Título: Desejo

Autor: Umi no Kitsune / Adriana Adurens

Disclaimer: PoT e suas personagens pertencem ao fofíssimo Ko-chan. Pô, fala sério. Só mesmo um apelido gay para o criador de algumas das personagens mais gays da história, né? " Takeshi Konomi é o nosso Chibi Chibi Ko-chanzinho

Avisos: Mesmo universo de Flácido, Acidente, Encontro, Reencontro, Dominó... etc e tal. (isso tá ficando chato . Eu preciso arranjar um nome para o universo dessas fics. ") Quando os meninos se formarem, estarão com 15 anos e irão para o ensino médio. Aqui no Brasil, geralmente, vamos para o ensino médio com a mesma idade, por isso, eu chamarei de fundamental a escola atual (no mangá, não nessa fic) deles. Yaoi. Se você gostou da fic e a quer em seu site, por favor, peça permissão.


"E aí, Fuji? Planos pra de tarde?", Eiji veio correndo até o amigo, agarrando-o pelo braço e andando com ele de mãos dadas até o vestiário.

Fuji sorriu para o ruivo, deixando sua mão ser jogada para frente e para trás, "Acho que irei importunar o Tezuka um pouquinho hoje."

"Oh, mesmo?", Eiji piscou maroto, sorrindo de lado, "Bom, acho que vou importunar o Oishi um pouquinho também, então.", ele confessou, fingindo segredo, "Assim, um poderá consolar o outro depois."

Os dois riram, sendo recebidos no vestiário por olhares atentos e cautelosos já que a fama deles no colegial não demorou muito a se espalhar.

Oishi recusava-se a olhar para o ruivo, mas acabava olhando mesmo assim, tornando-se mais amargo e azedo toda a vez que conseguia desviar os olhos dos quadris de Eiji, que gostava de trocar de roupa dançando. Os dois brigaram no ano passado, logo após a formatura da escola e faziam questão de permanecer assim e mostrar a todos como, realmente, eles conseguiam ser apenas amigos.

Ninguém, é claro, comentou o fato de que o Golden Pair não estava mais tão golden assim, culminando com a perda da posição de primeira dupla.

Tezuka raramente entrava no vestiário no mesmo horário dos outros, mas, quando entrava, lançava um olhar para Fuji, assim como para todos os outros membros do clube, e ocupava-se das suas coisas rapidamente, saindo tão silenciosamente como entrou.

"Acho bom você ir pegar o Oishi antes. E rápido.", Fuji disse, enquanto abotoava a camiseta, "Eu quero falar com Tezuka a sós hoje."

"Hm-mm... Vou fazer isso.", Eiji respondeu, passando os dedos por entre o cabelo úmido, tentando colocar um pouco de vida nas ondas caídas e escorregadias, "Escute, eu quero ir ao cinema nesse fim de semana."

"Qual filme quer assistir?", Fuji perguntou, um pouco distraído, arrumando suas coisas.

"Aquele latino... com o ator bonitinho."

Rindo, pois imaginava que Eiji só queria assistir ao filme por causa do ator e não por sua mensagem política, Fuji apenas concordou, "Tudo bem. Eu te pego às 20:00h?"

"Isso!", Eiji tascou-lhe um beijo na bochecha e afastou-se, com um sorriso maroto, "Deseje-me sorte!", ele sussurrou, andando até Oishi com inocência fingida, "Oishi..."

O moreno, ocupado com sua própria roupa e perdido na conversa com Tezuka, assustou-se com o tom manhoso, virando com olhos confusos e bochechas vermelhas para o ruivo, "Si-sim, Eiji?"

Eiji sorriu de um modo que ele só usava quando queria seduzir, inclinando o rosto para o lado e tomando a liberdade de terminar de abotoar a camiseta do moreno, "Eu queria sair hoje... não sei, talvez tomar um sorvete...?", ele disse com olhos pedintes, observando a pele do outro arrepiar-se com seu toque, "Que tal me dar a honra de sua companhia?"

"Bom, eu... er...", Oishi olhou para Tezuka, para sua pasta cheia de lições por fazer e, finalmente, voltou a olhar o ruivo sorridente a sua frente, perdendo-se naqueles olhos felinos e marotos, "Claro.", ele respondeu sem pensar.

"Ótimo!", Eiji pulou no pescoço do moreno, rodando com ele no mesmo lugar. Antes mesmo de voltar a pôr os pés no chão, ele já estava com o braço do outro bem preso entre os seus, arrastando-o para fora do vestiário, "Estou morrendo de saudades daquele super triplo com calda de cassis!"

Tezuka observou silencioso as interações entre os dois, recomeçando a guardar seu material tão logo percebeu que Oishi já estava sob o controle de Eiji.

"Tezuka?", o moreno não virou o rosto ao reconhecer a voz, ele apenas acenou um cumprimento curto, fechando o zíper da raqueteira e colocando-a no ombro, "Posso te acompanhar?", com outro aceno curto, Fuji ajeitou a própria raqueteira e seguiu atrás do outro.

"Venha cá.", Tezuka sussurrou tão logo atravessaram a porta, chamando-o para um canto mais reservado entre as quadras, "Você é uma péssima influência para Kikumaru.", ele o acusou, com um sorriso de lado, puxando o loiro para perto.

"Ora... e até hoje você não pensou em fazer nada para salvá-lo?", Fuji retribuiu o sorriso, deixando ser abraçado pelo outro.

"Prefiro me preocupar com a influência que eu mesmo recebo.", Tezuka respondeu, escorregando as mãos até os quadris do outro.

"Oh, mesmo?", Fuji riu, sentindo um beijo leve sobre seus lábios ainda abertos em um sorriso, "É bom que pense assim, então.", ele comentou, devolvendo o mesmo beijo suave, "Pois eu não pretendo diminuir a influência que exerço sobre você tão cedo..."

O beijo foi calmo e sem pressa alguma, cada um aproveitando o momento ao máximo, explorando preguiçosamente o que já conheciam bem um do outro. Tezuka sentia-se tão atraído pelo loiro que não conseguia fazer menos do que trazê-lo cada vez mais próximo de si, apertando o abraço, comprimindo o corpo esguio contra o seu. Fuji, por sua vez, parecia querer sempre tomar mais do que lhe era possível do moreno, ficando na ponta dos pés para conseguir segurar o rosto dele entre suas mãos e conduzindo o beijo na maior parte do tempo.

Não eram namorados, não eram exatamente amigos. Eram conhecidos, bem conhecidos, colegas de escola e clube. O desejo unia os dois em momentos como esse. Um desejo que os dois ainda não sabiam explicar, mas sabiam ser impossível de negar.

"Vou ao cinema com o Eiji nesse fim de semana."

Tezuka assentiu, entendendo o recado, "Vou dar um jeito em Oishi. Que horas?"

"Eu vou pegá-lo às 20:00h, mas iremos na sessão das 21:30h."

"Ok...", Tezuka calou-se, pois Fuji já se inclinava novamente sobre ele, para mais um beijo, "Melhor irmos.", ele disse, afastando o loiro e depositando um último beijo sobre os lábios dele antes de saírem juntos.


"Nya! Eu não acredito que vocês fizeram isso de propósito!", Eiji praticamente gritou, no saguão do cinema, pouco se importando com os olhares que recebia, "Grande amigo, você!"

Fuji suspirou, também ignorando as pessoas em volta, "Ele está tão nervoso quanto você, aposto que está reclamando o mesmo com Tezuka o que você está reclamando pra mim. Que tal voltar lá pra dentro e se juntar a ele contra nós?"

"Fuji! Isso não tem graça nenhuma!", Eiji fez que ia arrancar os cabelos, andando de um lado para o outro, "Eu não acredito que você e o buchou se juntaram contra mim..."

"Certo. Não quer assistir ao filme? Posso ir embora com você, não tem problema. Vamos deixar os dois lá dentro."

"Nya... isso também não!"

"Então, resolva-se, Eiji... os comerciais irão acabar e nós vamos perder o começo do filme.", Fuji comentou, olhando no relógio, "Oishi não é nenhum estranho pra você. Não é como se fosse um encontro às escuras."

"Bah!", Eiji pegou o amigo pela mão e puxou-o de volta à sala do cinema, "Vamos acabar logo com isso."

Os dois passaram entre as fileiras de cadeiras até chegar onde Tezuka e Oishi estavam. Com um tom que recusava negativas, Eiji apontou para Oishi, "Você, vai pra lá. E você...", ele apontou para Tezuka, "Pra lá.", ele cruzou os braços e ficou em pé, esperando os dois se movimentarem.

Oishi fez cara de quem ia protestar, mas ao ver Tezuka erguendo-se e obedecendo a ordem do ruivo, ele apenas suspirou, sentando-se no lugar determinado. Fuji e Eiji sentaram-se nas duas cadeiras vagas entre os dois.

"Muito ruim?", Tezuka perguntou, com um sorriso teimando em aparecer no canto de seus lábios.

Fuji sorriu, dando de ombros, inclinando o corpo na direção do moreno, "Escandaloso como de costume.", ele ajeitou-se mais ao sentir o braço de Tezuka envolvendo seus ombros, "E você?"

"Temeroso como de costume.", ele encerrou a conversa, apoiando a cabeça sobre a de Fuji, aproveitando-se da maciez do cabelo fino.

Eiji e Oishi, ao contrário dos dois, estavam rígidos em suas cadeiras, olhando fixamente para a tela, mesmo que não estivessem prestando atenção em nada exibido nela. Alguns segundos antes do filme começar, Oishi virou o rosto lentamente, "Er... me desculpe... eu não sabia... er... não sabia de nada."

"Shhh! Vai começar.", Eiji cortou-o, fingindo interesse em desvendar os créditos iniciais, em espanhol, esquecendo-se de ler as legendas.

"... desculpe...", Oishi sussurrou, mais para si mesmo, voltando a encarar a tela.

Minutos depois, sua parca atenção no filme foi quebrada por um movimento estranho ao seu lado. Tentando olhar com o máximo de discrição que lhe era possível, Oishi notou que Eiji balançava a perna ritmicamente, rapidamente, como um tique nervoso. Engolindo em seco, ele obrigou-se a ignorar o movimento.

"Seu idiota..."

Oishi assustou-se com a ofensa sussurrada, olhando para os lados, pensando ser outra pessoa. Mas, quando virou-se para o lado do ruivo, o viu com uma expressão que adornava as feições juvenis raras vezes e, imediatamente, culpou-se por ser o responsável em fazer o outro chorar.

Irritado consigo mesmo, Eiji esfregou a manga do casaco sobre os olhos, secando as lágrimas que ameaçavam cair. Não percebeu quando uma mão pousou sobre a sua, quente e confortável.

"Eiji?"

Por instinto, o ruivo virou o rosto na direção do moreno, "Hn?", voltando a olhar para a tela logo depois, ao perceber que seu choro foi notado.

Oishi resolveu ficar calado em respeito à vergonha do outro, mas negou-se a deixar a mão de Eiji escapar da sua, sentindo-se um pouco menos triste ao perceber o retorno do gesto.

Fuji desprendeu sua atenção da estória do filme logo nos dez primeiros minutos. Bocejando, ele virou o rosto na direção do peito de Tezuka, trazendo uma mão para cima do outro e escondendo-a dentro do casaco dele. O moreno apenas desceu com a mão dele até a cintura de Fuji. Ainda prestando atenção no filme, seus dedos, inconscientemente, começaram a brincar com a costura da calça do loiro.

"Sono?"

Fuji apenas assentiu com a cabeça, aconchegando-se no abraço.

Assim que o filme terminou, Fuji já estava dormindo. Tezuka não se mexeu, esperando que as outras pessoas saíssem antes. Oishi e Eiji ainda estavam de mãos dadas, mas também não fizeram menção alguma de se levantarem.

Quando a sala esvaziou completamente, Tezuka passou uma mão lentamente sobre os cabelos de Fuji, "Vamos embora?", ele perguntou em um sussurro, vendo o loiro abrir os olhos em piscadelas preguiçosas.

"O filme foi bom?"

Tezuka sorriu levemente, "Sim. Uma pena você ter dormido."

Eiji, ao perceber o amigo sentando-se mais ereto e espreguiçando os braços, ergueu-se, como se despertasse de um transe, soltando a mão de Oishi, "Certo, já está bem tarde mesmo, vamos embora.", ele fez um gesto, chamando o loiro.

Fuji sorriu para o amigo, erguendo-se e esticando o corpo novamente, "Quer dormir em casa hoje?", ele perguntou inocente, enquanto oferecia uma mão para Tezuka.

Eiji não respondeu, apenas assentiu vigorosamente com a cabeça, começando a caminhar na direção da saída. Fuji sempre fazia isso com ele. Quando aprontava alguma, ele oferecia depois algum tipo de conforto e, provavelmente, ele sabia que o ruivo estava louco para falar sobre tudo o que aconteceu nessa noite.


"Tsc."

Tezuka ergueu os olhos do livro exigido pelo professor de Literatura para o ano que vem. Era a segunda vez que lia o livro, mas resolveu lê-lo mais criticamente dessa vez, já que teria que analisá-lo depois sob outros olhares e não apenas como uma leitura voluntária e prazerosa. O moreno parou sua leitura, porém, ao escutar Fuji reclamar de qualquer coisa pela terceira vez, e observou a expressão concentrada do loiro.

"O que foi?"

Fuji estava concentrado demais sobre suas fotos, mas mesmo assim aceitou a interrupção com um sorriso, "Nada muito sério...", ele disse sinceramente, dando de ombros, "Só não consigo entender como é possível um filme inteiro ter sido desperdiçado por nada."

"A revelação não ficou boa?"

"Não... ficou maravilhosa, na verdade.", Fuji separou algumas das fotos, e andou até a cama, onde Tezuka estava sentado contra um travesseiro, "Veja... não são bonitas. Esse é o problema."

Tezuka conseguiu refrear a vontade de franzir o cenho. Todas as fotos eram da lua, minguante, cheia, um quarto crescente, escondida sob nuvens, ou copas de árvores, pálida contra um céu ainda azul ou solitária em uma noite sem estrelas.

"Não são bonitas?", ele perguntou, olhando as fotos novamente e, apesar de não ser apreciador da arte, de arte alguma, sua humilde opinião de leigo lhe dizia que todas as imagens estavam muito bonitas.

Fuji suspirou, sabendo que teria que explicar algo simples pra ele, mas complexo para os outros, "Não, não são.", ele pegou uma das fotos, analisando-a amargamente, "Eu não consigo tirar uma única foto boa o bastante dela.", ele disse, já distraído em seus pensamentos, "Ela passa uma coisa, um sentimento... não sei, todo mundo sente, todo mundo sabe. Não é apenas um satélite frio que rouba a luminosidade do sol. Mas... eu nunca consigo captar isso.", ele suspirou novamente, entediado, sorrindo de um jeito conformado, "Acho que é pretensão demais para um amador."

"Você está com sua máquina carregada?"

"Hm-hm."

"Vamos lá fora."

Tezuka fechou o livro em seu colo, deixando-o na mesinha de cabeceira ao lado da cama. Ele esperou Fuji pegar sua máquina fotográfica e os dois foram juntos para o pátio interno da casa.

A casa do capitão da Seigaku era no melhor estilo clássico japonês. No jardim, em meio a estátuas e com um belo lago à frente deles, Tezuka guiou Fuji até uma das grandes rochas, que não foram retiradas na época da construção da casa, sentando-se atrás dele e abraçando-o por trás.

"Essa é a lua que nós vemos da minha casa.", ele disse, apoiando o queixo no ombro do loiro, que olhava admirado para o céu estrelado e o belo satélite que iluminava todo o jardim, "Ela é sua agora. Faça o que quiser com ela."

Fuji riu, virando o corpo para poder encarar Tezuka, "Como assim? Você está me dando a lua de presente?"

"Basicamente.", o moreno respondeu seriamente, inclinando-se sobre ele, "Ela sempre estará aqui de noite pra você."

"Hmm...", Fuji fechou a distância entre eles, beijando-o devagar, "Vou ver o que posso fazer com a sua lua.", ele disse depois, ajustando o foco da máquina.

"Sua lua.", Tezuka lembrou-o, observando com prazer o loiro mirar para o céu e dar o primeiro clique, notando com certa confusão quando ele guardou a máquina novamente, "Não vai tirar mais?"

Fuji virou o corpo totalmente, forçando Tezuka a deitar-se, ficando sobre o moreno, "Ela não é minha? É bom, então, que saia perfeita na foto dessa vez."

No mesmo tom que usava com os outros titulares, quando ainda era capitão, Tezuka disse, enquanto recebia beijos de gratidão pelo rosto, "Se não sair perfeita, ela será banida do meu céu.", Fuji riu baixinho, deitando-se sobre o moreno e suspirando de contentamento.


O Golden Pair ganhou novamente. Venceu a primeira dupla e conquistou seu espaço de direito no time titular. Todos observaram, extasiados com a repentina mudança na dinâmica da dupla, Eiji correr até Oishi no fundo da quadra e abraçá-lo fortemente.

"Nós somos demais!", Eiji gritou, suspenso no ar nos braços de Oishi, mostrando o seu sorriso mais largo para o moreno, "Nós sempre somos demais!"

Oishi riu, também não escondendo de ninguém toda a felicidade estampada em seu rosto. Ele depositou Eiji no chão sem, no entanto, tirar os braços em volta dele, "Precisamos comemorar."

"Precisamos...", Eiji concordou, não conseguindo se livrar do sorriso bobo que já deixava suas bochechas doloridas.

Os dois pareciam hipnotizados um pelo olhar do outro, mas receberam os parabéns e as felicitações dos outros membros do clube assim que as primeiras pessoas se aproximaram.

No final do dia, estavam vendo uma partida entre Fuji e um sempai. Kaidou e Momo, que chegaram no colegial este ano, não acreditavam que Fuji ainda não era titular, mas o gênio não estava mais tão interessado em tênis como antes e, muitas vezes, perdeu porque quis. Inui era quem mais decepcionava-se com tudo isso, pois, apesar de ganhar novas informações sobre esse novo lado de Fuji, parecia que nunca mais conseguiria vê-lo competindo com vontade novamente.

"Bom saber que vocês estão se dando bem.", Tezuka comentou discreto, quando Oishi sentou-se ao seu lado.

"É...", Oishi esfregou uma toalha sobre a testa, vendo um Fuji sem muito entusiasmo, com uma nova derrota à frente, "É bom entrar na quadra assim.", ele riu, ficando vermelho, "E sair assim da quadra também."

"Pena que nem todos pensem assim.", Tezuka comentou, erguendo-se com uma expressão levemente irritada, que poucos conseguiriam identificar, a não ser alguém tão próximo como Oishi.

Vendo o amigo afastar-se, Oishi sentiu-se levemente culpado por exibir tanta felicidade. Sabia que Tezuka referia-se a Fuji e ressentia o fato do outro incomodar-se tanto com as decisões do gênio. Na verdade, todos sabiam, em um bom senso acordado silenciosamente, que o loiro só continuava no clube por causa dos amigos e não via mais no tênis algo tão instigante como antes.

"Oh, Tezuka foi embora?", Eiji apareceu de repente ao seu lado, de olhos arregalados e uma expressão preocupada.

"Sim... parece que ele cansou de assistir às derrotas falsas do Fuji."

"Não fale assim!", Eiji bateu-lhe no braço, parecendo aflito, olhando para a figura de Tezuka ao longe e para Fuji, parado na quadra, esperando o próximo saque do adversário, "Argh... por que ele faz isso?"

Oishi não respondeu, não sabendo se Eiji referia-se a Tezuka ou a Fuji.

Naquele dia, todos no clube viram algo inesperado: Fuji ganhou a partida por 7-6, em um dos tie-breaks mais surpreendentes que eles já puderam presenciar. O capitão chamou-o para uma conversa e os dois discutiram em voz alta na frente de todo o clube. Na verdade, o capitão gritou a maior parte do tempo enquanto Fuji frustrava-o com sorrisos e negações polidas.

"Por que diabos você não faz isso sempre?", ele gritou a pergunta pela milésima vez, irritado com a insistência do loiro em negar que era melhor do que aparentava ser, apesar de todas as derrotas, "Por que esconde o que sabe? Não quer ajudar o time? Não tem ambições?"

Fuji apenas deu de ombros, sorrindo inocente, "Hoje foi algo... diferente. Acho que foi sorte."

O capitão apontou o dedo em riste no meio dos olhos de Fuji, tremendo de raiva, "Você não é sortudo, Fuji Syusuke. Você é um gênio! Você levou o time do fundamental para o campeonato Nacional.", ele ignorou o comentário sussurrado de Fuji, corrigindo-o, dizendo que Tezuka era quem os levara ao Campeonato Nacional, "Não seja egoísta e mostre um pouco do seu potencial para todos!", cansado, ele gritou aos outros membros, que assistiam tudo, "Dispensados! O treino acabou! Vão embora!", ele gesticulou nervoso com os braços, afastando-se de Fuji, que, em poucos minutos, ficou sozinho na quadra.


"Não gosta de perdedores, Tezuka?"

"Não gosto de gente que desiste facilmente."

Fuji passou uma mão pelo cabelo, andando até a janela e fechando-a para que o vento não o obrigasse mais ao mesmo gesto de retirar os fios da frente dos olhos, "Mas quem está desistindo?", ele disse distraído, vendo qualquer coisa na rua mais interessante que a conversa atual.

"Você poderia ganhar e recusar o posto de titular, se quisesse."

"Seria estranho.", ele deu de ombros, ainda de costas para Tezuka, "Se eu perder, ninguém estranhará eu não querer ser titular."

Tezuka fechou os olhos, odiando o modo como Fuji tratava uma conversa tão importante para ele como se fosse algo banal, "Já que o tênis não lhe interessa mais, saia do clube de uma vez.", ele disse de cabeça baixa, como se tivesse perdido uma partida decisiva.

Fuji olhou-o por cima do ombro, sorrindo de lado, "Não quero...", ele andou até o moreno, ajoelhando-se no chão entre as pernas dele, "É de graça, é divertido. Um tempo a mais que tenho com meus amigos. E com você."

Sem poder resistir à sinceridade ferina do outro, Tezuka riu, resolvendo deixar o assunto passar, "Quer passar a noite aqui?", ele perguntou, mudando de tom, afastando os fios rebeldes no rosto de Fuji, "Eu te empresto um pijama."

"Um pijama antigo?", Fuji perguntou, olhando-o divertido, imaginando-se perdido dentro das camisetas largas do outro.

"Mas é claro.", Tezuka bagunçou o cabelo dele, como se fosse uma criança, deixando um beijo na testa livre, "Nanico.", erguendo-se, ele puxou Fuji para cima, com um movimento único, "Venha, vamos comer."


"E aí?", Eiji perguntou assim que a porta se abriu e seu amigo apareceu, sorrindo ao lado do presidente do clube.

"Tudo certo.", Fuji respondeu simplesmente, deixando as explicações para o outro rapaz.

Com um sorriso largo, o presidente do clube de fotografia ergueu o portifólio de Fuji, repassando mais uma vez pelas fotos, admirado, "Estou impressionado! Não sei como o seu amigo, com todo esse talento, resolveu juntar-se ao clube somente agora.", ele parou na última página, com uma foto solitária, da lua, "Essa aqui está linda... conquistou as meninas lá dentro!"

"Hoi! Que legal! Já tem fãs na fotografia também, Fuji!", Eiji cumprimentou-o, piscando o olho.

"Muito obrigado por me aceitar no clube tão repentinamente.", o loiro curvou-se respeitosamente.

"Não é nada, não é nada...", o presidente do clube disse, ainda admirando as fotos.

Mais tarde, andando sozinhos pelo corredor, Eiji olhou o amigo de lado e perguntou, "E Tezuka?"

Tezuka tornou-se capitão do clube de tênis logo depois que passou para o segundo ano. Além dele, todos, menos Fuji, tornaram-se titulares do time. Algumas semanas após ter tomado posse do cargo, Tezuka deu um ultimato para o loiro: ou ele jogava com um mínimo de seriedade ou poderia sair do clube. A única coisa que disse para os membros do time foi que não toleraria pessoas relapsas com os objetivos do clube.

"Provavelmente receberá o requerimento para transferência de clube hoje de tarde.", Fuji respondeu calmamente.

"Você não conversou com ele antes?", Eiji insistiu, temeroso pela reação do buchou.

"Mas é claro. Não adianta me culpar por futuras voltas na quadra, se é o que está pensando."

Vermelho, Eiji protestou em voz alta, "Não estou falando disso!"


Oishi estava separando as correspondências da escola enviadas ao clube enquanto Tezuka analisava pacientemente o quadro de atletas junto com o professor. Em uma pilha, comunicados, eventos e a costumeira felicitação pelo esforço do clube nos jogos, em outra, requerimentos de alunos e outras coisas mais.

"Oh... Te... Tezuka.", Oishi disse, sem pensar, surpreso ao ver um nome bem conhecido em um dos papéis.

"Hn?", Tezuka mal respondeu ao amigo, ainda dando total atenção aos nomes e formações à sua frente.

Percebendo sua falta de tato, Oishi aproximou-se do amigo e estendeu o papel de forma que o professor não pudesse ver suas expressões, "Há um requerimento aqui que merece sua atenção."

Tezuka, notando o tom de voz do outro, ergueu o rosto, pedindo desculpas brevemente pela interrupção ao professor antes de ir até Oishi. Ele nem pegou o papel das mãos do amigo, franzindo mais o cenho do que o normal apenas ao reconhecer os kanjis do nome de Fuji.

"Não há nada de especial nesse requerimento, Oishi.", ele disse, após alguns segundos, suficientes para a leitura integral do documento, "Deixe-o junto aos outros, que eu assinarei quando puder."

"Ah...", ainda um pouco surpreso, mas esforçando-se para manter-se neutro, Oishi comentou, como se o assunto estivesse encerrado, "Então você já sabia disso..."

Tezuka não respondeu. Olhou o amigo seriamente por um breve momento e voltou a sua mesa, junto com o professor. O assunto não foi mais discutido. O documento foi deixado na mesa, junto com outros.


"Com licença.", Fuji disse respeitosamente, entrando na sala com sua máquina fotográfica pendurada no pescoço.

Tezuka estava sentado à mesa, sem fazer nada muito importante em particular, "Pois não?"

Fuji sorriu, levemente enternecido pelo esforço do outro em permanecer sério, apesar de claramente surpreso, "Gostaria de saber quando meu requerimento será devolvido para a secretaria."

Fazia duas semanas que os dois não se viam. Tezuka podia lembrar-se com clareza do beijo que trocaram ao se despedirem. Do gosto de derrota que sentiu ao ver o loiro sair de sua casa como se nada tivesse acontecido, como se a discussão dos dois não tivesse a importância que ele achava que tinha.

Tezuka também se lembrava que nunca brigara com Fuji antes. Mas, de repente, as discussões pareciam tomar conta de todos os encontros dos dois, apesar do loiro sempre insistir que nada estava errado e que era ele quem incomodava-se com algo tão pequeno como algumas derrotas no tênis.

Por alguma razão, Tezuka havia se esquecido de assinar os documentos no dia em que o requerimento de Fuji apareceu. No dia seguinte, a primeira coisa que fez ao entrar na sala do clube foi procurar os papéis. Não encontrou justamente o que queria.

Oishi ajudou-o a procurar. Juntos, os dois vasculharam, desarrumaram e arrumaram novamente a sala a procura do requerimento de Fuji, sem encontrá-lo. Por um momento, Tezuka achou que tinha se enganado, que não havia documento algum a ser assinado, que Fuji não iria deixar o clube. Ele estava apenas faltando demasiadamente, nada muito anormal, considerando-se a pessoa e seu comportamento nos últimos meses. Algumas voltas em torno da quadra poderiam compensar isso.

Suas divagações foram cortadas rapidamente ao receber a visita do presidente do clube de fotografia.

"Kenji-san disse que não teve muita sorte com você quando veio aqui.", Fuji comentou sorrindo, ao perceber que seu ex-buchou não iria lhe responder tão cedo.

Tezuka lembrou-se com certa felicidade a expressão assustada do presidente do clube de fotografia ao tentar enfrentá-lo, acusando-o de prender o famoso tensai no clube de tênis. Fuji, sem a assinatura de Tezuka em seu requerimento, não poderia participar oficialmente das reuniões e exposições organizadas pelo clube.

Aproximando-se, o loiro retirou a máquina fotográfica de seu pescoço e depositou-a na mesa, em frente a Tezuka, "Algum problema?"

"Nada que não possa ser resolvido."

Fuji sorriu, pois preveu uma resposta como aquela, "Que bom."

A conversa, tão formal e distante, incomodou a ambos, porém, nenhum dos dois fraquejou. O sorriso constante apenas encarava a seriedade constante e assim ficaram até Fuji perguntar, "E então? Meu requerimento?"

Tezuka olhou em volta, por uma última vez, esperançoso por talvez, da mesma forma que sumiu, o requerimento poderia aparecer. Sem saída, ele ergueu-se da cadeira, olhando Fuji de cima, dizendo com calma e segurança, "Eu perdi seu documento."

O moreno gostaria de dizer que pegou Fuji de surpresa pelo modo como os olhos do outro se arregalaram levemente e suas sobrancelhas se ergueram, mas logo a expressão sorridente voltou, "Oh... pensei que sua desculpa seria outra.", ele disse, deixando de fingir calma, chegando a rir um pouco, "Pelo menos, mais elaborada."

Fuji deu a volta na mesa, parando em frente ao moreno, seu sorriso agora sincero e os olhos brilhando com uma satisfação que poucos escolhidos poderiam ver.

"Perdeu mesmo?", ele perguntou, sem esconder o divertimento no tom de voz.

"Eu temo que sim."

"Hmm...", Fuji deu mais um passo a frente, "Sabe... Kenji-san me disse que você queria me prender ao clube de tênis."

Tezuka não recuou e também não se alterou, permanecendo ereto, ainda olhando o loiro de cima, seriamente, "Todos os membros são livres para decidir ficar ou sair.", ele optou por uma resposta neutra, sem incluir o nome de Fuji, mas incluindo-o ao mesmo tempo.

"Eu sei...", devagar e sem que o próprio Tezuka percebesse, tão atento aos olhos azuis que estava, Fuji ergueu os braços, enlaçando o moreno pelo pescoço, "Eu ficaria desapontado se você não me quisesse preso...", ele ficou na ponta dos pés, alcançando, com certo esforço, os lábios de Tezuka, "... aqui."

Tezuka sabia que toda a vez que Fuji se aproximava, ele ficava mais fraco, mais dependente. E, quando Fuji o beijava, com tanta paixão e desejo, Tezuka sabia que ficava frágil, perdido nos seus lábios, preso somente pela força dos braços tão mais finos e delicados que os seus.

Fuji estava perdoado por tudo o que fizera, mesmo que não se soubesse culpado. Mas Tezuka sabia que nunca iria esquecer de como o incomodou o sentimento de sequer pensar na possibilidade de ter o loiro longe de si.


Tezuka gostava de conversar com Oishi. O amigo era quem mais falava, claro. Um lado maldoso de sua mente, acreditava que ele queria compensar todo o período que ficou calado escutando Eiji, mas sabia ser mais que isso. Era ele mesmo quem não falava muito.

Oishi e suas preocupações, importantes e banais, sempre o deixavam mais contente. Tezuka sentia-se bem cada vez que separava-se do amigo depois de uma boa conversa. Ele não importava-se com o silêncio, nem com as críticas, duras e sinceras de Tezuka.

"Ah... será que vamos conseguir?", Oishi suspirou, olhando para o céu claro, com poucas nuvens brancas, prometendo uma noite quente, "O ano está terminando... vamos nos formar..."

"Vocês ainda são muito novos.", Tezuka respondeu, sabendo do real problema do amigo. Ele pensou um pouco e acrescentou, "Kikumaru, principalmente. Ele não tem maturidade para o que vocês se propõem a fazer."

"Eu sei... mas...", Oishi abaixou o olhar, brincando com as próprias mãos, "A minha preocupação maior não é ele se cuidar. Será que eu vou conseguir cuidar dele?"

Tezuka sorriu levemente, algo que poucos tinham o privilégio de ver, e resolveu não responder, pois Oishi sabia a resposta que ele daria. Tinha plena confiança no amigo e certeza suficiente de que ele era capaz de cuidar de alguém tão inconstante e cheio de energia como Eiji, apesar de tudo e, o mais importante, acima de tudo.

"Mas não consigo... ah, como explicar? Não consigo ver outra solução também.", o moreno acabou rindo, "Parece que não conseguimos ser felizes se não tivermos um ao outro.", ele disse, com o rosto completamente vermelho, pois era a primeira vez que dizia algo tão íntimo assim, até mesmo para Tezuka. Sentindo-se um pouco incomodado, ele mudou de assunto, "E você?"

Tezuka pensou seriamente antes de resolver o que responder, "Estou pensando em qual faculdade entrar ainda."

"Ah... claro. Os convites.", Oishi assentiu, sabendo que o amigo foi um dos poucos que recebeu convite para entrar nas melhores universidades do Japão.

"Mas tenho que pensar melhor... meu pai e meu avô disseram que tinham algo para me ajudar na decisão."

"E Fuji?"

Tezuka olhou o amigo seriamente, mas Oishi perdeu a indireta de que este era um assunto indesejado e continuou esperando uma resposta, "Não sei ainda o que ele quer.", ele finalmente disse.

Já fazia algum tempo, ele odiava como todos se referiam a Fuji como algo já consumado em sua vida. Fuji, ao contrário, parecia fazer questão de mostrar como era independente e como não pretendia fazer planos para o futuro que o incluíssem.

Há três semanas não se viam. Tezuka percebeu um pequeno distanciamento na conversa e nos carinhos do loiro e desconfiava. Do quê ainda não sabia, mas sabia que algo bom não poderia vir de um Fuji que o evitava.

"Como? Ele não lhe contou?", Oishi perguntou, com o cenho franzido. Diante da expressão neutra do outro, ele continuou, explicando, "Eiji disse que Fuji pretende fazer Ecologia..."

"... Ecologia?"

Oishi riu, também achando a profissão estranha em se tratando da pessoa, "Depois que ele saiu do clube, muita coisa mudou, não é? E nós, aqui, achando que ele escolheria algo relacionado à fotografia."

"Hn..."

Percebendo uma leve irritação em Tezuka, Oishi assumiu um tom mais calmo, "Ele ganhou outro prêmio na semana passada."

"Eu soube."

"Eu nunca entendi realmente por quê ele quis trocar o clube de tênis pelo de fotografia... foi tão... repentino."

Sim, repentino até demais, Tezuka achou. Não foi avisado da mudança de clube, muito menos da carreira que ele pretendia escolher.

Tezuka ressentiu-se pelo fato de Fuji querer sair do clube. Ressentiu-se por não ter feito algo, por não ter garantido a presença do gênio no clube. Mas, o que mais lhe doeu, era a pequena e constante sensação de dependência, de fragilidade junto a Fuji.

O gênio sempre soube se virar sozinho. Não precisava de clube algum, muito menos de Tezuka, para conseguir o que queria. Tezuka entendia bem a mente do loiro. Mas, somente a entendia. Fuji surpreendia a todos e até a ele mesmo, e Tezuka entendia. Entendia os motivos, as ambições, os desejos. Mas nunca podia prever.

Não prever os pensamentos de Fuji, não saber o que o loiro queria, não pressentir o que estaria por vir daquela mente tão brilhante... era isso que tornava Tezuka impossibilitado de participar da vida do outro. De fazer parte. De estar em comunhão.

Fuji incluía Tezuka em sua vida, mas Tezuka não conseguia se incluir na vida de Fuji. Apesar de Fuji conseguir se incluir em sua vida muito facilmente.

Parecia-lhe que Fuji era alguém já determinado em sua vida. Mas Tezuka não conseguia se sentir assim na vida de Fuji. Sentia-se dispensável, secundário.

"Foi uma foto.", ele comentou por fim, mais para si mesmo.

Oishi, um pouco perdido em seus pensamentos, achando que Tezuka não estava prestando atenção no que ele disse, virou-se, curioso, "Uma foto?"

"Uma foto... da lua."


"Ecologia?"

"Exato. Ecologia.", Fuji respondeu, com um sorriso de satisfação. Estavam deitados em sua cama, Tezuka apoiados em travesseiros contra a parede e Fuji entre suas pernas.

"Não sabia que você se interessava por isso."

"Nem eu.", o loiro deu de ombros, "Eu só percebi isso agora, alguns meses atrás. Estava pesquisando alguns cursos no exterior quando percebi que não agüentaria fazer nada fora da cidade se não levasse meus cactos juntos comigo."

Tezuka imaginou Fuji levando seus preciosos cactos para um país distante e todos eles morrendo por desestabilidade climática. Ele achou irrelevante o fato do cacto ser uma das plantas mais resistentes a mudanças climáticas. Ao invés de se preocupar com isso, ele ateu-se a outro detalhe na conversa, "Exterior?"

"Oh... você sabe que o Japão não prima por suas políticas ambientais.", Fuji respondeu, sem preocupar-se muito com o assunto.

"A faculdades não estão sempre em parceria com o governo."

"Sim, sei disso.", Fuji virou o rosto, olhando Tezuka nos olhos, "Sabia que o curso de Ecologia da Seigaku ficou na sétima colocação em uma pesquisa recente?"

Tezuka não imaginou que um dia fosse dizer algo parecido, mas o comentário saiu antes mesmo que ele se desse conta, "Sétimo lugar é uma ótima colocação."

Imediatamente, Fuji encolheu-se entre seus braços, rindo, "Sétimo lugar não é ótimo, Tezuka.", ele suspirou, aconchegando-se novamente, "Mesmo o primeiro lugar não teve uma nota muito satisfatória."

Balançando a cabeça, Tezuka segurou os ombros do loiro, virando-o para si, "Está pensando mesmo nisso?"

Fingindo que não tinha captado a tensão na voz e expressão do moreno, Fuji respondeu, calmamente, "Eu já fiz pesquisas, já enviei currículos..."

"Você... está participando do processo seletivo das faculdades de outros países?"

"Tezuka, nossa festa de formatura é daqui a duas semanas. Todo mundo já está participando de algum tipo de processo seletivo.", Fuji esperou alguns segundos até completar, "Até você, eu suponho... qual foi a sua escolha?"

Irritado, Tezuka levantou-se da cama. De pé, ele poderia olhar Fuji de cima e isso lhe dava uma certa segurança, coisa que, de alguns meses para cá, não sentia mais perto do loiro, "Por que nunca me avisa dessas coisas?"

Fuji fechou os olhos e abaixou a cabeça, arrumando os travesseiros e esticando o lençol, enquanto dizia, "Novamente essas perguntas."

Ofendido, Tezuka puxou Fuji pelo braço, obrigando-o a ficar de pé também, "O que você acha que eu sou?"

A pergunta teve o efeito exato que Tezuka queria. Fuji franziu o cenho e olhou-o pensativo, como que considerando-a, afinal, nunca tiveram discutido o que eram realmente um para o outro, "Eu prefiro não falar sobre isso.", ele respondeu finalmente, tentando se soltar do aperto em seus braços.

"Isso é importante.", Tezuka o segurou firmemente, "Algumas vezes eu sou o último a saber de você."

"Isso porque na maioria das vezes as coisas acontecem quando Eiji está do meu lado.", Fuji respondeu com calma, sorrindo educadamente, "Você sabe como é difícil para ele guardar uma novidade só para si."

Uma explicação razoável, Tezuka, pensou, "Responda a pergunta.", ele insistiu, autoritário.

Aos poucos e delicadamente, Fuji foi soltando-se das mãos de Tezuka, sem nunca deixar de sorrir. Livre, ele afastou-se do moreno, andando na direção da janela, onde dois de seus cactos repousavam sob o sol, "Eu pensei que você soubesse o que é?", ele disse, de costas.

"Você não me permite.", Tezuka acusou-o, sabendo que Fuji interpretaria muito bem tudo o mais que existia por detrás dessa declaração.

"Você poderia me dizer, por favor, o que acha que eu sou?", Fuji devolveu a mesma pergunta, picando de leve o próprio dedo nos espinhos espalhados por um dos cactos. Diante do silêncio pesado como resposta de Tezuka, ele virou-se sorrindo, "Pois é... eu acho o mesmo de você."

A resposta deixou Tezuka paralisado por alguns instantes, sua face ainda adornando uma expressão séria, mas seus pensamentos confusos pelo novo rumo da conversa. Pela cara de Fuji, Tezuka imaginou que o gênio considerava essa discussão encerrada e, somente ver o sorriso satisfeito, fez com que uma inexplicável indignação e raiva percorresse todo o seu corpo.

"Vamos acabar com isso, então.", Tezuka disse, recompondo-se, ajeitando o óculos no nariz e estreitando os olhos.

O sorriso de Fuji falhou, mas voltou rapidamente, "O que disse?"

"Não posso mais continuar com isso.", Tezuka explicou, "Seja lá o que isso for.", ele acrescentou, com certo prazer ao ver o sorriso desaparecer completamente do rosto de Fuji.

"Tezuka..."

Ele conteve-se. Ouvir seu nome sussurrado, como um suspiro, devagar por entre os lábios tão conhecidos e desejados de Fuji quase o fez repensar. Sabia que era fraco perto dele. Deveria se afastar, então.

"Eu pensei muito antes de decidir isso.", ele concedeu, "Desde que você mudou... desde que começou a se afastar de mim--"

"Olhe para onde estamos, Tezuka.", Fuji o interrompeu, também sério, os olhos azuis faiscando com algo que Tezuka nunca vira ser dirigido para sua pessoa, "Olhe para onde estávamos há pouco.", ele apontou a cama, com os lençóis ainda levemente desarrumados, "Pessoas não dividem a mesma cama se querem se afastar uma da outra."

"Não insista, Fuji."

"Eu não estou insistindo em coisa alguma.", o loiro passou por ele, abrindo a porta do armário, "Você quer terminar porque Eiji e Oishi ficam sabendo antes de você se eu tomei sorvete ou se fiz a lição de casa. Tudo bem.", ele retirou um casaco, mas, antes que pudesse vesti-lo, Tezuka virou-o para encará-lo.

"Não brinque. Você sabe que colocou muitas coisas entre nós."

Fuji riu, balançando a cabeça para os lados, "Oh, você quer que eu dê vinte voltas em torno do quarteirão pelos meus planos não serem compatíveis com os seus planos, buchou?", ele perguntou educadamente, como se ainda fosse um subordinado de Tezuka, no clube de tênis.

"Você nem me deixa saber quais são os seus planos!", Tezuka irritou-se, aproximando-se de Fuji, encarando os olhos azuis ferinos com a mesma intensidade.

"Tezuka... em qual clube estou atualmente?", Fuji perguntou baixinho, com a voz calma, de repente.

Pego de surpresa, Tezuka apenas respondeu, "Fotografia."

"Qual faculdade irei cursar?"

"Ecologia.", Tezuka respondeu com os dentes cerrados, já percebendo onde o loiro queria chegar.

"Eu pretendo cursar uma faculdade aqui no Japão?"

"Não... no exterior!", Tezuka respondeu irritado, pressionando os dedos sobre a testa que latejava com uma dor-de-cabeça, "Fuji, isso não--"

"Hmm... eu poderia até tentar insistir em alguma coisa. Se houvesse algo para se insistir.", ele deu de ombros, colocou o casaco e, com um último sorriso na direção de Tezuka, saiu do próprio quarto.


"Woah, calma, calma.", Eiji disse, erguendo as mãos, pedindo que Fuji parasse no seu discurso, "Respire, você está nervoso."

Fuji piscou ao ouvir a frase, levando menos de um segundo para se recompor, "Não estou nervoso.", ele disse num suspiro, deixando um sorriso enfeitar seu rosto, "Apenas fiquei empolgado."

Eiji rolou os olhos. Conhecia bem o amigo e sabia que ele era perito em disfarçar emoções, assim como negá-las quando, por puro azar, elas escapavam de sua perfeita máscara de simpatia, "Ok, tudo bem.", ele deu de ombros, também fingindo que estava tudo bem, "Quer dormir aqui?"

Fuji abriu a boca para dizer não, mas acabou pensando melhor e aceitou o convite, "Só preciso ligar para a minha irmã.", ele buscou o celular no bolso, dando rápidos cliques.

"Syusuke?", a irmã perguntou, logo no segundo toque, "Como está?"

"Bem. Vou passar a noite aqui na casa do Eiji, tudo bem?"

"Hm... tudo bem.", a voz dela estava muito neutra, Fuji percebeu, "Yuuta vai aparecer aqui."

Fuji riu, não acreditando na habilidade da própria irmã em adivinhar o que ele queria, "Certo, entendi. Obrigado por chamá-lo... mas acho que vou dormir aqui assim mesmo."

"Por mim...", Yumiko soltou um palavrão feio e Fuji soube, apenas por isso, que ela estava tentando cozinhar, "Ele te ligou?", ela perguntou logo depois.

"Não se esqueça do sal.", Fuji avisou-a, ignorando a pergunta sobre Tezuka.

"Ah, droga! Esqueci do maldito sal!"

"Boa noite."

O barulho de panelas e vidros batendo cessaram por um instante e Yumiko, com uma voz muito mais doce, sussurrou, "Durma com os anjos, querido."

Fuji sorriu ao desligar o celular. Quando ergueu-se da cama, viu Eiji no corredor, conversando com uma das irmãs. Ele gostava de ver o amigo interagindo com os quatro irmãos mais velhos. Lembrava-se um pouco de sua própria relação com seus irmãos. Por isso mesmo, nas últimas semanas, sempre que olhava para o ruivo junto com um dos irmãos, sentia pena.

Porque, apesar de toda a esperança que Eiji depositava na própria família, Fuji sabia que não seria fácil e muito menos indolor o que ele e Oishi fariam. Naquela noite, ele aproveitou ao máximo a companhia da família Kikumaru, rindo e participando da conversa animada que sempre se fazia presente nas reuniões deles.

"E então?"

Distraído, deitando no colchão colocado para ele no chão, Fuji perguntou, "E então o quê?"

"O que você vai fazer com o Tezuka?"

Fuji deitou-se completamente, olhando com atenção fingida todos os adesivos colados no teto do quarto de Eiji, "O que eu posso fazer?", ele perguntou, dando de ombros.

Eiji franziu o cenho, não entendendo a reação do loiro, "Vai desistir, assim? Vai deixá-lo dar o fora sem motivo nenhum? Só porque você disse que vai fazer um curso fora?"

"Hmmm... Claro que não.", ele respondeu, virando para o amigo e sorrindo largamente, "Vou me vingar no melhor estilo, deixá-lo arrasado e fazê-lo voltar se arrastando de joelhos pra mim.", ele disse altivamente, deliciando-se ao ver Eiji jogar o corpo pra trás pra rir.

"Certo. É isso aí, não esperava menos de você."


"Tezuka?"

"Hm?"

"Posso te acompanhar?"

Tezuka ergueu o olhar, cauteloso. Fuji estava na frente dele, vestido adequadamente para a festa de formatura, assim como ele, parado na frente da porta do grande salão do Colégio da Seigaku. Antes que ele pudesse responder, sua mãe apareceu por trás dele, vendo e sorrindo animadamente para Fuji.

"Oh, Fuji-san, como está lindo!", a senhora cumprimentou-o com uma breve reverência, "E seus pais e irmãos?"

"Estão em uma das mesas, perto do palco.", Fuji respondeu educadamente.

"Oh, a nossa mesa também fica por lá. Quem sabe não juntamos as duas mesas e fazemos uma grande família?"

Tezuka interrompeu a mãe nesse momento, achando que ela já estava sendo educada demais, "Fuji, pode me acompanhar, por favor?"

"Claro.", ele fez outra breve reverência, "Com licença.", e afastou-se, ouvindo a mãe de Tezuka comentar com o marido e o sogro como ele estava bonito e como era interessante. Algumas vezes, Fuji desconfiava que essa distinta e simpática senhora sabia o que houve entre ele e Tezuka, mas ficava somente na suspeita.

"O que foi?", Tezuka perguntou, com um tom de voz monótono, distante, quando já estavam em um local longe o bastante da festa.

"Na verdade, eu já disse o que queria antes.", Fuji sorriu, dizendo a si mesmo que agüentaria a mesma humilhação somente por uma última vez. Nos dois últimos meses, procurou Tezuka de todas as maneiras, conseguiu a atenção dele nas primeiras vezes, mas, conforme os dias passavam, parecia que só conseguia uma coisa com o moreno, "Gostaria de saber se posso te acompanhar na festa."

Tezuka olhou o outro seriamente, respondendo como se fosse uma máquina, "Isso seria impossível."

"Porque...", Fuji insistiu, querendo que Tezuka se explicasse mais.

"Porque estaremos na frente de todos.", o moreno fechou os olhos, notando o erro em sua fala, "Na verdade, porque não há necessidade."

Fuji suspirou, jogando a cabeça para o lado, "Não deve haver mesmo... não há necessidade, não há desculpas, não há explicação alguma para tudo isso.", ele sorriu devagar, conformado, aproximando-se do outro.

"O que quer dizer?"

"Que você é mais idiota do que eu pensei.", Fuji deu de ombros, ficando na ponta dos pés e tendo mais dificuldade do que antes para alcançar os lábios de Tezuka, já que este recusou-se a inclinar a cabeça. O beijo foi breve e frio, apenas um toque de lábios, "O que aconteceu? Você poderia me explicar, realmente... porque quis se afastar de mim."

Os olhos de Tezuka estreitaram-se, e ele respondeu, claramente irritado, "Eu não precisei me afastar. Quando percebi, você já estava longe do meu alcance."

Fuji não conseguiu deixar de rir, "De novo essa história?"

"É a única explicação que há."

Fuji apoiou a testa no peito de Tezuka, rindo baixinho, "Você tem um sério problema em aceitar mudanças.", ele sussurrou, mais calmo, abraçando a cintura do moreno, "Eu não me afastei. Nunca me afastei. Sempre estive ao seu lado... ou não?"

"Você sempre esteve ao meu lado.", Tezuka admitiu, abraçando os ombros finos de Fuji, "Mas mudou... muito."

"Eu não mudei. Não mudei."

Tezuka não precisou esperar pelos soluços ou pelo seu fraque úmido para saber que Fuji estava chorando. Ele simplesmente sabia. Devagar, ele segurou o rosto do loiro entre suas mãos e forçou-o para cima, "Você não é o mesmo... não é a mesma pessoa que eu conheci, que eu joguei lado a lado... não é a mesma pessoa que um dia eu gostei."

"Pelo menos a perda não é tão grande...", Fuji disse, sorrindo de lado, sentindo uma lágrima correr na curva de seus lábios, "Eu me sentiria terrível se você me amasse."

"Eu não vou conseguir viver com alguém como você.", Tezuka murmurou tristemente, mais para si mesmo, como reafirmando a certeza da sua decisão.

Fuji riu, voltando a olhar para o peito de Tezuka, "Nem eu.", de repente, ele ergueu-se na ponta dos pés novamente, beijando o moreno com muito mais paixão do que da primeira vez, agarrando-se em volta do pescoço dele.

Tezuka tentou afastá-lo nos primeiros segundos, mas, ao ouvir um pequeno gemido, abriu os lábios, agarrando o corpo colado ao dele mais fortemente. Perdido para o resto do mundo, somente sentindo Fuji, ele não escutou quando seu nome foi chamado pelos alto-falantes e ignorou todas as outras tentativas de contato seguintes.

Os dois perderam a festa.

Tezuka abriu os olhos, sabendo que o que acabou de fazer não era compatível com os planos que tinha feito para si mesmo a partir do momento que excluiu, ou tentou excluir, Fuji da sua vida. Mas, cada vez que o loiro o procurava, sempre acabava deixando-se levar pelo desejo de senti-lo, de prová-lo, de tê-lo novamente.

Sempre achou que tinha um controle sobre o outro. Fuji mostrou, bem claramente, que esse controle que ele achava ter era ilusão. Agora, achou que tinha conseguido esquecer o outro, mas... como ele sempre voltava?

Achando que Fuji estava dormindo, ele começou a arrumar o fraque o máximo que pôde e murmurou sério, para si mesmo, "Não quero mais você na minha vida."

Fuji abriu os olhos, de repente, não entendo a ordem, "Como é?", ele perguntou, virando o rosto para o outro.

Assustado pelo loiro estar acordado, Tezuka recompôs-se rapidamente, falando exatamente o que queria, "Você sabe que eu não quero mais nada com você.", ele acusou-o, erguendo-se para vestir a calça, "E mesmo assim, me seduz toda a vez que nos vemos."

O queixo de Fuji caiu e ele não soube como defender-se, pois, de certo modo, Tezuka estava certo, "Eu te seduzo?"

"Se você não se aproximasse de mim, esse tipo de coisa não aconteceria."

"Quer dizer que se eu não usasse do meu magnífico e maligno poder de sedução, você continuaria vivendo a sua vidinha triste?"

Tezuka passou uma mão pelos cabelos, mais desarrumados do que o normal, sabendo estar pisando em terreno perigoso, então, ele respondeu com cuidado, "Basicamente... sim."

Fuji olhou-o seriamente, "Tezuka, você é o idiota mais idiota que eu conheço.", ele ergueu-se também, ignorando o fato de que estava vestido somente com uma camisa branca e meias, "Acha mesmo que só porque eu te seduzo você acaba assim?"

"Claro que não.", Tezuka respirou fundo, desviando o olhar das pernas e do pescoço exposto pelos botões abertos, "Eu... também estou errado.", ele passou uma mão pelos cabelos de Fuji, arrumando-os também, "Você não tem culpa de ser assim..."

"... assim como?"

"Assim."

Fuji afastou-se de Tezuka, virando de costas para ele e começando a se arrumar também, "Quer que eu me afaste, então?"

"Não... Mas... eu não conseguiria viver com alguém como você."

Fuji riu, "Eu sei... é o que você mais repete nos últimos dias.", ele suspirou, vestindo a calça, "O grande problema, que impede a sua felicidade, é o jeito que eu sou: assim.", Tezuka não disse mais nada, "Não vou mais te seduzir, Tezuka.", ele olhou o moreno por cima do ombro, "Não se preocupe quanto a isso..."

Tezuka suspirou, achando que o assunto, finalmente, se encerrou, "Você vai mesmo estudar fora do país?", ele perguntou, abaixando-se para calçar os sapatos, "Fuji?", quando ergueu o rosto, viu que estava sozinho.

Tezuka voltou para o final da festa. Encontrando-se com os pais e avô antes que eles fossem embora de carro. A mãe dele ocupou, com muita graça e habilidade, as atenções do marido e do sogro, deixando Tezuka à sos com seus pensamentos.

Fuji também voltou para os seus parentes. Sua irmã, enquanto dirigia para casa, comentou animada o quanto Oishi e Eiji foram a sensação da festa, corajosos e apaixonados, beijando-se na frente de todos.

Fim