Capítulo 2: Os sapos maiores à direita

Sirius chegou em casa e, antes mesmo de trancar a porta, já havia se livrado de metade de sua roupa. Dirigiu-se para o banheiro, terminando de se despir. Abriu as torneiras da banheira e pôs a mão na água. "Perfeita", murmurou. Tirou a ultima peça de roupa e entrou na banheira, sentindo a água morna molhar cada parte de seu corpo. Encostou sua cabeça na parede e fechou os olhos. Mas, num movimento rápido, abriu-os novamente, assustado. Olhos verdes haviam surgido em sua mente. Sim, os olhos verdes daquela menininha que olhava para ele de dentro do seu mundo do porta-retrato. Como aquela menina era linda! Tinha tanta... Inocência em seu olhar... Ela nunca imaginaria que o homem para quem sua foto acenou há poucas horas atrás tinha feito com que sua mãe cometesse adultério.

E se o marido descobrisse? Se o casamento dos dois acabasse? Como ficaria a menina?

Suas lembranças vaguearam lentamente para um outro casal... Os Potter. Eles sim, tinham se separado. Sirius não sabia exatamente o porquê, mas não tinha nada a ver com questões extraconjugais. Conhecia bem os dois lados da história. Lílian era uma mulher muito correta e dedicada ao marido e ao filho. E, com certeza, era apaixonada por James. Não, jamais iria traí-lo. E James... Bom, aquele sempre foi um completo idiota. Nem se lembrava que existiam outras mulheres quando estava perto de Lílian. E, de repente, eles estavam separados. Cada um foi para um lado, confusões na justiça, Harry fica com a mãe e a cada quinze dias passa o final de semana com o pai... É, não fazia sentido.

Mas, pensando melhor, foi muito antes disso que as coisas pararam de fazer sentido.

Sirius, James, Remo e Pedro. Respectivamente, Almofadinhas, Pontas, Aluado e Rabicho, os Marotos. Nunca se vira um grupo tão unido. Aprontavam todas em Hogwarts, Sirius e James os mais disputados pelo mundo feminino, Pedro, o terror dos pobres elfos domésticos que se concentravam em fazer o jantar sem que Pedro acabasse com tudo antes de ser servido e o bom e velho Remo, com suas boas notas e suas repreensões para os amigos, que insistiam em se meter em encrencas, porém com seu lado maroto inegável. Sim, maravilhosos tempos. E, depois, James se apaixona por certa ruiva... Eles se casam, e tem Harry. Mas confiança é como cristal. Um primeiro arranhãozinho, nunca mais tem o mesmo valor e a mesma beleza.

Sirius suspirou. Era incrível como as coisas tinham tomado rumos que nenhum deles jamais havia imaginado. Sirius e James brigados, Pedro preso, Remo sem falar com nenhum deles, Lílian e James separados. Oh, as coisas realmente mudam.

"Foi tudo culpa dele" – pensou Sirius, os punhos se fechando até as unhas machucarem a carne. Seus olhos se fecharam, e o homem enrugou a testa.

Dane-se. Disse, por fim. Nenhum deles jamais fez diferença. Estava muito bem sem eles.


James aparatou em uma rua calma, formada por casas belas e bem cuidadas, com jardins úmidos e floridos. Caminhou lentamente por umas três casas, até chegar ao número 32. Parou em frente ao portão, olhando para o gramado por trás dele.

Havia um bom tempo que não ia até lá. A ultima vez foi para tentar conversar com ela, mas, devido ao assunto, a ruiva não o deixara prosseguir e pediu que ele fosse embora. E que não voltasse a não ser que o assunto fosse Harry. "Bom, agora o assunto é Harry". James se deparou com sapinho de cerâmica olhando para ele por entre a cerca. Ela sempre adorara esses enfeites... Sua mente vagou para uma voz enraivecida.

(...)" - Os sapos maiores à direita, James, à direita!

- Mas eles estão à direita!

- A minha direita!

- Ok, desculpe lily! Era só você explicar.

- Mas eu estou explicando há horas!

James limpou as mãos na própria calça, se levantou, e foi até a esposa. Antes que ela pudesse reagir, passou as mãos por entre sua cintura e beijou-a apaixonadamente.

- Tadinho de você, filho – disse o moreno, passando a mão direita na barriga da esposa, resultante de uma gravidez em período final – Imagino quando tiver que arrumar seu quarto... As camisas azul-escuras não devem ficar na mesma gaveta das azul-claras, Harry! – disse, imitando uma vozinha esganiçada.

- Cala a boca, James! – disse Lílian, porem rindo, enquanto dava um tapa leve no peito do marido, e puxando-o para mais um beijo" (...)

James suspirou e pôs a mão para dentro da cerca, suspendendo o pequeno puxador e adentrando no jardim. Caminhou lentamente até a porta e tocou a campainha, ouvindo uma melodia harmoniosa se espalhar pela casa. James se preparou para ver uma silhueta delicada se aproximar através do vidro fumê, mas, para sua descrença, um homem alto, de cabelos loiros e olhos castanhos, vestido impecavelmente apareceu no hall, e foi ele a abrir a porta.

- Você? – exclamaram os dois homens, em uníssono, uma nota de repugnância na voz de ambos.

- A Lílian está, Pefayr? – perguntou James, frio, se recuperando mais rapidamente e tentando ignorar que:

Um: O outro era mais alto, apesar de James também ser alto;

Dois: O outro trajava vestes limpidamente passadas e formais e cinto combinando com os sapatos sociais, enquanto James vestia calça jeans, camiseta branca, um moletom de malha por cima e tênis;

Três: Os cabelos do outro se assentavam elegantemente na cabeça, enquanto os de James se semelhavam a um prisma;

Quatro: O outro usava uma aliança firmando compromisso com a mulher que, alguns anos atrás, juntou as roupas de James e pediu que ele só aparecesse novamente na frente dela para assinar o divórcio.

- Está... – o homem lançou um olhar desconfiado sobre James durante alguns segundos, antes de se virar para dentro da casa, mas não foi necessário chamar, uma mulher de ar jovem e muito bonita, os olhos verdes iluminando seu rosto de forma espetacular, já estava parada logo atrás do parceiro, olhando incrédula para o ex-marido.

- Lílian, precisamos conversar – disse James, notando a mulher, e notando também que ela usava o anel de compromisso. – É sobre o Harry.

Lílian trocou um olhar rápido com o noivo, e este se afastou para deixar James entrar, murmurando um convite.

- Então – disse James, num tom inquisitório, enquanto os três caminhavam para a sala de estar – você está morando aqui, Pefayr?

- Você veio para falar sobre o Harry, não é, James? – cortou Lílian, entrando na sala confortavelmente mobiliada e cruzando os braços, após indicar a James aonde ele deveria se sentar. – Então, vamos falar sobre o Harry.

- Sim. E, como eu sou o pai dele e você é a mãe, só nós dois precisamos conversar, não é? Apenas nós dois – completou, lançando um olhar nada discreto para o outro homem.

- James, o Stephan vai ficar aqui sim, se ele quiser. Ele tem todo o direito de saber da vida do Harry.

- Ah, claro, agora vai ser padrasto dele, não é mesmo? – disse James, se acomodando arrogantemente na poltrona de frente para Lílian e Stephan.

- Que bom que você já sabe, odeio contar uma história mais de uma vez – Lílian respondeu imediatamente, sem vestígios de hesitação, a pele adquirindo um tom avermelhado.

James riu, a mão tamborilando no tampo da mesa ao lado da poltrona em que estava sentado.

- Não me interessa a vida de vocês dois, acredite. – ele falou, as palavras pingando sarcasmo e deboche, um sorrisinho nada característico se formando no canto da boca. – Se casem, tenham filhos e vivam felizes para sempre. Mas tem o Harry. Não se esqueça que ele também é seu filho, Lílian. Espero que ele venha antes de seus namoros.

James percebeu imediatamente que havia chegado ao ponto.

- James Potter, não admito que você fale assim comigo! – disse Lílian se levantando, a pele muito vermelha e a voz vacilante. – Harry é o mais importante para mim, não ouse duvidar disso!

- Potter, acho melhor voltar em outra hora – disse Stephan, se levantando e segurando de leve o ombro de Lílian.

- Oh, claro... Imagino que esteja atrapalhando o namorinho de vocês... – James se esticou no sofá, colocando as mãos atrás da cabeça. Os três se fuzilaram com o olhar por um longo minuto, até que James, de um salto, se pôs de pé, ficando no mesmo nível dos outros dois. – Mas saibam os dois... Eu não vou abrir mão do meu filho para vocês viverem a linda lua de mel bem longe daqui. Não, não vou ficar longe de meu filho para deixar você e seu amante em paz, Lílian.

Lílian encarou demoradamente o homem à sua frente, e James sentiu, por uns instantes, toda a coragem e ousadia que tomara conta dele nos últimos minutos vacilar. Aqueles olhos verdes e brilhantes, emoldurados por longos fios vermelhos... O rosto delicado, os lábios vermelhos, a pele macia, a respiração descompassada... Não precisava encará-la para lembrar de tudo outra vez.

Por mais que tentasse, aquela mulher não saia de sua mente, tomando conta de sua sanidade. Era como um vício. Quanto mais se afastava, mais sentia necessidade. Doía sentir que ela não correspondia. Na verdade, nunca correspondeu. Soube apenas mentir. Seus olhos, brilhantes e aparentemente sinceros, formavam uma máscara, em que ninguém era capaz de penetrar. Como ele pudera se deixar enganar e enfeitiçar dessa maneira? Assim como a odiava, ele a queria. Por necessidade, obsessão e sobrevivência, e apenas por isso.

"Mentirosa...", pensou ele, ainda mantendo o contato visual entre os dois. Nunca a traíra, nunca ousara olhar para uma outra mulher enquanto os dois estiveram casados. Sempre foi fiel e dedicado. Mas, um belo dia, ela começa a reclamar do marido. Reclamar que não recebia atenção, que James chegava todos os dias bêbado em casa... Oras! Ele bebia um pouco, mas nada que justificasse as queixas da esposa!

Era um marido exemplar, um pai maravilhoso para Harry.

Mas aparentemente não era o suficiente para Lílian. Ela reclamava de absolutamente tudo. Até que, um dia, falou que não dava mais. Por acaso, James se lembrava de ter bebido um pouco a mais naquele dia... E se lembrava muito bem de suas palavras...

"Como assim você não quer mais? - sua voz alterada pela bebida berrava, alucinado - Enjoou, foi? Arranjou outro?"

Ele ainda podia sentir a mão quente de Lílian arder em seu rosto. E agora ela estava ali, na sua frente, ao lado com um homem qualquer, com quem, aparentemente, pretendia se casar. Não era justo. Nem um pouco justo. Ele não passou pelo o que eu passei por essa ruiva traiçoeira...

As palavras surgiram nos lábios de Lílian, frias e ardilosas, e queimaram em James como um chicote diretamente sobre a pele, e retirando-o bruscamente de seus devaneios.

- Já faz muito tempo que você abriu mão do seu filho, James. Muito tempo que você abriu mão de tudo, a começar pelos seus melhores amigos.

James vacilou por uns momentos, e então descobriu que era impossível continuar a encarar os olhos verdes. Desviou o olhar, parando na orelha esquerda da ruiva. Ia falar alguma coisa, ele não sabia bem o que, sua boca começara a formar uma palavra quando Lílian resolveu poupá-lo de ter que responder.

- Desculpe não ficar para ouvi-lo, mas tenho que sair. - ignorando Stephan, caminhou em passos firmes até o portal da sala, e de lá olhou para James. – Se não se importa... – complementou, indicando a porta.

James lançou um olhar frio a Stephan, atravessou a sala e foi andando pelo corredor, a cabeça erguida, a ruiva logo atrás de si. Chegou ao hall e abriu a porta ele mesmo, saindo para o batente. Lílian o encarou por alguns segundos, e fez menção de se virar, quando James segurou seu pulso.

- Eu jamais desisti de você. Jamais. – o feitiço da ruiva mais uma vez conflitava com sua razão.

- Você tem razão. Você não desistiu de mim ou de Harry, James. Você desistiu de si mesmo. – e começou a fechar a porta. James se afastou alguns passos, e Lílian terminou de fechá-la sem nenhuma cerimônia.


Remo ainda sentia as costas latejarem, a ferida em seu abdômen ardia como nunca. Não se dera ao trabalho de fechá-la, se dentro de poucas horas tudo começaria novamente. Ainda estava deitado, olhando para o teto. Fizera alguma força para comer algo e encher o estômago, não podia cometer a imprudência de se transformar na fera que era e, ainda por cima, morrendo de fome.

O sol ia despontando no horizonte... Devia ser mais ou menos o horário em que tudo começava...

Enfermaria... As recomendações de sempre de Madame Pomfrey, seu olhar de pena...

Aquilo, mais do que qualquer outra coisa, o machucava demais. O pior de ser um lobisomem... Era fazer as pessoas chorarem por você. O medo, Remus não se importava. Era algo normal, já estava acostumado. O preconceito, então... Para ele não era nenhuma novidade. O que, de fato, doía, era ver as pessoas que se importavam, sentirem dor por sua dor. Uma moça de olhos azuis teimava em ocupar seus pensamentos. Ah, as coisas podiam ser tão diferentes...

Podia, ao menos, serem como eram antes. Como sentia falta. Como seu peito doía em pensar no rumo que as quatro vidas tomaram, carregando outras para o mesmo abismo em que caíram...

Sentou-se na borda da cama, ignorando a dor. Não demoraria muito agora... Ele podia senti-la...

Ouviu um rumorejar de asas... Sua visão estava obscurecida, a lua já incidia sobre seus sentidos... Mas uma canção suave enchia seu coração...

Não, naquela noite ele não estaria sozinho.

A alguns quilômetros de distância, num povoado próximo, uma garotinha acordou assustada com um uivo aterrorizador. Passou várias horas tentando voltar a dormir, mas suas pupilas estavam anormalmente dilatadas, suas mãos suavam... Levantou-se e foi para a cama dos pais. Por fim dormiu aconchegada nos braços da mãe, teve sonhos com os quais não pode se lembrar e, ao acordar, pôs-se a desfazer suas tranças, enquanto os pais discutiam "assunto de gente grande". Cantarolava, enquanto mirava vaidosamente seu rosto inocente no espelho de sua penteadeira. O dia estava tão bonito! Já tinha esquecido completamente do susto da noite anterior. Tudo estava tão perfeito como sempre fora.

E, durante aquele dia, a menina viveu por uma última vez sua vida de preocupações com a cor da fivela de suas tranças.


N/A: Segundo cap!

Jana: valeu aluaada! Você sabe que sua opinião é super-importante pra mim, né? Vou continuar escrevendo sim, nem que seja pra minha única leitora! iaiHAuiahuIHAIhaiuA TE AMOOO beta fooofaa e, principalmente, amiga inegável :)

Bom, não sei se tem que ser dada alguma explicação... Espero que o texto não tenha ficado confuso. Enfim, muito obrigada a também a quem estiver lendo mas não deixou reviews... espero que esteja gostando! É claro que eu gostaria de saber da opinião de vocês, mas... xP

Façam essa escritora desocupada feliiiiz! Olha aquele botãozinho roxo ali em baixo... ele não é uma graça? Olhaaaa, tá mandando beijinho pra você... uaaaaaaaauuuu! Deixa uma review, vai... ;)

Hoje é dia... 4? é, quatro de janeiro. próxima atualização, segundo a Lane, vem dia 11 o/

beijos à todos S2