Capítulo cinco: A diferença entre eu e meu reflexo.

- Não, James! – a mulher se voltou a se virar, os olhos em chamas. – não vou te escutar! Eu chego em casa esgotada depois de horas num hospital e encontro meu filho, que deveria estar na sua casa, furioso, dizendo que não quer voltar nunca mais para o mesmo teto que você, converso com ele e descubro que o sábado de vocês terminou em gritos e socos? Você quebrou a promessa que fez! Mais uma vez. Simplesmente não quero mais saber, James.

James desviou o olhar, encarando algum ponto da estante à sua direita, enquanto Lílian olhava para ele, a acusação presente em cada arfar de seu peito.

- Foi ele que me socou. – Lílian sentiu vontade de rir para não chorar do modo infantil como James disse isso, mas se conteve, meneando a cabeça com um olhar acusatório.

- Meu filho não merece isso, James. – disse, as palavras saindo sussurrantes e acusatórias. – O Harry é um homem. E ele decidiu assim. Não posso fazer nada a respeito. Você teve a chance de se redimir com seu filho, mas fez tudo errado!

James não falou nada. Aliás, foi o que fizera a maior parte do tempo desde que a ruiva tocara a campainha de sua casa, pedindo para falar-lhe. A intensa observação decepcionada dos olhos verdes estava queimando seus olhos, tornando-os suscetíveis a uma certa umidade que ele não queria que estivesse presente.

- Acredite, ninguém quis mais do que eu que vocês se entendessem. Mas você nunca tratou Harry como um filho e, é claro, ele nunca o viu como um pai! Você se tornou a vergonha de Harry, James. Ele vê em você um exemplo a evitar!

- O que você quer? – disse James, baixinho, porém furioso, olhando com coragem dentro dos orbes verdes, agarrando de repente o pulso de Lílian.- Quer que eu abra mão dele? Pois bem, Lílian. Vá. Vá você, seu amante e seu filho para bem longe de mim. Já disse que não me importo, não entendo qual era o seu objetivo em vir aqui.

James jogou com força o pulso de Lílian para baixo. Lançando-lhe um último olhar, andou até a porta e a abriu, dando passagem para ela.

Lílian andou até o portal, mas parou, olhando para a rua, desinteressada.

- Sirius está no hospital, internado. – disse, como se comentasse sobre o tempo, ainda olhando para fora. – Sofreu um acidente de moto na madrugada de ontem.

Quando finalmente voltou-se para o rosto de James, sentiu seu estômago afundar. Não havia nenhuma reação. Continuou a observá-lo, tentando decifrar o que se passava pela cabeça do homem. Não, não era possível que ele fosse indiferente. Mas, se sentia alguma coisa em relação a aquela informação, sabia esconder muito bem.

- E daí? – disse James por fim.

Lílian meneou a cabeça de leve, voltando a olhar para fora.

- Eu sinto muito, James. – disse, após alguns segundos.

- Pelo que? – ele perguntou, o mesmo tom frio nada característico de alguns anos atrás, agora presente em cada sílaba que pronunciava. Mas a ruiva não respondeu, deixando o ex-marido totalmente frustrado. – Pelo quê? Eu não me importo com o Black! Nem um pouco.

Lílian fechou o zíper do casaco e saiu para a manhã úmida, sem olhar para trás, os cabelos ruivos movendo-se conforme seu andar, deixando para trás um homem frustrado, que resmungou sozinho mais algumas frases sem sentido, mas depois se pôs a observá-la.

James acompanhou por alguns segundos a mulher com o olhar. Sentiu, de repente, um afundamento na boca de seu estômago, suas entranhas pareciam ter sido puxadas para baixo. Ele não soube o que o impulsionou a fazer isso... Talvez, quem sabe, o balanço dos fios vermelhos, um vermelho violento contrastando com o branco puro do tecido de lã... mas um turbilhão de sentimentos tomou conta dele , fazendo-o caminhar em passos largos até alcançar Lílian e fazê-la se virar para ele, com um puxão brusco no ombro da ex-esposa. Ficaram se encarando, os olhos verdes nos amêndoa, por vários segundos. Ele parecia fazer um pedido mudo. Ela tentava reconhecer o homem que, tão próximo, a olhava de maneira tão intensa, desesperada... Humana. Não. Aquele não era o James de que ela se lembrava dos últimos anos.

I've been looking in the mirror for so long,

(estive olhando pro espelho por tanto tempo)

That I've come to believe my soul's on the other side.

(que comecei a acreditar que a minha alma está do outro lado)

All the little pieces falling, shattered.

(todos os pequenos pedaços caindo, afiados.)

James se aproximou, parecia captar no ar o cheiro dela. Lílian se sentiu entorpecida. Seus pés, de alguma maneira, se tornaram inúteis. E, quando ele falou, encostando a testa na dela, foi com uma voz diferente... Parecia até mesmo um tantinho rouca, como se não fosse usada a muito tempo.

- Eu ainda te amo.

Shards of me too sharp to put back together.

(Pequenos demais para serem colocados de volta no lugar)

Too small to matter,

(Pequenos demais para terem importância,)

But big enough to cut me in to so many little pieces

(Mas grandes o suficiente para me cortar em tantos pequenos pedaços)

if I try to touch her.

(Se eu tentar toca-la.)

James não fazia idéia do que o levou a fazer isso. Mas tudo o que sentia era desespero, paixão, dor. Ao chegar perto de Lílian, tão perto, a vida que deixara para trás voltou desesperadamente, à flor da pele.

And I bleed. I bleed.

(E eu sangro. Eu sangro.)

And I breathe. I breathe, no more.

(E eu respiro. Eu não respiro mais.)

- Ama? – ela sussurrou, os olhos presos aos dele. Pôde ver um brilho esverdeado nos olhos de James. A voz era fraca e, diferente do que costumava ser, insegura.

- Amo. – James inclinou o rosto para frente, perdido em algum ponto entre aquele intenso brilho verde.

I take a breath and I try to draw from my spirits well.

(Tomo fôlego e tento puxar meu espírito do poço)

Yet how can you refuse to drink like a stubborn child.

(Mais uma vez você se recusa a beber como uma criança mimada)

- Então, James… - a voz de Lílian, ainda estava suave, porém levemente mais firme, murmurando enquanto se afastava, inconsciente, à medida que ele se aproximava. – Você ainda é capaz de amar?

Lie to me convince me that I've been sick forever.

(Minta para mim, me convença que eu sempre estive doente.)

And all of this will make sense when I get better.

(E que tudo isso fará sentido quando eu melhorar.)

- Amar você? – ele respondeu, os lábios de ambos a poucos centímetros se distância. – Sempre fui.

James percebeu, por um instante, o quão desesperado estava. Seu corpo parecia liberar ondas de eletricidade a cada milímetro superado entre eles.

- Então porque você não permite que as pessoas amem você? Por que, desde que decepcionou alguém, você se sente na obrigação de decepcionar a todos?

James meneou a cabeça, por fim dominando a si mesmo. Afastou-se de Lílian num pulo. Por longos dois segundos eles se encararam. James tentando se esconder e Lílian lutando para decifrá-lo, numa guerra muda.

But I know the difference between myself and my reflection.

(Mas eu sei a diferença entre eu e o meu reflexo)

I just can't help but to wonder which of us do you love.

(Eu simplesmente não posso deixar de perguntar... qual de nós você ama?)

O encanto teve fim quando Lílian fechou os olhos, descansando-os. James, se não estivesse mais uma vez longe de sua alma, talvez tivesse percebido uma lágrima fina escorrer do lado direito da face de Lílian, caminhar até seu queixo e se jogar, em queda livre, para a segurança de seu coração.

So I bleed. I bleed.

(Então eu sangro. Eu sangro.)

Antes que James pudesse dizer mais alguma coisa, Lílian se afastou, preparando-se para ir.

- Eu aviso quando precisar que você assine os papéis. – disse, sem olhar James nos olhos.

And I breathe. I breathe no,

(E eu respiro. Eu respiro, não...)

Bleed. I bleed.

(Sangro. Eu sangro.)

- Certo – ele falou, perdido em seus pensamentos, confuso, sem vestígios da voz amena e suave de momentos antes. Parecia um homem que procura o caminho certo para casa.

And I breathe. I breathe. I breathe.

(E eu respiro. Eu respiro. Eu respiro.)

I breathe, no more.

(Eu não respiro mais.)


- Entre, Remo. Fico feliz que tenha atendido ao meu chamado.

- Arh... Claro.- disse, após alguma hesitação. Os olhos azuis o deixava tenso. Pareciam mais pesarosos do que nunca, olhando-o daquela forma cautelosa.

- Seria melhor que se sentasse... Tenho a impressão que será uma longa conversa.

- Prof... professor – disse o homem, os olhos se arregalando em compreensão. – Não me diga que...

- Receio, Remo... – disse Dumbledore, descansando a cabeça no encosto de sua poltrona, fechando os olhos, como se esses doessem devido à luz. Pela primeira vez, Remo pode sentir todo o cansaço que tomava conta de homem à sua frente e, por alguns instantes, ver que Dumbledore já não estava mais na flor de sua idade, fato que, a muito, era ignorado por todos. – que se trate de exatamente o que está imaginando, entre tantas outras coisas que nem eu imaginaria.

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- O senhor sabe que não será fácil...

- Se fosse fácil, caro Remo... Não estaria pedindo a você.

As preocupações do homem eram grandes o suficiente e o assunto demasiado delicado para encarar aquilo como um elogio. Preferiu ficar em silencio, perdido em reflexões e medos.

- Mas creio que você saiba que precisamos de... Ajuda.

- Sim, sei. E imaginei que o senhor me pediria isso, professor. Irei tentar. – um brilho surgiu nos olhos do homem mais jovem, mas com a mesma rapidez se extinguiu.

- E conseguir, tenho certeza. Não será rápido, nem fácil, muito menos indolor. Mas certos laços nunca se rompem, Remo. Por mais que sejam postos à prova. Há coisas com as quais não se pode voltar atrás. Esse é, talvez, um dos maiores males da magia, dependendo de seu ponto de vista.

Remo olhou o outro demoradamente, tentando buscar dentro de seus olhos uma confirmação para o que estava pensando, temeroso. Mas Dumbledore resolveu poupá-lo de quaisquer explicações, com um sorriso.

- Estarei o esperando, no dia em que marcamos.

- Certo. – Remo murmurou rapidamente, antes de se levantar e atravessar a sala, parando somente quando alcançou a porta, olhando para trás e, com um cumprimento rápido com a cabeça, abandonou o lugar.

Assim que o homem saiu, o dono dos cabelos brancos e rosto sábio recostou em sua poltrona, um sorrisinho de triunfo em seus lábios. Essa conversa acabara por confirmar suas suspeitas. Ampliou o sorriso. Naquele momento, não podia nem mesmo ficar decepcionado com quem quer que fosse, ou preocupado com os longos dias que se seguiriam. Podia, quem sabe, aproveitar seu ultimo dia em que um sorvete de limão era apenas um sorvete de limão.


N/A: Hello, pessoas!

Bom, respondendo à pergunta geral: o que tem demais no cap 5? É que eu morria de medo de escrever sobre o Dumbledore. Ele é o personagem mais só-a-tia-j.k.-consegue-entender. Quem já escreveu sobre ele, deve ter sentido. Eu, pelo menos, acho complicado conseguir ser fiel ao personagem. Sinceramente, fiz o melhor que pude, espero que não tenha ficado muuuuuito esquisito.

Ah, mais uma coisa sobre esse cap... eu não pretendia colocar song na fic, mas tem duas músicas que eu simplesmente TENHO que colocar aí. Não resisto, sério. Essa música é muuuuito tudo a ver. Eu não gosto de ouvir música quando estou lendo, mas eu recomendo reler esse trecho depois, acompanhado com a musica (breath no more, evanescence). A próxima (de acordo com meus planos) vem só no penúltimo capítulo.

Agradecimentos: Jhu Radcliffe, Mel Black Potter e Chris. Valeu mesmo! vocês fazem uma ficwriter muito feliz! (dani corre e abraça os três). Obrigada também à Jana... minha beta querida S2

P.S.: Não, gente... Essa fic não vai ser slash (uuuuuuuh, tomate nelaa!). Sim, eu queria. Queria muuuito, mas decidi quando comecei a escrever que essa não seria. Mas estou trabalhando em um slash sim. Só estou garantindo a mim mesma que não vou largar pela metade... Aí, quando eu tiver certeza disso, posto aqui.

P.P.S.: Gente... a média está sendo de uma review para quase dez hits (dani senta no chão e chora) vamos, não custa nada me fazer um pouquinho feliz! Olha aquele botãozinho lilás e fashion... ui, tá piscando pra você! ;) Deixa uma review, vai! (dani com carinha de cachorro de mendingo)

Próxima atualização dia 1.