CAPÍTULO 7 "Encontrando o que você procura"
Trilha sonora: "LEAVIN' ON YOUR MIND", by Patsy Cline.
"Zeke". Jack falou, secamente. O médico encarava o Outro, incrédulo. O momento era tomado por um silêncio petrificante.
Jack caminhava, de um lado para o outro do quarto, impaciente e indignado.
"O que você quer dizer com isso?" Jack referia-se ao que Zeke havia dito, sobre este quarto lhe pertencer durante um bom tempo. O Outro observava Jack continuamente, sendo bastante cuidadoso em não demonstrar qualquer tipo de reação. Porém aquele brilho nos olhos estava lá, como sempre. Jack podia perceber e detestava essa arrogância que ele tinha.
Chegando bem próximo a Zeke, Jack falou:
"Eu perguntei o que você quer dizer com isso? Vou ficar aqui quanto tempo? O que vocês..." Zeke inclinou a cabeça para o lado, seus olhos brilhavam mais ainda. Cruzou os braços em frente ao peito e finalmente falou:
"Jack, eu quero dizer exatamente o que estou falando". Agora, era vez de Jack observa-lo. "Aliás, meu nome é Tomas. Pelo menos, você pode parar de me chamar por aquele apelido ridículo que o seu amigo, James, arrumou para mim". Jack sentiu o sangue ferver, novamente. Aquele homem o tirava do sério. Rispidamente, Jack falou, tentando tomar controle da situação:
"Está certo, Tomas. O que vocês querem comigo? O que vocês fizeram com o Walt, enquanto ele esteve aqui? Onde nós..."
"Uou... uou... Calma aí, Jack. Desse jeito, quando eu responder suas perguntas, você não vai escutar minhas respostas. Você deveria ser um cara mais paciente. Saber ouvir é uma virtude necessária para um líder". Jack não sabia o que responder, ele estava revoltado por estar ali trancado, preso. Ponderou e sabia que agindo irracionalmente, não teria as respostas que veio buscar. Acalmou-se e encarou Tomas diretamente em seus olhos.
"Acho que vou voltar em outro momento, Jack". Tomas descruzou os braços, virando-se e dando alguns passos em direção à porta, porém antes que pudesse abri-la, Jack interrompeu:
"Espera". Tomou fôlego, engoliu o orgulho e baixou a guarda. Tomas continuava de costas para Jack. "O que você veio fazer aqui? Veio me dizer o quê?" Jack fez uma pausa e não obtendo nenhuma reação de Tomas, continuou: "Você não veio aqui a troco de nada".
Tomas abaixou a cabeça, agarrou a maçaneta da porta com mais força e sem olhar para Jack, respondeu: "Você tem razão, Jack. Mas, tudo tem seu tempo. Tudo". Com isso, saiu da sala, deixando Jack extremamente intrigado. E mais confuso do que ele estava antes.
Do outro lado da ilha, na escotilha, Eko observava a movimentação de Kate, da cozinha para a despensa, da despensa para o quarto. Desde que acordou, ela havia dito apenas o necessário, "bom dia", um sorriso para dizer que estava tudo bem e nada mais.
Entretanto, Mr. Eko sabia o que ela planejava e sentia a ansiedade e apreensão em seus gestos. Ele compreendia o que se passava no coração dela e da forma que isso tudo se refletia em suas ações. Não tinha a menor intenção de impedi-la no que pretendia fazer, mesmo sabendo dos riscos que Kate estaria correndo. Mr. Eko continuaria orando por ela.
O nigeriano saiu da sala do computador e sentou-se próximo à cozinha, no sofá; esperava que ela dissesse algo antes de partir. Kate colocou sua mochila em cima da mesa da cozinha, fazendo uma repassada mentalmente, de tudo que deveria levar consigo. Acho que é tudo, pensou. Inspirou e expirou pesadamente, sentindo um nervoso incomum a ela, que já estava tão habituada a fugas inesperadas e viagens repentinas.
Debatia consigo mesma se deveria contar a Mr. Eko onde estava indo. Será que ele a impediria de ir? Será que ele guardaria segredo? De qualquer forma, Kate chegava sempre à mesma conclusão: seu sumiço não ficaria sem ser descoberto por mais que um dia, no máximo. E, certamente, Sayid, Locke, Sawyer viriam atrás dela, e Kate não queria colocar ninguém em perigo. Ela tinha que resgatar Jack, ela tinha que fazer isso. Sozinha.
Como que lendo seus pensamentos, Mr. Eko aproximou-se de Kate e apoiando uma mão no ombro esquerdo de Kate, falou:
"Que Deus lhe acompanhe e que você encontre o que procura". Kate olhava para o homem, muito mais alto, maior que ela, sem saber o que dizer, e ao mesmo tempo, querendo lhe dizer tudo. Mr. Eko transmitia uma paz e uma tranqüilidade, com as quais ela não estava acostumada. Kate assentiu com a cabeça e colocando sua mochila nas costas, rumou à porta da escotilha.
Jack, agüente mais um pouco, eu estou indo. Estou indo. Era só isso que Kate pensava.
Abriu a porta da escotilha e buscou reunir todo pingo de coragem que ainda restava nela.
"Vai montar barraca na escotilha, agora, Sardenta?" Sawyer, Sayid e Ana Lucia estavam paradas na entrada da escotilha, observando Kate, com olhos inquisitivos. Sem nenhuma resposta dela, Sawyer continuou. "Ou será que essa mochila nas suas costas significa que você vai acampar longe daqui?"
"Você quer alguma coisa, Sawyer?" Kate perguntou, franzindo a testa.
Antes que ele pudesse responder, Sayid interveio.
"Kate, viemos ver como você está. Eu não quero te forçar a nada, mas precisamos saber o que aconteceu, precisamos entender o que está havendo com o Jack, para saber como ajuda-lo".
"O que você acha que aconteceu, Sayid? Os Outros queriam o Jack em troca do Michael e do Walt e ele aceitou. Não tem mais nada pra explicar".
"Não seria melhor se fôssemos conversar lá dentro?" Ana Lucia sugeriu, vendo que não seria fácil conseguir informações ou a colaboração de Kate.
Kate aceitou a sugestão, pensando que seria melhor acabar com isso de uma vez, para poder ir o quanto antes ao encontro de Jack. Mr. Eko apenas viu com o canto do olho o grupo entrando e acomodando-se na cozinha. Já imaginava o que estava por vir; continuou concentrado na sua tarefa, na sala do computador.
Ana falou baixinho no ouvido de Kate, assim que se sentaram: "Kate, se você quiser... sabe, conversar. É, eu estou aqui". A latina parecia um tanto desconcertada ao falar essas palavras de conforto, mas Kate agradeceu mesmo assim.
"Kate, tivemos que dar a notícia sobre o Jack para o pessoal do acampamento. Estão todos muito preocupados. Estamos pensando em nos reunir para tomarmos algumas medidas, para proteger o acampamento e claro, trazer o Jack de volta. Para isso, precisamos da sua ajuda". Sayid falava.
Ao falar de Jack, Sayid ganhou toda a atenção de Kate. Ela parecia ficar alerta ao ouvir o nome dele. Ana resolveu continuar.
"Kate, esses Outros são cruéis. Eles levaram nossas crianças, levaram muitos de nós. Eles não deixam rastros e estão em todo lugar. Precisamos que você nos ajude".
"Isso, Rambina, deixa ela bem assustada. Com certeza, vai ajudar". Kate só conseguia pensar nas palavras de Ana e no que os Outros poderiam estar fazendo a Jack. Será que ele estava machucado, ferido? A cada minuto, Kate ficava mais impaciente e ansiosa. Precisava chegar até Jack logo. Cortando seus pensamentos, Locke entra na escotilha, juntando-se ao grupo.
Apesar de ter entrado silenciosamente, os quatro olharam para ele, esperando que ele falasse algo, porém John permaneceu calado. Sayid retomou seu raciocínio.
"Kate, a Claire nos contou sobre a escotilha médica que vocês encontraram com a Rousseau. Do outro lado da Ilha, onde o grupo da parte de trás do avião estava, também havia uma escotilha. Ao todo, já descobrimos três".
"Quatro, Sayid. Quatro". Locke falou subitamente.
"Como é, John?" Sayid perguntou. Mr. Eko aproximou-se, sentindo que sua presença seria necessária.
"Na noite em que Jack e Kate partiram para propor a troca dos prisioneiros aos Outros, eu e Eko também tivemos uma aventura na mata. Tínhamos decidido não contar nada a ninguém, não julgamos ser importante naquele momento, sobre o que encontramos". Locke havia conseguido prender completamente a atenção de todos. Eko apenas observava.
"Algumas dessas descobertas fizeram com que eu... bem, eu perdi minha fé. E o que é um homem sem fé?" Fez essa pergunta virando-se para Mr. Eko. Os dois se encararam e olharam fundo em suas almas, nunca, em nenhum momento, Locke havia sido tão transparente ao falar de si. Ele tinha a feição de um homem derrotado, porém um homem que foi derrotado lutando, um guerreiro. Locke finalmente deixou sua frustração e teimosia de lado e parecia pronto para batalha. Ao sentir lágrimas surgindo em seus olhos, pigarreou alto e continuo, quebrando aquele momento.
"Bem, eu e Eko encontramos uma outra escotilha. Pearl. È pequena e tem um tipo de circuito de TV's, de vigilância. Haviam monitores, um vídeo de Orientação, cadernos para anotações, enfim, era uma escotilha que servia de observatório para essa aqui".
Todos ficaram de queixo caído. Kate foi a primeira a lançar perguntas:
"Peraí, você quer dizer que esse tempo todo, que estivemos aqui, o tempo que aquele Desmond passou aqui, estávamos sendo observados?"
"Como ratos de laboratório". Sayid concluiu, erguendo a cabeça.
"Leve-nos até lá, John. Talvez, possamos encontrar alguma pista sobre onde está o Jack". Ana Lucia disse.
"Claro, Pedrita, vamos aproveitar e juntar toda a galera, fazer uma excursão, como nos tempos do colégio". Sawyer falou, após um longo tempo sem suas brincadeiras.
"Sawyer tem razão. Seria perda de tempo irmos até lá. Se John e Eko não encontraram nada de mais relevante que isso, e a escotilha estava vazia, não creio que será útil para nós". Sayid falou.
"E o que vamos fazer, então?" Kate indagou. "Esperar o Jack achar o caminho de casa, sozinho? Contando que ele consiga escapar dos Outros, claro".
Ana Lucia mexeu-se desconfortavelmente no local onde estava sentada. Sayid e Sawyer também. Algo na maneira que Kate havia falado aquilo, a escolha de suas palavras havia os deixados incomodados. Caminho de casa? Será que ali era mesmo a "casa" deles?
Sem resposta de ninguém, Kate resolveu tomar a frente, tomar uma atitude. Ela não era mulher de ficar esperando por ninguém.
"Enquanto vocês pensam numa resposta, eu vou buscar o Jack e traze-lo de volta". Levantou-se e caminhou em direção à porta, mas Sawyer lhe cortou o caminho.
"Sardenta, por mais que eu adore ver você assim, em rota de fuga, ainda mais para buscar o doutorzinho amado do seu coração, sou obrigado a dizer que você está cometendo um erro. Você, sozinha, já foi pega pelos Outros uma vez, e estamos cada vez mais certos de que não conhecemos nada a respeito dessa gente". Baixando a voz, falou: "Pode não parecer, mas tem pessoas aqui que também se importam com você". Sawyer demonstrou uma preocupação genuína por Kate e estava quase a convencendo a ficar, quando Ana interrompeu.
"Seria imprudente a Kate ir sozinha, mas se formos todos juntos, seremos um grupo forte". Ninguém disse nada, todos pareciam analisar o que Ana propunha. Eko resolveu falar, para deixar o clima mais ameno.
"Se vocês decidirem ir, vão tranqüilos, sabendo que eu estarei aqui para cuidar do botão, da escotilha e para orar por vocês".
Locke agradeceu a bondade de Eko com um olhar e o nigeriano retirou-se da cozinha. O alarme do computador tocou, e em seguida, com a digitação dos números, silenciou-se novamente.
"O que vamos fazer?" Sayid questionou. Em resposta, Sawyer sacou sua arma de trás da calça, apontando para o alto, olhando cinicamente para Kate.
"Rock and roll, baby. Vamos para guerra".
"Sawyer, não tem ninguém falando em guerra aqui. Se chegarmos atirando em meio mundo, há poucas chances de vermos Jack novamente. Não podemos agir precipitadamente, estamos no território deles", conter Sawyer seria mais difícil do que Sayid havia imaginado.
"Ah, não, Abdul. Esse papo de negociação, de novo? Já vimos que não deu certo. Aliás, alguém já sabe explicar como é que foi que o tio da Dorothy sumiu? Porque, da última vez que eu assisti o Jornal das Oito, o tal Henry ainda tinha paradeiro desconhecido".
"Eu tenho uma idéia, um plano". Disse Locke. Sentaram-se mais próximos e conversavam como um time antes de entrar em quadra. Parecia a deliberação de um segredo de estado. Conversaram durante boa parte da manhã, chegando à conclusão de que iriam esperar pelo menos mais três dias, antes de irem aos Outros. Talvez, quem levou Jack o mandaria de volta, e diria que tudo era apenas para dar um susto nos sobreviventes. Talvez, eles viriam exigindo algo em troca da libertação de Jack. Talvez, Jack escaparia. Eram muitas possibilidades, e sair assim, de uma hora para outra, deixaria o acampamento vulnerável a um ataque dos Outros.
Levando em consideração tudo isso, o grupo resolveu esperar, para partir no nascer do sol dali a três dias, aproveitando assim a luz do sol, indicando-lhes o caminho e os rastros na mata. Kate estava bastante contrariada, mas tinha conseguido acalmar-se e pensou que seria melhor poder descansar durante o dia, e enquanto os outros estivessem na praia, esperando, ela iria sozinha, e precisaria de todas as forças possíveis para resgatar Jack e traze-lo de volta pra casa. Os três últimos dias foram um incrível frenesi, ela nem havia se alimentado direito.
Sawyer e Ana Lucia foram os primeiros a voltar para a praia. Sayid foi logo em seguida. Locke caminhava pela escotilha, como um visitante de museu. Na realidade, ele pensava na sua longa trajetória, até chegar ali. Pensava no seu pai, Anthony, em Helen, na sua paralisia, na queda do avião, na morte de Boone e na escotilha. O que viria agora? Ele se perguntava.
Kate estava tomando um copo d'água, quando Mr. Eko chegou na porta do quarto, tentando oferecer-lhe algum tipo de consolação, através de suas palavras.
"Você fez o certo, Kate. Não se martirize por isso. Eu teria te deixado partir esta manhã, mas será que você voltaria bem? Amanhã, você vai estar na companhia de seus amigos, de pessoas que irão te proteger. Você fez a escolha certa".
"Como eu posso ter feita à escolha certa, Mr. Eko, se meu coração diz o contrário?"
"Tudo a seu tempo, Kate". Eko respondeu, deixando o local. Aproveitaria que Kate estava ali, e não sairia tão cedo, para tomar um banho e caminhar um pouco. Precisava espairecer um pouco.
"Kate, vou tomar banho e depois dar uma caminhada. Será breve, mas se eu demorar e o alarme soar, por favor, digite os números por mim, sim!"
"Claro, já conheço o serviço. Vá tranqüilo Eko e ...obrigada por tudo". Kate sorriu para o padre.
"Não precisa agradecer Kate." Eko saiu para o banheiro, e logo Kate escutou o barulho do chuveiro. Depois de 10 minutos, o nigeriano saiu para sua caminhada.
Sozinha, resolveu colocar um disco para relaxar um pouco. Há quanto tempo não tinha chance de ficar assim, sozinha? Só escutando música e deixando os pensamentos voarem. Fechou os olhos e cochilou. Acordou assustada, pensou que tinha dormido demais, mas o disco ainda nem estava na metade. Resolveu dar uma olhada no contador, e distraída, sentou-se à frente do computador olhando pra cima. O contador marcava 42 minutos. Rindo por dentro pela coincidência do número marcado no contador, seu olhar baixou para a tela e o sorriso congelou em seu rosto. Estava gelada e as mãos tremiam...
Continua.
