Título: Yumi
Autor: Umi no Kitsune ( driadurens at hotmail . com )
Disclaimer: PoT e suas personagens pertencem a Ko-chan.
Avisos: Yaoi... ou não. Pertence ao mesmo universo daquelas outras lá. Se você gostou da fic e a quer em seu site, por favor, peça permissão.
"Encontrei um rapaz muito interessante."
Yumi sorriu docemente para o pai, desejando soltar um suspiro entediado, mas contendo-se, sabendo que o velho senhor só pensava em seu melhor e não fazia essas coisas por mal.
Desde os seus doze anos de idade, a jovem moça sempre escutava a mesma coisa. Seu pai sempre tinha um rapaz em mente para apresentá-la, um suposto noivo perfeito, alguém que apenas ele sabia ser o marido ideal para sua filha. Yumi não tinha palavra de ordem no assunto. Já perdeu a conta do número de reverências que deu, dos sorrisos falsos que distribuiu, dos elogios que recebeu e das despedidas que nunca presenciou.
Seu pai mudava de idéia na última hora e Yumi, mesmo afeiçoando-se ao pretendente, de uma hora para outra não poderia nem mais comentar no nome do pobre coitado. Noivado era uma palavra tabu para o pai de Yumi, que recusava-se a assumir qualquer compromisso sem saber de todos os detalhes da vida do futuro genro.
Por isso que Yumi, apesar do esforço da família, e dela mesma, ainda não era casada. Seu pai sempre encontrava defeitos nos homens. Pequenos segredos, podres, que somente um espião poderia descobrir. No caso, os subordinados de seu pai.
"Oh, fale mais, querido.", sua mãe sorriu animada para o marido.
"Ele é o neto de um amigo antigo... Tezuka-san.", seu pai explicou, "Já trabalhou na Academia e prestou alguns serviços para o meu pessoal, algum tempo atrás."
Yumi tomou o cuidado de prestar atenção, pois sabia que deveria por em prática as pequenas coisas que seu pai lhe contava quando fosse se encontrar com o rapaz.
"Seu nome é Tezuka Kunimitsu. Formou-se na Seishun Gakuen com as melhores notas da história da escola, foi presidente do Conselho Estudantil e capitão do clube de tênis, o mesmo time que ganhou o campeonato nacional alguns anos atrás."
Perfeito, como sempre. Seu pai não se interessaria por ninguém com qualidades pequenas. Mas Yumi já sentia pena do pobre rapaz, pois sabia que, mais cedo ou mais tarde, seu pai descobriria algo indesejável nele.
"Entrou na Academia há dois anos. Tem mostrado um desempenho espetacular... nunca vi um jovem tão sério e empenhado nas atividades como ele.", seu pai comentou, pensativo, "Conversei brevemente com o rapaz e me parece que, talvez, ele estaria interessado em uma promoção... Hmmm... veremos."
Alguns meses depois, Yumi conheceu o famoso Tezuka, de quem seu pai lhe falou praticamente todos os dias, dando relatórios diários sobre a vida dele e o desempenho profissional. Por enquanto, o rapaz era apenas um candidato a pretendente. Yumi sabia que seu pai ainda não comentara nada sobre seu interesse nele, muito maior do que apenas profissional.
Ele estava no meio de uma roda de policiais, silencioso, apenas escutando os outros contarem suas histórias fantásticas de salvamento ou de espionagem.
"Ah...", seu pai sorriu quando ela se aproximou do grupo, "Tezuka, esta é minha filha, Suzuki Yumi."
Yumi fez uma discreta reverência, erguendo o tronco para admirar com mais calma o belo homem à sua frente. De uma coisa ela não poderia reclamar: seu pai tinha um senso estético maravilhoso. Tezuka era realmente algo admirável, tanto em beleza, quanto na voz, potente e grave:
"Muito prazer, Suzuki-san.", ele cumprimentou-a, com outra reverência, voltando a dar total atenção ao patrão segundos depois.
Yumi nunca acreditou em amor à primeira vista. Apaixonou-se por poucos entre os tantos rapazes que seu pai lhe apresentou e sempre buscou ter o cuidado de não colocar expectativas muito altas nos futuros pretendentes. Mas ela tinha certeza que viu algo diferente no olhar de Tezuka, algo que nenhum outro rapaz lhe dirigiu. Não era surpresa, nem paixão, não era desprezo, nem ambição. Não sabia o que Tezuka viu nela, mas foi algo que mexeu com ele, disso ela tinha certeza.
De noite, quando já estava em casa, sentou-se em frente à cabeceira e esperou sua mãe desfazer o penteado em seu cabelo.
"Ele é muito sério, não achou?", sua mãe comentou, com o cenho franzido, "Tão jovem... nem sorriu ao lhe ver!"
"Papai disse que ele sempre foi assim...", Yumi desconversou, fechando os olhos enquanto sua mãe penteava seus longos cabelos.
"Seu pai está certo, de qualquer forma. Tezuka é um homem correto, trabalhador, tem um histórico familiar interessante..."
"É bonito..."
Sua mãe bateu-lhe com o cabo da escova na cabeça, "Ora, a beleza externa não é tão importante quanto os valores que um homem carrega.", ela suspirou, voltando a pentear os cabelos lisos e claros da filha com adoração, "Sim, ele é bonito... mas de nada adiantaria a aparência se ele não fosse o homem que é. Seu pai nem pensaria duas vezes ao escolher."
"Mas é claro.", Yumi comentou, com um suspiro.
Sua mãe, de repente, inclinou-se sobre seu ombro, olhando-a pelo espelho, "Diga-me: o que você achou dele?"
"Hmmm... o de sempre."
"Mas é claro.", a senhora repetiu a fala da filha, sorrindo de lado.
"Tezuka vem jantar hoje, querida!", sua mãe lhe informou, da sala, após um telefonema do pai.
Apesar de todas as suas reservas, Yumi não conseguiu deixar de pensar que talvez, dessa vez, fosse algo sério. Todos os rapazes que já conheceu até então não deixaram de demonstrar interesse imediato nela. Tezuka, porém, foi o pretendente mais difícil que seu pai escolheu.
Em poucas semanas iria completar um ano de investidas diversas por parte de seu pai e desculpas por parte de Tezuka. O rapaz simplesmente recusava-se, muito educadamente, a fazer parte da rotina da família Suzuki ou sequer demonstrava qualquer tipo de interesse em Yumi, fato que deixava seu pai muito intrigado e cada vez mais empenhado em descobrir o segredo - porque não era possível não existir um segredo - de Tezuka.
"Tome banho com o óleo de rosas.", sua mãe ordenou, arrumando uma bela roupa sobre a cama, "Estou separando algo mais ousado... ele é sério, mas se ainda não prestou atenção em você é porque precisa notar outras partes, não acha?"
"Ah, mamãe...", Yumi suspirou, dirigindo-se ao banheiro com passos lentos, "Se ele ainda não me notou, não vai ser um pouco mais de pele que irá me fazer mais interessante."
"Não custa tentar!"
"Não custa não me deixar passar por uma solteirona desesperada!", Yumi soltou entredentes, longe dos ouvidos da mãe.
Apesar da pequena raiva que sentiu, Yumi conseguiu tomar um banho demorado e relaxante, utilizando seu tempo para fazer exatamente o que sua mãe pediu, perfumando-se e enfeitando-se de forma levemente mais ousada do que o normal.
Quando finalmente sentou-se de frente para o espelho, no quarto, com sua mãe às suas costas de escova na mão, olhou para os cabelos úmidos, longos e soltos sobre os ombros como uma delicada manta de renda dourada e teve uma idéia, "Mamãe... não faça nenhum penteado hoje.", ela pediu, estudando com cuidado seu reflexo, "Deixe-o solto."
"Oh... nem uma presilha?"
Yumi negou com a cabeça, esperando pacientemente que sua mãe lhe obedecesse, "Vamos ver como fica..."
"Vai lá, querida. Fale com ele!", sua mãe insistiu, tentando empurrá-la para a sala, "Eu ficarei aqui na cozinha e seu pai irá demorar até terminar esse telefonema, aproveite e converse com ele!"
"Como estou?", Yumi perguntou de repente, virando-se para a mãe e jogando os cabelos soltos para trás.
"Perfeita, querida. Vai, vai!"
Yumi estava nervosa. Geralmente era ela quem desviava-se das investidas dos homens ou procurava contê-los em suas eufóricas avançadas, mas com Tezuka, seus pais e ela mesma perceberam que a estratégia teria que ser outra. O grande problema era que seria a primeira vez na vida de Yumi que ela tentaria conquistar um homem. E ela não sabia como.
Olhou pela fresta da porta e o viu sentado no sofá, teclando algo pelo celular, aparentemente sem o mínimo de incômodo por estar sozinho na sala do patrão. Yumi entrou, fazendo os sons necessários para que chamasse atenção e não fosse considerada estabanada, sorriu e sentou-se na poltrona ao lado do sofá.
"Trabalhando?"
Tezuka já tinha guardado o celular, dando-lhe total atenção, como qualquer outra pessoa educada faria, "Não. Seu pai?"
Yumi suspirou, sorrindo docemente, "Ainda no telefone.", ela então fez uma expressão pensativa, falando como se o assunto lhe ocorresse apenas no momento, "Gostaria de conhecer o jardim interno?"
Tezuka olhou-a por breves segundos, mas respondeu, sem demonstrar tédio ou entusiasmo, com um curto aceno de cabeça. Ele levantou-se do sofá, estendendo uma mão para Yumi, soltando-a tão logo ela ficou de pé.
Pega de surpresa, pois achava que ele, como em tantas outras vezes, recusaria o convite, Yumi pensou rapidamente no que fazer depois, "Por aqui.", ela indicou, guiando-o entre os ambientes até o jardim, "Meu tataravô mandou construí-lo, dizendo ser um presente de aniversário para a esposa...", ela explicou e sorriu, apontando para um pequeno lago, "Mas, na verdade, era apenas uma desculpa. O que ele queria era esconder segredos do governador. No fundo do lago há um pequeno túmulo de arquivos antigos, completamente inúteis para nossa época."
"Hm. Solução interessante.", Tezuka comentou, olhando para trás rapidamente.
"Verdade... O que meu pai--"
"Tenho algo importante a lhe falar.", Tezuka disse de repente, autoritário, interrompendo-a na explicação, portando uma expressão séria, profissional, "Sei o que você e seu pai têm em mente, Suzuki-san.", ele declarou, sucintamente, sem demonstrar o mínimo de embaraço pelo assunto tratado, "Mas não está nos meus planos ter qualquer relacionamento, além de profissional, com seu pai."
Com o coração pulsando fortemente contra o peito, Yumi recuou um passo, assustada com a frieza das palavras e do olhar de Tezuka. Era a primeira vez que um homem a dispensava e, apesar de achar estranho a sensação, ela tentou manter a calma e disse, com um sorriso trêmulo, "Não há planos para você e meu pai, Tezuka-san."
Apesar da piada de péssimo gosto para os padrões de Yumi, algo no olhar dele mudou, brevemente, mas logo Tezuka assumiu a mesma postura de antes, "Eu sinto muito.", ele finalizou a conversa, virando o corpo e caminhando para fora do jardim, de volta para a casa.
"Tezuka-san!", Yumi desesperou-se, sem saber exatamente por quê, correndo atrás dele, "Espere, por favor! Não me entenda mal...", ela pediu, andando ao lado dele, dando dois passos rápidos para cada passada larga que ele dava.
"Não há ressentimentos. Não se preocupe."
"Mas... Tezuka-san.", Yumi tomou-se de coragem, segurando o braço dele, obrigando-o a parar, "Por favor, me escute."
"Eu aviso que é melhor pararem.", o alerta veio tão seco e duro como suas outras palavras, "Seu pai e meus próprios colegas de serviço têm me vigiado, vasculhado o meu passado e invadido minha privacidade no último ano.", Tezuka disse, sem emoção, inclinando o rosto, olhando-a seriamente nos olhos, "Diga a seu pai que você não está interessada em mim."
Yumi arregalou os olhos e, sem perceber, soltou o braço de Tezuka, muito surpresa para dizer ou fazer qualquer coisa. Ao ver o moreno se afastar, ela piscou, perguntando baixinho, "Você ama outra pessoa, não é?"
Tezuka não respondeu. Continuou andando, sem olhar para trás.
Algo diferente aconteceu na família Suzuki. Ao invés do pai de Yumi se preocupar em achar defeitos em Tezuka, ele se empenhava em achar os segredos dele, mais especificamente, o que fazia o moreno, seu subordinado mais competente, um homem sério e perfeito futuro marido, rejeitar sua filha.
"Há vários buracos na história dele.", ele murmurou, mais para si mesmo, durante o jantar.
Além de rejeitar uma das damas mais desejadas da sociedade, ele ainda culpava Tezuka pela recente tristeza no olhar da filha, sua falta de vontade de participar das coisas em família e o cansaço aparente na voz.
Yumi não culpava Tezuka por não amá-la. Se ele realmente amava outra pessoa, ela nada poderia fazer contra isso, pois sabia que, quem quer que fosse, faria de tudo para não perder alguém tão precioso como ele. Porém, apesar do que dizia a sua mãe e a si mesma em voz alta, na frente do espelho, o que mais lhe atormentava, quando ia dormir era como iria dizer que não estava interessada em Tezuka se todo o seu corpo e mente lhe gritava o contrário?
"Vou mandar Tsukishiro atrás dele.", seu pai disse, por fim, entre dentes.
"Tsukishiro-san!"
Yumi arregalou os olhos, espantada com a decisão de seu pai, "Papai... não pode fazer isso.", ela tentou dizer, "É muito arriscado."
Sua mãe concordou e, enfatizando com as mãos, disse, "Ninguém é capaz de substituir Tsukishiro-san. Ele é um oficial de um cargo só."
"Papai, por favor... se o primeiro-ministro souber..."
"Não, não!", o pai negou vigorosamente, determinado, "Eu tenho plena confiança em Tsukishiro. Em três dias, tenho certeza, ele irá me trazer até mesmo os pensamentos de Tezuka!"
"E quem irá guardar nosso primeiro-ministro?", a mãe perguntou, aflita.
O pai deixou que o peso da pergunta pairasse sobre os três por um breve momento, silencioso e decisivo, até responder, com a cabeça erguida, "Eu farei isso."
"Fuji está sendo perseguido!"
"Mesmo? Pela polícia?"
"Nya! Não é hora para brincadeiras! Ele está sendo perseguido por um homem!"
"Oh... ele já falou com a polícia?"
"Oishi! Por que tudo tem que terminar em polícia? Pode ser alguém interessado neleee!"
"Ah... o que isso quer dizer?"
"Humpf! Oishi, você está lento hoje, nya?"
"Esse garoto sabe de alguma coisa.", Suzuki-san disse para seus subordinados, desligando o aparelho onde a gravação era tocada, "Alguma coisa que nós não sabemos."
Yumi afastou-se da porta lentamente. Seu pai chamou Tsukishiro e outros dos melhores espiões do país para uma reunião sobre o "caso Tezuka". Portanto, ela sabia que todos dentro da sala já sentiram sua presença, escutando de forma não convencional o rumo da conversa. Mas, de qualquer forma, não custava nada ser discreta.
Tsukishiro trouxe para casa uma das maiores revelações que já se ouviu sobre candidatos a pretendentes naquela casa. O colega mais próximo de Tezuka no colégio mantinha um relacionamento homossexual com outro colega dele desde a formatura.
O nome de Tezuka Kunimitsu só não foi riscado sumariamente do plano casamenteiro de seu pai, pois ainda era incerta a posição que esse tal de Oishi Shuichirou representou na vida dele. Tezuka, ao que parece, nunca foi muito dado a exibições públicas que comprovassem qualquer laço forte de amizade. Ele estudava com afinco e, ao lado dele, só poderiam ter pessoas com os mesmo objetivos, que são classificados como colegas e não amigos.
Mesmo assim, a dúvida ainda pairava no ar. E o namorado de Oishi ainda revelava que haveria a possibilidade desse outro colega, Fuji Syusuke, que estava estudando em outro país, também ser a favor de relacionamentos homossexuais.
Yumi balançou a cabeça, em vã tentativa de dispersar os pensamentos. Seria possível que a falta de interesse de Tezuka por ela se devesse ao simples fato dela... ser mulher?
"Yumi-san!"
Prendendo a respiração e colocando a mão sobre o peito com o susto, Yumi virou-se na direção da voz, "Tsukishiro-san! Você me assustou! Não deveria estar com papai?"
"A reunião acabou.", o homem fez uma pequena reverência e retirou um envelope de dentro do paletó, "Achei melhor mostrar isso para a senhorita. Seu pai não viu esta foto. Peço, por favor, que ainda não comente nada com ele, senhorita."
"Ah. Obrigada, Tsukishiro-san."
"Boa noite, senhorita.", com um leve movimento de pernas, o espião deu um pulo alto, sumindo da vista de Yumi, como se ele nunca estivesse ali antes.
Ansiosa, ela abriu o envelope, tomada de grande curiosidade. Primeiro viu o verso, onde estava escrito: Fuji Syusuke.
"Oh... É o rapaz que está fora do país estu--"
O susto que teve foi tamanho que a pequena fotografia escorregou de seus dedos e lentamente caiu no chão, deslizando pelo piso encerado até alguns passos de distância de Yumi. Mesmo assim, a figura na foto ainda podia ser vista. Muito bem vista.
Recompondo-se, pois, de repente, foi tomada de pânico ao pensar que seu pai poderia ver a foto, Yumi correu até ela e guardou-a dentro do kimono. No quarto, poderia ver com calma a fotografia e refletir sobre as peças do grande quebra-cabeça que era Tezuka Kunimitsu.
Os empregados da casa da família Suzuki estavam fazendo o melhor possível. A pedido de Yumi, seu pai convidou Tezuka para jantar. Seria a última tentativa da família para conquistar o rapaz. Um cozinheiro foi chamado para preparar a comida, uma estilista preparou roupas especiais para a ocasião e um organizador de eventos foi chamado, preparando um pequeno espetáculo reservado com músicos de renome.
Seria, então, a última chance.
Yumi refletiu muito sobre todas as informações que possuía sobre Tezuka e seus colegas e chegou a uma conclusão arrasadora, pelo menos para ela, que já admitira estar apaixonada pelo oficial.
"Filha... Tezuka-san chegou.", sua mãe disse por trás da porta.
A pedido de Yumi, somente ela, a estilista e a cabeleireira ficaram no quarto, cuidando dos últimos preparativos para o jantar.
Yumi olhou-se no espelho pela última vez sentindo uma leveza estranha, uma brisa que arrepiava-lhe a nuca, algo que ela deixou de sentir a muito tempo, quando ainda era criança e seu cabelo era curto. Instintivamente, ela ergueu a mão, mexendo nas pontas dos fios que apareciam abaixo de sua orelha.
"Estou indo."
Sua mãe murmurou algo satisfeito voltando para a sala. Suspirando profundamente, Yumi deu os primeiros passos para encontrar-se com o homem que não saia dos seus sonhos e de lá mostrava desejo algum de sair.
"Oh, filha!", sua mãe exclamou, com uma expressão assustada.
"Yumi, o que aconteceu!", seu pai disse, com os olhos arregalados.
Yumi mantinha os olhos abaixados mesmo após entrar na sala. Fez uma pequena reverência e lentamente ergueu o tronco, esperando não ser muito ansiosa para ver a reação de Tezuka.
"Boa noite, Tezuka-san.", ela disse educadamente, da melhor forma que sabia, com um sorriso tímido nos lábios.
"Filha, o que significa isso?", sua mãe correu para o seu lado, segurando seu rosto e virando-o para fazer uma expressão ainda mais horrorizada, "Seu cabelo, minha filha..."
Apesar de ter seus pais ocupando toda sua atenção com perguntas e pedidos para que se virasse, que se explicasse, que se arrumasse de alguma forma, Yumi podia sentir que era também toda atenção de Tezuka. Desde que entrara na sala, percebeu os olhos do moreno sobre si e, apesar dos meios que se utilizou para conseguir isso, Yumi sentiu-se, pela primeira vez na vida, uma mulher realmente desejada e completa.
Foram deixados sozinhos novamente. No jardim, reclusos e bem isolados de ouvidos alheios.
Yumi estava sentada em um banco de madeira, com seu kimono bem dobrado, as mãos cruzadas sobre os joelhos e a cabeça abaixada com uma leve inclinação. Parecia uma modelo presa a um quadro e sabia disso, mas também sabia que não seriam esses os artifícios que fariam Tezuka se interessar mais por ela.
"Por que cortou o cabelo?", ele perguntou de repente, quebrando o silêncio.
Yumi ergueu uma das mãos, ajeitando novamente as pontas dos fios na nuca, "Você gostou?", como ele não respondeu, ela apenas sorriu sem graça, dizendo, "Se gostou, a razão é essa."
"E de onde você tirou essa razão?"
"Algo errado com meu cabelo?", o olhar estreito e firme dele foi o bastante para Yumi tornar-se séria também, "Eu queria... Eu sempre soube o que meu pai faz para descobrir os detalhes das vidas dos meus pretendentes.", ela explicou, suspirando como se tirasse o peso das palavras pelos lábios, "Por sorte, fiquei sabendo sobre seus amigos Oishi Shuichirou e Kikumaru Eiji."
"E...?", Tezuka a incentivou a continuar, sentando-se ao lado dela no banco, um pouco menos tenso.
"Meu pai só consegue enxergar um futuro para mim na família. Em uma família.", pela primeira vez Yumi verbalizava sua situação e, por mais ridícula que a achasse, sentiu um grande alívio no pequeno ato, "Uma família, unida e com formação estável, pode agüentar todas as adversidades que o mundo nos impõe."
"Ele não está errado."
"Mas também não está certo.", ela meneou a cabeça, sorrindo de lado, "O meu futuro pode não ser uma família. Ou uma estável, como ele quer.", ela olhou para o céu, divagando brevemente sobre todas as possibilidades as quais poderia desfrutar se ao menos tivesse poder de decisão sobre sua vida, "Mas ele achou você."
Tezuka manteve-se inalterado, argumentando sabiamente, "Se sabem sobre meus colegas de classe, já devem considerar-me um candidato inapto."
"Você não entendeu ainda?", Yumi olhou-o tristemente, pousando sua mão sobre a de Tezuka, "Um bom candidato não é desperdiçado apenas com obstáculos tão pequenos.", ela apertou a mão dele na sua ao ver seu olhar endurecer, "Nunca apareceu um homem como você antes, Tezuka-san. Se pequenos obstáculos o separam de mim... eles serão eliminados."
Tezuka ergueu-se, andando como um animal acuado de um lado para o outro na frente de Yumi, "Pensei que falhas fossem imperdoáveis na escolha de seu pai."
"Não com alguém tão perfeito como você.", ela explicou delicadamente, temendo ser ofensiva demais, "Você era apenas um desafio, mas tornou-se um objetivo."
"Por que está me contando isso?"
"A-ah...", Yumi sentiu o rosto quente e as palavras sumirem de repente, "Bem... eu...", ela abaixou o rosto, envergonhada demais para olhar nos olhos de Tezuka, "Eu entendo que esteja apaixonado por outra pessoa... Entendo mesmo. Mas...", ela encolheu os ombros, temendo escutar uma acusação ou deboche a qualquer instante, "Não pode me impedir de querer ajudá-lo! Não é possível impedir alguém que te ama de querer ajudá-lo!"
Mais por respeito do que por indiferença, Tezuka preferiu ignorar o rompante de Yumi, falando como se a declaração não tivesse ocorrido, "Como você acha que pode me ajudar?"
"Uh... hm.", Yumi suspirou, tentando falar com firmeza novamente, "Meu pai não irá descansar de procurar e eliminar todos os obstáculos entre nós... até... até nos ver casados."
Um grande silêncio dominou entre os dois. Tezuka estava parado, de costas para Yumi, olhando o lago com carpas a sua frente, enquanto ela mantinha-se de cabeça baixa, esperando por qualquer resposta que fosse. Ficaram tanto tempo assim que ela imaginou que Tezuka tivesse ido embora, deixando-a sozinha como vingança por proposta tão absurda.
O som de passos sobre a grama fizeram seu coração estremecer novamente e, com os olhos abaixados, ela pode ver os sapatos reluzentes de Tezuka parados logo a sua frente. Uma mão quente segurou delicadamente seu queixo e obrigou-a a erguer o rosto.
"Eu irei me casar com você, Yumi-san.", Tezuka afirmou olhando-a tão atentamente, mas, ao mesmo tempo, como se seu olhar atravessasse-a, que ela sentiu-se vazia e envergonhada, "Será um trato nosso: você se casará para me proteger e eu me casarei para proteger outra pessoa."
FIM
