CAPÍTULO 4 – "NÃO HÁ LUGAR COMO NOSSO LAR"

Trilha sonora: "Somewhere over the rainbow", na voz de Ray Charles.

A cabeça dos dois fervia, mas por motivos diferentes. Mr. Eko estava feliz, por ver novamente seu irmão Yemi, mesmo que em sonhos, além da descoberta que havia feito. John Locke sentia-se ludibriado, enganado, sua fé toda indo embora como se uma torneira pingasse, esvaziando sua alma.

A descoberta de uma nova escotilha, a principio tinha deixado Locke radiante, talvez ali poderia ter mais um sinal de que sua fé na ilha estava certa. Entretanto a Pearl revelara-se um engodo, e ele tinha se sentido traído. Ver Jack movimentando-se na escotilha através de um dos monitores tinha sido estranho, mas assistir o vídeo de orientação foi o golpe final. Todas as horas perdidas dentro da escotilha apertando aquele botão tinham sido inúteis, ele tinha angariado desafetos e olhares estranhos por nada! Apenas uma maldita experiência...eram apenas ratos de laboratório fazendo o jogo de alguém muito estranho, mas quem?

Eko sentia-se feliz, como há muito não se sentia. Ver Yemi em seu sonho tinha sido ótimo, e a descoberta da Pearl veio confirmar o que ele desconfiava há tempos: o fato do avião de seu irmão ter caído na ilha em que ele agora estava não era mera coincidência, ele tinha certeza. Era um sinal de que sua missão estava apenas começando, sua redenção estava ali, naquela ilha. Todos os seus pecados iam ser finalmente redimidos, e o botão era a resposta.

Os dois vinham pela floresta em passos ligeiros, Locke desejando nunca mais entrar na escotilha, queria distância do botão. Eko estava ansioso por tomar seu lugar de "protetor" do botão, além de poder analisar tranqüilamente os papéis que recolhera na Pearl. Depois da discussão dentro da escotilha recém-descoberta, tinham recolhido suas coisas e saído sem falarem.

No passo acelerado em que vinham, logo estavam próximos da escotilha, e Locke parou subitamente. Eko o imitou. Os dois escutaram atentamente no silêncio da floresta, sussurros, vindos de não muito longe. Eko largou tudo no chão e ajeitou o porrete nas mãos, pronto para atacar. Locke levou a mão à cintura, apalpando a faca pendurada ali. Olharam-se e se deslocaram em silencio em direção ao som, que havia parado subitamente. Trocaram um olhar rápido e investiram pesadamente, para o meio da clareira.

"Hei, hei, hei, é a SWAT? Não se tem um minuto de sossego por aqui?"

Sawyer pulou para o lado segundos antes de ser atingido pelo porrete de Mr. Eko. Estava meio desarrumado, como se tivesse se vestido às pressas. Ana Lucia estava por trás dele, de cabeça baixa.

"O que fazem aqui sozinhos? Ouvimos vozes e ficamos preocupados" Locke falava enquanto guardava sua faca na bainha.

"Não se pode chamar uma niña bonita para um passeio?" Sawyer gracejava, mas estava visivelmente nervoso.

"Estávamos voltando para a praia e não me senti bem, parei para melhorar um pouco" Ana Lucia falava entre dentes, sem encarar nenhum dos três homens.

"Vamos caipira, estamos atrasados"

"Nossa, docinho, com certeza você já esta melhor. Andiamos..." Sawyer tomou a frente, dando as costas a Eko e Locke, sem se despedir. Ana Lucia seguiu logo atrás, apressou o passo e tomou a dianteira em silêncio, logo estavam fora de visão.

"Ana Lucia não é uma mulher fraca...e porque não voltar para a escotilha? Ficar aqui parado pode ser arriscado" Locke estava intrigado com toda aquela cena.

"Atrasados, para que? Aqui quase nenhum de nós tem compromissos" Eko falou isso e lançou um olhar significativo para Locke.

Voltaram para o lugar onde tinham deixado suas coisas, e Locke encarou Eko.

"Então, é isso..." Locke falou, com cansaço na voz.

"É, é isso." Eko respondeu, firme.

"Vai contar a eles o que descobrimos? Sobre a Pearl, as câmeras e o botão?" Locke falava em tom soturno.

"Não, John. Eles não entenderiam. Além do mais, agora o botão é problema meu, não? Você não vai voltar."

"Não, não vou. Tudo isto é uma bobagem, e não quero continuar fazendo papel de palhaço, para quem quer que seja. Vou voltar para a praia, e aproveitar o mar. Fiquei muito tempo preso, primeiro numa vida monótona e insignificante, agora aquele maldito botão."

"John, você não entende que o botão é só uma parte de tudo isto? Cairmos aqui não foi mero acaso...fomos escolhidos, e você sabe disso. Você acreditava nisso tanto ou mais do que eu."

"Falou bem Mr. Eko, eu ACREDITAVA nisso. Você também deveria duvidar, ou nós vimos vídeos diferentes?"

"Desculpe John, mas não creio que você não acredita mais, você só está agitado, não esta conseguindo enxergar nada além das palavras."

"Não vou mais discutir , Eko, nós já falamos sobre isso na escotilha. Me deixe em paz." Locke estava nervoso, sua voz alterada.

Deu as costas a Eko e virou-se em direção a praia. Mais tarde iria buscar suas coisas na escotilha, precisava acalmar-se antes. Seria capaz de fazer alguma besteira neste momento, tenso como estava. Distanciou-se rapidamente e sumiu entre as árvores.

Eko acompanhou-o com o olhar e resolveu não insistir, Locke precisava pensar. Tinha certeza que com um pouco de tempo, ele voltaria e os dois cuidaram do botão, como era o certo, como era sua missão. Ajeitou suas coisas e partiu em direção a escotilha. Não podia imaginar a tensão que encontraria quando chegasse lá.

Locke alcançou rapidamente a praia, mas evitou passar pelo acampamento, não queria falar com ninguém, estava exausto e decepcionado por tantos dias perdidos. Não pensava em Henry Gale, em Jack, nem mesmo no pequeno Aaron e em Claire, que tinham sido sua distração em alguns momentos. Só pensava no vídeo visto na Pearl e no botão, em como fora estúpido por acreditar na ilha. Boone tinha morrido por sua crença na ilha, e isso o oprimia agora. Procurou um ponto afastado da praia, e sentou-se na areia, meio escondido pelos arbustos. Seus olhos ardiam, não apenas pela falta de sono, ou pelo ar seco da praia...viu o mar embaçado, e as lágrimas rolaram, grossas e quentes pelo rosto marcado. Não se importou em limpá-las, entregando-se a um choro silencioso e sentido, tombando a cabeça pra frente.

Enquanto Eko andava pela mata, a escotilha pulsava em uma tensão latente, palpável. Jack estava sentado em uma cadeira, incrédulo, seu chão havia sumido quando abrira o cofre e o encontrara vazio, e ainda por cima tinha descoberto uma espécie de gravador na cama. Quando o colocou para reproduzir a fita, ouviu paralisado as frases que tinham saído abafadas pela porta, quando Sawyer, Ana Lucia e Sayid discutiam na sala do computador e não tinham prestado atenção. Kate andava de um lado para outro, braços cruzados, a cabeça cheia de idéias. Não podia imaginar, quando Jack a tinha chamado de volta, que Henry Gale havia sumido.

Jack saiu do torpor em que estava e acompanhava com o olhar o ir e vir de Kate, pensando no que fazer? Como ele havia fugido, e para onde tinha ido? Não sabia se saia em busca dele, se corria até a praia para avisar Sayid do ocorrido, se esperava que eles voltassem, nunca pensou que passaria por aquilo.

Ouviram a porta da escotilha se mexer, e olharam ao mesmo tempo, os músculos retesados pela tensão: será que Henry estava de volta, e o pior, estaria acompanhado? Jack colocou-se de pé ao lado de Kate, buscando algo que pudesse usar como arma. Viram a sombra de alguém se alongando pelo corredor e prepararam-se para a luta corporal.

Eko apareceu na cozinha e os dois soltaram um suspiro ruidoso, de alivio. Eko assustou-se com a palidez dos dois e perguntou:

"Parece que viram um fantasma, o que aconteceu aqui?"

"Eko, onde esteve? E onde está John? Henry fugiu, e vocês estão sumidos desde ontem" Jack falou sem rodeios, estava preocupado com os dois.

"Kate, Jack, vocês estão bem?" Eko preocupou-se e procurava neles sinais de que haviam sido atacados.

"Estamos Eko, está tudo certo. Você e Locke não viram nada de anormal na floresta? Não sabemos quando Henry escapou, nem como.Quando Jack abriu a porta do cofre, Henry não estava lá." Kate falava apressada, como se quisesse despejar tudo o que tinha acontecido de uma só vez.

"Algo está diferente? O computador está intacto?" Eko falou, encaminhando-se para a sala do computador.

Jack não estava entendendo nada. Porque Eko estaria preocupado com o computador, onde eles tinham passado a noite e parte do dia, e porque John não estava ali? Fez todas estas perguntas a Eko, sem tomar fôlego.

"Primeiro, Eko, onde está Locke? E onde vocês estavam desde ontem à noite?Onde ele está" Jack olhava para Eko, que se virou e encarou o médico.

"Estávamos numa missão de busca, e encontramos algo que John não esperava. Ele voltou comigo e disse que ia para a praia. A tarefa de pressionar o botão agora é minha, e pretendo cumpri-la com presteza."

Kate e Jack olhavam espantados para Eko, sem entender. Missão de busca, encontrou algo, Locke na praia, ele ia cuidar do botão? O padre estava mais enigmático do que o costume. Jack balançava a cabeça, frustrado.

"Eko, seja mais específico. Estamos numa situação complicada aqui, e não posso me preocupar com você e Locke".

"Você não precisa se preocupar Jack, com nenhum de nós dois. Eu cuidarei do botão, e John só precisa de um tempo para pensar. Ele vai ficar bem. Quanto ao que achamos, é só uma prova de que tudo acontece por uma razão."

Jack desistiu, e olhou para Kate, gesticulando para que saíssem da escotilha. Precisavam conversar a sós. Saíram em silêncio, Kate à frente, deixando Eko com seu botão e seus papéis.

"Vou até a praia buscar minhas coisas, e aproveito para chamar Charlie, Hurley e Libby. Eles podem ter alguma coisa interessante a dizer. Volto logo." Kate falou primeiro.

"Como assim Kate? O que eles poderiam dizer sobre a fuga de Henry? Acha que algum deles pode ter algo a ver com isso?" Jack jogava as possibilidades que surgiam em sua mente.

"Algo pode ter acontecido enquanto Charlie, Hurley e Libby estavam aqui. De repente ele falou alguma coisa, ameaçou-os de alguma maneira." Não queria acreditar que algum deles poderia fazer algo que prejudicaria o grupo, mas as coisas estavam estranhas.

Libby era muito prestativa, mas misteriosa, até mais do que a própria Kate. Ela tinha ajudado Claire a descobrir a escotilha onde tinha ficado presa, mas nunca falava nada de si mesma. Sabia apenas que era algum tipo de psiquiatra. Hurley era ótimo, mas estava caidinho por Libby, e poderia fazer qualquer coisa pela mulher. Charlie não podia ser chamado exatamente de confiável. Tivera seus problemas com drogas, inclusive ali na ilha, e já havia quase afogado Aaron no mar uma vez. Estava limpo, mas o que poderia fazer se alguém prometesse a ele algo que ele tinha mostrado necessitar tanto um dia?

Os dois pensavam em silêncio, mil coisas passando pela cabeça de cada um, possibilidades surgindo como raios numa tempestade. Jack foi o primeiro a falar.

"Kate, tome cuidado, Henry pode estar por perto!" Jack aproximou-se dela preocupado.

"Eu sei me cuidar, pode deixar. Volto o mais depressa que puder." Kate falou e saiu, apressada.

Jack seguiu-a com o olhar até sua sombra desaparecer e virou-se para a escotilha, o rosto angustiado.

"Espero que ela volte logo, e bem." Pensou consigo mesmo, entrando na escotilha. Queria ficar de olho em Eko.

Andou até o cofre, examinando as paredes, a porta e o teto, mas não tinha idéia de como Henry havia feito para sair dali, não era possível. Não havia saída.

Saiu para falar com Eko, mas Sayid chegou bem na hora, respirando apressadamente. Era visível que ele tinha corrido.

"Jack está tudo bem? Encontrei a Kate indo para a praia com uma cara estranha e ela me contou o que aconteceu."

"Sayid, o que vamos fazer? Como vamos fazer a troca, se Henry não está aqui?" Jack estava preocupado com o encontro que teria a tarde. Eko era assunto secundário no momento.

"Jack, vamos esperar que todos voltem, e poderemos conversar melhor. Até lá, vamos ficar calmos e raciocinar." Sayid estava preocupado também, mas não podia aparentar, tinha que manter a cabeça fria.

Ficaram em silêncio por dez minutos, cada um perdido em suas hipóteses, quando Sawyer e Ana Lucia chegaram, trazendo as armas.

"Querida, cheguei!" Sawyer riu e olhou para os dois ali parados, silenciosos.

"Aconteceu alguma coisa com vocês? Demoraram..." Sayid olhou para Ana Lucia com uma interrogação nos olhos.

"Não, nada. Tive uma fraqueza e paramos um pouco para eu me recuperar, mas não foi nada." Ana Lucia enfrentou o olhar do iraquiano, até que ele desviou os seus para o chão.

"Esta tudo bem Ana? Sente aqui, vou examiná-la" Jack pousou a mão no ombro dela devagar. Ela estremeceu levemente ao sentir a mão em seu ombro e olhou para Sawyer. Os olhos do texano não se desviavam da mão de Jack, e seu olhar era uma mistura de ciúme e humor. Ana Lucia reagiu prontamente ao olhar, e tirou a mão de Jack do seu ombro.

"Esta tudo bem doutor, estou ótima. Foi só uma fraqueza, tontura, acho que foi a minha pressão, expectativa pelo encontro de logo mais" Ela forçou um sorriso e afastou-se de Jack.

Jack não se convenceu com a explicação, mas não insistiu. Tinham que contar logo a eles o ocorrido com Henry e pensarem numa solução.

"Mas o que aconteceu aqui? Parece que Henry Gale fugiu..." Sawyer tinha notado a tensão entre Sayid e Jack desde que entrara na cozinha, e onde estava Kate? Espiou para a sala do computador. O que Eko fazia sentado em frente ao monitor? Alguma coisa estava errada ali.

"Acertou Sawyer" Jack disse, devagar.

"O QUE? Como assim, fugiu? Bateu os sapatos vermelhos e disse 'Não há lugar como nosso lar'"? Sawyer achou que tinha escutado errado.

"Não sabemos Sawyer, mas ele não está aqui. Abri a porta para trocar o curativo dele antes de irmos para a troca, e ele não estava lá". Jack respondeu.

"Onde está Kate?" Ana Lucia sentiu falta dela, sabia que onde Jack estava, Kate estava junto. Sayid já estava lá, e ela e Sawyer, mesmo tendo parado por causa do seu mal-estar, e carregados com armas na volta, não tinham demorado tanto assim.

"Foi até a praia buscar suas coisas, e ia voltar com Charlie, Hurley e Libby." Sayid respondeu, surpreendido com o interesse de Ana Lucia por Kate.

"Chamei Kate de volta para mostrar que Henry havia fugido, e encontramos um gravador sobre a cama. A fita está gravada com as frases que vocês ouviram quando estavam na sala do computador. Não consigo imaginar como ele saiu e ainda arrumou aquele gravador. Se Hurley, Libby ou Charlie ouviram a mesma coisa que está na fita, Henry pode ter fugido há muitas horas." Jack estava preocupado com a dianteira que Henry estava tomando em relação a eles, e no quanto isso seria perigoso.

"Vão interrogar os namoradinhos e o lorde inglês? Qual técnica vai usar desta vez, Lawrence da Arábia? Vai fazê-los colocar os discos em ordem alfabética?" Sawyer dava um sorriso cínico enquanto encarava Sayid.

Sayid levantou-se em cólera, disposto a esganar o texano, mas Jack o segurou, tentando acalmá-lo.

"Ninguém aqui vai interrogar os três. Vamos conversar, ver se Henry falou algo que possa indicar como ele conseguiu escapar, ou para onde teria ido." Jack devolvia o olhar de Sawyer sem medo.

"Ok, Madre Teresa, defendendo seu torturador pessoal...vamos ver como vai ser a conversa" Sawyer deu as costas a Jack e sentou-se no sofá, pegando um livro deixado sobre a mesa. Era "1984", de George Orwell. Quem quer que fosse o dono daquilo tudo, tinha ótimo gosto para literatura. Abriu o livro e mergulhou na leitura.

Jack, Ana Lucia e Sayid deixaram Sawyer entretido com o livro, e sentaram-se na mesa da cozinha, sem ânimo de falarem uns com os outros. Pensavam no prisioneiro, na troca, em Eko no computador, no que ele e Locke haviam encontrado, onde Locke estava. Jack também pensava em Kate, se ela estava bem. Queria que ela voltasse logo.

O silêncio foi quebrado por vozes conhecidas. Acompanhando Kate, chegava um suado Hurley, um atônito Charlie e uma desconfiada Libby.

A escotilha agora era uma babel de vozes desencontradas. Todos falavam e ninguém se entendia.

Charlie, Hurley e Libby estavam curiosos pelo chamado de Kate, que não havia falado nada nem dera detalhes do que queria com eles. Eko só queria saber do botão, enquanto Sayid e Ana Lucia tentavam, sem sucesso, organizar a bagunça com Kate. Sawyer não tirava os olhos do livro, alheio a bagunça.

Jack cruzou o olhar com Kate, enquanto com os lábios fazia uma pergunta muda.

"Você está bem?"

"Estou. Obrigada" Kate respondeu, os olhos brilhando num sorriso, enquanto continuava tentando organizar o falatório incessante.

"Por favor, vamos nos acalmar" A voz de Sayid destacou-se na algazarra, e todos se calaram. Voltou-se para Jack, dando a palavra ao médico.

"Vou direto ao assunto. Chamei vocês aqui porque Henry Gale sumiu, e no lugar dele encontramos um gravador. Algum de vocês ouviu alguma coisa estranha?" Jack olhava para cada um, sem piscar.

Os três se olharam sem entender. O que eles poderiam dizer a respeito daquilo? Apenas tinham ficado ali, conversando e comendo, apertando o botão, ouvindo música. Nada tinha acontecido fora do comum.

"Vocês ficaram juntos todo o tempo?" Sayid perguntou, de súbito.

"Sim, claro. Eu tinha acabado de apertar o botão quando Hurley e Libby chegaram, e então ficamos por aqui. Libby fez comida, conversamos sobre música, ouvimos alguns discos, e só!" Charlie enumerava as ações com os dedos, para não perder nenhum detalhe.

"Você ficou muito tempo sozinho aqui Charlie, depois que eu sai?" Ana Lucia perguntou, aproximando-se do músico.

"Na verdade, uma meia hora, talvez um pouco mais...hei, está desconfiada de mim?" Charlie exaltou-se.

"Não, só perguntei" Ana Lucia respondeu, olhando diretamente para ele.

"Depois que vocês chegaram, ficaram sempre juntos?" Sayid ia mais fundo nas perguntas, queria respostas.

"Charlie aproveitou para tomar um banho, e depois eu fui apertar o botão.Libby ficou aqui na cozinha direto. Há, sim, ela também foi tomar banho, e Charlie saiu para pegar umas frutas, então vim aqui trocar um disco." Hurley adiantou-se e respondeu antes que Libby pudesse esboçar reação.

"Então os três tiveram tempo de ficar aqui na sala, sozinhos com Henry?" Kate, que tinha ficado observando quieta, as perguntas e respostas, expressou o pensamento de todos.

"Isso é uma afronta! Estão desconfiando que algum de nós ajudou Henry a fugir?" Libby adiantou-se, colocando um dedo na cara de Sayid. O iraquiano deu um passo atrás, espantado. Libby sempre tinha se mostrado calma e sensata. Lembrou-se de quando Ana Lucia o tinha prendido, como ela queria ajudá-lo e não podia. Respondeu calmamente.

"Ninguém está aqui desconfiado de nada, Libby. Só temos que esgotar todas as possibilidades. Vocês ouviram ou viram algo estranho? Henry tentou falar com vocês?".

"Comigo não" Hurley respondeu primeiro, e Charlie repetiu a mesma resposta. Libby apenas balançou a cabeça em negativa. O clima estava pesado, e os três sentiam que estavam sendo observados por Jack, Sayid, Ana Lucia e Kate. Eles não tinham álibi para os momentos que ficaram a sós na sala, e enquanto Henry não aparecesse, não seriam inocentes por completo. A suspeita que havia se instalado entre eles ia germinar, e não seria arrancada tão facilmente como tinha sido plantada.

"Então estamos na mesma. Não temos idéia de como ele saiu, quando saiu, e para onde foi..." Jack sentou-se, a cabeça baixa, os lábios apertados. O que fariam!

Eko saiu da sala do computador e sorriu para Charlie. Não estava interessado em Henry ou em planos de troca, queria suas coisas.

"Charlie, posso te pedir um favor? Recolha minhas coisas e traga-as para cá. Vou passar a morar aqui."

Charlie ficou espantado, com a presença de Eko ali, sem Locke, e pelo pedido, mas fez que sim com a cabeça. Só lamentava que a construção da igreja ia ser abandonada. Sozinho ele não daria conta.

"Hei caras, quando vamos deixar a conversa de comadres de lado, e partir para a ação? O barbudo deve estar a caminho, guiado pela Dorothy." Sawyer falou, sem tirar os olhos da página que estava lendo.

"Dorothy? Dude, quem é essa?". Hurley estava boiando na situação toda.

"Já que não sou mais necessária, eu vou voltar para a praia. Boa sorte para vocês." Libby não esperou resposta e saiu. Hurley moveu os ombros como quem não entendesse, e saiu atrás dela.

"Sayid, o que você acha? Devemos ir ao encontro?" Kate voltou-se para o iraquiano.

"Sim, está marcado. Não temos idéia de onde Henry possa estar, mas acredito que poderemos obter respostas com os Outros. Devemos tentar." Sayid mostrava uma confiança que estava longe de sentir.

"Então, mãos a massa! Vamos logo acabar com tudo isso!" Sawyer, que parecia alheio a tudo, provou que estava ligado. Deixou o livro sobre a mesa, marcando antes a página em que havia parado a leitura, e pegou uma das armas, verificando a munição. Ana Lucia e Sayid seguiram seu exemplo.

Jack chegou perto de Kate, puxando-a pelo braço para um lugar mais afastado. Ela o seguiu, mas já sabia o que ele ia falar. Preparou-se para mais uma discussão.

"Kate, quero que você tome muito cuidado. Sem Henry para fazer a troca, vai ser tudo mais difícil. Prometa que não vai ser impulsiva e vai seguir o plano de Sayid em detalhes. Prometa!" Jack falava baixo, sem tirar os olhos dos dela.

Ela espantou-se. Esperava mais um discurso sobre segurança, ficar na escotilha ou na praia, deixar que ele cuidasse de tudo. Demorou em articular uma resposta coerente.

"O que? Quer que eu tome cuidado e siga o plano? Pensei que faria mais uma tentativa de me impedir de ir ao encontro." Ela não parava de olhar para ele.

"Kate, não ia adiantar gastar palavras com você quanto a isso. Resolvi te dar um voto de confiança. Sinto que esse encontro será definitivo, de algum modo, e quero você por perto, caso eu precise de força". Jack não acreditava que estava falando aquilo. Desde o momento em que abrira a escotilha e não tinha visto Henry lá, uma sensação estranha o dominava.

Não era homem de se levar por pressentimentos, mas aquela ilha havia mudado alguns de seus conceitos. E a sensação era tão intensa que não era possível negá-la. Algo estava prestes a romper-se, mas ele não tinha idéia do que. Só sabia que queria Kate por perto, em segurança, mas ao lado dele.

"Eu prometo. Vou honrar seu voto de confiança em mim" Kate estava feliz por Jack estar confiando nela. Sabia que tinha a ver com o beijo que haviam trocado na floresta, e as conversas que tinham tido desde então reforçavam isto. Apesar do medo de encontrar-se novamente com Zeke, e desta vez em desvantagem, já que estavam sem Henry, queria estar ao lado de Jack. Sentia que aquele dia seria importante para os dois.

"Ótimo. Então vamos nos preparar." Jack sorriu para ela, passando o dedo pela linha dos cabelos dela e segurando o queixo delicado com a mão.Kate levou sua mão até a de Jack e segurou com força, sentindo a pele quente por baixo da sua.

"Hum, hum, se não se importam, temos um encontro na floresta. Me acompanhem, por favor. Preferem área de fumantes ou não fumantes?" Sawyer pigarreava e apoiava uma das armas no ombro. Ana Lucia e Sayid também estavam prontos.

Eles se afastaram relutantemente, pegaram suas mochilas e as armas preparadas. A tensão havia aumentado, e uma corrente elétrica parecia percorrer os corpos. Todos evitavam olhar para os companheiros, sentiam que aquele dia seria marcante.

"Que Deus abençoe os que partem, os que ficam, e os que não voltarão." Eko saiu da sala do computador, fazendo o sinal da cruz em frente ao grupo, e logo retomou seu lugar em frente ao computador. Trocaram olhares furtivos, como se perguntassem uns aos outros 'quem não voltaria?'

Charlie os acompanhou até a porta da escotilha, despedindo-se de todos. Kate e Jack saíram na frente, e logo atrás vinham Sawyer e Ana Lucia. Sayid vinha fechando a pequena comitiva silenciosa. Charlie esperou que eles sumissem na mata, fechou a porta da escotilha e partiu em direção a praia.

Locke já não tinha mais lágrimas. Havia derramado todas em silêncio, e agora observava o sol avermelhar o mar, baixando lentamente no horizonte. Um dia que se acabava, mais um naquele lugar esquecido. Mas naquele dia, ele veria o sol se por, e a lua subir no céu, prateando o oceano imenso. Agora ele podia.

Continua...