pele quente sob meus lábios. Respirei fundo ao sentir Afrodite abrir as pernas amplamente, rebolando, implorando por mim.
- O que quer, Afrodite?
- Que você me coma, Milo.
Passei a unha pontiaguda pela glande, sentido sua agonia não tão silenciosa quando a apertei, forçando-a entre meus dedos, observando o grito mudo que morreu nos lábios do cavaleiro sob mim.
- A quem você pertence? – não sei por que perguntei, apenas precisava fazê-lo.
- Você, Milo. Só a você.
Sorri ante a resposta. E o possuí diversas vezes durante as horas seguintes, ciente de que seria punido por isso na noite posterior.
Gostei de tê-lo sob meu domínio. Ter visto Afrodite tão vulnerável e dependente me causou alguma inveja, não nego. Queria que fizessem aquilo comigo também, entretanto o mais próximo que Saga chegava disso era quando me forçava. Mas ali só havia dor.
Na noite seguinte foi um pouco diferente. Saga me amarrou de bruços na enorme cama, sussurrando ao meu ouvido como deveria ter sido delicioso dominar Afrodite; tê-lo fodido sem piedade por vezes e vezes. Murmurou para mim coisas picantes e sujas, fazendo-me suspirar e gemer, excitado. Então uma mão desceu na junção da coxa com a nádega direita.
Saga bateu e bateu durante muito tempo e, apesar de no início até ter achado bom, no final tudo que restava de mim era uma criança estendida sobre a cama, soluçando. E ele me violentou naquela noite.
O verdadeiro Saga tornou a si horas depois e me desamarrou entre lágrimas, implorando por desculpas enquanto me embalava e acariciava. Masturbou-me e chupou seguidas vezes, na esperança que eu o perdoasse se estivesse satisfeito. Acabei por possuí-lo assim que o dia raiou. E estávamos bem novamente.
Aquela foi apenas mais uma entre tantas outras vezes.
Mas nunca me disseram se o que eu fazia era certo ou errado. Só sabia que odiava quando Saga me forçava. Entretanto adorava quando ele murmurava em meus ouvidos ou aguçava meus sentidos sem me ferir. E, além disso, adorava provocar e torturar Afrodite, levando-o ao limite. Ele gostava de se submeter e eu queria ser como tal. Queria que alguém me dominasse como eu os dominava, mas nunca encontrei ninguém com tal habilidade. Jamais.
Afinal, é errado ou não?
E se não é, por que Camus me deixou sozinho?
oOo
O que diabos tinha na cabeça quando aceitou segui-los até ali? Recriminava-se mentalmente, enquanto corria os olhos pelo lugar escuro, propositalmente mal iluminado. A música alta e pesada, ferindo seus ouvidos, a fumaça lhe deixava tonto e fazia seus olhos lacrimejarem. Mas com esforço os mantinha bem abertos, mesmo que a contragosto, a observar a figura de ar andrógeno a sua frente, a alguns metros de distância.
Arranjaram-lhe um assento afastado. Houve alguns problemas ao deixá-lo entrar. E com razão. Esgueirou os olhos para os espectadores, seus rostos claramente contorcidos com algo chamado luxúria pura e descarada. Voltou-se para o que lhe parecia uma jaula, a qual atraía esses olhares. Então se perguntou novamente porque estava ali.
Ah, mas ele sabia o motivo. E ele tinha um par de grandes olhos azuis, cabelos dourados e pele de um encantador bronzeado. Sobressaltou-se no seu assento. Um jovem, não podia ter mais de dezesseis anos, vestido parcamente e os longos e magros membros a vista, lhe servia mais uma taça de champanhe, tirando o copo vazio da sua mesa. Deu um aceno breve de agradecimento, o menino sorriu, mas logo o ignorou friamente.
Mirou a jaula mais uma vez, era impossível manter os olhos afastados, sem imaginá-lo ali, no lugar do homem acorrentado. O dono do espetáculo, nada mais nada menos que o mais belo dentre os cavaleiros de Atena, a luz de dentro iluminava esplendidamente os sedosos cabelos loiros (1) de Peixes. Devia admitir, era uma visão atordoante. O corpo delicado estava coberto por seda e couro, o tecido apertado marcando as torneadas e longas pernas.
Inconscientemente apertou a taça em suas mãos quando o som do chicote estalou. Seguiu-se um grito de dor e um murmúrio de satisfação. Mesmo da distância em que estava, podia claramente ver o vergão vermelho recém feito pelo objeto. O homem se encontrava ajoelhado e preso, parecia apreciar imensamente cada golpe.
Camus levou uma mão à têmpora, cobrindo o olho esquerdo, mas incapaz de desviar o outro da cena. Ainda que seu estômago revirasse, lembrando de dez anos atrás. Ainda que seu peito comprimisse lembrando das marcas parecidas que deixara em seu corpo.
Uma mão em seu ombro o fez se sobressaltar de novo. Virou-se assustado para Shura. Este estreitou os negros e puxados olhos, curvando um dos cantos da boca latina, passou os dedos pelos fios ruivos e lisos.
- O que está achando?
- Vocês são sádicos... Pervertidos! – disse furioso entre dentes, ergueu-se – Não ficarei aqui para ver mais!
Com um safanão afastou a mão. Felizmente a música estava alta e o espetáculo devia estar interessante, os freqüentadores não deram atenção aos dois. Pôde se afastar apenas alguns passos, até ter a cintura envolvida por um braço e o pescoço por outro, impedindo-o de continuar. Shura o puxou para o canto de uma parede, não muito longe de onde estava antes.
Remexeu-se furiosamente, tentando se soltar, Shura encostou a mão em riste contra seu pescoço, logo abaixo do pomo-de-adão.
- Se gosta de sua cabeça onde está, acima do pescoço, sugiro que fique quieto.
A voz soou firme e séria contra seu ouvido, moveu os olhos cautelosamente para baixo. Os membros de Capricórnio eram tão afiados quanto a lâmina de uma espada. Já os vira em ação o suficiente para saber que não estava brincando. Aquele era Excalibur.
Vendo que Aquário o obedecia prontamente, o espanhol soltou uma risada abafada e aspirou o perfume do cabelo vermelho, enterrando a narina na nuca tentadoramente próxima. A mão na cintura passeou mais para baixo, acariciando a frente da calça do francês, antes de se aventurar por dentro do cós. Camus se rebelou, mas uma pressão dos dedos em sua garganta o fez parar.
Cerrou os olhos com força e impediu que um gemido irrompesse de sua boca. Shura riu, estava impressionado, quanto será que aquele cavaleiro possuía de autocontrole?
- Abra os olhos, Camus. – ordenou, segurando seu rosto rudemente na direção de Afrodite.
Entreabriu eles a tempo de ver o sueco lançar um olhar rápido para os dois. Teve consciência da mão abaixo de si, massageando-o insistente. A voz do espanhol era rouca e causava-lhe arrepios.
- Sei que é difícil acreditar, mas é a verdade. – começou, sem deixá-lo em paz – Sabe aquele nobre Saga que voltou a respeitar quando estávamos nos domínios de Hades? Creio que tenha conhecimento do relacionamento que manteve com seu amado grego. Mas o quanto conhece, o quanto lhe permitiu saber?
"Milo mal completara treze anos, Saga era um excelente amante, e garanto que ainda o é. Era de se esperar que se apaixonasse por ele, o cavaleiro de Gêmeos sempre foi caloroso e gentil. Concorda comigo, não concorda? O problema de Milo foi envolver-se ao ponto que se envolveu. Mesmo conhecendo o lado ruim de Saga, recusou-se a deixá-lo. Ah, as coisas que ele o obrigara a fazer e passar..."
Camus estremeceu, deixando a guarda baixa e acabando por deixar escapar um gemido abafado, quando sentiu os dedos longos pressionarem a glande encoberta. O outro sorriu ao ouvir a voz melodiosa.
- Ele se perdia mais e mais, precisava ver, era deprimente. Oh, mas então chegara ao Santuário um pretendente a armadura de Aquário. Apenas conhecendo-o antes para saber o qual impressionante foi a mudança. O segundo maior erro de Milo, Camus.
"Só um cego para não perceber, mas você era e sempre foi. Assim como não abandonou Saga, se afundou mais e mais nas garras do "outro". O que ele podia fazer? O novo cavaleiro dourado que tomava seu coração era idealista, puro, honrado, ridiculamente perfeito demais!"
Apertou-lhe mais ao pronunciar a palavra "perfeito", o francês mordeu o lábio, evitando que outro gemido escapasse como o anterior. Um anjo pérfido agora pressionava o membro descoberto do homem torturado com a ponta da bota. O viu passar a língua pela boca rosada, sentindo prazer no que fazia. O espanhol voltou a atormentar-lhe com sua voz.
- Foi preciso quebrar essa armadura de perfeição, não foi? Ainda lembro da carinha juvenil desiludida quando adentrou aquela sala, Camus. Tão tentadoramente inocente que tive de me conter para não ir atrás e tomá-lo.
"Milo foi mais rápido, parecia tão frágil quanto você." – abrandou o tom por alguns segundos.
"O que nos chamou agora a pouco? Sádicos, certo?"
Ofegou, sentindo a mão massagear com mais firmeza, meio rude. Teve de deixar o corpo pender contra o corpo quente do espanhol, não conseguia se manter em pé. O outro segurou, as pernas prendendo os quadris do ruivo.
- De que modo vem agindo, Camus? Principalmente com aquele que tanto gosta?
"Entenda, a dor é como uma droga, um vício, um mau hábito. Quando se esteve como ele esteve, apenas um segundo de descuido te faz cair de novo. Eu sei disso. Nós estivemos lá. Saga esteve lá. Ouviu os rumores, certo?"
"Onde o amado cavaleiro estava? Em algum lugar da Sibéria, ou era o que presumíamos. Porque o orgulhoso novo mestre simplesmente não se importava com o que acontecia no Santuário."
"Quer saber o que ele fazia quando o tomávamos, quando tomava Afrodite? Ele sussurrava, para si mesmo. Só um nome, e que não pertencia a nenhum dos muitos amantes."
Pôde jurar que naquele momento qualquer um naquele escuro e sufocante pub podia ouvir seus ofegos e gemidos, que a custo tentava conter com os dentes cerrados.
- Puna-o por te trair, se quiseres. Mas puna-se primeiro por seres a causa, Camus.
Sentiu o corpo tremer em doces espasmos e deixou-se deslizar para o chão. O som dos murmúrios, gemidos, gritos, estalos e música voltaram a seus ouvidos. Sua vista ficou embaçada e quando passou a mão nas faces, as descobriu molhadas. Shura agachou-se, mostrando sua mão, os dedos cobertos do seu gozo.
Ergueu-se de súbito, sentindo-se ultrajado, afastando-se apressado. Empurrou as pessoas em seu caminho, tudo o que queria era se ver fora dali e respirar. Trombou com alguém, viu Afrodite com as faces coradas e aquele sorriso. Desvencilhou-se e sumiu na fumaça.
Câncer aproximou-se do espanhol, que tirava um lenço do bolso e limpava-se.
- Não acha que o assustou demais?
- Talvez... – fez um sinal para que se aproximasse, beijando-o – Acho que preciso de uma ajuda aqui.
Com um sorriso, levou a mão do italiano até a protuberância em seu baixo ventre. Entendendo, o italiano apagou seu cigarro e agachou-se.
oOo
Acordara sozinho e despido na cama de casal que, apesar de ser gigante, ocupava uma parte ínfima no enorme quarto de Camus. Sua cabeça anunciava que era melhor ter permanecido de olhos fechados. Xingou algo em grego. Primeiro em função da dor – não havia nada que detestasse mais do que acordar sentindo o latejar característico –, depois pela maldita repetição de cenas – aquela era a terceira, talvez quarta, vez naquela semana que acordava sentindo que havia sido atropelado por um caminhão, numa cama que não lhe pertencia e, principalmente, sozinho.
Resmungou algo, andando nu pelo quarto. Parou em frente ao grande espelho e sorriu ao lembrar da noite – havia sido uma noite? – anterior. Analisou o corpo, chegando à conclusão que mais uns dois ou três dias e estaria como se nada tivesse acontecido.
Procurava uma túnica quando Mu adentrou o quarto. Áries corou violentamente, puxando um dos lençóis, jogando-o sobre Milo para cobri-lo.
- Você ainda não está em condições de ficar andando por aí, Milo de Escorpião! – vociferou.
Obediente, Milo voltou para a cama, observando o balde d'água ao lado da mesma. O ariano sentou-se a seu lado, mergulhando um pedaço de pano na água morna, torcendo-o e levando-o até o rosto do jovem homem a sua frente. Passou-o delicadamente sobre a pele morena arroxeada da face e pescoço, tornando a molhá-lo e passá-lo pelos músculos do peito. Milo suspirava diante do toque refrescante da malha macia.
- Onde está Camus? Não era ele que estava cuidando de mim?
- Eu fiquei encarregado da sua recuperação, apesar de Camus ter permanecido o tempo todo a seu lado, até ontem.
- Ontem?
- Não sei por que cargas d'água ele sumiu depois de ver a Deusa. Saga disse-me que Saori não o puniu, logo, ele foi por vontade própria.
- Pra onde?
- Só Zeus sabe...
Mu terminou de limpar um Milo calado, que fitava o chão. Shun logo entrou no quarto, assumindo seu turno. Andrômeda e Áries combinaram de revezar enquanto Milo estivesse acamado. O jovem pupilo vestiu o mestre, se recriminando por ficar tanto tempo encarando o corpo definido a sua frente. Hyoga teria uma crise de ciúmes se o visse daquela forma. Penteou cuidadosamente os longos fios louros ondulados, prendendo-os num laço frouxo para evitar que embaraçassem muito. Sorriu para o mestre, que manteve o silêncio, envolto em pensamentos.
oOo
Camus
Um alívio percorreu meu corpo quando pude soltar todo o ar preso dos meus pulmões. Voltei e olhei para a entrada do pub, localizado no lugar mais duvidoso da capital. Fugi, mais uma vez, e não vivi a vida inteira fugindo?
Cantadas em grego e mãos tentando me alcançar me acordaram do torpor, minhas pernas pareciam mover por conta própria. De cabeça baixa afastei-me o mais rápido que pude, logo ouvi o som dos meus sapatos ecoarem em vielas escuras e vazias. Olhei para os lados, onde estava? Nunca estive naquele pedaço da cidade antes, bom, nunca precisei passar uma noite naquele tipo de lugar antes.
Passei os dedos nervosos pelo meu cabelo, andando apressado. Oh, um táxi. Estava estacionado, olhei pelo vidro, o motorista parecia estar adormecido no volante. Comecei a tatear o bolso, estaquei. Tirei algumas notas do bolso traseiro, não lembro de ter pegado dinheiro. Minha mente voou para o espanhol, entendendo. Não importava, realmente.
Bati na janela, o rapaz pareceu sair de seu sono e me olhou como se pensasse que eu fizesse parte do seu sonho. Demorou até que acordasse e destrancasse a porta do banco traseiro para mim. Murmurei o destino e me esparramei no estofado, encostei a testa na janela, agradecendo a temperatura fria do vidro. Sentia-me quente.
Senti o olhar insistente do motorista sobre mim, mas não estava a fim de me importar, que olhasse o quanto quisesse. Só não falasse comigo, por favor. Cerrei os olhos, embalado pelo movimento do carro.
Então as palavras de Shura voltaram a minha cabeça, martelando. Assim como a imagem de Afrodite dentro daquela jaula, as pessoas dentro daquele pub, cheiro de cigarro, álcool, sangue e sexo. O carro parou e só então abri os olhos, vendo o rapaz virado para trás. Resmungando, empurrei-lhe as notas que apertava com força entre os dedos todo o trajeto, sem se importar com o valor da corrida.
Saltei para fora e esperei até ver o carro sumir de vista. O resto do caminho eu completei a pé, cruzando as ruínas, alcançando o vilarejo. Andei de cabeça baixa, rezando para que houvesse ninguém acordado àquela hora. Não confiava no meu autocontrole, me sentindo em pedaços como nunca estivera antes. Minha aparência também não ajudaria muito. Deixei minhas pernas perambularem, subirem escadas de pedra, atravessar bosques, casas rústicas. Parei e franzi o cenho, erguendo o rosto para ver o símbolo gravado no mármore, as duas figuras semelhantes em alto relevo em cada lado do templo.
- Como... Por quê?
Mas não importava mais, importava? Estava quebrado, assim como aquele dia, como Shura havia dito. O que estava fazendo... ah, não ia deixar meu lado racional rebater.
Entrei no templo, sem hesitar avançando para a parte habitável. Avistei luz através de uma porta, segui para ela e abri sem cerimônias. Saga imediatamente levantou o rosto, vestoa apenas um robe negro, os pés descalços sobre o tapete. Descobri logo ser o quarto, vendo a cama pronta pelo canto dos olhos. Encontrava-se sentado a uma escrivaninha de época, pouco curvado sobre alguns pergaminhos e livros.
Pela expressão surpresa não esperava que fosse eu. Mesmo assim brindou-me com um sorriso, apertei minhas pálpebras em resposta. Não, não faça isso.
- Camus? Onde estava? Mu perguntou por você... –
De fato, minha aparência não devia estar nada boa, pois pareceu que se preocupou muito com meu estado. Levantou-se e seguiu até onde estava, cerrando a porta atrás de mim e me puxando até a cama, fazendo-me sentar no colchão. Olhei para as mãos gentis entre as minhas, para os lábios que se moviam, sem ouvi-lo.
- Saga...
Interrompi-me, minha voz soando abafada demais, ele prontamente me olhou, prestando atenção.
- Lembra de dez anos atrás, não lembra? – o vi arregalar ligeiramente os olhos – Eu sei que sim, sei que pode lembrar de cada momento em que era outro.
O geminiano sacudiu a cabeça, desviando o olhar para que eu não visse sua perturbação. Murmurou para que não falasse sobre aquilo, mas eu não queria. Não podia tirar tudo que martelava em sua cabeça, de maneira alguma! Segurei seu queixo e o forcei a olhar para mim.
- Por quê? Me queria, não é verdade?
- Camus... – suspirou pesadamente, como se para escolher as palavras, pareceu desistir – O que você quer que eu diga? O que quer que eu faça?
Acho que foi o que eu finalmente esperava que dissesse.
- Que faça comigo...
Não precisei falar mais para que entendesse, sua reação mostrou-me isso. Seu rosto calmo contorceu-se em uma onda de fúria, erguendo-se com tal vigor como se minha proximidade queimasse. Creio que sim, eu me sentia ainda terrivelmente quente.
- Estás louco? Bebeste? Te enfiaste em algum bar de quinta e encheste a cara?
- Antes fosse... – murmurei encarando o chão, como uma criança.
- Agradeça aos deuses por escapar daquela noite, Camye!
- Por favor... – cerrei os punhos contra o colo – Faça o que fez com ele, eu preciso.
Silêncio. Pude ouvir meus soluços e sentir a face molhada de novo. Ele devia ter visto também, mas não ousei encará-lo. Ele se ajoelhou na minha frente, passou os dedos secando as lágrimas, os lábios gentis cobriram os meus em leves beijos. Não era o suficiente.
- Não. Não 'este' Saga, esse eu conheço bem. Quero o 'outro'.
Parou a alguns centímetros dos meus lábios, sentia seu hálito quente, recendendo a vinho. Segundos passaram parecendo uma eternidade, antes que meus lábios fossem cobertos novamente. Só que agora a boca movia-se sedenta, sugando, mordiscando. Ofeguei, quando a língua invadiu-me. Dentes puxaram o lábio, senti gosto de sangue.
Agarrei-me aos ombros, gemendo, isso pareceu encorajá-lo, subindo em cima de mim e me fazendo deitar. Mãos passearam pelo meu corpo, empurrando os quadris contra mim, a boca deslizando pelo pescoço e peito. Se eu resolvesse desistir agora, seria tarde demais.
Ofegante, afastou-se de mim, postando os joelhos um em cada lado do meu tronco. Admirei o homem acima de mim, as faces coradas, os cabelos desfeitos, o ar selvagem. Passou a mão pelo cordão que prendia o robe. Hesitou, vi milhares de dúvidas e receios passarem pelos olhos claros. Não, não hesite. Arrancou o cordão com fúria, gritei surpreso. Agarrou-me os dois braços e os juntou, amarrando os pulsos. Senti a firmeza dos nós, o tecido roçando dolorosamente a pele.
Uma onda de pânico ameaçou tomar conta de mim, mas me mantive. Saga jogava o robe para longe, mal tive tempo de conferir sua nudez. A camisa fora rasgada, alguns botões voaram, a calça teve o mesmo destino. Cerrei os olhos, sentindo-me vergonhosamente exposto.
Dentes marcaram a pele por onde passavam, não queria ver só sentir. Somavam-se as feridas adquiridas nos últimos dias. Fui virado de bruços na cama, os dentes e a língua passaram a trabalhar nos ombros descobertos, procurando caminho entre o cabelo. Segurou meus pulsos e os amarrou na cabeceira, fazendo-me ficar ajoelhado.
Seu quadril pressionou-se contra mim. Pela deusa, estremeci de medo, não imaginei que seria tão rápido. Sem aviso o senti entrar, não pude conter um grito de dor. Ele parou trêmulo como eu.
- Droga, Camus. Porque veio até aqui desse jeito?
Pendeu a cabeça contra minhas costas, encolhi meus ombros, encostando a testa nos pulsos presos e doloridos.
- Só não pare... – choraminguei.
Ouvi uma exclamação raivosa, antes de me sentir rasgar em dor. Depois ele calou-se e continuou avançando, sem descanso. Estava nervoso, eu sabia. Doía como o inferno, sentia-me ainda mais quente que antes. Com a cabeça enterrada nos braços pendurados, eu sei que gritei, que chorei, que sangrei.
Em uma última estocada desabou em cima de mim, a respiração pesada contra minha nuca. Senti algo além escorrer de mim. Meus joelhos não agüentaram e desabei na cama, os pulsos e algo mais latejando. Senti-me cansado e sonolento, cerrei os olhos.
Desamarrou-me e lábios gentis beijaram as feridas causadas pelo cordão. Mãos delicadas afastaram o cabelo úmido do meu rosto, da minha testa, dos ombros. Mas não me deixaram dormir, porque logo me guiavam.
- Ainda não terminou.
A voz dura me fez abrir os olhos, encarei suas pernas, o membro semi-túrgido que se oferecia a mim. Tentei levantar a cabeça, mas uma mão agarrou meu cabelo e me forçou para baixo. Gemi em protesto.
Não queria que visse seu rosto, sabia o que veria afinal. Passei as mãos pelas coxas, tomando-o com a boca, sugando-o lentamente. Até fazê-lo vir e sentir seu gosto.
Perdão, Saga...
oOo
Quatro dias passaram e nem sinal de Camus aparecer. Milo estava praticamente restabelecido. Retomou o treinamento de Shun sem, no entanto, envolver-se em lutas corporais. Comandava tudo à distância, explicando como ele deveria proceder. Andrômeda estranhou o fato de Milo retomar as atividades de forma tão rápida – esperava que o mestre entrasse naquele estado de apatia e depressão em que caíra pouco mais de uma semana atrás. Entretanto o cavaleiro de Escorpião parecia estar perfeitamente bem.
Milo sorria para todos, brincava com aprendizes e servos, como de costume e, sempre que podia, soltava algum comentário picante sobre Hyoga que fazia Shun ter vontade de enterrar o rosto no chão de terra batida da arena. E ele ria muito, como sempre. Tudo parecia estar bem, então tudo estava bem.
Mais dois dias se passaram na mesma situação. Ninguém comentava nada, ninguém perguntava e tudo transcorria de forma normal. E cada hora que passava, Shun ficava mais e mais preocupado com Milo. Havia algo de muito errado naquela situação toda.
- Mestre, o senhor está ocupado esta noite?
- Hmm... Acho que não, mas pode avisar ao pato pra tirar o cavalo da chuva, que não sou pedófilo para brincar de ménage a trois com vocês dois.
- MESTRE! – Shun queria sumir.
Milo gargalhou.
- Diga o que é e pensarei se estarei livre ou não.
- Como hoje é sexta, eu ia convidá-lo para sair comigo e Hyoga. Para dançar e beber um pouco.
- Beber? E você lá tem idade para beber?
- Milo... Fiz dezoito anos mês passado.
- Ainda assim é uma criança!
- Não vou discutir isso. Você vem com a gente ou não?
- Shun, definitivamente não eu tenho vocação pra castiçal.
- Conhecendo-o como o conheço, duvido que leve mais de dois minutos para arranjar companhia.
Milo tornou a gargalhar, mas havia algo de errado naquele riso. Era uma gargalhada triste.
- Tudo bem... Acariciou o ego direitinho. Vou com vocês.
Shun ergueu uma sobrancelha e sorriu, agarrando-se ao braço do mestre. Trazia uma mochila ao ombro, o que era atípico para um garoto cuja única coisa que levava consigo era uma toalha de rosto pendurada à faixa que amarrava a túnica por sobre a calça curta de treino. Milo desviou o olhar para a bolsa em função a proximidade dos corpos.
- O que está carregando na mala?
- As roupas para sairmos. Vim preparado! – piscou.
- Posso saber onde pretende se arrumar?
- No seu templo, mestre, óbvio!
- Tsc! Cresceu mas continua o mesmo moleque de sempre.
Andrômeda riu e subiu correndo o ultimo lance de escadas, chegando antes de Milo à frente do Templo. Esperou-o enquanto o mesmo subia lentamente os últimos degraus e caminhava na direção dele. Shun apontou de longe um embrulho de papel pardo que estava sobre o chão da entrada principal da casa de Escorpião.
- O que é aquilo, mestre?
Milo adiantou-se, tomando do pacote um pequeno bilhete dobrado. Reconheceu de pronto a letra arredondada e cuidadosa.
- É de Camus. Teremos de deixar a noitada para outro dia, Shun. Ele está de volta.
oOo
Mirou para cima, observando as formas do templo grego. Havia um que de arquitetura russa, podia ser apenas impressão sua, mas emitia um frio como seu dono. Instintivamente passou os dedos pelos cabelos ondulados, amaciando-os. Ainda mantinham o frescor do banho recém tomado. Mordiscou os lábios, ansioso, e então continuou a subir as escadas.
Era sexta à noite, a cidade fervia, os jovens estariam bebendo, dançando. No entanto, o lugar onde queria mais ir estava a apenas alguns passos de distância. Adentrou o salão da entrada, o salto da bota produzindo um som que parecia de metal contra metal. Parou, apertando mais o nó que fechava o sobretudo negro que lhe ia até as canelas.
Tinha de admitir que ficara um tanto surpreso e corado ao abrir o pacote. Vestiu-se, escondendo as peças da roupa com um longo casaco de couro opaco que só usava em ocasiões, bem... especiais.
Aproximou-se dos aposentos particulares de Aquário, chamando-o baixinho. Sem resposta, continuou a andar, abrindo as portas dos aposentos escuros. Olhou para a porta de onde sabia ser a biblioteca particular de Camus. Sabia o quanto gostava de passar seu tempo ali.
Havia uma mesa posta no meio, algumas velas iluminavam as estantes cobertas de livros. Dava um ar fantasmagórico, se segurou para não rir. Aproximou-se, conferindo o que cheirava tão bem, despertando seu estômago. Abriu a tampa de prata das travessas: salmão, camarão, saladas. Uma refeição leve, constatou. Pegou a garrafa de vinho branco e observou o rótulo, assobiando baixinho. Não devia ter saído muito barato.
Um som vindo do canto esquerdo o fez sobressaltar-se e devolver a garrafa à mesa. Então o viu, sentado de pernas cruzadas em uma poltrona, longe da iluminação. Gemeu frustrado, Camus estava igualmente coberto como ele, só que era um casaco cinza, de aspecto de veludo. Resistiu à vontade de conferir a textura do tecido, permanecendo onde estava enquanto o via se levantar e se aproximar.
- Obrigado pela pontualidade. – o viu curvar-se ligeiramente – O jantar acaba de ser servido.
Ergueu as sobrancelhas, a boca ligeiramente aberta de espanto. Mas logo se recompôs e sentou-se na cadeira que ele oferecia. Camus sentou-se no lado oposto, de frente para ele. Felizmente a mesa era pequena, pode observar o francês sob a luz bruxuleante das velas entre eles. O cabelo liso caindo pela frente dos ombros, os olhos vermelhos voltarem-lhe a inspeção, o modo como a boca movia-se ao comer.
Olhou divertido para a comida e o imitou, saboreando o salmão e o vinho. Segurava sua ansiedade o máximo, havia muito que perguntar.
Depositou os talheres no prato vazio. Camus havia terminado há muito tempo, mas Milo estava com muita fome e comeu mais do que planejara. Brindou o francês com um sorriso maroto, remexendo-se na cadeira e se precipitando na mesa, postando os cotovelos nela.
- Não que eu não tenha apreciado a comida, mas... Por quê? – baixou o tom de voz, sussurrando – E onde arranjou essas roupas? – abriu um pouco o sobretudo, apontando para o próprio peito.
O cavaleiro de gelo pôs os cotovelos também em cima da mesa, se inclinando, a franja ruiva roçou levemente sua testa. E então sorriu de uma forma que fez todos os pêlos do corpo de Milo se arrepiarem. Escorpião umedeceu os lábios e tentou entender o que aquele olhar lhe revelava.
- Por quê? Por sua causa, apenas por isso.
oOo
Continua...
Setembro/2005
1. Tenho impressão de que Afrodite tem cabelo loiro no mangá. Todos os personagens teriam cores de cabelo normais no quadrinho de Kurumada, pelo que soube.
- Trecho de "Master and Servant", do Depeche Mode.
N.A.:
Mudoh Belial: Okay... 'olha assustada para a fanfic' Okaaay... Até eu fiquei assustada com esse capítulo. "Mas não era pra terminar nesse?" Que era, era, mas não me perguntem a respeito! Está aí, não está? Pois é, o próximo só ano que vem... Aliás, repararam que Poison Love já fez um aninho? 'foge desesperada'
Senhorita Mizuki: Ow Zeus, o que eu fiz, o que eu fiz? 'correndo desesperada até a ponte mais próxima... antes que mais alguém faça isso por ela'
