CAPÍTULO 6 – "ADMIRÁVEL MUNDO NOVO"
Trilha sonora: "Uma voz no vento", de Leila Pinheiro.
Então, era isso. Aqueles rostos estavam marcados por sentimentos tão pesados, que Charlie ficou momentaneamente mudo, desabando numa cadeira próxima. Jack se foi? Morto...não, não podia ser, Michael e Walt estavam ali, e fora Michael (que tinha cortes e hematomas pelo rosto e braços), nenhum deles parecia ferido ou ter saído de algum confronto. Eles não iam devolver pai e filho assim, sem luta, a não ser que...que...
"Charlie, vamos para a sala do computador, temos que conversar" Sayid chamou os outros com um aceno de cabeça, deixando Kate sozinha.
"Charlie, não sabemos o que aconteceu, mas Jack foi com os Outros." Sayid tinha a voz cansada.
"Foi com os Outros? Como, porque?" Charlie não entendia nada, como assim Jack tinha ido com os outros? Como fariam sem ele agora?
"A distância que estávamos deles era razoável, para não despertar suspeitas, e não ouvimos o que eles conversaram. Zeke chegou, e falou algo, Jack e Kate se afastaram, e depois ele foi com os Outros. Kate não falou nada desde então." Ana Lucia resumiu rapidamente o ocorrido.
"Eu também não pude ouvir nada, só chegamos quando Jack já tinha ido." Michael falava com dificuldade, estava bastante machucado. Os Outros tinham mostrado sua fúria, por ele ter matado alguns deles em sua busca por Walt.
"O melhor a fazer é voltarmos todos ao acampamento e descansarmos. Amanhã cedo, contaremos ao pessoal o que aconteceu, sem detalhes. Só quando Kate estiver mais calma poderemos saber o que de fato aconteceu, e pensar num jeito de resgatar Jack." Sayid raciocinava como soldado, sem detalhes não conseguiriam elaborar um plano eficiente. Cuidaria dos ferimentos de Michael pela manhã. Antes de sair, pegaria medicamentos e outras coisas da enfermaria que Jack tinha organizado.
"Se o doc quiser ser resgatado, não é Osama?" Sawyer olhou para todos, sem fixar ninguém, e calou-se.
Todos olharam para baixo, não se encaravam. Jack tinha ido, apesar de ter conversado com Kate 5 minutos, e pelo que perceberam, ela tinha argumentado bastante, até chorado. Se isso não o tinha convencido, o que teria de tão importante para ele no grupo dos Outros?
"Eko, nós vamos todos para a praia. Você pode ficar de olho na Kate? Ela precisa descansar, amanhã eu volto para conversar com ela." Sayid encarou o padre.
"Claro, eu rezarei por ela, Deus vai confortá-la. Estaremos bem." Eko sabia que era o melhor a fazer, e Kate só falaria quando fosse possível para ela.
"Eu sei de alguém que a confortaria melhor que Deus..." Sawyer não conseguiu reprimir um sorriso, que no entanto desmanchou-se logo, quando sentiu uma das orelhas ferver.
"Segure a testosterona, cowboy, ela precisa de uma boa noite de sono. Vamos andando." Ana Lucia recolheu a mão que tinha vibrado na orelha de Sawyer, e puxou a fila dos sobreviventes. Permitiu que todos passassem, e aproximou-se de Kate.
"Hey, nós vamos para a praia agora, e você vai para a cama." Ajudou Kate a levantar-se, e levou-a até o beliche, deixando-a sentada.
"Amanhã voltamos. Durma bem." Ana Lucia sentia-se, de certa forma, próxima de Kate naquele momento. Sabia como era devastador ver o homem que se ama indo embora. E agora ela tinha certeza que Kate amava Jack. Lembrou-se de quando perdeu o bebê e seu marido tinha saído de casa. Saiu sem fazer barulho, alcançando os demais na porta da escotilha. Avançaram em silêncio em direção a praia.
Kate não podia sequer agradecer a Ana Lucia, tão abalada estava. O peso da decisão de Jack a oprimia tanto, que ficava difícil respirar. Como um autômato, andara pela floresta até a escotilha, deixara-se quase carregar por Ana Lucia até o beliche. As lágrimas caíam sem cessar, mas ela não fazia força para isso. Elas apenas desciam, sem interrupção. Focalizou Eko se aproximando.
"Vou deixar aqui, para você. Quando sentir vontade, coma e beba, vai te fazer bem. Estarei aqui na sala do computador, qualquer problema, me chame. Deus ilumine seus sonhos, Kate." Eko deixou sobre a mesa próxima a Kate um copo d'água e um prato com frutas, retirando-se em seguida.
Sonhos? Que sonhos, se ela estava mergulhada num pesadelo? Revia a cena, segundo a segundo, e ainda não acreditava. Jack indo...
Jack estava furioso, e ela nunca pensou que o veria assim. Nem nos momentos mais difíceis, tinha visto o médico perder a calma, mas desta vez ele era o retrato da fúria. Ao encostar sua mão nas costas de Jack, sentiu seu corpo vibrar na mesma freqüência que o dele, um mistura de raiva, impotência e ódio.
Zeke estava impassível, parecia até se divertir com a situação. Sem se mover, olhando para os dois, disse sem pressa.
"Pois bem Jack, sabemos que Henry não está com vocês, e admiro sua coragem, vindo aqui sem ele, mas acompanhado de três amigos, quando dissemos que você e Kate deveriam vir sozinhos. Não tente avisá-los, estão todos na mira de meus companheiros." Zeke parecia saborear as palavras.
Jack espantou-se, tinham tomado tantas precauções e mesmo assim estavam vendidos. Sua raiva aumentou ainda mais, mas Zeke não tinha acabado.
"Jack, admito que você tentou o melhor, mas esqueceu que esta na NOSSA ilha. Não tente esconder nada de nós, é impossível. Sua persistência é admirável, então tenho uma proposta pra você, que vai achar interessante. Walt já nos deu o que era preciso, e Michael aprendeu sua lição. Mas se eu o devolver a você, fico em desvantagem. Você perdeu Henry, mas ainda há algo que quero do seu grupo. Você. Venha conosco, Jack, e todos poderão voltar para o acampamento, ilesos. Daremos trégua ao seu grupo. A escolha é sua, Jack." Zeke estudava atentamente a expressão de Jack.
Choque...o que era aquilo, aquela proposta? Claro que Jack não aceitaria, nunca, uma coisa tão sórdida. Era impensável. Puxou-o pelo braço, e o seu choque foi maior ainda quando viu no rosto de Jack que ele estava, sim, pensando na proposta.
Afastaram-se um pouco, e de costas para Zeke, Kate passou a argumentar. Não ia deixar Jack fazer aquela loucura.
"Jack, você não pode fazer isso. Você sabe que Henry está com eles, e na verdade a troca será vantagem para eles. Vamos voltar, e depois pensaremos numa forma de resgatar Walt e Michael, por favor." Os olhos ardiam, o choro acumulava-se, mas ela tentava reprimir, sem sucesso, as lágrimas. Queria vencê-lo com argumentos, não com sentimentalismo.
"Kate, talvez amanhã seja tarde demais para ambos. Ele deixou claro que Walt não é mais necessário, e Michael não vale nada para eles. O que os impediria, então, de matar os dois?" Jack gesticulava, estava frustrado.
"E quem garante que os dois não estão mortos já? Eles vão levar você, e podem não cumprir a promessa de nos deixar em paz, não teremos garantias". O choro já corria solto pelo rosto de Kate, sem pudores. Via que Jack estava inclinado a aceitar a proposta.
"Kate, não posso arriscar. Se eles estiverem vivos, será a chance deles escaparem, e eu sozinho terei mais chances numa oportunidade de fuga do que os dois. Michael não iria sem Walt, e fugir pela mata com uma criança é muito mais arriscado que um adulto sozinho".Kate lembrou-se que Claire tinha voltado, mas será que Jack teria a mesma sorte?
"Jack, você não pode ir. Não agora que..." Kate não terminou, mas sabia que seu olhar diria o que as palavras não poderiam expressar. Jack tinha confiado nela, e agora ia deixá-la? Não era justo, não neste momento, quando pareciam mais que nunca conectados um ao outro.Depois que tinham dito um ao outro que não se arrependiam pelo beijo trocado, depois que tinham se beijado de novo!
Viu Jack baixar a cabeça, nervoso, e ouviu sons abafados...Jack estava chorando? Quando ele voltou o rosto para ela, Kate sabia que a decisão tinha sido tomada, e nada faria Jack mudar de idéia, nem argumentos, nem lágrimas.
"Kate, eu tenho que fazer. Não posso deixar passar esta chance. Você confia em mim?"
Sem forças para falar, Kate apenas assentiu com a cabeça. Tinha perdido. Queria segurar Jack, poder abraçá-lo, despedir-se...mas conteve-se.
Os olhos dos dois se encontraram, e Kate viu sua própria tristeza refletida no olhar de Jack. Lentamente, limpou as lágrimas com as mãos. Nada precisava ser dito, seus olhos gritavam o que o coração murmurava e os lábios silenciavam. Jack fez um leve gesto com a cabeça e Kate piscou, devagar. Viraram-se e aproximaram-se de Zeke.
"Sabia que tomaria a decisão certa, Jack. Vamos para casa." Zeke abriu passagem para Jack, que hesitou por um instante, lançando um olhar a Kate, e acabou por seguindo a direção indicada, sem olhar novamente para trás, sumindo na mata ao lado de Zeke.
Em um instante Sawyer, Ana Lucia e Sayid estavam ao seu lado, mas ela não escutava nada, não sentia nada. Nem a aparição de Michael e Walt, minutos depois, vindos pela mata à esquerda da clareira conseguiu tirá-la do torpor em que se encontrava. Em silêncio, tinham voltado para a escotilha...
Embalada pela lembrança recente e pelas lágrimas, Kate aconchegou-se na cama e dormiu. Eko, percebendo o silêncio, chegou à porta do quarto e vendo Kate adormecida, apenas cobriu-a com a colcha, fazendo o sinal da cruz em sua testa.
"Deus esteja com você em seus sonhos, Kate.". Saiu sem ruído, e continuou sua vigília em frente ao computador.
Os quatro andavam rápido, e cada um refugiou-se em sua barraca. Teriam um dia atípico, revelar que Jack não estava mais com eles seria duro, tanto pela noticia em si, como pelas conseqüências que essa noticia iria gerar. Cada um a seu tempo, adormeceram.
Sayid foi o primeiro a levantar, junto com a claridade da manhã que se filtrava pela lona de sua barraca. Por um momento, sentiu-se feliz com o novo dia que começava. Levantou-se, e começou os preparativos para sua oração, a primeira das cinco que faria ao longo do dia, quando a realidade o atingiu em cheio: Jack não estava lá, e ele teria que contar isso aos outros sobreviventes. Virou-se em direção a Meca, e incluiu em seus pedidos uma prece por Jack, por Kate e por ele mesmo. Teria que ser forte agora, mais do que nunca.
Ana Lucia tinha tido sonho estranhos à noite toda. Sonhou com seu bebê, com seu ex-marido, com sua mãe, com Sawyer. Sabia que era resultado da tensão, mas ficou preocupada, sua mãe estaria bem? Estariam procurando por eles? Ou já teriam desistido? Com uma ruga de preocupação na testa e um sorriso passeando nos lábios, lembrou-se da loucura que tinha feito com Sawyer no meio da mata. Ele era quente, apesar de ser um caipira. Saiu da barraca, preparando-se para o anuncio de logo mais.
Sawyer pensou em Kate, em Ana Lucia, em Jack, nele mesmo. Não tinha resistido aos encantos da policial num momento de acaso, e partilhar aquele momento com ela tinha sido incrível, mas não poderia esquecer de Kate. Mesmo sabendo que suas chances frente ao doutor eram pequenas, talvez pudesse aproveitar a ausência repentina dele para voltar a se aproximar da sardenta. Mas sem fechar as portas para Ana Lucia, claro. Dormiu pensando no que poderia fazer para conquistar uma sem desdenhar a outra, e sonhou com Cassidy. Quando acordou, assustado, já era dia, e o movimento na praia começava, mais um dia naquele maldito lugar. Um longo dia...
Charlie pensou em falar com Claire, contar logo todo o acontecido, mas quando chegou à barraca da australiana, ela e Aaron dormiam tranqüilamente. Não seria justo tirá-la de um descanso tão necessário para deixá-la aflita. Foi para sua barraca, impressionado, não tanto pela situação, mas pelo comportamento de Kate. Sabia que ela tinha uma queda pelo doutor, desde o dia em que tinham fugido pela mata, após o piloto ter sido puxado para fora do avião, aparecendo morto em cima de uma árvore. Ela gritara por Jack, e tinha voltado para procurá-lo, sem pensar duas vezes. Já tinha comentado com Hurley sobre o que acontecia entre o casal, e Hurley era da seguinte opinião:
"Dude, só não vê quem não quer. Jack e Kate rulam, só que eles não sabem disso ainda".
As pessoas, expulsas de suas barracas pelo calor que se espalhava pela areia, tratavam de se mexer. Arrumando-se com o que podiam, escovavam os dentes, lavavam o rosto e punham-se a procurar algo por fazer, e sempre havia. Uma melhoria nas barracas, organizar a despensa, procurar frutas, enfim, uma série de coisas que preenchessem o tempo e a mente. Ficar parado por muito tempo sem nada o que fazer era perigoso, o desespero aumentava, e a cabeça fervilhava de idéias mirabolantes, sem aplicação prática. Um tormento.
Sayid e Ana Lucia encontraram-se em frente à barraca dele, e resolveram rapidamente o que e como contar, Sayid falaria. Chamaram Charlie e Hurley, pedindo que eles reunissem as pessoas na praia, num ponto mais fresco, tinham um assunto importante a tratar com todos. A noticia correu de boca em boca, e em meia hora, todo o acampamento estava reunido, todos falando e ninguém se entendendo. Locke mantinha-se afastado, mas atento. Alguma coisa não ia bem.
Quando Sayid e Ana Lucia chegaram, abrindo caminho em meio às pessoas, todos se calaram. Sayid posicionou-se em frente ao grupo, usando uma parte da fuselagem do avião como um pequeno palco. Queria ver e ser visto por todos. Ana Lucia ficou a seu lado, Sawyer juntando-se ao grupo do fundo em silêncio. Trocaram um olhar rápido e concentraram-se no que Sayid tinha a dizer.
"Bom dia a todos. Sei que estão curiosos, e não quero demorar no que tenho a dizer. Por favor, só peço que mantenham a calma e escutem atentamente até o fim. Depois, podem fazer perguntas. Há alguns dias, Rousseau capturou um homem na mata, e pediu que nós ficássemos com ele. Ele nos contou que tinha caído nesta ilha durante uma viagem de balão, mas eu, Ana Lucia e Charlie pudemos comprovar que esta história era falsa, e o mantivemos como prisioneiro. Apesar de nossos esforços, não conseguimos dele nenhuma informação dos Outros, o grupo de pessoas que vivem nesta ilha, e ao qual ele pertence."
As pessoas murmuravam entre si, como puderam esconder isso de todos ali? Era um absurdo, uma ameaça daquelas pairando sobre eles, e nada tinha sido dito? Os ânimos se exaltaram, mas Sayid conseguiu controlar as perguntas com um olhar.
"Calma, por favor, ainda não terminei. Se foi certo ou errado, isso não vem ao caso agora. Jack e Kate foram atrás dos Outros, buscando trocar Walt e Michael pelo prisioneiro, e a troca foi aceita. Ontem, quando fomos retirar o homem da escotilha, porém, ele havia sumido, e ainda não sabemos como. Mesmo assim, Jack não desistiu, e junto com Kate, Ana Lucia, Sawyer e eu, fomos ao local combinado para a troca. Infelizmente, não sabemos ao certo o que ocorreu, mas Jack, se foi...acompanhou o líder do grupo, e logo depois Michael e Walt foram libertados, eles estão aqui, descansando."
As últimas palavras de Sayid mal foram ouvidas, o tom das vozes elevou-se sem controle. O pânico espalhou-se como um rastilho de pólvora. O que fariam sem o médico? Jack estava sempre presente, atento, zelando por todos, sua sugestão era sempre pedida, ouvida, considerada. O caos se instalava mais rápido do que previram Sayid e Ana Lucia, e só a muito custo, Sayid conseguiu ser ouvido novamente.
"Sabemos de tudo isso que vocês estão falando, mas agora não é a hora de desespero. Primeiro, não sabemos os detalhes, estávamos fora do alcance das vozes deles, e só Kate sabe o que foi conversado, o que Jack pretendia fazer indo com os Outros, mas ela ficou muito abalada com o que aconteceu e está descansando. Assim que acabar aqui, vou com Ana Lucia até a escotilha, conversaremos com Kate e veremos que pode ser feito. Enquanto isso, vamos estabelecer algumas normas, delegar alguns encargos, para que o acampamento funcione normalmente."
Sayid pediu que Sun cuidasse dos medicamentos e todos que precisassem de ajuda com dores ou machucados pedissem a coreana. Libby prontificou-se a ajudar Sun na tarefa. Os homens foram divididos em grupos e turnos de vigilância, e assim por diante. Pediram que tomassem muito cuidado, sem Jack por ali, qualquer acidente poderia se tornar fatal, por falta de um tratamento adequado. O grupo dispersou-se aos poucos, restando apenas Sayid, Ana Lucia, Sawyer e Locke.
"Jack seria o único aqui capaz de tomar esta atitude drástica. Ele sabe o que está fazendo." Locke sabia que Jack não era ingênuo, e que tinha um plano. Pena que ele não soubesse qual era o plano do médico.
"Kojak, meu velho, o botão ainda está na escotilha...o que o traz aqui fora?" Sawyer ficou impressionado com o tom respeitoso pelo qual Locke tinha se referido a Jack, mas no fundo ele sabia que seria incapaz de correr o risco de ir meter-se na boca do lobo, como Jack tinha jeito.
"O botão não me pertence, nunca me pertenceu. Eko está lá agora, e isso não me diz respeito. Sayid, estarei aqui na praia, assim que tiver novidades, me avise. Ajudarei no que for necessário."
"Locke, obrigado, precisaremos mesmo de ajuda. Por favor, enquanto eu e Ana Lucia vamos a escotilha, fique de olho em tudo por aqui. Tenho medo do que pode acontecer caso alguém se sinta tentado a alguma insanidade." Sayid confiava em Locke, apesar das coisas estranhas que o caçador às vezes fazia ou falava...mas o que não era estranho naquele lugar?
Locke concordou com a cabeça, e saiu. Ana Lucia e Sayid preparam-se para a caminhada até a escotilha, quando Sawyer deu uma gargalhada e disse:
"Onde pensam que vão, assim sozinhos? A sardenta ficou sozinha com o Samuel L. Jackson a noite toda, vai precisar ver um rostinho bonito para acordar tranqüila. Vamos." E saiu andando na frente dos dois, que o olhavam perplexos, e o seguiram.
Kate tinha passado a noite mais terrível de sua vida, tinha certeza. Acreditava que nem na cadeia teria se sentido tão presa e impotente como se sentia naquele momento. Seu sono foi inquieto e leve, marcado por imagens tão dispares quanto à de sua mãe deitada naquela cama de hospital, chamando pela polícia, horrorizada, e a primeira vez em que viu Jack, ajoelhado na areia, pedindo sua ajuda.
Ele fora tão generoso com ela, logo nos primeiros dias na ilha e mesmo sem conhecê-la direito, ofereceu-lhe uma segunda chance, para ser livre do seu passado, livre de seus crimes, de sua vida fugitiva. Ela nunca quis tanto contar a alguém toda a verdade, como ela desejou contar a Jack. Não entendia o motivo, mas tinha uma sensação de que ele compreenderia sua história. Jack era um homem bom. Bom demais, ela pensava. Apesar de ter descoberto que ela era uma fugitiva da polícia, ele não tinha contado a ninguém sobre ela, guardou o segredo para si. Jack é bom em guardar segredos.
Recordou-se dos momentos que passaram juntos. Os mais intensos eram os que ficaram mais vivos na memória de Kate, como na vez em que Jack contou a ela sobre seu pai, que havia falecido em Sydney, na Austrália. Jack, de alguma forma, sempre se abria com ela e ela com ele. Era uma espécie de jogo não dito que eles tinham. Um jogo para dois participantes, apenas. Em meio às insanidades daquela ilha esquecida, em meio às aventuras, eles iam se revelando um para o outro aos poucos. Lembrou-se de quando Jack a ajudou a desenterrar o corpo do oficial que a escoltava no avião. Será que ele faria isso por outra pessoa também? Kate se perguntava em vão. Ela sabia muito bem que Jack fez aquilo porque é incapaz de negar um pedido dela. Jack...Onde será que ele estava agora?
Porque ele tinha feito aquilo? Por mais que ele tivesse um plano, ou contasse com a sorte, nada era certo quando se lidava com um grupo como aquele, que usava barba e roupas falsas. O que eles escondiam, o que tinham feito com Walt e Michael, tantas perguntas sem respostas. Era aterrador lidar com o desconhecido daquela forma.
Desconhecido, era isso que Jack era, há apenas alguns dias, nem três meses atrás tinha costurado seu ferimento, e agora se sentia perdida sem a presença dele. Como tinha deixado tantas chances escaparem, tanto tempo desperdiçado com brigas, com Sawyer, com coisas fúteis. Sabia que o sentimento que crescia cada vez mais era real, mais do que a situação insólita que vivia naquela ilha, mas Kate pensava no futuro.
Que futuro ela teria fora dali? Fugir ou ser presa, nada mais. Jack era um cirurgião, um médico respeitado, mas ela o queria mais do que já tinha desejado qualquer outra coisa. Tinha se fechado por tanto tempo, que demorou a reconhecer o que sentia. Agora que não dava mais para negar, ele não estava ali.
Lembrou-se de quantas vezes ele tinha se mostrado carinhoso com ela. Ele tinha ajudado Sawyer com os óculos por causa dela, tinha se preocupado quando ela saiu com Sayid para fazer a triangulação do transceiver ("Se vir qualquer coisa, qualquer coisa, corra!"), tinham se sentado tantas vezes na praia olhando o mar, tinham se beijado.
Aquele beijo tão urgente e tão doce...ali tinha tido a certeza que era ele. Por mais que sentisse alguma atração por Sawyer, quando seus lábios tinham tocado os de Jack, sentiu uma força dentro de si, uma atração tão forte, que a ligou a ele de forma irremediável e tão intensa, que se assustou e fugiu. Encarar Jack e sentir que seu destino estava selado ao dele, foi demais para ela. E depois ele tinha se mostrado arredio, estranho. Sufocou seus sentimentos redobrando sua atenção com Sawyer, mas no fundo algo a incomodava.
Estava feliz, entretanto, de ter aproveitado a chance quando ela se apresentou. Ouvir que ele não se arrependia pelo beijo, tê-lo beijado de novo, só confirmava o que já sabia, mas não admitia. Ela o amava, e só se deu conta de quão intenso era esse amor quando o viu partindo.
Passou a noite dividindo-se em lágrimas, sono, pesadelos e vigília, buscando explicar para si mesma o que não precisava de explicação: amava Jack, e o perdera. As lágrimas novamente fugiam de seus olhos, mansamente...
Um teto branco, e só. Nada em seu campo de visão, por enquanto. Virou-se com cautela para descobrir quatro paredes nuas, uma porta, também branca, uma cadeira e uma mesa de metal, fixada ao chão, liso e limpo, e outra porta, de frente para a cama, que também estava fixada ao chão, como a mesa.Um quarto ou uma cela?
Levantou-se com cautela, mas sentia-se bem, não estava tonto nem mole, e não tinha sinais de picadas de agulhas. Sedado não tinha sido, pelo menos não com algo aplicado na veia. Não lembrava como tinha chegado ali, mas tinha andado muito, encapuzado, pela mata, depois por campo aberto, depois ficou sentado muito tempo, um chão frio e duro, onde acabou adormecendo. Devia ter sido carregado com muito cuidado, ou então estava num sono tão profundo que mesmo sendo levado de um lugar a outro, não tinha acordado.
Sentindo o frio do piso arrepiar seu corpo, descobriu que estava descalço apesar de vestir ainda as roupas com que tinha saído do acampamento. Sua mochila estava em cima da mesa, mas vazia. As garrafas d'água, as bandagens e medicamentos, até a barra do chocolate Apollo e as duas goiabas que estavam ali, desapareceram. Lembrar do acampamento trouxe a ele resquícios dos sonhos que tivera durante a noite, sempre com ela. Sempre com Kate, sorrindo, chorando, comendo, subindo numa árvore, recebendo as sementes de goiaba, correndo para abraçá-lo na saída da caverna, beijando-o. Lágrimas furtivas fugiram de seus olhos, mansamente...
Como duas personalidades tão opostas podiam se amar tanto, que chegava a doer estarem separados? Jack e Kate, mesmo sem saber, não estavam longe um do outro. Suas lágrimas, fugidias, se juntavam num rio de sentimentos conflituosos, juntando suas almas na ânsia de se reverem.
Jack tentou abrir uma das portas, que revelou pia, vaso sanitário e chuveiro: um banheiro. Aproveitou e lavou o rosto e as mãos, enxugando-as na toalha branca pendurada ao lado da pia. Saindo do banheiro, ouviu barulho na outra porta e virou-se, encarando quem entrava.
"Gostou do quarto Jack? Será seu por um longo tempo..."
Continua.
