Guilhotina — Parte II
Por Dana Norram


Os dois homens se encararam durante longos minutos em incômodo e quase palpável silêncio.

A verdade era que Harry Potter simplesmente não sabia o que dizer. Admitia que chegara a ter alguns quase esquecidos sonhos nos quais se reencontrava com Draco Malfoy, mas era óbvio que nenhum deles era remotamente parecido com a situação atual.

A aparência magra e apática era acentuada pelos cabelos finos que Draco deixara crescer até os ombros. Isso somado às profundas olheiras que marcavam sua face destoavam totalmente da cabeça que ele matinha erguida em desafio. Foi o que surpreendeu Harry. Principalmente porque Draco tinha ambos os braços presos à cadeira por correntes grossas que retiniam ameaçadoramente, como se o desafiassem a tentar se livrar delas.

Draco abriu um sorriso. O primeiro de muitos. E naquele instante Harry Potter se deu conta de que não precisava ficar e ser atormentado pelas palavras que o loiro possivelmente guardara com todo cuidado para aquela ocasião. A lembrança que guardava com tanto esmero, de um Draco Malfoy abalado e submisso, pareceu se quebrar como estilhaços de vidro dentro de sua mente. Algo havia mudado, e Harry não queria saber o que era.

Ergueu os olhos, decidido a ir embora, mas no lugar de um incentivo ele encontrou um par de íris cinzentas, lhe encarando com uma calma tão pesada que chegava a ser perturbadora. Não se levantou. Remexeu-se na cadeira, imaginando se poderia estar preso por correntes invisíveis. Talvez fosse esse o motivo de não conseguir simplesmente se levantar e sair dali.

"É óbvio que eu não gosto da idéia de apressá-lo, Potter, mas, infelizmente, já não tenho mais todo o tempo do mundo."

Harry ficou surpreso ao escutar Draco romper o silêncio assim, tão de repente. E também por reparar que cada palavra, cada sílaba, vinha carregada de uma pequena dose de sarcasmo e ironia, deixando quase imperceptível o quê de medo escondido por trás da voz. Harry soltou um suspiro que poderia ser de alívio.

Era perfeitamente normal que Draco estivesse com medo.

"Há quanto tempo você está preso?" A voz do grifinório tremia de leve, ainda sem saber como colocar em palavras tudo que precisava saber. Draco ergueu as sobrancelhas com ar de dúvida e indicou a porta por onde Harry entrara. O moreno compreendeu o gesto instantaneamente. "Eu não perguntei," apressou-se em explicar. "Se tivesse aberto a boca ainda estaria lá fora dando satisfações aos aurores. Estou perguntando a você."

O sorriso dado por Draco era de tão genuína compreensão que parecia reconfortante.

"Eles podem ser persuasivos, é, eu sei." O loiro se permitiu soltar uma risadinha baixa antes de voltar a encará-lo. "Cinco dias. Eu teria pedido que o chamassem antes, mas não queria olhar para sua cara até ter certeza de que seria pela última vez."

Harry fingiu não ouvir a provocação intrínseca nas palavras finais.

"Cinco dias?" Estava abismado. "Te condenaram à pena de morte em cinco dias? Não houve tempo nem mesmo para um julgamento, pelo amor de deus!"

Era uma pergunta, embora soasse mais como afirmação. Draco virou o rosto meio de lado e soltou um suspiro pesado que fez os fios de sua franja loira balançarem. Harry se conteve para não erguer o braço e afastá-los da face dele. Draco estava tão pálido que parecia haver sombras de azul espalhadas por toda sua pele.

"É lógico que houve um julgamento", disse Draco com impaciência. "O Ministério da Magia não tem colhões para tomar uma decisão destas sem o apoio total da Corte Suprema. Afinal, mesmo com todos os antecedentes e minha própria confissão seria um veredicto que talvez trouxesse problemas com o passar dos anos, você sabe... os jornais podiam fazer algum barulho e prejudicar alguma eleição futura. Ninguém mais quer problemas agora que tudo está em paz. Quanto antes se verem livres de gente como eu... bem, melhor para eles."

"Você... confessou?"

Draco soltou ar pelas narinas, balançando a cabeça de leve.

"Admito ter usado a palavra errada. Confessar não foi exatamente o caso." Os cantos da boca de Draco se esticaram diante da incompreensão que tomava o rosto de Harry. "Quando a Mansão Malfoy foi invadida e eu matei aquele bruxo, bem, não é como se não houvesse testemunhas contra mim. O fato de eu ter fugido só atestava minha culpa. Nem minha mãe teve condições de me defender."

Harry levou algum tempo para perceber que sua boca estava aberta.

"Ela está morta. Morreu seis meses depois que fugi. Descobri quando fui preso." A voz de Draco ainda parecia calma, embora seus olhos brilhassem um pouco mais. O loiro balançou a cabeça, indicando a porta. "Eles pareciam bastante ansiosos para me contar."

O moreno fechou as mãos em punho e desviou os olhos dos de Draco. Era justo, não era? Ele matara uma pessoa e agora ia pagar por isso. Era justo. Era justo.

"Claro que apenas isso não era o bastante para pedirem a minha cabeça numa bandeja de prata. Mas não é que alguém teve a brilhante idéia de usar legimência e descobrir o que mais o Perverso Malfoy tinha aprontado de grave enquanto esteve foragido?"

Harry só se deu conta de que tinha prendido a respiração quando sentiu o ar lhe faltar e começou a tossir. Então o Ministério tinha visto...?

"Não se preocupe, Potter. Eles não sabem sobre você. Eu estava em guarda quando me interrogaram, só mostrei o que interessava. Que eu tinha fugido e matado o meu 'bem-feitor'. Eles ficaram bastante horrorizados, se quer saber."

Uma onda gelada, que não se parecia nada com alívio, inundou o peito de Harry. Ele abaixou a cabeça.

"Talvez eu devesse lhe agradecer." Disse entredentes, cerrando os olhos.

"Não me agradeça. Não fiz por você. Fiz por mim. Sabia que se eles me vissem cometendo um assassinato com as próprias mãos não teriam piedade. Eu nunca quis a piedade deles."

Harry estava desconcertado. As palavras saíam de sua boca sem que ele tivesse tempo de pensar nelas. "Mas e Azkaban-?"

Draco ajeitou o corpo como era possível e voltou a encarar Harry. Sua expressão fez com que a voz do moreno se perdesse nalgum lugar entre a boca e a garganta. Ao invés da face tranqüila de instantes atrás agora havia uma máscara.

E a máscara sorria.

"Azkaban será fechada em breve. O Ministério finalmente descobriu que a Ilha representa custo demais e eficiência de menos. Eu lhe disse uma vez que não iria para aquele lugar. Me mataria antes de escutar uma sentença dessas."

O moreno balançou a cabeça, desolado.

"Não que isso mude as coisas, de qualquer forma. Você vai morrer."

"Você também." Draco voltara a transparecer aquele ar de inabalável tranqüilidade. "Todos vamos morrer um dia, Potter." O loiro entoou como uma criança.

Harry revirou os olhos antes de fechá-los com irritação. Pela primeira vez lhe ocorreu que talvez Draco tivesse ficado louco. Isso explicaria tudo.

"A diferença..." Draco voltou os olhos para cima, fitando o teto e fazendo um trejeito engraçado com os lábios, como se falasse de um assunto sobre o qual pensara o bastante... o suficiente para poder encará-lo com toda aquela segurança. Com aquela quase apatia. "A diferença é que eu arranjei as coisas para que a minha morte não fosse apenas mais uma triste fatalidade do destino. Eu mereço mais do que isso, Potter."

"Mais?" Desta vez foi Harry quem riu. Estava surpreso com o som da própria risada. Ela soou-lhe amarga. Velha. Tinha se esquecido que ainda conseguia rir tão espontaneamente e foi esse pensamento que o assustou. "Mais o quê? Você foi condenado por ter matado outras pessoas. Não há nada de 'mais' nisso, Malfoy. Você vai morrer como a pior espécie de gente que existe, repudiado pela sociedade, com o nome jogado na lama. Que diabos há de 'mais' nisso?"

Um sorriso franco e sincero fez Harry Potter perceber que finalmente chegara onde Draco Malfoy queria.

"'Oh, o que tem de mais?' é o que você me pergunta. Eu sabia que você ia perguntar. Você não entende..." Draco balançou a cabeça tal como um adulto explicando algo óbvio a uma criança pequena e meio retardada. "Não entende e é justamente por isso que está aqui. Morrer assim tem algo de mais. De muito mais. Talvez, no fundo, possa até parecer simples. Tão simples que quase ninguém percebe, mas eu sei... eu sei que fui julgado e condenado por algo que realmente fiz. Não foi por uma infelicidade do destino. Um 'acidente'. Não foi por fraqueza. Eu fui condenado pelos meus atos. Medidos. Escolhidos. Executados. Eu fiz por merecer a sentença que recebi. E estou orgulhoso dela."

Continua...


Nda.: Draquinho é tão fofo, não? Sabem, acho que vou passar a assinar como Dana-"Não-Sei-Escrever-Finais-Felizes"-Norram. Será possível que ninguém aqui ainda tenha um fiozinho de esperança com as minhas fanfics? #grin#

Tá aqui a segunda parte, espero que gostem (ou ao menos não detestem tanto) e digam (no caso, escrevam) o que acharam. Aliás, a todos que deixaram comentários no primeiro capítulo (Calíope Amphora, Cami Rocha, Maaya M., Lily Carroll, Nicolle Snape, Beatriz Riddle, Pan Grey, Tabris, Ferfa, Elizabeth Bathoury Black, Sarih, Julia Cohn, Mina Kon, Moi Lina, Gisele.M e gutinha) o meu sincero: MUITO OBRIGADA.