Guilhotina — Parte IV
Por Dana Norram
Não fora tão difícil, afinal. Erguer o rosto. Apoiar as mãos nos braços da cadeira. Se levantar. Não agora que tinha certeza. Não quando tudo que importava estava parado bem na sua frente.
Preso, acorrentado... sem ter como fugir.
Harry Potter balançou a cabeça, reprimindo um sorriso. Não podia dizer que estava surpreso. Seria mentira. Uma grande, enorme e gritante mentira. Talvez não tão grande quanto aquela que por anos ele chamara de "vida". Mas grande o bastante para mantê-lo cego por tempo suficiente.
E agora não havia mais volta. O primeiro passo talvez tenha sido o mais duro, mas ele o venceu.
Separando ele e a figura magra e pálida de Draco Malfoy havia apenas uma mesa simples, de madeira escura. Uma mesa que poderia ser afastada por suas mãos e até quebrada ou destruída caso ele puxasse a varinha. Era uma barreira pequena, simples... fácil.
Draco ergueu os olhos quando Harry se aproximou o bastante para tocá-lo. E não esboçou a menor reação quando os dedos encostaram de leve em sua face.
"Eu não tinha idéia da falta que sentia disto." As palavras saíram da boca de Harry como se pertencessem a uma outra pessoa. Como se ele fosse um boneco manejado por um ventríloquo especialmente habilidoso.
Os dedos do moreno descreveram uma linha imaginária pela bochecha pálida, e Draco estreitou os olhos quando eles se aproximaram perigosamente de sua boca. Abriu um sorriso debochado e encarou Harry com um olhar que parecia perdido entre alívio e pena.
"Ah, Potter, você não espera que eu acredite que você se manteve casto e puro desde o dia em que eu... ahãm, te deixei na mão?"
O som do tapa só ecoou pela sala cavernosa quando a vermelhidão na bochecha de Draco ganhou os contornos dos dedos de Harry. A boca de Draco pendeu de leve. Descrente. Ele, porém, não teve tempo de raciocinar. Sentiu dez dedos lhe apertarem o rosto com força e em seguida se descobriu encarando um mar de verde esmeralda. Pensou em falar, em juntar suas últimas forças para cuspir naquela face que ele tanto queria odiar, mas não podia. Não agora que tudo ia acabar. Não tão perto do fim.
Harry apertou o rosto do loiro com mais força. Draco ergueu os olhos, desafiador. Harry deslizou um dos dedos sobre os lábios ligeiramente rachados. Draco soltou um suspiro de leve. Harry se aproximou mais. Draco não recuou.
Não podia. Estava preso. Decidira-se. Fizera uma escolha. Sua última escolha.
"Diga que me odeia, Potter." A voz sussurrada lembrava o vento fraco de uma manhã de inverno, aparentemente inofensivo, mas gelado o bastante para deixá-lo doente. "Me deixe ir embora."
Harry fechou os olhos e abaixou a cabeça, sacudindo-a com repentina irritação. Estava tão próximo de Draco que a ponta de seus cabelos chegavam a tocar-lhe face. Desfez o aperto no rosto do outro, descendo suas mãos até o pescoço desprotegido, envolvendo-o num aperto firme. Draco fechou os olhos e abriu um sorriso cálido. Tranqüilo.
"Faça." Disse ele feliz. "É por isso que está aqui. É para isso que você veio."
E apesar de Draco ter arregalado os olhos quando os lábios de Harry pressionarem os seus, ele não lutou. Harry sentiu quando ele entreabriu os lábios e se deixou aprofundar numa carícia que sabia que seria a última. Desceu as mãos pelos ombros magros, mas parou quando sua pele tocou o metal frio das correntes. Era o fim.
Abriu os olhos. Draco sorria como nunca Harry o vira sorrir.
"Você me traiu com um beijo. Eu gosto disso."
Harry se afastou apenas o bastante para poder falar.
"Eu não te traí."
"Não. É verdade. Não a mim. Está traindo a si mesmo. Não pode dar o que eu peço, então faz o que sente vontade. Sabe de uma coisa, Potter? Eu adoraria entender como você conseguiu viver tanto tempo agindo desta forma."
Harry piscou, confuso.
"Como se não houvesse amanhã. Como se nada importasse tanto quanto o presente. Eu sempre te invejei por isso. Você sempre foi livre, mas depois de fazer o que fez... de vencer a Guerra... você se trancou. E parecia feliz de estar daquele jeito, preso... acorrentado. Você podia ser livre e escolheu a prisão. Eu não quero isso para mim. Eu quero ser livre."
Harry deixou uma risada amarga escapar. Livre? Era engraçado ouvir Draco Malfoy falando sobre liberdade naquelas condições.
"Liberte-me." Sussurrou o loiro, fechando os olhos e afastando a cabeça até apoiá-la contra o encosto da cadeira.
Harry olhou para as correntes mágicas, que ainda retiniam ameaçadoramente. Estendeu as mãos para os braços da cadeira. Draco abriu os olhos de repente.
"Não. Não assim. Diga que me odeia, Potter. Me deixe ir em paz."
Harry largou os braços, que caíram lado a lado do corpo. Encarou Draco e soltou um suspiro cansado.
"Eu não te odeio. Eu nunca te odiei. Eu só não gostava de você. Eu só queria..." A voz parecia distante. Arrependida. "Eu só queria nunca ter te conhecido".
Os olhos de Draco se pareciam com dois céus tempestuosos, preludiando chuva. Ele então os fechou e deixou a água correr.
"Fique. Assista à execução. Eu preciso saber que você vai estar lá quando eu morrer e que vai se sentir culpado por isso."
Harry ergueu o corpo e se afastou alguns passos. Ficou ainda um minuto inteiro encarando Draco, mas descobriu que não havia mais o que dizer. Virou de costas e começou a caminhar em direção a porta, mas se deteve antes de alcançar a maçaneta.
"Draco?" chamou, sem se voltar.
"Sim?" Disse a voz à suas costas.
"Nunca teria dado certo, teria?"
Ouviu a risada um pouco mais alta do que o normal.
"Você não tem certeza, não é?"
Ouviu outra risada e ficou surpreso ao se dar conta que era a sua.
"Eu nunca tenho."
O silêncio durou pouco.
"Não teria, Potter. Nunca."
Ele assentiu novamente e encostou a testa na porta de ferro, sentindo o frio contra a sua pele quente. Soltou um suspiro. Se seguisse em frente tudo acabaria, mas caso olhasse para trás, talvez se transformasse numa estátua de sal.
"Eu nunca gostei de você, Draco e nunca quis que as coisas acabassem assim. Eu não sei o que foi que você deixou comigo naquela manhã, quando foi embora. Mas não era ódio."
"Potter." A voz de Draco parecia irritada, impaciente. "Não foi sua escolha. Foi minha. Você não pode mudar isso. Pense apenas que mais alguém decidiu morrer por você."
—X—
Parou diante do janelão aberto e olhou para baixo. Levou algum tempo para perceber que suas mãos tremiam.
"Vale a pena morrer por aquilo sem o qual não vale a pena viver".
E agora ele se lembrava. Compreendia. Sabia que não poderia ter feito coisa alguma. Ele só podia se culpar por não ter sido ele no lugar dos outros.
Sentiu o vento batendo com força contra sua face e sorriu. Podia ser livre quando quisesse. Era só uma questão de coragem.
Afinal, o que se deve fazer quando se chega à beira de um precipício?
Podia recuar e se trancar de volta na redoma de vidro que o mantinha de pé. Fora o que ele fizera nos últimos anos. Mas também podia erguer a cabeça e lutar, seguir em frente. Lutar por todas as boas lembranças. Guardar no coração apenas as memórias que o deixassem feliz. Eram poucas, mas reais. Eram suas. E estavam todas bem ali, ao alcance de um pensamento.
E Harry pensou em seus pais. Pensou em seu padrinho. Em Dumbledore. Em seus amigos. Em todos que morreram para que ele vivesse. E era tão injusto. Pensou em Draco Malfoy e em suas palavras. Ele sabia que a culpa não o salvaria. Lembrou-se do olhar calmo dele na hora em que o feitiço do carrasco lhe atingira no peito. Pensou em como tudo podia ser simples e dar certo apenas se ele quisesse.
Harry Potter sentiu o vento batendo no rosto e descobriu que estava cansado. Talvez fosse a hora de fechar os olhos e tentar dormir.
FIM
(A NdA abaixo foi originalmente publicada no fanzine Tristeza#02 e eu a reescrevo aqui por ainda achá-la pertinente — e porque eu estou com preguiça de escrever outra nota final, mas isso a gente abafa, né? xD)
NdA.: Sou contra continuações por uma razão: acho muito difícil — para não dizer improvável — que uma seqüência consiga se sair melhor (ou tão boa ao menos) quanto seu predecessor. Normalmente quando algo faz algum sucesso, em qualquer campo, seu autor (ou 'dono', por assim dizer) tem o hábito de investir na fórmula à exaustão, muitas vezes chegando a desgastá-la por completo. E isso não é legal.
Agora, com essa idéia em mente, imagine a minha relutância em escrever esta fanfic que você acaba de ler.
Nicotina — a primeira da 'trilogia' — nasceu num rompante, sem ser planejada. Ficou quase um ano na gaveta, incompleta, porque eu não sabia como terminá-la, mas um dia eu simplesmente escrevi o que seria a última página. Sim, a fic ficou parada um ano inteiro por causa de uma única página. Satisfeita com o resultado final, eu a postei na Internet. Era minha primeira fanfic Harry/Draco e eu não tinha idéia de que ela teria todo o retorno que teve. Praticamente todos que leram pediram por uma continuação. Eu era contra. Tinha medo de estragá-la e sabia que não dar o devido 'fim' na história era uma maneira de continuar mantendo-a, de uma certa forma, 'viva'.
Escrever Pontos de Autoridade foi completamente diferente de escrever Nicotina. Eu planejei cada capítulo dela e — apesar de ir contra minha diretriz de não fazer continuações — fiquei igualmente satisfeita com o resultado. Depois, apesar dos contínuos pedidos por mais uma continuação, eu decidira parar. E por quê? Por que eu não sabia como terminar a história. Não sabia que final "final" eu poderia dar sem prejudicar a trama, sem descer com o nível da narrativa.
Hoje, porém, a história tem seu ponto final colocado sob o nome de Guilhotina. Um fim que foi planejado, medido e executado. E, admito, estou curiosa. Será que também fiz por merecer a minha sentença? Comentários são extremamente bem-vindos, sempre foram, vocês sabem!
Ps.: Obrigada de coração a todos que comentaram no último capítulo: Calíope Amphora, Lady Yuuko, Elizabeth Bathoury Black, rafael9692, Sophie Huston, Gisele.M, Condessa Oluha, Lily Carroll, Bibis Black, mione03, Tabris, Ananda, brunaapoena, Aleera Black, Re Tonks, Nicolle Snape, Danee Black, Karla Malfoy e MS Tiago, vocês me deixaram MUITO feliz!
