Erumpentes

- Aproximem-se, aproximem-se. Vocês estão atrasados dois minutos. – Bartboom Mooldock, o professor de trato de criaturas mágicas sinalizou uma risca verde berrante no chão. – Não passem dessa marca, por favor. Ele pode não gostar.

'Ele' era uma criatura cinzenta e enorme, vagamente parecida com um rinoceronte. O animal parecia aborrecido e entediado dentro de um cercado alto e não parava de brandir uma calda grossa e ameaçadora.

-Muito bem, muito bem. Agora será que alguém pode me dizer que animal é esse? – O professor tinha uma careca lustrosa e a cabeça era ladeada por dois tufos de cabelo cor de aço. Os óculos quadrados davam-lhe a aparência de cientista maluco dos filmes trouxas.

-É um Erumpente africano. – Lily respondeu com a voz ligeiramente abismada.

-Muito bom, muito bom. Cinco pontos para sua casa. E quem pode me dar mais informações sobre esse animal?

-Meu tio-avô Philip foi morto por um desses quando fazia um safári trouxa pela África. – Veronika Dallas falou entediada. – Eles confundiram o animal com um rinoceronte. O Ministério da Magia teve um trabalhão, principalmente o Departamento de Obliviação. Vários trouxas sobreviveram e certamente não acharam normal um animal, com uma pele que parecia ricochetear as balas de suas armas de fogo, atacar um ônibus turístico e explodir qualquer coisa que encontrasse com apenas uma chifrada. – Ela sabia a história decor, palavra por palavra, como havia sido contada tantas vezes por seus familiares.

-Oh, lamento muitíssimo. – Bartboom falou cordial, embora sua voz não denotasse que lamentava nada. – Mas a senhorita citou três informações valiosas sobre os Erumpentes, portanto, dez pontos para sua casa. Realmente a pele dos Erumpentes repele muitas coisas, a maioria dos contra-feitiços e azarações, por exemplo, mas não rebate as Maldiçoes Imperdoáveis. Eles, os Erumpentes, são muitas vezes confundidos com rinocerontes, o último caso de acidente ocorreu no Sul da África quando um caçador teve a infelicidade de tentar abater um. E o terceiro e mais importante dado sobre os Erumpentes: o chifre contém um fluído que faz qualquer coisa ou pessoa injetada, por assim dizer, explodir.

A maioria dos alunos que, ignorando o aviso do professor, havia cruzado a linha verde, recuou vários passos.

-Mas não precisam se preocupar. Erumpentes só atacam se provocados por dor. E, além disso, vocês estão acompanhados de um bruxo experiente e capacitado, eu.

Snape, atrás dos demais alunos, soltou um riso de escárnio. Malfoy cutucou de leve o ombro coberto de Bellatrix, fez um sinal para que ela o seguisse e foi até onde Snape assistia a aula, entediado. Puxou-o pela gola suja das vestes até atrás de algumas árvores que se estendiam frondosas rumo ao céu.

-Não era uma chance que você queria, Severo? Uma chance de provar ao mestre que não é o idiota que todos nós acreditamos ser e que é capaz de fazer algo pra ajudar a causa do lorde? Agora é sua chance. – Malfoy falou lentamente, dando ênfase nas palavras.

-Pff! – Bellatrix girou os olhos gélidos. – Todos sabemos que ele é um inútil. Nem enfrentar o Potter e seus capachos ele consegue. Não entendo como o mestre deu uma oportunidade à você, Snape.

-Isso não vem ao caso, Bella. Toda ajuda é essencial nesse estágio das coisas e o lorde sabe o que faz. – Lucius interviu antes que Bellatrix cuspisse na cara de Snape.

-O que eu tenho que fazer? – Ele fingiu não ter ouvido as ofensas.

-Nos dar uma pequena amostra do que diz que sabe fazer. Está vendo aquele animal estúpido? Lance a Maldição da Dor nele, é simples. – E acrescentou ao ver a expressão contraída de Severo. – Mas se está com receio não é necessário fazer, direi ao mestre que você preferiu abrir mão do...

-Não. – Snape interrompeu fechando os olhos até que os dois se tornassem fendas. – Eu vou fazer. Agora, se vocês me dão licença...

-Espere, Snape. – Bellatrix fungou irritada e logo ergueu a sobrancelha esquerda olhando petulantemente o colega de casa. – Usar a Cruciatus em seus cãezinhos de estimação não é a mesma coisa que usar em um monstro desse tamanho. – Os olhos glaciais da Black pousaram no Erumpente por um nanosegundo. – Não que eu esteja subestimando seu poder, imagine! Eu nunca faria isso. – Ela zombou fazendo um biquinho.

-Agradeço sua preocupação, Bella. – Ele falou polidamente, mas a nota de sarcasmo era clara. – Mas felizmente não será necessária essa inquietação da sua parte. Eu domino muito bem a Cruciatus.

Ele avançou algumas passadas fazendo gravetos lascarem sob suas botas. A varinha de madeira escura rija na mão macilenta. Ele realizou a Maldição sem emitir som algum.


O Erumpente guinchou de dor e tombou no chão de terra batida, fazendo-o vibrar. Os olhos pequenos se injetaram de vermelho-sangue e podia-se ver a agonia estampada claramente neles. O animal se retorceu enquanto o ar nos seus pulmões gigantescos parecia ter se tornado veneno, corroendo de dor seu corpo. As quatro patas chutavam o ar numa busca cega e desesperada de um antídoto para a tortura.

Gotas de suor apareciam na testa de Severo e uma veia começava a pulsar na têmpora, mas ele só forçava ainda mais a Maldição. Iria provar sua capacidade ao lorde e calar de uma vez a boca de Bellatrix, nem que para isso fosse preciso arrebentar as entranhas do Erumpente.

Grande parte dos alunos recuou aos tropeços, mas alguns permaneceram com os pés no exato lugar onde tinham estado nos últimos minutos, chocados demais para pensar, quanto mais para se mover. O professor deu alguns gritos tranqüilizadores que só ele escutou. O emaranhado de vozes podia ser ouvido até às estufas de herbologia.

As costas do Erumpente arquearam contorcendo-o, a cauda brandia contra ele mesmo, tentando com angustia infinita, espantar o inimigo invisível. E Snape, por trás das árvores, só forçava a Maldição.

Um fio de sangue escorreu pela boca cinzenta do animal e os olhos, já alagados de sangue, piscavam sem ver coisa alguma. Snape mandou uma ultima onda de tortura e baixou a varinha. A dor dilacerante atravessaria a alma do animal, se nesse momento ele ainda tivesse uma. Só o que existia era dor e fúria. Fúria cega e vingança alucinada.

Lily estava parada a poucos passos da cerca. Frágil. Ela já vira essa expressão de dor extrema. As pernas começaram a tremer e os joelhos quase dobraram. Ela olhava para o Erumpente caído e via seu avô agonizando após ser atropelado, há alguns anos atrás. A boca foi ficando seca e a garganta apertando. Apertando. Como havia acontecido quando vira o avô passar por seus últimos segundos de vida estirado no asfalto quente, extinguindo-se de dor.

Isabella gritou. Chamou o nome da amiga tantas vezes quanto foi possível. Estava preste a correr para tirar Lily de perto da cerca quando um braço forte segurou-a pelo abdômen.

-Me solta! – Ela berrou com a maior força que seu diafragma esmagado acidentalmente por Sirius permitia. – Me solta, Black!

Sirius colocou a loirinha no chão, mas segurou-a pelos ombros. Quando falou sua voz era séria como a de um apresentador de telejornal quando vai noticiar um desastre.

-Não. Eu já vi você fazer muitas loucuras nesses anos, mas você não vai lá. – Ele encarou-a firme, com as sobrancelhas quase unidas. – O professor vai dar um jeito nisso, louca.

Ele se virou confiante, mas seus ombros caíram quando viu a capa roxa e amarela do professor dissipar-se entre as árvores.

-Covarde! – Peter falou boquiaberto, como se tal adjetivo não se aplicasse, em hipótese alguma, à ele próprio.

-Pronto. O professor não vai dar um jeito nisso. Agora você pode me soltar? – Embora a voz estivesse calma, os olhos deixavam a entender que não era exatamente um pedido.

Ela conseguiu, talvez com a mesma injeção de força que as mães ganhavam para conseguir tirar seus filhos debaixo de árvores caídas, se livrar de Sirius. Ele rugiu, enfurecido. Ergueu o braço da varinha arriscando-se a ser um pouco melodramático.

-Isso vai doer mais em mim do que em você. – Falou. – Petrificus Totalus.

O corpo de Isabella caiu na terra com um pancada sonora, mas quase imperceptível em meio à confusão de gritos. Sirius correu e arrastou-a para longe do tumulto. Movimentando os olhos – a única parte do corpo que conseguia mover – Isabella pode ver que Lily ainda estava parada em frente à cerca, aparentemente cravada no chão por uma força invisível. O Erumpente guinchou uma última vez antes de se levantar, mas, na sua mente, o que Lily via e ouvia eram as lágrimas nos olhos do avô e seus brados de dor.

Isabella tentou gritar outra vez mas a boca não se abria. Os pulmões doeram sob a pressão que a garota aplicava. Agora só restava Lily no centro da clareira. As idéias martelavam na cabeça de Sirius. Alguém precisava – devia – tirar aquela ruiva maluca de perto do Erumpente.

O animal enfurecido e cego pela dor quebrou a cerca de madeira reforçada como de fosse de isopor. Trotou, com as quatro patas fazendo o chão tremer como em um abalo sísmico, rumo às vozes que ouvia. Os ruídos vinham do fundo da clareira, conseqüentemente Lily, parada no centro do circulo aberto na floresta, estava no caminho do animal. A ruiva tentou obedecer ao impulso que o cérebro mandava desesperado ao corpo, mas as pernas não respondiam.

James surgiu de algum lugar e se atirou contra Lily como um jogador de futebol americano. Ela demorou alguns instantes para perceber que o que estava comprimido contra sua face eram folhas. Haviam caído num monte de folhas secas que serviria de alimento para as criaturas que os primeiranistas conheceriam em sua entediante – e segura – aula de Trado de Criaturas Mágicas.

O barulho das folhas magicamente desidratadas chamou a atenção de alunos. Infelizmente chamou a atenção do Erumpente também. Ele se empinou nas patas traseiras demonstrando mais equilíbrio do que parecia ter, com quase uma tonelada de peso. Ele trotou enfurecido na direção do barulho.

James se levantou, mas Lily permaneceu imóvel, esparramada no monte de folhas. Ele estendeu a mão para a ruiva, mas ela estava com os olhos fixos em outra coisa. Um Erumpente furioso que corria na direção dos dois. James moveu seu próprio olhar para onde os olhos verdes da ruiva olhavam.

Ele desviou do animal no último segundo, como os toureiros fazem nas touradas, agarrou-se na orelha do bicho como se fosse a parte de uma cela e, dando impulso com a perna esquerda, jogou a direita sobre o Erumpente. Logo estava sobre o animal. Agarrou as duas mãos à orelhas e começo a controla-lo. Com um puxão na relha esquerda, James fez o Erumpente alterar sua direção, passando a um triz de Lily.

-Sirius! – James gritou. – Eu preciso que você estupore ele. No três. Um... Dois... Três!

O raio vermelho ricocheteou no couro cinzento do animal. E só serviu para irritá-lo ainda mais, enquanto James se agarrava nele como um peão de rodeio.

-Não vai funcionar! – Remus disse quando Sirius ergueu a varinha novamente, para tentar estuporar o Erumpente outra vez. – O couro dele rebate a maioria dos feitiços, lembra? Você vai ter que achar algum ponto fraco, por onde o feitiço possa entrar, James.

-É fácil pra você falar. – James respondeu entre os dentes.

Uma orelha escapou por entre os dedos suados e ele teve que se agarrar ao chifre. Embora James soubesse que não iria explodir, já que o chifre não estava cravado em sua mão, ele podia sentir o fluído ácido queimar de leve a pele da palma.

-Olhe a pele próxima ao chifre. – Remus insistiu. – O local de onde o chifre sai.

James afastou a mão da base do chifre o máximo que podia, enquanto, puxando a orelha esquerda, desviava o animal descontrolado de um grupo de alunos. Ali. Meio centímetro de pele rosada entre o chifre e o couro cinza.

-Está aqui.

-Ótimo. Ótimo, tente lançar o feitiço aí, mas cuidado, se você errar o raio vai ser rebatido e te acertará. Se você cair agora provavelmente vai ser pisoteado pelo Erumpente, isso se ele não resolver te chifrar.

-Valeu pela força, Remus! – James resmungou. – Minha varinha! Acho que eu deixei cair. Me dá a sua.

-Aqui!

Remus jogou a varinha de cedro para cima, girando. James segurou firme no chifre e apertou os joelhos contra as costelas do animal, antes de tirar a mão esquerda da orelha e estende-la para agarrar a varinha num gesto preciso de apanhador de Quadribol.

-Não pode ser tão difícil... Estuporate!

James quase acertou. Quase. No milésimo de segundo antes de ser atingido pelo raio o Erumpente se ergueu novamente nas patas traseiras e o feitiço ricocheteou. Teria acertado o peito de James em cheio, mas por sorte a manobra do Erumpente que havia feito o raio rebater, também havia feito James escorregar para longe do chifre, o que lhe deu uma fração de instante para rebater o ricochete escarlate.

Tiro de sorte, teria dito a grande maioria dos policiais americanos, mas o fato é que o feitiço escudo de James empurrou o feitiço para o 'calcanhar de Aquiles' do animal, derrubando-o com estrondo.

-Tornozelo deslocado, com certeza. – Remus disse depois de puxar a perna de James debaixo do animal inconsciente. – Vamos te levar para Ala Hospitalar.

Charlotte cutucou Lily de leve.

-Você devia agradecer à ele. Não é todo dia que alguém se arrisca para salvar sua vida.

-Obrigada, Potter. – Lily resmungou à contragosto.

-Não agradeça. – Ele respondeu enquanto se apoiava nos ombros dos amigos. – E não pense que eu fiz isso por você, eu teria feito por qualquer um.

-Eu não pensei nad...

-Cheguei! Não precisam se preocupar, eu trouxe ajud... – O professor Bartboom chegou com Hagrid e com a professora Sprout. – O que, diabos, aconteceu por aqui?


N/A.: Oiiiiii! Meus amores! Como vão?

Eu sei que eu me atrasei, eu sei... Mas eu precisava atrasar esse capítulo por dois motivos:

Primeiro: Hoje é Halloween! E uma coisa tem tudo a ver com a outra! Que data máJica, né? Vocês conseguem sentir a maJia?

Segundo: Hoje é o aniversário de vinte e cinco anos da morte de James e Lily... Sim, vinte e cinco anos sem o casal mais top do mundo da maJia... E parece que foi ontem.. Hhauhauha.

Well, esse capítulo é um dos meus preferidos. Ele ficou tão.. cinematográfico (!). Pra quem tava sentindo falta de J/L, tá aí uma prévia. Espero, de verdade, que vocês tenham gostado, porque eu amei escrevê-lo... Finalmente tá um pouquinho explicado porque essa joça tá classificada com Aventura/Romance.

As informações sobre Erumpente foram tiradas do "Animais Fantásticos e Onde Habitam", se vocês olharem lá vão achar na página 36, se não me engano (isso ocorre com muita frequência, então não garanto).

Mudando de assunto: vocês viram as fotos do set de OdF? Viram a cena da Penseira? Tomara que tenha ficado legal, porque se não ficou a casa vai cir! MuaHaHaHaHa! Eu não gostei nadinha dos atores que escolheram (menos o que faz o Snape, esse ficou perfeito), porque minha Lily, meu Remus, meu Sirius e meu James são muito mais bonitos! Falando em James... Existe nome mais perfeito que esse? Jamessss... Jamesssss...

Sobre as Reviews.. Hoje não vai dar tempo de responder :'(, mas obrigada por todas elas, da próxima vez eu respondo sem falta! Deixem a opinião de vocês sobre esse capítulo que eu posto mais rápido (chantagiiiista!).

Beijos!

Adoro vocês!

Gabi.