CAPÍTULO 10 - "Literalmente perdidos"

Trilha sonora: "LOST", by The Calling.

Acordou assustado, meio tonto...tinha cochilado no sofá da sala de lazer. Olhou preocupado para o relógio, não queria ter problemas com seu horário de "recolhimento" logo no primeiro dia. O CD há muito já tinha acabado, eram quase 17h00..."16h42 para ser exato..." Foi até o aparelho de som e retirou o CD, guardando-o na caixa e devolvendo-o ao seu lugar na estante. Resolveu explorar as revistas cuidadosamente arrumadas em pilhas em cima de uma mesa de canto baixa, a maioria títulos médicos e científicos...arrepiou-se com as datas das revistas: eram recentes! Lembrou-se da data da queda do avião, 22 de setembro de 2004. Há 70 dias atrás, mais ou menos...aquelas revistas eram do começo do mês de dezembro!

Então eles tinham acesso ao "mundo lá fora", e não parecia ser um acesso difícil, já que além de revistas, Jack encontrou jornais recentes também, aliás, mais que recentes, mas do dia!! Pelas suas contas, devia ser dia 06 ou 07 de dezembro, e lá estava o Washington Post do dia 07 de dezembro de 2004. Relanceou os olhos pelas noticias, mais alarmado com a data do que com as manchetes.

Cada vez mais intrigado, recolheu uma revista de esportes ao acaso e voltou ao quarto, antes que soassem as 17h30 e ele virasse a Gata Borralheira. Riu baixinho da brincadeira, lembrando-se de Sawyer. Por mais que tivessem diferenças, sabia que Sawyer protegeria Kate dela mesma se fosse preciso. Temia que eles acabassem se envolvendo, mas tinha que correr este risco pelas pessoas que estavam na praia, esperando pelo resgate que poderia não chegar nunca. Se ela dissesse a ele que sim, amava Sawyer e era com ele que queria ficar, Jack nada poderia fazer...tinha sido um estúpido, desconfiando de Kate e jogando na cara dela esta desconfiança, misturada algumas vezes com desprezo. Sabia que a amava mais que tudo, mas se ela seria feliz com outro homem, ele não poderia impedi-la.

Surpreendeu-se com o pensamento desprendido, já que seu passado dizia exatamente o contrário. Quando Sarah o traiu e deixou para trás sua casa, sua vida e ele, infernizou a vida dela querendo saber quem era o homem que tinha tomado o lugar dele, desconfiando de seu próprio pai e jogando-o num pesadelo sem volta, que culminou em sua morte em Sidney e mais profundamente, na sua atual situação. Sentia que a ilha lhe dava uma segunda chance, e talvez sua chance seria esta: ver Kate com outro homem e mesmo assim deixá-la ir, porque queria que ela fosse feliz acima de tudo, mesmo que seu coração ficasse esmagado de dor.

No quarto encontrou a bandeja com o jantar. Lavou as mãos, espantado com a silenciosa eficiência dos "empregados", e sentou-se para comer, uma refeição digna em dias. Os alimentos pareciam frescos, diferente da comida pré-pronta e enlatada que havia na escotilha. Comeu com vagar, escovou os dentes e teve uma idéia. Ligando o aparelho de som, procurou uma estação de rádio, em vão. Apenas estática. Voltou à cama, pegou revista e seu queixo caiu. Na capa, estampada com todas as letras a manchete pulava : "Os Red Sox ganham o Campeonato Mundial".

Há mais de 3 horas eles andavam pela mata, sem descanso, procurando rastros, inutilmente. Tinham deixado o botão e Desmond aos cuidados de Eko, depois de uma breve conversa. Não podiam demorar muito, se os Outros tinham deixado algum rastro, ele poderia se apagar se chovesse.

Nem Locke nem Kate viam nada no chão, nas árvores, nas folhas. Sabiam que os Outros eram silenciosos e não costumavam deixar pistas, mas mesmo assim, não desistiriam. Logo atrás deles Sayid, Sawyer, Jin e Ana Lucia andavam em silêncio, atentos ao menor sinal de movimentação. Foi impossível dissuadir o coreano de ficar no acampamento e esperar. Através de gestos e algumas palavras em inglês, Jin deixou claro que iria com eles de qualquer jeito.

"Hei Locke, acho que encontrei alguma coisa" Kate gritou de onde estava, uns 2 metros à frente dos outros. Locke correu até ela e os outros esperaram.

"São pegadas de quem carrega algum peso, e são duas pessoas pelo menos" Locke constatou, olhando as pegadas com atenção.

As pegadas continuavam numa trilha visível, e conforme a seguiam, entraram uma região desconhecida para eles, cada vez mais fundo na mata, sem perceberem nem estranharem a facilidade dos rastros que se revelavam a cada metro. Tão entretidos estavam que não perceberam quatro sombras seguirem seus passos de perto.

O sangue gelou-se nas veias de todos quando um barulho ensurdecedor e familiar ressoou pela mata, próximo do local onde estavam abaixados analisando um par de pegadas.

"Corram." Kate gritou acima do estranho som.

Com estrépito, procuraram correr todos para a mesma direção, sem sucesso, já que estavam em um trecho de mata fechada. Sawyer e Ana Lucia seguiram em frente, Sayid e Locke viraram a esquerda, desviando-se cada vez mais de Jin e Kate, que tomavam direção oposta. O som era onipresente, parecendo vir de todas as direções. Gritavam pelos nomes um dos outros, inutilmente, já que era impossível ouvirem-se na distância que se impunha cada vez mais.

Locke e Sayid encontraram uma touceira de bambus altos e grossos, enfiando-se entre eles como podiam. Não era um bom esconderijo, sabiam disso, lembrando-se da primeira noite na ilha e o espetáculo de árvores arrancadas pela raiz, que parecia tão distante até aquele minuto. Locke não tinha medo, mas receio. Se a ilha o tinha enganado acerca do botão e dos seus propósitos, o que dizer daquele "monstro"? Ele já o tinha visto uma vez, e não era assustador, pelo contrário. Era lindo. Mas quem garantia que isso não era mais uma armadilha da ilha para enredá-lo em suas tramas misteriosas? Melhor se esconder ali com Sayid e esperar que aquela "coisa" recuasse, sem levar nenhum deles.

Ana Lucia ultrapassou Sawyer na corrida e desapareceu numa curva.

"Vaca..." Sawyer pensou com raiva, procurando ver onde Ana Lucia havia se metido, escutando aquele barulho tão orgânico e mecânico ao mesmo tempo. O que raios poderia fazer aquele barulho ele não sabia, mas também não ia tentar descobrir.

Sentiu-se puxado pelas pernas e arrastando de cara no chão, caiu num buraco não muito fundo. Viu sua vida passar na frente de seus olhos, até que reparou em Ana Lucia agarrada à borda do buraco, puxando folhas, galhos e terra, muita terra, caindo por cima dos dois. Sem pensar, colocou-se do outro lado, imaginando o que ela estava fazendo: camuflagem. Teve sorte de pegar um grande galho ainda cheio de folhas verdes e arrumou-o por cima dos dois, puxando Ana Lucia para si. Encolheram-se olhando pra cima, horrorizados quando uma sombra caiu sobre eles e o som reverberou pelo buraco com fúria. Durante dois minutos que pareceram horas, temeram por suas vidas. Então a sombra se dissipou e eles soltaram um suspiro inaudível de alivio. Estavam provisoriamente a salvo, mas e os outros?

Kate e Jin distanciaram-se pelo meio das árvores correndo, deparando-se com um desfiladeiro ao final da mata. Se Jin não estivesse logo atrás e a segurasse com força, Kate teria despencado pedreira abaixo. Voltaram sobre seus passos e procuraram se esconder sem sucesso, já que nada oferecia abrigo. De repente a mata silenciou, um silêncio profundo que caiu sobre eles como uma pedra, junto com uma chuva torrencial, que derramava grossos pingos e encharcava o chão, formando poças de água e lama pelo chão.

Por gestos, Kate e Jin resolveram que era melhor voltar ao lugar de onde tinham se separado e procurar pelos outros. Chegaram ao lugar ao mesmo tempo em que Locke e Sayid apareciam do outro lado.

"Vocês estão bem?" Locke perguntou, preocupado.

"Sim, está tudo bem." Kate respondeu. Jin assentiu com a cabeça.

"Onde estão Sawyer e Ana Lucia?" Sayid olhou em volta, procurando o texano e a policial.

"Vamos em frente, eles correram por ali." Locke apontou a direção tomada pelos dois, e seguiu em frente, acompanhado dos demais.

Dois tiros e um grito masculino ecoaram e os 4 correram em sua direção, armas em punho, enquanto mais tiros eram disparados. Assim que chegaram ao lugar, Sawyer estava caído e Ana Lucia, escondida atrás de um arbusto, apontava a arma em direção à mata fechada em frente. Dois corpos jaziam entre as árvores, o sangue espalhado pelas roupas esfarrapadas.

"Outros" Jin conseguiu dizer, apontando para eles.

Ana Lucia levantou-se e disse rápido:

"Eles estavam nos seguindo, os desgraçados. Aproveitaram que aquela coisa separou todos nós e atacaram assim que nós saímos deste buraco."

Kate ajoelhou-se ao lado de Sawyer, procurando a veia do pescoço e constatando que ele estava vivo, mas a situação não era boa. Um dos tiros tinha pegado de raspão na orelha e o outro, no ombro, vertia sangue que se misturava à lama, e ele estava desacordado. Cercada pelos companheiros, ela limpou o ferimento da orelha rapidamente e quando derramou um pouco de anti-séptico no local, ele se mexeu e resmungou:

"Ácida como um limão, sardenta...onde está à tequila e o sal?"

Todos se permitiram um riso nervoso. Depois de toda a tensão, mereciam um pouco de calma. Kate terminou o curativo, protegendo a orelha ferida com bandagens, enquanto Sayid pressionava o ferimento do ombro para estancar o sangue. Ele precisaria de medicamentos para evitar uma infecção, e rápido, Sayid raciocinava. Teriam que voltar para o acampamento e bolar outros planos, já que tinha ficado claro que tinham sido arrastados para uma armadilha através daquelas pegadas.

Kate escutava as vozes de Sayid, Locke e Ana Lucia trocando informações. Então Sawyer e Ana Lucia tinham "caído num buraco"? Sentiu uma pontada de ciúme revolver-lhe o estômago, e lembrou-se de Jack. Estranhou que Jin estava quieto, mesmo não sabendo falar inglês ele sempre tinha uma palavra na manga para emitir suas opiniões de forma a se fazer entender.

Ao olhar para o grupo reunido em torno de si e ajudando Sawyer a se sentar, Kate buscou Jin com os olhos sem sucesso. Será que ele estava providenciando um abrigo?

"Hei, onde está o Jin?" perguntou, e todos se calaram olhando em volta.

Jin tinha sumido.

Jack já estava habituado a sua rotina, por assim dizer. Levantava, tomava seu café e preparava-se para o "trabalho". Ben e Bea eram ótimos profissionais e aos poucos revelavam a ele informações sobre as pesquisas levadas a cabo na ilha. Ele ainda não tinha acesso a todos os dados e portas ainda se mantinham fechadas para ele, mas era um começo. Ficou fascinado pelas modernas instalações que via pelos monitores, mas sua verdadeira "missão" ainda não estava totalmente revelada, já que ele um cirurgião antes de tudo. Sabia que sua presença não era necessária somente para chefiar um departamento. Algo se escondia por trás daquilo tudo.

Tomas não havia aparecido mais, e ele estranhou aqueles 3 dias de silêncio. Pensou em perguntar a Bea onde ele estava, mas conteve-se. Queria apreender o máximo que pudesse, e assim que alguma brecha se abrisse, estar preparado para a ação. No terceiro dia, notou agitação na ala destinada a pesquisas sobre fertilidade. Pelo monitor notou que havia uma paciente deitada numa das macas, acompanhada de uma médica. Já tinha visto Bea e Ben chamarem aquela moça de Juliet, tecendo elogios a sua capacidade profissional e sua ascensão meteórica como pesquisadora na área de reprodução humana.

Mas ela estava sempre no laboratório, nunca na enfermaria. O que estava acontecendo? Resolveu arriscar e ir até lá, já que Bea estava supervisionando trabalhos no setor de zoologia e Ben estava redigindo um relatório final sobre uma das pesquisas meteorológicas que estava em fase final. Saindo de sua sala, dirigiu-se ao corredor da enfermaria.

Caos...uma única palavra resumia bem o que era o acampamento nestes 3 dias. Primeiro Jack tinha ido com os Outros, depois Sun sumiu misteriosamente enquanto um barco pilotado por um escocês bêbado aparecia na praia, então Kate, Locke, Sayid, Ana Lucia, Sawyer e Jin saíram para resgatá-la e não voltaram. Michael e Walt não davam informações precisas sobre os Outros, traumatizados ainda com o seqüestro. A única coisa que eles sabiam com certeza era que eles eram maus, e Michael era prova viva disso, cheio de hematomas e cicatrizes.

O primeiro dia passou sem problemas, mas quando a noite caiu e eles não voltaram, Hurley e Charlie tiveram problemas em acalmar as pessoas.

"Provavelmente eles pararam para acampar, e amanhã cedo estarão aqui" Hurley tentava animar todos, mas estava muito preocupado.

A situação só piorou ao longo dos outros dois dias, com as pessoas entrando em desespero. Rose e Libby tinham ficado encarregadas dos remédios, e até Claire, que quase nunca se separava de Aaron, estava ajudando na cozinha. Eko não apareceu na praia, assim como Desmond. Todos estavam curiosos com aquela figura e ansiosos para usarem o barco em busca de resgate, mas ninguém se atrevia a externar suas opiniões. Depois de tantos desaparecidos, arriscar-se a sair agora poderia ser fatal.

Na escotilha, as coisas estavam tranqüilas. Eko quase não saia da frente do computador enquanto Desmond resmungava e perambulava como um animal enjaulado. Não tinha ânimo de sair e enfrentar todas aquelas pessoas na praia e ver a esperança em seus olhos, quando ele sabia que não havia esperança para nenhum deles. Aquele lugar tinha sido esquecido, e só restava a eles conviver com aquilo.

Descobrir que Jin havia desaparecido foi só o começo dos problemas para o grupo. Após uma pequena busca que logo se revelou infrutífera, debaixo de uma chuva que parecia não ter fim, Kate e Locke voltaram a se reunir com Ana Lucia e Sayid debaixo de um abrigo improvisado.

"Eles vão nos pegar um a um?" Kate estava apavorada.

"Não sei Kate, mas isso é estranho. Quando fomos atacados na praia, logo que chegamos, eles levaram vários de uma vez." Ana Lucia arrepiou-se ao lembrar do que tinha passado naqueles primeiros dias naquele lugar.

"Precisamos voltar, e rápido. Os ferimentos do Sawyer podem piorar, ainda mais com a umidade trazida pela chuva. Ficou claro para todos que isto foi uma armadilha?" Sayid foi incisivo.

No mesmo instante, a chuva parou, tão repentinamente como tinha começado.

"Rápido, vamos embora." Locke queria aproveitar o máximo de tempo possível.

"Locke, acho melhor ficarmos aqui. Já está escuro e o Sawyer ainda está desacordado. Sairmos agora nos tornará alvo fácil para eles. Aqui poderemos nos proteger melhor." Ana Lucia olhava para o texano deitado, a água encharcando as bandagens.

"Ela está certa, vamos descansar, comer alguma coisa e amanhã cedo voltamos." Sayid falou já reforçando o abrigo.

"Certo, vamos nos revezar na vigia. Vou tentar fazer uma fogueira." Locke concordou, saindo em busca de madeira seca, o que era improvável, mas não podeia ficar parado.

Acomodaram-se e passaram a noite ali. Pela manhã descobriram que todos os rastros estavam apagados, e os corpos haviam desaparecido. Carregando Sawyer, Ana Lucia e Sayid seguiram Kate e Locke. Logo descobriram que estavam perdidos.

Jack chegou rápido à enfermaria, abrindo a porta sem ruído. Na mesma hora Juliet se virou e Jack se viu encarando um belíssimo par de olhos azuis, emoldurados por um cabelo liso e loiro.

"Linda." Ele pensou abismado.

"Uau...esse é o famoso Jack Shepard? Com certeza as fotos não fazem jus a esses olhos. E que corpo!" Juliet se deixou encarar sem pressa.

Jack piscou os olhos e voltou à realidade, os olhos de Kate sobrepondo-se aquela imagem loira. Ela falou primeiro:

"Dr. Jack Shepard? Prazer, eu sou a Drª Juliet."

Jack apertou a mãe estendida para ele, um toque breve e firme. Soltou-se e abriu a boca para perguntar quem era a paciente e porque ela estava ali, quando Juliet afastou-se para que ele pudesse ver o rosto da mulher deitada ali. Seus olhos arregalaram-se e de sua garganta estrangulada saiu uma única palavra:

"Sun?"

Continua...