Trilha sonora: "IN THE ARMS OF THE ANGEL", by Sarah McLachlan.
Charlie alcançou a praia antes que a luz do dia se esvaísse por completo. Passando por John Locke, pôde perceber que o careca estava completamente alheio a tudo que acontecia ao seu redor. Locke estava com uma expressão compenetrada no rosto, parecia estar num duelo mental, buscando respostas que pudessem acalmar seus demônios internos.
O ex-rockstar considerou, por um instante, a possibilidade de parar e conversar com Locke, no entanto decidiu-se por continuar com seu caminho, até a igreja em construção. Pretendia recolher os pertences de Eko e levá-los até a escotilha, sendo que lá ficaria com o intuito de convencer o nigeriano a terminar a construção da igreja. Sentou-se num tronco de madeira, enquanto arrumava as poucas roupas de Eko.
"Charlie?" Chamou uma voz, contida e aparentemente calma. Charlie virou-se de frente para quem o chamava.
"Hei, Sun!" Cumprimentou-a.
"Charlie, você sabe o que está acontecendo? Hurley voltou da escotilha falando sobre um tal de Henry e Libby está furiosa. Parece outra pessoa! Locke também...ele..." Sun não sabia como colocar a aparência de Locke. Ele estava diferente. "Tudo isso está muito estranho". A coreana complementou.
"Sun, não me leve a mal, mas quando é que as coisas não estiveram estranhas nesta ilha?" Charlie respondeu.
Sun estava aflita e sentia-se insegura por não entender o que acontecia na mata e na escotilha. Charlie percebeu o quanto ela estava confusa e frustrada pela falta de informações. Resolveu contar tudo a ela, julgava que seria prudente que mais pessoas de confiança estivessem a par dos fatos. Além do mais, ainda não se sabia o resultado que teria o grupo de Jack durante a negociação com os Outros e que rumo o acampamento tomaria a partir dali.
Jack e Kate avançavam pela mata, ruidosamente. Queriam chamar a atenção para si, a fim de que os Outros não percebessem Ana Lucia, Sawyer e Sayid, que vinham logo atrás, silenciosamente em seu encalço.
O nervosismo era muito grande para que se permitissem conversas despretensiosas ou ainda de correr o risco de comunicarem-se, pois isso poderia denunciar a existência do segundo grupo. Entretanto, o que não era expresso em palavras, ficava dito nos olhares.
Jack constantemente jogava olhares para Kate, assegurando-se de que ela estava bem, de que ela estava ali, ao lado dele. Apesar da tensão, deixou escapar alguns sorrisos, enquanto a observava caminhando pela mata. Kate estava atenta, concentrada. Os dois dividiam-se na dianteira, na tarefa de guiar o grupo. Era uma ação natural entre os dois, como se estivessem num balé ensaiado durante anos, trocando passos, posições e direções. Caminhavam com a cumplicidade de quem não precisa de palavras para poder se entender.
Kate sentia os olhos de Jack nela e sentia-se segura com o cuidado que ele tinha. Estava satisfeita pela confiança que ele depositava nela; parecia que finalmente estavam se acertando. Apesar de sua forte atração por Sawyer, estava ficando impossível de controlar ou reprimir seus sentimentos por Jack. Kate torcia, secretamente, para que a negociação com os Outros desse certo. Talvez assim, Jack poderia descansar um pouco, parar de ficar se preocupando tanto com tudo e todos. Se ele dispusesse de mais tempo livre, eles poderiam... Hum, já era a segunda vez que ela se flagrava pensando no que poderiam fazer, ela e Jack, com algum tempo livre. E por mais que ela relutasse para admitir, ela sabia a resposta.
Kate sabia do sentimento que crescia em si, desde que conhecera Jack, desde que essa loucura toda tinha começado, ela sabia que eventualmente teria que lidar com seus sentimentos. Por ora, resolveu se concentrar na missão de resgate de Michael e Walt. Pela segunda vez no dia, afastou de sua mente as sensações que Jack lhe provocava. Olhou para o lado, encarou a figura do médico, alto, forte, determinado. Ele sorriu para ela e movimentou a cabeça para cima e para baixo, positivamente. Ela retribuiu o gesto, assentindo também.
Jack desejava que aquele dia terminasse logo, não lhe agradava colocar Kate em situações perigosas e essa apreensão fazia-se presente na forma de um sentimento angustiante que carregava no peito. Era uma espécie de pressentimento, de impressão, mas Jack não era homem de se deixar levar por impressões. Ele sentia que o peso que carregava era culpa: culpa por permitir que Kate viesse junto e por permitir que ela estivesse tão perto do perigo. A medida em que se aproximavam da clareira, do local combinado para a troca, à culpa em Jack crescia. Ele estava arrependido de ter trazido Kate junto. No dia anterior, viu a oportunidade da troca de Henry como uma nova chance para ele e Kate. Estavam muito afastados e Jack tinha que tomar alguma atitude, se não quisesse perdê-la para Sawyer. Agora, sentia-se um tolo por envolvê-la nessa negociação. Seus sentimentos transpareciam nos seus gestos durante a caminhada. Enquanto Kate tentava controlar o que sentia, Jack, por sua vez, já tinha desistido de lutar contra seus sentimentos. Ao que tudo indicava, eles iriam se entender, logo.
Os pensamentos de Jack foram bruscamente interrompidos quando Kate parou de caminhar, a uns 2 metros a sua frente. Ele imediatamente reconheceu o ponto onde estavam na mata e Kate virou-se para ele, falando:
"Chegamos".
"Kate, não fique muito longe de mim. Tenho receio de um ataque surpresa". Jack falava ofegante, num baixo tom de voz.
"Ok". Kate balançou a cabeça positivamente.
Jack e Kate procuravam algum sinal da presença dos Outros, entretanto o local permanecia da mesma maneira de como o haviam deixado naquela manhã. Sentaram-se num tronco de madeira e puseram-se a esperar, em silêncio.
Sayid observava os dois, trocando algumas palavras e em seguida, sentando para aguardar os Outros. O iraquiano subiu em uma árvore, a uma distância segura de Jack e Kate, acomodou-se em um forte galho da árvore, escondendo-se por trás das enormes folhagens. Apalpou a arma que tinha nas mãos e ficou em posição de alerta. Sayid estava pronto para atacar. De seu ponto, observou Sawyer ajeitar-se em outra árvore, à sua esquerda. O texano subia mais alto ainda, tentando encontrar um lugar onde pudesse ter um ângulo preciso para tiros de longa distância. Sawyer, por fim, parou de subir e parecia estar bem posicionado. Ele tinha uma visão ampla de todo o local, de Jack e de Kate. Ana Lucia não demorou muito para encontrar sua posição, foi a primeira a se colocar num ponto estratégico. Ela estava no chão, agachada, escondida por alguma moitas e folhagens.
Sawyer, Sayid e Ana trocaram olhares significativos, certificando-se de que todos estavam preparados. Eles seguravam suas armas firmemente, como se daquilo dependessem suas vidas. Estavam atentos, alertas e obstinados. Sayid ajeitou novamente a pistola na mão esquerda e focou-se em Jack e Kate; ele estava concentrado demais para perceber o que se passava nos olhares trocados por Ana Lucia e Sawyer. Apesar da preocupação com o momento da negociação, o golpista e a policial só tinham cabeça para uma coisa...
Mais cedo, naquela tarde...
Trilha sonora: "HARDER TO BREATHE", by Maroon 5.
Saíram empolgados da escotilha, finalmente ação! Sawyer sentiu-se diminuído quando Jack chamou Kate para ir até a floresta, e não ele. Ele tinha as armas, como podiam deixá-lo de lado numa hora como aquela? Além do mais, tinha percebido que Jack e Kate tinham estado afastados por alguns dias, e lógico que ele tinha se aproveitado da situação para se aproximar ainda mais da Sardenta. Quando viu que ela não hesitou um instante em acompanhar Jack, percebeu que algo não tinha dado muito certo em seu plano.
Ela seria uma bela conquista, mas até que ponto valeria a pena? Numa ilha deserta, não poderia sumir, nem poderia evitá-la depois...mas a posse era excitante, e ele gostava dessa sensação.
Ana Lucia caminhava um pouco à frente dele, concentrada em seus próprios pensamentos. O que teria acontecido entre Jack e Kate na floresta? Ela já tinha perguntado a ele sobre Kate, mas ele negou qualquer sentimento. Sentira-se atraída pelo médico no dia do embarque, mas vendo as atitudes dele na ilha, convenceu-se que eles não formariam um casal, nunca. Apesar de algumas afinidades, ela sabia que elas eram causadas pelas circunstâncias, e não por personalidade.
Jack era bonito, tinha um belo corpo e era atencioso, gentil, sempre ajudando, cuidando. Isso ela não podia negar...mas não era homem de uma noite só, ainda mais eles estando presos numa ilha deserta! Aquilo não levaria a lugar algum.
Tão concentrados estavam os dois em seus pensamentos que não prestavam atenção ao caminho, agora já tão percorrido. A floresta naquela parte não oferecia perigos, pensavam os dois, mas estavam enganados, e provariam dali a pouco seu engano...
Ana Lucia não viu a raiz que crescia aparente sob a terra, e enroscou-se, caindo de lado na folhagem densa, tão rápido que mal teve tempo de avisar a Sawyer, que vinha logo atrás, para que tomasse cuidado, que compenetrado, não percebeu e acabou caindo por cima dela. Os dois rolaram pelo chão, e Ana Lucia acabou por cima do texano, o cabelo cheio de folhas secas.
"Com a cabeça nas nuvens, muchacha? Não olha mais por onde anda?" Sawyer encarava os olhos de Ana Lucia, com um sorriso divertido no rosto.
"Estava pensando no encontro de logo mais, mas e você? Não me viu caída na sua frente?" Ana Lucia segurava o riso, a situação era ridícula!
"Hum, na verdade pensava em outra coisa, muito melhor. Mas não tão boa quanto a visão que tenho agora..." Sawyer olhava diretamente para os seios de Ana Lucia.
"Tem certeza caipira? Pelo que eu sei, você prefere uma princesa de olhos verdes...pena que a princesa goste mais de médicos" Agora ela ria, vendo a expressão zangada de Sawyer.
"Não tenho preferências, apenas aproveito o que a vida me oferece, como agora. A posição está ótima, prefiro mesmo ficar por baixo algumas vezes" A situação, de ridícula passou a ser interessante para Sawyer, e Ana Lucia era uma mulher de sangue latino, quente. De algum modo, aquilo acabaria bem.
Ana Lucia percebeu um brilho de malicia no olhar de Sawyer e pegou-se olhando fixamente para os lábios dele. O corpo bem-feito por baixo do seu era quente, e convidava para muita coisa. Tinha suas diferenças com o texano, mas não podia fechar os olhos para um cara tão sexy. Ainda mais quando estava, literalmente, por cima.
"Então, o caipira está por baixo, ham? Podemos melhorar sua posição...ou não" Ela falava cada vez mais baixo, aproximando sua boca da dele.
O beijo explodiu para os dois, selvagem, arrebatador. Todo os vigor dos dois, reprimido, resguardado, espalhou-se pelos corpos em segundos, e não era mais possível controlar. Esqueceram Jack, Kate, Sayid, Outros, Henry Gale, escotilha, armas, praia...só queriam saciar aquela fome voraz que os consumia.
Ana Lucia libertou-se dos lábios de Sawyer e começou a abrir os botão da blusa dele desajeitadamente, queria sentir a pele dele junto a sua. Cada botão que ela abria revelava mais do corpo masculino, e ela deixava um rastro de beijos molhados no peito dele. Ele ajudou Ana Lucia, e livrou-se da blusa, mas ela o empurrou de volta para o chão quando ele tentou tirar a blusa dela.
"Ainda não caipira, eu não terminei, e estou por cima" A voz dela mal saia dos lábios. Ele riu e esperou.
Ana Lucia posicionou-se diretamente por cima dele, prendendo suas coxas em volta das coxas dele, deixando o cós da calça dele ao alcance de suas mãos, desabotoando-a devagar, escorregando os dedos pela cintura dele, e tirando sua calça lentamente. Aquilo era torturante, e Sawyer resolveu por fim a brincadeira dela.
Sentou-se e encaixou-a em cima dele, puxando sua nuca e beijando-a ferozmente, aproveitando para acariciar seus seios por cima da blusa, de forma ritmada. Ana Lucia gemia entre os lábios dele, descontrolada, e soltou um grito abafado quando sentiu uma brisa leve tocar suas costas. Sawyer tinha levantado sua regata e buscava os seios dela com a boca. Ela ajudou-o a jogar a blusa para o lado e lançou o corpo para trás, deixando-se banhar pela luz do sol que chegava através das copas das árvores e pela língua de Sawyer, que trabalhava habilmente, deixando sua pele arrepiada. Tentou abafar os gemidos, mas era impossível. Sawyer estava extasiado pela maneira que Ana Lucia se entregava, sem pudores.
Com dificuldade, desprendeu-se dela e ajoelhou-se, deitando–a no chão e desabotoando o jeans dela, com fúria. Não agüentaria muito tempo. Ao vê-la nua, naquela cama de folhas e grama, sentiu-se cheio de tanto desejo, que se levantou e arrancou a própria calça de um golpe só. Ao ver aquele corpo perfeito a sua frente, Ana Lucia suspirou, pois faltavam palavras para descrevê-lo. Na verdade, palavras eram desnecessárias no momento, ela só queria ter o texano dentro de si, e sem demora.
Sawyer sentia o mesmo, mas não pretendia ir tão rápido. Deitou-se ao lado dela, e continuou seu rastro de caricias, sua língua percorrendo a barriga e os seios dela, suas mãos acariciando suas coxas, abrindo suas pernas pouco a pouco, preparando-a para o melhor. Tocou sua parte mais intima, e ela sentiu um tremor subir por suas pernas, revirando seu corpo. Quando sentiu que ela estava pronta para recebê-lo, Sawyer colocou-se em posição, mas ela o impediu.
Abrindo os olhos, Ana Lucia rolou com ele mais uma vez, e sentou-se em cima dele. Ela ditaria o ritmo. Olhando nos olhos azuis, encaixou seu corpo no dele, e movimentou-se para baixo, fundo, sem pressa. Os olhos dos dois arregalaram-se, não desviavam o olhar um do outro por um só instante. Ele segurou a cintura dela com força, ela agarrou-se as mãos dele. Levaram vários minutos naquela dança, que ficava cada vez mais rápida, incansável, até que não foi possível segurar mais, e Sawyer, com um gemido, explodiu dentro dela, ao mesmo tempo em que ela jogava a cabeça pra trás, mordendo uma das mãos para abafar um grito. Exausta, saiu de cima dele, e rolou para o lado, nenhum dos dois com fôlego para falar. Olhava para cima, ofegantes.
Sawyer virou para o lado, concentrando o olhar em Ana Lucia, e sussurrou:
"Santa Madre de Díos, acho que tiramos a ilha do lugar..."
"Senão tiramos, chegamos perto". Ana Lucia deixou escapar um sorriso.
"Mas, você sabe, caipira...conte isso para alguém e eu te mato"
"Matar, docinho? Por favor, você vai viciar neste corpinho, e vai me querer bem vivo!" Sawyer falava um pouco mais alto, apoiado no cotovelo.
"Vamos ver, caipira, quem vai ser o viciado aqui. Não quero ninguém na minha barraca à noite, implorando por mim". Ela ria também, descontraída, pela primeira vez em meses.
Ouviram vozes vindo da floresta, e assustaram-se, dando-se conta do local em que estavam: no meio do caminho entre a escotilha e a praia, correndo o sério risco de serem flagrados!
Levantaram e começaram a buscar as roupas, espalhadas pelo chão, sussurrando e segurando o riso. Mal acabaram de se vestir, Locke e Eko invadiram a clareira. Ana Lucia inventou uma desculpa, e saíram. Depois disso, ela não tocou mais no assunto, e ele sentiu que seria melhor que ela tomasse a iniciativa da próxima vez...se houvesse.
Durante a caminhada pela mata, era inevitável não se olharem de forma diferente. Sawyer e Ana Lucia ainda estavam pasmos pelo forte impulso que lhes tomou conta e pelo momento intenso que compartilharam. Ana não conseguia acreditar no que tinha acontecido e por outro lado, ainda sentia o corpo de Sawyer, o calor dele dentro de si. Sawyer já tinha ficado com muitas mulheres, de todos os tipos, fisionomias e temperamentos, porém Ana o deixou impressionado. Latinas, pensou Sawyer. O que o fogo de uma mulher latina não faz com um ianque branquelo. Neste momento, teve que segurar uma gargalhada, lembrando de onde estava e com quem estava.
Após acomodarem-se em suas posições, Ana e Sawyer procuraram não se encarar, a situação presente era um tanto embaraçosa. Para alívio de ambos, não demorou muito para que a situação mudasse de figura, tornando-se ameaçadora. Os Outros haviam chegado.
Jack e Kate tomaram um susto. Num instante, a mata estava silenciosa e imaculada, segundos depois, a clareira estava tomada pela presença dos Outros. Eles só foram percebidos quando estavam muito próximos e caminhando com agilidade pela selva, logo se mostraram frente a frente com Jack e Kate. A essa altura, a luz do sol já tinha ido embora e Jack já havia feito fogo para iluminar o local.
Zeke encarou Jack, com uma tocha de fogo na mão direita. Ele olhava diretamente nos olhos de Jack, a expressão de seu rosto era dura, sofrida e decidida. Zeke tirou os olhos de Jack rapidamente, para estudar o local ao redor. Examinou Kate uma única vez, de cima a baixo, deixando escapar um brilho em seus olhos. Kate sentiu-se enojada por aquele homem, observando-a como se fosse uma mercadoria à venda. Encarando Jack novamente, o Outro quebrou o silêncio.
"Muito bem, Jack. Você veio aqui ontem e gritou a plenos pulmões para que viéssemos. Você passou a madrugada aqui, no meu território. E esta manhã, nós viemos. Você propôs uma troca, nós aceitamos. Pensei que tínhamos um acordo, Jack".
O Outro falava pausadamente, demonstrando toda sua autoridade. Jack sentia o sangue correr pelo seu corpo esquentando-o, estava a ponto de explodir. Cada palavra de Zeke o deixava mais e mais irado, exacerbado. Falou rispidamente:
"Nós temos um acordo. Onde está Henry Gale?"
"Eu é que pergunto, Jack. Onde está Henry Gale?"
"Não brinque comigo, Zeke. Vocês trapacearam!" Os olhos de Jack brilhavam de fúria e desespero. Kate apoiou uma de suas mãos nas costas de Jack, para fazê-lo sentir-se amparado, pois ele não estava sozinho. Era uma maneira de segurar Jack também, caso ele resolvesse agredir Zeke. Vendo a ira de Jack, pôde constatar que isso não seria difícil de acontecer.
Sayid assistia atentamente tudo o que acontecia na clareira. Assustou-se com o grito de Jack dizendo que os Outros haviam trapaceado, mas concluiu que era melhor agir agressivamente para poderem ter algum resultado ou qualquer reação que fosse de Zeke. Eles continuavam conversando, a expressão de Jack era de espanto. O que será que Zeke havia falado? Kate puxou Jack pelo braço. Afastaram-se um pouco de Zeke e seus homens. Kate parecia cochichar com Jack. Seu rosto... Kate estava chorando? Não, não podia ser. Jack está transtornado, gesticula sem parar... ele e Kate estão discutindo. Sim, estão discutindo. Jack passa a mão na cabeça, olha para baixo... Jack está chorando?Não, é só impressão. Ufa! Kate está argumentando com ele, ao que parece... Hum... Zeke está de olho neles, mas está parado, não se mexe. Parece que não vai fazer nada contra os dois. Hum... Mas, o que Jack e Kate estão conversando? Estão nisso há quase 5 minutos... Finalmente, estão caminhando pra perto de Zeke. Kate... Jack... Kate... O QUE DIABOS JACK ESTÁ FAZENDO?
Charlie chega na escotilha, cansado pelas inúmeras caminhadas que fez durante todo o dia. Dirigiu-se à sala do computador, onde estava Eko e entregou-lhe seus pertences. Tentava achar palavras para começar a conversa, mas estava tão frustrado quanto Locke, naquele momento.
"Eko, você não vai me ajudar a terminar a igreja?"
Antes que Mr. Eko pudesse responder, ouviram vozes e passos na porta da escotilha. Mr. Eko, mais uma vez, ajeitou o porrete nas mãos, aproximando-se da porta, com Charlie logo atrás. Viram a porta abrir-se lentamente e por ela passar Sawyer, seguido por Ana Lucia. Os dois estavam muito cabisbaixos, com cara de choro e parecendo derrotados. Charlie assustou-se e pensou logo no pior, entretanto não havia sinais de luta ou sangue em nenhum deles. Os dois foram direto à cozinha, estavam mortos da sede. Eko ficou com medo de perguntar, de saber o que tinha acontecido, mas pressentia em seu coração a fatalidade que estava por se revelar.
Após alguns instantes, entraram na escotilha, Michael e Walt, bastante abatidos e pálidos. Michael e Walt estavam de volta ao lar, de volta ao acampamento, sãos e salvos. Charlie estava pasmo. Por fim, entrou Sayid, mais abatido ainda, como um soldado que volta da guerra. Há traços de nosso passado que marcam nossas vidas para sempre e não temos como esconder.
"Onde estão Jack e Kate?" Charlie perguntou. O momento parecia andar em câmera lenta. Pareciam estar presenciando um funeral, pela tristeza e sobriedade do momento. E realmente parecia que algo tinha morrido, perecido, como uma era que chega ao seu fim. Charlie só entendeu esse sentimento, no entanto, quando viu Kate passar pela porta da escotilha e fecha-la atrás de si.
"Onde está Jack?" Charlie perguntou.
"Ele se foi, Charlie... Ele se foi". Kate gastou suas últimas forças pra dizer aquelas poucas palavras, tentando explicar que Jack não voltaria. Como um pensamento que finalmente toma forma, como uma ação que finalmente se realiza, como um erro que finalmente denuncia suas conseqüências, Kate, por fim, compreendeu o sentido verdadeiro do que estava dizendo. Jack não estaria ali amanhã e isso doía. Ela assimilou o que havia acontecido e pôs-se a chorar, escorregando pela parede, até tocar o chão, pois suas pernas não suportavam o peso que ela carregava em si, naquele momento.
