CAPÍTULO 8 "Me Leve Para o Seu Coração"

Trilha sonora: "Love me Tender", by Elvis Presley.

Jack estava atônito, as coisas estavam muito mais estranhas do que ele poderia imaginar. A mulher negra, uma das únicas pessoas que havia visto em sua vinda com os Outros, tinha acabado de sair do quarto, onde tinha deixado roupas limpas e a ordem de que ele tomasse banho e se vestisse em 15 minutos. Ia levá-lo, por ordem de Tomas, num "passeio" pelas instalações da Dharma Initiative. Mas, mais impressionante que a ordem tinha sido a própria portadora dela: a mulher estava impecável, num uniforme branco, calçava um confortável par de tênis também brancos e estava bem penteada. Não lembrava em nada a mulher vestida de trapos que o havia guiado, em silêncio, no começo de sua caminhada pela mata.

Apesar de inquieto pela transformação (e pelo tom de voz dela, autoritário e ao mesmo tempo, servil), resolveu cumprir as ordens. Seu objetivo era conhecê-los, para poder ajudar os amigos que estavam na praia e na escotilha. Quem sabe descobriria como tirá-los daquela ilha de uma vez por todas. Entrou no banheiro, tomou um banho rápido e enrolado na toalha saiu para se vestir. Surpreendeu-se pelos trajes escolhidos. Eram exatamente do seu tamanho a camisa e a calça (e até a boxer), tudo branco. As meias e o par de tênis também eram brancos, como os da mulher que os havia trazido. Sentiu-se bem mais que nunca, médico. Só faltava o estetoscópio para completar o traje. Sentou-se na cama e esperou.

A porta abriu-se sem ruído, e a mulher apenar fez um sinal para que ele a acompanhasse. Jack levantou-se, e ela abriu passagem, fechando a porta assim que ele saiu. Virou-se para ele.

"Jack, meu nome é Bea, e eu sou assistente direta de Tomas aqui. Vamos até o refeitório, você vai se alimentar, e depois vamos conhecer alguns dos departamentos que mantemos aqui. Mas, não poderei responder muitas de suas perguntas. Tomas vai nos encontrar mais tarde, e ele poderá esclarecer suas dúvidas. Ok!"

"Ok." O que mais ele poderia responder? Só queria saber porque eles o queriam ali.

Saíram pelo corredor, largo e muito bem iluminado. Tinha pelo menos uns 25 metros de extensão, com portas dos dois lados, todas fechadas. Antes de alcançarem o final, uma porta deslizante estava aberta, e ao passar por ela Jack percebeu uma sala de recreação: estantes cheias de livros e revistas cobriam a parede do fundo. Havia mesas individuais e coletivas, sofás, poltronas, um aparelho de tv de 29 polegadas com um DVD ligado a ele, e uma moderna aparelhagem de som. CD's e DVD's estavam arrumados em prateleiras ao lado.

"Entre Jack, fique a vontade. Esta é a sala de lazer dos pesquisadores e médicos. Você poderá usá-la em breve, quando não estiver trabalhando." Bea tinha percebido que Jack estava parado estupefato a porta. Quase tinha prosseguido sem ele.

Jack entrou devagar, como se temesse que tudo desaparecesse ao toque de seus dedos. Percorreu com os olhos os títulos enfileirados por ordem alfabética nas estantes. Clássicos como "Crime e Castigo", "Ensaio Sobre a Cegueira", "O Senhor das Moscas" e "1984" (Jack lembrou-se de Sawyer na escotilha, lendo este mesmo livro. A encadernação do volume era idêntica) estavam ao lado de revistas em vários idiomas, todas publicações médicas e cientificas. Passou a examinar os DVD's, também clássicos "...e o Vento Levou", "Casablanca", "Dr. Jivago", até "O Mágico de Oz", além de filmes espanhóis, italianos e brasileiros. Os CD's não ficavam atrás, Cole Porter ao lado de Patsy Cline, Elvis Presley ao lado de Ray Charles, e até um CD da Drive Shaft, a banda de Charlie! Muitos CD's de musica brasileira e indiana também estavam na estante.

Só então Jack percebeu o espaço reservado a religião, e que ficava escondido pra quem olhava da porta. Numa espécie de altar misturavam-se santos católicos, Bíblias em vários idiomas, incenso, rosários, e numa posição central, uma imagem de Buda. Bea adiantou-se e ficou ao seu lado.

"Todas as línguas, manifestações culturais e crenças tem espaço aqui Jack. Nossa língua oficial é o inglês, mas ele tem vários sotaques. Você vai conhecer os outros pesquisadores com o tempo. Temos mentes brilhantes aqui, Jack. Sinta-se honrado por fazer parte disso. Vamos." Bea encaminhou-se para a porta e Jack seguiu-a em silêncio, mas sua cabeça girava.

Que tipo de local era aquele? Porque pessoas de vários paises estavam reunidas ali? Que tipo de pesquisa seria desenvolvido ali, e porque ele, um simples cirurgião, era importante para eles? Num local impregnado de ciência, a fé parecia desempenhar um papel importante.

Bea guiou Jack por corredores imensos, sempre largos e bem iluminados, que lembravam a ele o San Sebastian Hospital. Portas fechadas escondiam, segundo Bea, pesquisas diversas ligadas à psicologia, parapsicologia, genética, eletromagnetismo e meteorologia, entre outros, inclusive zoologia e veterinária. Passaram por salas de aula vazias e auditórias desertos, até chegarem ao refeitório. Era imenso, impecavelmente limpo, com mesas retangulares e bancos coletivos, além de pequenas mesas para grupos menores e cadeiras individuais. Sentaram-se num canto discreto, e logo um rapaz, também vestido de branco, trouxe um café-da-manhã simples, mas tipicamente americano para Jack: café, ovos com bacon e suco de laranja. Para Bea, trouxeram frutas e uma tigela com um tipo de mingau cozido. Diante do olhar intrigado de Jack, Bea explicou.

"Nossa cozinha também é internacional. Eu sou da África do Sul, e lá é comum comermos esta papa de aveia cozida de manhã, e quando temos, frutas frescas. Você tem ai seu típico desjejum, falta apenas àqueles cereais cheios de açúcar não é?" Bea sorriu ao falar de sua terra. Jack sorriu de volta.

"É, realmente faltam os 'corn flakes', mas os ovos estão com um cheiro ótimo." Jack começou a comer em silêncio e Bea o imitou. Ao acabarem, Tomas entrou na sala. Jack impressionou-se, involuntariamente. Limpo, barbeado e bem vestido, Tomas ficava ainda mais assustador. Ao seu lado, Henry Gale. Senão fossem os hematomas, ainda visíveis, nunca diria que aquele homem tinha sido um prisioneiro. Jack disfarçou a raiva. Kate tinha razão, Henry estava com eles o tempo todo. Mas como ele tinha escapado?

Henry olhou para Jack e sorriu. Cada hematoma tinha valido a pena, e seu trabalho estava cumprido. Tinha sido designado diretamente por Tomas para aquela missão, e não tinha havido falhas. Poderia retomar seu posto e seu trabalho sossegado dali em diante, com a vantagem de ter prestado um favor pessoal ao chefe. Isso poderia ser vantajoso em longo prazo. Quem sabe uma promoção, ou permissão para ir aos Estados Unidos, visitar sua família? Quem sabe assumir um posto na sede da Hanso Foundation e largar de vez aquela ilha?

"Então, Jack, gostou do que viu? Isto é só o começo." Tomas estava visivelmente orgulhoso de suas instalações, e sabia que Jack estava impressionado. Tinha acompanhado os passos dele através das câmaras de vigilância instaladas pelos corredores.

"Claro, é tudo muito bonito e limpo, organizado. Só quero saber o porque disso tudo, e onde eu me encaixo na sua 'organização'?" Jack resolveu que atacar agora não seria a melhor estratégia, e não era preciso fingir admiração. Quanto mais se mostrasse impressionado, mais Tomas se abriria.

"Você vai saber, na hora certa. Agora, eu me encarrego de te mostrar o resto. Bea, retome seu posto, e repasse as novidades a Benjamin, o tempo que ele esteve fora foi realmente produtivo."

"Benjamin? Esse era o nome verdadeiro de Henry Gale? Meu Deus, um nome tão comum, para uma pessoa positivamente fora do comum...como eu queria contar isso para alguém...para Kate." Jack pensou instintivamente ao escutar o nome verdadeiro de Henry.

Bea e Benjamin saíram, deixando Jack a sós com Tomas, que se sentou. Como num passe de mágica, surgiu à frente dele uma xícara de café. Realmente, ele era o chefe de tudo. O rapaz que o havia servido entrou e saiu tão rapidamente que Jack mal o viu. Tomando um gole do café, Tomas dirigiu-se a Jack.

"Temos aqui varias equipes Jack, e você viu apenas a parte que se refere à área médica. Temos outros prédios, em vários níveis de construção, inclusive abaixo da terra. Como Bea deve ter te contado, desenvolvemos pesquisas em varias áreas aqui, inclusive nas escotilhas. Algumas foram abandonadas, mas elas foram importantes um dia. Tudo aqui foi cuidadosamente planejado e organizado. O que, infelizmente, não nos protegeu de algumas...falhas." Tomas falava pausadamente, com uma entonação na voz que não deixava dúvidas: apesar de orgulhoso, uma sensação de cansaço permeava sua fala, que ele tentava a todo custo afastar.

Jack escutava com atenção, e mesmo assim, suas indagações só aumentavam. Onde estavam todas aquelas pessoas de que Bea e Tomas falavam?

"Não vi ninguém além de você, Bea e Henr...Benjamin aqui, além do rapaz que nos serviu. Onde estão todos estes pesquisadores de que vocês tanto falam?" Jack estava curioso.

"Trabalhando em suas pesquisas, coletando material, escrevendo seus relatórios e elaborando conclusões. Logo você os verá. No entanto, nestes primeiro dias, você vai comer em seu próprio quarto e só poderá usar a sala de recreação quando ela estiver vazia. Depois que você estiver a par de informações importantes, e eu estiver convencido de que você está disposto a colaborar, poderá circular livremente. Tenho planos para você, Jack." Tomas falava com um brilho no olhar que assustou Jack. Planos?

"Que tipo de informações Tomas? Que tipo de planos?" Jack queria respostas.

"Em alguns dias Jack, você saberá. Agora, vamos terminar nosso passeio. Vou mostrar a você aonde poderá ir nesta primeira semana." Tomas levantou-se e Jack o seguiu.

Saindo do refeitório, Jack e Tomas tomaram um elevador, que ao invés de subir, desceu alguns andares. Tomas explicou.

"Nossas pesquisas na área médica estão sendo desenvolvidas aqui, e Benjamin é o responsável direto por toda essa área. Você será preparado para substituí-lo, Benjamin foi designado para um posto fora da ilha, mas ele não sabe disso. Ele pensa que você o auxiliará, assim como Bea. Em um mês, toda a área medica estará sob seu comando."

Jack espantou-se. Responsável? Substituir Benajamin? Que loucura era aquela? Parou e encarou Tomas.

"Espera ai. Você está me dizendo que eu estou aqui pra chefiar um departamento? Eu não passo de um cirurgião. No hospital eu cheguei a residente-chefe, mas meu pai controlava tudo, ele era o chefe da cirurgia." Jack estava nervoso. Seus planos não estavam indo exatamente como ele imaginava.

"Sabemos exatamente quem você é, Dr. Jack Shephard." Tomas o encarou de volta. Maldito Christian! Se aquele bastardo não tivesse criado Jack a sua sombra, ele não teria problemas em assumir suas responsabilidades agora. Tomas sabia do potencial de Jack, tinha acompanhado sua trajetória antes mesmo da "queda" do avião na ilha.

"Uma pessoa que diz ser um simples cirurgião não teria reunido em seu entorno mais de 40 pessoas numa situação limite, e se fazer respeitar pela maioria. A nossa área médica é como um hospital, só que maior. Encare como um desafio. Sei que você gosta disso."

Jack estava atônito, aquele homem parecia conhecê-lo bem. Por mais que eles tivessem observado os sobreviventes nestes 60 dias na ilha, Tomas falava como se conhecesse Jack antes disso. Teria a tal Dharma Initiative poder para isso? Para vigiá-los antes da queda? Neste momento, um pensamento cruzou a mente de Jack, cortando sua respiração por um minuto. E se eles tivessem sido 'plantados' no avião, de propósito? Talvez não todos, mas Walt, ele, Locke, que estavam servindo aos interesses daquela gente? Locke apertava o botão, Walt tinha sido capturado por eles, Jack ali estava. Não, era loucura. IMPOSSIVEL!

Tomas percebeu que Jack estava começando a entender, mas não iria explicar mais nada por ora, Tinha revelado demais, e não sabia ainda qual seria a reação de Jack quando soubesse de toda a verdade. Resolveu que não diria mais nada.

"Jack, por enquanto é o que posso te dizer. Todos os dias, você será acordado num horário pré- determinado, vai tomar seu café no quarto e vai descer até aqui. Benjamin e Bea lhe darão as informações necessárias para que você os auxilie, e vocês vão almoçar aqui mesmo. A partir das 16h00 você estará liberado, e poderá usar a sala de recreação até as 17h30, quando deve voltar a seu quarto. Se quiser, pode retirar algum livro ou revista ou CD da sala e levá-lo com você. Após o jantar, não saia do quarto. Siga a rotina, não tente se comunicar com ninguém, e não teremos problemas." Tomas falava com seriedade.

Era uma prisão. Claro que eles não davam este nome, mas Jack era um prisioneiro. Até que Tomas estivesse convencido que Jack estava ao seu lado, seria um prisioneiro. Resolveu pensar com mais calma, quando estivesse no quarto. Encarou Tomas, mas não disse nada.

Passaram a percorrer os corredores, e Jack sentia-se cada vez mais num hospital. Pelos vidros das portas vislumbrou salas de operação, consultórios, enfermarias, salas de recreação como a de seu "dormitório", porém menores, laboratórios e uma sala de computadores vazia. Computadores?

Tomas viu que Jack espichou o olhar sobre os computadores com mais interesse do que sobre as outras salas. Jack só teria acesso a eles muito mais à frente. Não se arriscaria como tinha acontecido com Walt. Não poderia mais deixar que ocorressem falhas daquele tipo. Chegaram ao fim de um corredor, e Tomas empurrou a porta, que descortinou um misto de laboratório, sala de reuniões e central de segurança.

Jack olhou atentamente os monitores, que revelavam vários ângulos de corredores e salas pelos quais havia passado. Não seria fácil passar despercebido por ali. Benjamin e Bea pararam o que estavam fazendo e se voltaram para os dois visitantes.

"Jack, é aqui que você vai trabalhar a maior parte do tempo. Essa é a nossa central. Todos os resultados das pesquisas vêm para cá, onde são analisados, cruzados com outros dados e registrados. Também acompanhamos as pesquisas em tempo real, através destes monitores, e temos acesso direto aos nossos pesquisadores através de um aparelho de teleconferência. Seu trabalho basicamente é aqui, mas eventualmente, com sua experiência em cirurgia, poderá ser chamado para algo mais 'prático'. Ao final do corredor em que está seu quarto, tem um elevador que dá acesso direto a este andar. Todos os dias após o café, dirija-se a ele e venha até aqui, ok!" Tomas encarava Jack, para ter certeza que ele estava entendendo suas ordens.

"Ok. Café, corredor, elevador, laboratório. Sem problemas." Jack disfarçava seu espanto ao constatar uma moderna aparelhagem laboratorial ao seu redor. Se a Swan tinha um ar retrô, totalmente anos 70/80, ele sentia-se ali num filme de ficção cientifica.

"Ótimo, então por hoje é só. Volte ao seu dormitório, descanse, use a sala de recreação. Uma tarde de folga fará bem a você. Ninguém irá perturbá-lo a toda hora, com uma pergunta a ser feita ou decisões a serem tomadas. Aproveite, você tem até as 17h30 para relaxar. Seu almoço estará esperando por você em seu quarto. Vá." Tomas queria conversar a sós com seus auxiliares, precisava de uma segunda opinião a respeito de Jack e suas atitudes.

Jack percebeu que não era mais bem-vindo, e saiu da sala, tomando o elevador, que só tinha um botão. Apertou-o e em segundos estava no corredor do seu quarto. Quando entrou, percebeu mudanças. Tinham trazido um pequeno armário, e um aparelho de som portátil estava sobre a mesa, ao lado de uma bandeja com seu almoço e um relógio de pulso, que marcava 12h23. Ao abrir o armário, encontrou cabides com calças e camisas, cobertores, toalhas e roupa de cama. Nas gavetas, boxers, camisetas e meias. Dois pares de tênis e um de chinelos estavam lado a lado, pendurados numa sapateira fixada internamente na porta do armário. Tudo na cor branca. Fechou a porta e percebeu que o banheiro também estava diferente. Um espelho estava acima da pia, e um box havia sido instalado. Uma prateleira ao lado do espelho estava abastecida com escovas de dente, creme e fio dental, pentes, shampoo e condicionador, espuma de barba, aparelho de barbear, papel higiênico, escova de unhas. Não tinham esquecido nem da loção de barba, que ele constatou ter o mesmo perfume da que costumava usar, apesar da embalagem ter apenas a marca Dharma, como todos os outros produtos.

Abismado com tudo aquilo, lavou as mãos e sentou-se a mesa para comer. Ao terminar, escovou os dentes e resolveu seguir o conselho de Tomas. Saiu do quarto e dirigiu-se a sala de recreação, não sem antes experimentar as maçanetas das outras portas. Todas trancadas, inclusive a que dava acesso ao corredor. Resolveu escutar um pouco de música. Pegou um CD do Elvis ao acaso,

e colocou-o para rodar. A voz do Rei encheu a sala, trazendo a Jack uma única imagem...

Deitou num sofá próximo e pensou que, nem que ele tivesse escolhido de propósito, teria acertado tão em cheio...

"Me ame eternamente

Me ame docemente

Nunca me deixe ir

Você completou minha vida

E eu te amo tanto..."

Ela não queria que ele viesse, e havia lágrimas em seus olhos. Ele sentia-se péssimo quando ela chorava, e era pelo menos a segunda vez que ele causava o choro dela. Ao lado dela sentia-se outra vez vivo, feliz, completo...

"Me ame eternamente

Me ame verdadeiramente

Todos os meus sonhos realizados

Pois, minha querida, eu te amo

E sempre amarei..."

Ela era como um sonho, de um jeito que era bom e ruim ao mesmo tempo. Ela era doce de uma maneira diferente, encantadora e misteriosa. Era delicada, ajudando Sun na horta, e minutos depois corria pela mata com uma arma na mão, atrás de rastros e seguindo-os quando foram atrás de Michael. Sim, ela era um sonho, o sonho dele, que tinha se tornado real...

"Me ame eternamente

Me ame por muito tempo

Me leve para o seu coração

Porque é a ele que eu pertenço

E nós nunca vamos nos separar..."

Tudo que ele queria era ficar ao lado dela, sempre. Mesmo quando brigavam, e oh, eles brigavam para valer, era um jeito de estar com ela. E quando ela sorriu, e disse a ele que tinha gostado de ver que ele havia ganhado de Sawyer no pôquer, aquele sorriso o aqueceu por dentro.Sabia que seu coração já pertencia a ela, ela só precisava ajudá-lo a entender como seus corações ficariam juntos de uma vez por todas.

"Me ame eternamente

Me ame querida

Diga que você é minha

Eu serei seu por todos os anos

Até o fim dos tempos..."

Oh, era tudo tão confuso e estranho. A única certeza que ele tinha é q nunca amaria outra mulher como amava Kate. Nem Sarah importava mais agora, era um passado que ele já havia esquecido. Mas as dúvidas que ele tinha em relação a Kate eram muitas. Como queria que ela estivesse ali, para conversarem. Precisavam se acertar, porque nunca mais ele ficaria longe dela. Mesmo agora sentia a presença dela ali, por saber que amava. Sempre a amaria, independente de tudo que pudesse acontecer.

Elvis cantava tudo que ele queria dizer a Kate naquele momento. Por mais que tudo aquilo fosse insano, não tinha parado de pensar nela desde o instante em que tinha acordado. Só agora, longe dela, percebeu o quanto a amava, o quanto tinha se apaixonado, desde o momento em que a tinha visto pela primeira vez. E o quanto doía a angustia de nunca saber ao certo se ela sentia o mesmo. Embalado pela música e pela imagem de Kate, adormeceu.

Ela precisava ajudá-lo, de qualquer jeito. Tinha visto Kate se preparando para sair da escotilha, e sabia que se eles a pegassem, ela não veria Jack de novo, pois estaria morta. Eles tinham pegado Kate uma vez, e Tomas quase a tinha matado. Se ela caísse nas mãos dele de novo, não haveria escapatória. Tinha que fazer alguma coisa, mas o que? Sentada numa das salas de lazer, buscava freneticamente uma idéia, e ela surgiu. Sim, era isso. Calmamente, para não levantar suspeitas, saiu, torcendo para que desse certo. TINHA que dar certo.

Na praia, Sun levantou-se e esticou as costas, exausta. Sem Kate para ajudá-la na horta, e com a tarefa de ajudar os doentes e acidentados, estava levando uma dupla jornada. Naquela manhã, já tinha feito 3 curativos, ouvido as lamentações de dois sobreviventes com problemas intestinais, além de ter arrancado ervas daninhas de metade da horta. Libby tinha ajudado nestas tarefas, mas era a ela que as pessoas procuravam em primeiro lugar. Pensou em Jack e percebeu o quanto à vida do médico tinha sido difícil nestes dias na ilha. Voltou para a praia, e passou por Rose, que cozinhava. O cheiro estava bom e Sun parou para conversar.

"Olá Rose. Tudo bem? O cheiro está ótimo" Sun sentou-se próxima à mulher.

"Olá querida, está tudo certo. Só preparando o almoço, sabe? Apesar das mudanças, o estômago das pessoas sempre reclama na mesma hora. Como está na sua nova função?" Rose parou de mexer com a comida e voltou-se para Sun.

"Há, difícil. Sinto na pele como Jack devia estar cansado, e só estou como 'médica' por uma manhã, Libby me ajudou, mas as pessoas vêem a mim como substituta de Jack, e não tem paciência em esperar. É desgastante." Sun mexia os dedos, inquieta.

"Jack está fazendo falta, e não só como médico. Não vi Kate aqui na praia hoje, e ela estava sempre por ai, subindo nas árvores, ajudando. Nunca a vi descansar ou parada." Rose sentia a falta de Kate, ela sempre estava por perto, era uma pessoa com quem se podia contar.

"É mesmo Rose, ela me ajudava muito na horta. Mas sem o Jack..." Sun não terminou a frase. Tinha percebido o quanto Kate gostava de Jack, mas nunca a tinha questionado sobre isso. Kate era fechada, e de certa forma, também estava envolvida com Sawyer. Sun a entendia. Lembrou-se de Jae Lee e Jin, e de como se sentia em relação aos dois.

Na mesma hora, Jin acercou-se das duas, vinha com dois peixes limpos numa cesta. Sorrindo, deu um para Rose, que agradeceu. Chamou Sun em coreano, queria que ela o ajudasse com o almoço dos dois. Sun despediu-se de Rose e acompanhou Jin, estava faminta.

Em sua barraca, Charlie e Claire conversavam, enquanto a australiana ninava Aaron no berço. Estava preocupada com a ausência de Jack. Sabia que Sun estava sempre por perto e tinha auxiliado Jack em vários momentos difíceis, mas ela não era médica.

"E se Aaron tiver algum sintoma estranho, e Sun não souber o que é? Como vai medicá-lo Charlie?" Claire questionava Charlie com olhos preocupados.

"Claire, muitas outras pessoas aqui podem ajudar. Doenças de bebê são conhecidas, e tenho certeza que Rose ou alguma das outras mulheres já teve filhos ou sobrinhos. Não se preocupe. E logo Jack estará de volta, Saiyd e os outros vão dar um jeito de resgatá-lo."

"Assim espero Charlie. Assim espero." Claire encerrou o assunto, mas ainda estava preocupada. Aaron dormia tranqüilamente, mas ela temia pela saúde do filho.

Por todo o acampamento, a rotina se restabelecia, apesar da sensação que incomodava a todos de que algo estava faltando. O medo por Jack e por todos eles pairava como uma nuvem incomoda sobre todos, toldando os pensamentos. Temiam por si mesmos, pelos companheiros e por Jack.

Quando Ana Lucia e Sawyer chegaram a praia, as pessoas olharam instintivamente para os dois. Queriam saber o que Kate tinha dito, quando eles sairiam em busca de Jack. Saiyd chegou logo depois e dirigiu-se ao ponto em que haviam se reunido de manhã. As pessoas abandonaram suas barracas, almoços, afazeres e divagações e se aproximaram do iraquiano em silêncio.

"Kate não nos contou muita coisa, apenas que Jack se foi em troca de Michael e Walt. Resolvemos então, fortalecer nossas defesas aqui no acampamento e daqui a três dias, se nada ocorrer até lá, sairmos para resgatar Jack. Mais do que nunca, precisaremos estar unidos." Sayid falava olhando nos olhos de cada um ali, encarando-os, fazendo-os perceber que era um momento crucial o que se aproximava.

"Por agora, voltem a seus afazeres, e fiquem alertas. Vamos traçar alguns planos e toda ajuda será necessária e bem-vinda." As pessoas se dispersaram assim que Saiyd terminou de falar. Ele virou-se para Ana Lucia e Sawyer e disse.

"Bom, vamos conversar com Michael e Walt. Eles com certeza têm informações a nos dar sobre o acampamento dos Outros."

"Certo Saiyd, ia sugerir isso mesmo. Eles agora já estão descansados e alimentados. Serão de grande ajuda". Ana Lucia estava em sua melhor forma, e pronta para agir.

"Esperem ai, camaradas. Eu não sei de vocês, mas eu estou faminto. Sugiro um almoço, gentilmente fornecido pela Dharma. Depois, vou aonde vocês quiserem." Sawyer estava faminto, não faria nada antes de almoçar. O cheiro de comida estava espalhado pelo acampamento e seu estomago já reclamava há algum tempo.

"Sawyer está certo. Vamos comer primeiro. Daqui à uma hora, nos encontramos na barraca do Michael." Sayid encerrou o assunto, e saiu para sua barraca.

"Então, lábios de mel, quer almoçar comigo? Temos macarrão com queijo, se você cozinhar, é claro." Sawyer sorria sedutoramente para Ana Lucia. Ela devolveu o sorriso.

"Vai sonhando, Buscapé. Tenho outros planos para hoje." E saiu, gingando o corpo, em direção à barraca de Libby. Queria perguntar a amiga como tinham corrido as coisas naquela manhã.

Derrotado, Sawyer não teve escolha. Ia ter que cozinhar de qualquer jeito, e ele detestava isso. Saiu em direção a sua barraca.

A brisa leve da praia trazia o som dos pássaros da floresta até a beira da água, envolvendo todos numa aparente atmosfera de paz. Concentrados no almoço, só se ouviam risos discretos e conversas amenas.

Charlie conversava agradavelmente com Claire quando viu o rosto da australiana ficar pálido, mais branco que o de costume. Charlie tentou sacudi-la, perguntava o que ela tinha, mas Claire estava em choque e não conseguia bem descrever o que estava vendo. Franziu a testa, voltando a si e apontando para frente, para a linha do oceano no horizonte, Charlie pode finalmente ver o que tinha deixado Claire boquiaberta.

Era um barco. Um barco à vela.

Continua...