Capítulo 2
Seus olhos abriram devagar, revelando um pequeno quarto iluminado pela luz fraca de uma tocha. Ele tentou se levantar, mas a dor em seu ombro o impediu:
- Calma, você ainda está fraco. - disse uma voz suave feminina. A dona da voz era uma moça de não mais que 20 anos, com o rosto abatido e cabelos loiros.
Ele deixou que um pano molhado fosse colocado em sua testa, sua memória ainda estava lutando para voltar...Onde estava mesmo?
Lentamente imagens da luta voltaram...Como ele podia estar vivo, ali naquela cama?
- O que aconteceu? - ele perguntou meio rouco.
- Você foi ferido por uma flecha.
- E os saxões? A vila?
- Você ainda está febril. Precisa descansar...
Mesmo com sua mente resistindo, seus olhos se fecharam novamente. Seu corpo estava quente mas ele sentia calafrios.
Não sabia mais se estava acordado ou delirando.
Uma voz distante ecoou e ele já não estava mais deitado em uma cama de um quartinho lutando contra um ferimento. Estava em um hall com janelas que iam do teto ao chão, estava na frente de um homem sentando em um trono.
Ele quase podia sentir suas roupas limpas feitas de fino tecido. Seu ombro já não doía.
- Meu filho, tem certeza que quer fazer isso? - era a voz distante, agora definida. Era a voz de seu pai.
- Tenho. Não irei para Camelot. - era sua própria voz respondendo.
- Não irá para Camelot...E por que? Não quer lutar pelo seu lar? Defender o que é certo?
- Não é em Camelot que irei combater os saxões! Não é sentado e comendo o dia inteiro que vou ajudar as várias vilas que passam fome! Não é fazendo festas que vou vencer o inimigo que nos massacra! - esbravejou Ronald.
- Chega. Você não tem idéia do que se passa em Camelot. É mais infantil do que pensava. - era voz de sua mãe, sentada no trono que jazia ao lado do de seu pai - O Grande Rei uniu essas terras não lutando mas sim conversando. Foi convencendo os lordes a juntarem forças que ele conseguiu manter a paz por 20 anos! Sua infância foi cheia de fartura graças a ele!
- O Grande Rei morreu. - falou Rony, mantendo sua firmeza, mesmo à frente de sua mãe, que o olhava severamente.
- Sim, ele morreu. Mas seu filho irá herdar o trono, e continuará mantendo a paz. - interveio seu pai, calmo mas grave. - Você mesmo sabe disso, o príncipe foi sempre seu amigo.
- Não duvido da capacidade de Harry. Mas não vou ter nenhuma utilidade na corte dele. Por isso, meu pai, não vou para Camelot.
- Você está cometendo um erro, Ronald! - avisou sua mãe. - Arthur, como pode deixar seu filho ir embora assim?
- Ele já tem idade suficiente para decidir seu próprio caminho, Molina. Siga seu caminho, meu filho. Eu só espero que ele seja o certo.
***
- Lord Severus se recusa a mandar exércitos para nos ajudar a combater os saxões no norte e a muralha de Hadrian está à mercê da sorte. Lord Cornelius exige cem peças de ouro e mais terras para se unir a nós! Como podemos revidar os ataques dos nórdicos se temos lidar com nossas próprias cobras!?
- Oliver, por favor, sente-se - falou calmamente o rei.
Hermione observou atentamente enquanto Sir.Oliver se sentava em uma das cadeiras da távola redonda...Há alguns anos atrás elas estavam todas ocupadas, mas agora havia apenas 5 dos doze cavaleiros.
Hermione olhou preocupada para seu futuro marido...Poucas coisas estavam dando certo ultimamente para a corte de Camelot. Hordas de saxões não paravam de destruir as cidades costeiras da Inglaterra e após 2 anos no trono Harry ainda lutava para manter os lordes unidos.
Ela mesma era uma peça essencial para o acordo entre seu pai Lord Uriens e Camelot. Por mais que quisesse ignorar, o principal motivo que os conselheiros de Harry tinham o orientado a escolhe-la como noiva foram os cem cavalos que seu dote possuía e influência de seu pai, que garantiria um acordo entre outros dois lordes.
Mas ela sabia que Harry não pensava nela apenas como um objeto. Os dois sempre foram amigos antes mesmo dele ter se tornado rei. E essa amizade estava mais forte do que nunca.
Sua atenção se voltou a discussão dos cavaleiros. Sir Draco tinha se levantado:
- Eu sugiro que ataquemos Lorde Severus. Ele está cada vez mais arrogante.
- Você quer lutar contra a cavalaria e os escudos de Snape? Quer que mais um de nós morra em uma luta que não leva a nada? - falou indignado Sir. Cedric.
- Ele já desafiou o rei por muito tempo! Pode até estar fazendo um acordo com os saxões!
- Quanta besteira, Draco. Severus é um alquimista, nunca faria um acordo com os bárbaros sem cultura! - disse Sir.Oliver em um tom de gozação.
Os olhos de Draco o fitaram com raiva. Hermione nunca gostou daqueles olhos, frios e azul cinza. Eram olhos de quem escondia algo:
- Oliver, quanta ingenuidade...Ele não quer fazer um acordo com os bárbaros ele quer usar eles. Quer usar da força deles para tirar o rei do trono! - respondeu Draco, com um sorriso. Depois se virou para o rei - Meu senhor, temos que fazer algo! Não podemos esperar nem mais um minuto! Não vais querer que Severus o ataque na própria Camelot? Arriscando a vida da corte? Da sua noiva?
Harry esperou um tempo para responder. Depois se levantou de sua cadeira:
- Apesar de entender sua preocupação, Draco. Não há provas. Não posso ir enfrentar mais uma batalha, sendo que a mais recente ganhamos há um custo muito alto, simplesmente por uma suspeita. Perdemos Sir.Percival e muitos outros excelentes homens. Apesar de ter conseguido tomar as terras do Lorde Nasher, preferiria que ele tivesse aceitado um acordo, ter conversado. Se tivesse sido feito assim, hoje estaríamos comemorando ao invés de enterrando um velho amigo. Não posso entrar em outra luta e enfraquecer mais ainda meu exército, alguém precisa proteger as vilas do sul. - disse Harry, sua voz era cansada mas firme.
Os outros cavaleiros concordaram mas Sir. Draco ficou irritado com a resposta e Hermione achou que tinha desistido de convencer o rei, mas estava enganada:
- O Sul! Bem lembrado, meu rei. Onde está Lord Arthur? Onde está a ajuda dele que tanto precisamos? Suas terras agora jazem vazias sem exército capaz de protege-las e ele está ficando velho, e sem herdeiros. Não estaria na hora de um novo lorde da Cornualha ser anunciado?
- Você está esquecendo da dama Virginia, Draco. Ela é herdeira por direito também - interrompeu sir.Cedric.
Draco abriu um sorriso, quase irônico:
- Ah sim. Lady Virginia. Pois então, escolha um marido para ela. - ele anunciou em direção a Harry. - Alguém de sua confiança, com capacidade para erguer o sul novamente.
A conversa estava tomando rumos muito interessantes agora. Hermione não sabia que Draco se interessava pelas terras frias do norte. Ela resolveu intervir:
- Eu acho que ela pode muito bem escolher seu próprio marido, Sir.Draco. E além do mais, vocês esquecem o outro herdeiro.
- Outro herdeiro, minha senhora? - disse Draco levantando a sobrancelha, agora se virando para ela, que estava sentada ao lado do rei - Que outro herdeiro?
- Ora, Ronald Weasley.
Apenas Harry não riu na menção do nome. Sir Draco continuou:
- Ronald? O cavaleiro errante? Aquele que sumiu há quase 3 anos atrás, em busca de aventuras? Perdoe, minha senhora, mas aquele não duraria nem dois meses sozinho, com certeza já não está entre o mundo dos vivos.
-Sir.Draco, novamente você está sem provas. Ele pode muito bem estar vivo. - sorriu Hermione - E pode muito bem voltar.
- Não seria uma boa idéia colocar o sul, tão fraco e debilitado, nas mãos de um cavaleiro errante e irresponsável. Se é que ele vai voltar. - criticou Draco.
- Do que estamos falando? Temos que nos concentrar em Severus! Lorde Arthur está forte como um urso e tem muitos anos de vida. Não vamos precisar nos preocupar com herdeiros por enquanto. Agora, o urgente é as terras do norte. - interrompeu sir.Oliver.
- Sim, o norte. Se o senhor, meu rei, não vai atacar Severus, então o que pretende fazer?
Harry suspirou:
- Nada. Por enquanto nada. Ele se recusa a nos ajudar, mas mantém suas terras seguras combatendo os saxões. Enviarei uma nova mensagem a ele, e se sua resposta não vier em duas semanas, então irei considerar uma batalha.
Duas semanas? Era apenas esse o tempo que ele ficaria ali com ela? Hermione soltou um suspiro, triste. Harry percebeu isso e se virou para ela:
- Está tudo bem, Hermione? - falou baixo em seu ouvido.
- Está.
Ele não acreditou:
- Vou encerrar a reunião, foi um dia cansativo...Vamos conversar depois, certo? - continuou em voz baixa.
Depois de mais alguns minutos o rei dispensou os cavaleiros. Agora estava apenas ele e ela na sala da távola.
Harry se levantou e foi para perto de uma das janelas:
- O que faço agora, Herm?
Hermione estranhou a pergunta. Ele parecia tão perdido...Mas não esperou a resposta de sua noiva:
- Meu pai conseguiu manter o reino unido por 20 anos...E eu consegui destruir o trabalho dele em dois.
Hermione foi em sua direção:
- Não fale assim, Harry. Não é verdade.
- Como não é? Essa sala é a maior prova disso, éramos em doze! Agora só há cinco cavaleiros e poucos aliados. O que fiz para dar tudo tão errado?
- As coisas vão melhorar com o tempo.
Ele se virou para ela, mostrando seu rosto cansado...Ele não aparentava ter 23 anos:
- Três semanas sem nos vermos e eu só consigo falar nos meus problemas...Desculpe, Herm. - ele suspirou antes de abrir um sorriso - E como vão as suas aulas com Dumbledore?
- Bem...Mas não vejo a utilidade delas se nunca vou usar o que aprendi.
- Já conversamos sobre isso...Você não pode ir comigo lutar! É muito perigoso. Você deve ficar aqui.
- Ouço e obedeço, meu rei - ela disse, tentando não ficar irritada com as palavras dele.
- Vamos mudar de assunto.
- Que tal se simplesmente aproveitássemos a companhia um do outro? - disse Hermione esperançosa. - Que tal um passeio a cavalo, como nos velhos tempos?
- É uma ótima idéia.
***
Ronald acordou suando frio, desta vez porém reconheceu o lugar onde estava. Agora a tocha tinha quase se apagado por completo. Ele colocou sua mão na testa, retirando um pano molhado. Seu movimento acordou a moça que descansava ao lado de sua cama, sentada em uma cadeira:
- Você acordou. Está se sentindo melhor? - ela disse com uma voz doce.
- Eu acho que sim...
- Foi sorte eu ter o antídoto para o veneno da flecha. - ela colocou a mão na testa do cavaleiro - É...A febre passou.
- Onde eu estou?
- Ah, desculpe...Eu fiquei tão preocupada com a febre que esqueci que você está aqui há dias! Onde você está? Ah bem...Na casa do meu pai...Uma cabana na verdade. A vila em que encontrei você está a cinco horas daqui.
- Você me encontrou?
- É...Achei você caído...Um dos únicos que ainda respiravam...Não sobrou muito do lugar...Praticamente tudo foi queimado. Foi sorte ter te encontrado...Um cavalo estava no seu lado...Como se quisesse indicar o lugar.
- Pichi... - falou Ronald grato ao seu companheiro. - É o meu cavalo. Ele está bem?
- Está bem sim, descansando no celeiro...É seu? Que sorte então que meu pai trouxe conosco.
- E os saxões? Para onde foram? Voltaram para o mar?
A moça parou um pouco, parecia ter medo de continuar:
- Depois que destruíram a vila, eles seguiram para o oeste, os navios sumiram. Meu pai os viu atravessando a estrada...Eram centenas deles. Talvez mais. Isso é ruim não é?
Ronald não respondeu. Os saxões nunca se aventuravam para dentro do território inglês. Anos atrás eles atacavam vilas costeiras, saqueavam, mas eram detidos antes que pudesse causar mais danos...E com isso ao invés de invadir, o plano deles se tornou enfraquecer as forças inglesas...Ao que parecia a Inglaterra esta enfraquecida o suficiente para uma invasão em larga escala. Onde estava Camelot?
- Bem, você deve querer descansar...Deve estar com fome também...Vou fazer uma sopa - disse a moça se levantando. Mas Ronald segurou seu braço:
- Quero te agradecer...por te salvo minha vida... - ele disse. - Mas nem sei seu nome. Pode me dizer?
Ela abriu um sorriso:
- Luna, Lovegood.
- Obrigado, Luna.
