CAPÍTULO 9 - "CHEGADAS & PARTIDAS"
Trilha sonora: "ALL I ASK OF YOU", from the Phantom Of The Opera.
Charlie rapidamente levantou-se e gritou, chamando por Sayid, ia tropeçando na areia, tropeçando nas palavras... só conseguia apontar para frente. Sayid levantou-se ao ver o homem correr desnorteado a seu encontro. Chegando perto de Sayid, Charlie teve que se apoiar no iraquiano para não cair de cara na areia.
"Um barco, Sayid. Um barco!" Charlie disse apontando para frente.
"O quê?" Sayid olhou para frente e seu queixou caiu exatamente como o de Claire. Esta já vinha se aproximando com Aaron no colo, segurando-o firme, protegendo-o instintivamente.
"Sayid, será que são os Outros?" Claire perguntou, apavorada.
"Não sei, Claire. Mas, vamos descobrir". Sayid sacou a arma do bolso de trás da calça e gritou por Sawyer.
Sayid e Sawyer agiam habilmente, despindo-se de suas blusas, sapatos e meias, correndo em direção ao mar, com suas armas nos bolsos das calças. A correnteza estava forte, mas nadavam bravamente entre as ondas, fazendo uma força descomunal, lutando contra o mar, o vento e o medo. O barco estava ainda um pouco longe da praia, tiveram que nadar por uns bons minutos.
Na praia, as pessoas aglomeravam-se com o mar cobrindo seus tornozelos. Charlie observava a ação de Sayid e Sawyer através de um binóculo, que nem sabia ao certo de onde havia saído. Havia todo tipo de reação à vista do veleiro e as pessoas falavam desencontradamente sobre quem poderia estar no barco.
"Será que são os Outros?" Questionava Claire a Charlie.
"Hurley, você acha que o Sayid e o Sawyer precisam de ajuda?" Sun perguntava, traduzindo a preocupação de Jin com seus colegas.
"Não conheço os Outros muito bem, não. Mas, acho que não são eles". Michael dizia.
"Será que é o Jack, pai? Será que ele conseguiu fugir?" Walt perguntou, esperançoso.
"Jack?" Jack? A menção do nome de Jack foi suficiente para que as pessoas vibrassem alegremente, torcendo pelo retorno do médico.
Mas onde ele conseguiu o barco? Será que ele conseguiu buscar ajuda? Vamos ser resgatados?
A vibração, as perguntas e as dúvidas permaneceram enquanto Sayid e Sawyer chegavam ao barco, aproximando-se sorrateiramente, subindo a bordo, em silêncio, com cuidado, prontos para dar o bote. Não havia ninguém do lado de fora, porém de dentro da cabine, vinha uma música clássica, uma ópera.
"O Fantasma da Ópera?" Sawyer sussurrou para Sayid, ganhando uma expressão de curiosidade do iraquiano. Sawyer reconheceu uma ópera? Não que o "Fantasma" fosse desconhecido, mas Sayid certamente não conhecia esse lado de Sawyer. Puseram-se em posição de ataque, um de cada lado da entrada da cabine, empunhavam suas armas, prontos para apertar o gatilho. Sawyer gesticulou indicando que ia forçar a entrada dos dois. Porém, não houve tempo. Ouviram tiros, vindo do interior do barco, e agacharam-se para se proteger.
Quatro tiros ecoaram pela brisa do mar, silenciando a ópera e todo o resto.
Sem mais nenhum sinal de movimentação, Sayid indicou para Sawyer que eles deveriam entrar. Sawyer balançou a cabeça afirmativamente e chutou com toda a força a portinha de madeira do barco. Apontaram suas armas para dentro e a cena que viram foi absolutamente cômica. Franziram a testa em descrença. O que era aquilo? Sawyer não conseguiu conter uma gargalhada.
Um homem bêbado deitado no chão, cercado por garrafas vazias de vinho e vodka, vestindo apenas um boxer infame com um colorido escandaloso, amarelo estampado de barquinhos vermelhos, segurava uma espingarda atravessada na frente do peito. Ele ria e chorava, cantando a ópera que não mais se ouvia pelo aparelho de som do barco. A cena toda era ridiculamente patética. Mas, não se deixando levar pelos risos debochados de Sawyer, Sayid empunhou a arma firmemente para o homem, mandando-o levantar-se e prestar contas de quem era. A lembrança de um certo Henry Gale ainda era bastante vívida na mente de Sayid. O homem assustou-se e levantou as mãos, indicando que não pretendia machucar ninguém.
"Calma aí, brotha! Calma aí, vamos conversar". Dizia enquanto se levantava e tentava se equilibrar sobre seus pés.
Quase 1 hora depois, os três desembarcavam do bote salva-vidas, na beirada da praia. As pessoas continuavam ali, de pé, esperando alguma notícia, super preocupadas com o que havia acontecido com Sayid e Sawyer.
Sayid se pronunciou novamente, dirigindo-se aos sobreviventes. Já estava se cansando desses "pronunciamentos", falando com uma feição bastante fatigada. Aliás, não era só tomar conta do acampamento que estava cansando Sayid.
"Não há motivo de preocupação, este homem não é um dos Outros. Ele se chama Desmond e contou toda sua história para mim e para Sawyer. Não acreditamos haver motivos para que se desconfie dele, então, ele estará convivendo conosco, caso assim deseje. Não fomos resgatados e tampouco Desmond conseguiu encontrar ajuda, velejando em mar aberto. Se tiverem alguma pergunta, façam diretamente ao novo colega, porém, por favor, vamos deixá-lo descansar e se ambientar, primeiro". Sayid falou impacientemente, queria terminar logo com mais essa "novidade".
Inteligentemente, os três combinaram de não comentar com o grande grupo o fato de Desmond ser o homem que estava na escotilha, quando esta foi aberta por Locke e Jack. Sayid e Sawyer esperavam que Desmond logo se recuperasse de sua embriaguez para que não falasse nada de errado para os outros sobreviventes.
Depois do breve discurso de Sayid, que não havia deixado muita margem para perguntas, as pessoas dispersaram-se, observando curiosamente o novo homem que chegava ao acampamento. Claro que havia desconfiança e insegurança em muitos olhares disparados a Desmond, mas isso, com o tempo, poderia mudar. Hurley reconheceu o nome de Desmond, imaginando de quem realmente se tratava, mas percebendo a manobra de Sayid, conseguiu conter-se antes de soltar a verdade. Engasgou nas palavras, mas acabou ficando quieto. Talvez eles pudessem conversar sobre os números?
Hurley olhou para Libby, ao seu lado, e sorriu falsamente, dando a impressão de que estava tudo bem. Em sua mente, os números se repetiam incessantemente... 4, 8, 15, 16, 23, 42...
Sayid aproximou-se de Sawyer, avisando que levaria Desmond até a escotilha, pedindo que o texano ficasse de olho em tudo, no acampamento. Sayid continuava cabisbaixo.
"Ok, Abdul. E, olha, não fique assim, o Jack vai voltar. Nós vamos trazê-lo de volta". Mais uma vez, Sawyer surpreendia Sayid pela seriedade com que falava. Sayid fez que "sim" com a cabeça, apoiando os braços ao lado da cintura. Sawyer continuou: "Até porque, Muhammed, se a gente não buscar o Doc logo, você vai cansar dessa jornada dupla. Porta-Voz do Governo e Presidente em exercício? Não deve estar fácil, aí, amigão. E eleições, a esta altura do campeonato? Não acho uma boa idéia".
Trilha sonora: "AVISO AOS NAVEGANTES", by Lulu Santos.
Sayid e Desmond logo tomaram o rumo até a escotilha, atendendo ao pedido do próprio recém-chegado, que queria tomar um banho e se alimentar devidamente. Caminharam pela mata, tão familiar aos dois, sendo que Desmond não pôde esconder lágrimas que corriam em sua face. Não acreditava que estava de volta aquele lugar, não podia acreditar. Tinha vontade de fechar os olhos e aperta-los com toda a força, fazendo tudo aquilo, todo aquele lugar desaparecer. Desmond só desejava uma coisa: ver Penny novamente. Nem que fosse somente uma vez, queria revê-la.
"Sayid, vocês continuam apertando o botão?" Desmond indagou em um determinado ponto da caminhada, já tendo parado de chorar.
"Sim, Desmond. Ainda apertamos". Respondeu com pesar. "Você realmente, navegou durante todo esse tempo e não chegou a lugar nenhum?"
"Não, brotha. Lugar nenhum. Eu até senti falta daquele maldito botão, algo pra ocupar minha mente. A solidão prega muitos truques na nossa cabeça, brotha. Aqui, pelo menos, vocês têm um ao outro".
"Desmond, você não precisar estar sozinho para se sentir solitário, amigo". Ambos tinham olhares tão angustiantes, nostálgicos e cansados que poderiam deprimir a pessoa mais alegre do mundo, naquele momento. Eram um espelho do outro. Os que normalmente faz as pessoas se aproximarem e se agruparem, num mundo normal, são gostos, pensamentos ou sentimentos em comum. Porém, a solidão que aqueles dois homens sentiam era tão vasta e tão enraizada em suas almas, que nem este sentimento em comum poderia uni-los em qualquer laço de amizade, em qualquer tempo, de qualquer época, em qualquer lugar do universo.
"Eu tentei montar uma espécie de transmissor, um rádio, para tentarmos nos comunicar com alguém, pedir ajuda. Você tem algum equipamento no barco que possa auxiliar?" Sayid perguntou.
"Deve ter, sim. Mas, te digo desde já, que não tenho um pingo sequer de fé de que qualquer tentativa de sair desta maldita ilha dará certo". Desmond falou, ainda sentindo-se derrotado.
Seguiram em silêncio até a escotilha.
Kate olhava o monitor do computador, ainda. Depois de praticamente uma hora, olhando o monitor, sem ter saído para comer, ir ao banheiro, ela continuava lá. Estava pasma pelo que tinha visto. Roía as cutículas, tentando aliviar o nervosismo que sentia. Eko tinha saído do banho e pediu gentilmente que ela ficasse ali, para que ele pudesse ir buscar algumas frutas e aproveitar para caminhar um pouco. Locke estava...bem, ela não fazia idéia de onde Locke estava.
Cada vez que se lembrava dos avisos, os pedidos, as súplicas dele, Kate ficava mais nervosa ainda. Não sabia de deveria temer, desconfiar, acreditar...os avisos a deixaram confusa. Precisava sair dali, não estava mais suportando a tensão. A última vez que se sentira assim, na escotilha, ela havia corrido para longe, pela mata, deixando Sawyer sozinho, largado no chão, doente e indefeso. E, depois disso, ele havia aparecido, lá onde ela estava chorando, silenciosamente, e ela o havia beijado. Kate tinha beijado, ele. Seus instintos diziam para ela correr, pegar sua mochila e ir atrás dele. Mas, por que ele teria a avisado para não ir? Por que ele tinha pedido com tanta veemência que ela não fizesse isso?
Kate via novamente, em seus pensamentos, as palavras. Tinha registrado como se fosse uma foto.
KATE?
KATE?
KATE?
Hesitou por um momento, arregalando os olhos, sentindo o coração bater mais rápido. E digitou uma pergunta:
- QUEM ESTÁ AÍ?
E recebeu a resposta:
KATE, NÃO VENHA. POR FAVOR, NÃO VENHA ME BUSCAR. NÃO TENTEM VIR ME BUSCAR. AVISE O SAYID, O JOHN, PARA PARAREM DE FORMULAR PLANOS PARA MEU RESGATE. EU NÃO POSSO SER RESGATADO, KATE. NÃO POSSO. NÃO POSSO SER RESGATADO, KATE.
- JACK? É VOCÊ?
KATE, EU NÃO POSSO SER RESGATADO.
- POR QUE, NÃO, JACK? ONDE VOCÊ ESTÁ? VOCÊ ESTÁ BEM?
Ela estava ficando assustada.
EU NÃO TENHO MAIS MUITO TEMPO. SÓ ME PROMETA QUE VOCÊ NÃO VIRÁ MAIS ATRÁS DE MIM.
- EU NÃO POSSO PROMETER ISSO, JACK.
QUE COISA, KATE! EU JÁ FALEI! NÃO TENHO TEMPO E NÃO POSSO SER RESGATADO. ACREDITE EM MIM, TUDO DARÁ CERTO, MAS VOCÊ TEM QUE ME PROMETER QUE NÃO TENTARÁ VIR ATRÁS DE MIM.
Kate estava à beira de lágrimas. O que ele estava pedindo era demais, era aquém dos desejos de Kate. Ele estava pedindo para ela desistir. Ela não suportava o sentimento de derrota, isso a incomodava, ela não estava acostumada a confiar e desistir. Sentiu-se exatamente como se estivesse no carro de Tom de novo, ele sangrando com a bala no peito e ela tendo que fazer uma escolha. Naquele momento, ela havia desistido, e se odiou por isso, depois. Ainda se odiava por aquilo. Faria o mesmo com Jack?
- OK, JACK. VOCÊ VENCEU.
Kate foi interrompida de suas amargas lembranças com a chegada de Desmond e Sayid na escotilha. Será que já era hora de avisar Sayid do que havia acontecido? Sua cabeça era só dúvidas, só angústia. Ela aproximou-se da cozinha, decidida a falar com Sayid. Entretanto, ficou ainda mais atônita ao ver quem acompanhava o iraquiano.
"Desmond?" Kate perguntou, não acreditando no que via.
"Olá para a senhorita também." Será que o dia pararia de lhe trazer surpresas? Kate se perguntou.
"Você...hum... O que você está fazendo aqui?"
"Longa história. Se você não se importar, eu vou tomar um banho primeiro, depois, podemos confraternizar e falar sobre o inferno que passei nesses mares". Kate nem sabia o que dizer. No fundo, ela não queria tomar conhecimento do inferno que Desmond havia passado, afinal, ela ainda não tinha conseguido sair de seu próprio inferno. Locke entrou na cozinha, curioso, pois podia jurar que estava escutando a voz de Desmond ali.
"E aí, brotha? Bom te ver". Locke fez a mesma cara incrédula que Kate havia feito minutos antes. Desmond passou por ele, indo em direção ao banheiro.
Eko entrou na escotilha, dirigindo-se em silêncio à sala do computador. Locke sentou-se no sofá, avisando que esperaria para conversar com Desmond. Kate pediu a atenção de Sayid, para que pudessem se falar, em particular. Ela pegou sua mochila, e rumaram para fora da escotilha.
"Sayid, eu não sei nem como te dizer isso, como te explicar. Mas, eu preciso que você me escute e que faça o que eu vou te dizer". Kate contou sobre as mensagens que recebeu na tela do monitor, deixando Sayid mais preocupado do que já estava. Discutiam todas as possibilidades, e se não fosse o Jack? Obviamente, era alguém querendo afastá-los de Jack, se não fosse o próprio. Talvez fosse alguém, tentando faze-los ir imediatamente resgatar Jack, levando-os a uma armadilha.
"Kate, o que mais me intriga é por que ele falava tanto que não 'poderia ser resgatado'. Infelizmente, tenho a impressão de que Jack não está mais nesta Ilha, Kate". Ela ficou chocada com o que ouviu de Sayid.
"Então, o que vamos fazer? Vamos esperar que por algum milagre o Jack retorne?"
"Kate..." Sayid respirou fundo... "Eu penso que Jack não retorna mais". Kate estava atônita, incrédula, indignada, chocada e espantada. Ela havia chegado ao limite do suportável.
"Como assim, Sayid? Por que eles levariam o Jack? Só o Jack? Olha, o Michael e o Walt conseguiram voltar. Eles estavam aqui na Ilha mesmo". Kate beirava o histerismo, gritando perguntas a Sayid, enquanto lágrimas teimavam em cair, mesmo sem ela perceber. Vendo que estava se excedendo, procurou se acalmar, Kate respirou fundo e secou o rosto.
"Desculpe, Sayid. É que isso tudo está me deixando confusa". Kate disse, com a voz mais controlada.
"Kate, você já considerou a possibilidade de Jack não estar mais vivo?" Sayid perguntou calmamente, tentando ser cuidadoso na escolha das palavras, tão cuidadoso quanto seus pensamentos permitiam.
Kate olhou com desprezo para Sayid. Jamais esperava escutar isso dele. Aquilo foi o estopim para ela. Não mais ficaria se lamentando, esperando, angustiada, alimentando dúvidas e culpas dentro de si. Para o bem, ou para o mal, Kate iria atrás de Jack. Silenciosamente, tomou esta importante decisão, porém Sayid não precisava de palavras para saber o que ela pensava. Segurando sua mão, como havia feito no dia em que se afastou do acampamento, depois que torturou Sawyer, Sayid disse:
"Espere até o amanhecer do dia seguinte, assim você poderá aproveitar para fazer a maior parte da caminhada sob a luz do dia. Estaremos partindo no terceiro dia, como combinamos, independente do que aquela mensagem dizia."
Antes que Kate pudesse dizer mais alguma coisa, os dois foram interrompidos pela chegada de um Jin apavorado, gritando, gesticulando, impaciente. Sawyer chegou logo atrás, segurando uma pistola, tão agitado quanto Jin.
Kate e Sayid olharam para Sawyer, aguardando uma explicação para o tumulto. O texano se limitou a dizer:
"Sun sumiu".
"Sun?" Kate preocupou-se com a coreana. Ela era o mais próximo que tinha de uma amiga na Ilha, e a primeira depois de muitos anos de fuga solitária.
"Sun...Sun..." Jin repetia. Fazia sinais para a mata, queria ir atrás de sua esposa grávida.
"Então, Sayid, você quer aguardar mais 3 dias?" Kate questionou, pronta para mais uma busca pelo resgate de um colega na mata.
"Vou chamar John. Sawyer, chame Ana Lucia, traga as armas e nos encontre aqui o mais breve possível. Vamos esperar por vocês para partir". Sayid falou imperativamente.
Sawyer correu para a praia, após explicar que eles deram falta da coreana depois do tumulto da chegada de Desmond. Quando Sayid e Sawyer nadaram até o barco, ela ainda estava lá, conforme Hurley e Libby puderam afirmar. Depois que Desmond chegou, quando os sobreviventes voltaram a seus afazeres diários, Jin começou a procurar pela esposa, não a encontrando em nenhum ponto da praia, nem no jardim dela, sendo que ninguém sabia dizer onde ela estava.
Claro que todos chegaram à mesma conclusão, avaliando a situação na qual estavam.
Os Outros haviam levado Sun também. Por quê?
Continua...
