Capitulo 10 – Fé
"Onde estou?"
Haku estava deitado num chão de mármore cheio de pedaços do teto e das pilastras. Ele via um teto flutuando sobre sua cabeça. E ainda mesmo sobre ela, uma Lizy falecida presa no teto por alguma coisa.
-Vamos, saia daí logo! – gritou uma voz feminina e conhecida de Haku. Mas no calor da situação ele não ligava fato com fato.
Ele se dirigiu o mais rápido que podia para a luz e assim que saiu ouviu um barulho. Um estrondo se fez com a queda do teto. Ele sentiu algo passar do seu lado e surgiu um arranhão em sua face. Ele ergueu a cabeça, zonzo e viu uma espécie de ioiô voltando para sua dona... Carol!
-Como vocês... estão aqui?
-Você estava certo, Haku, sobre vidas passadas... – murmurou Carol. – E de fato, agora eu sei por que tenho medo dos seus olhos...
O cavaleiro boiava em meio à situação.
-Minha fiandeira o salvou... Segurei o teto e o corpo desprezível daquela guerreira do mal. – completou Carol. – Você está bem?
-Acho que quebrei meu braço... – respondeu Haku.
-Câncer... Nós vamos seguir em frente com a ajuda da Cesta de Fios que Carol fez... Acho melhor seguir pelo caminho tradicional, já que você não pode ver os fios da fiandeira. – falou Felícia.
-E a prova disto é esse arranhão que o fio fez sem querer... – comentou Salete, apontando para a bochecha cortada de Haku.
-Cesta de Fios? – indagou Haku. – Mas... Espere aí! Como é que vocês estão aqui? Como possuem essas armas?
-Tudo ao seu tempo, Haku... Tudo ao seu tempo... – disse Carol, antes pular e sumir pelas redes de sua fiandeira.
E mesmo com o braço quebrado, Haku seguiu em frente.
Passávamos por mais Baralhos vazios. De repente, Shun comentou:
-Por que será que existem tantos Baralhos vazios...?
-Sim... É muito estranho. Se nem mesmo vocês, integrantes do grupo anterior dos cavaleiros sabem, imagine nós...! – falou Mushu.
-Mano... Será que talvez possamos nos lembrar? – perguntei.
Todos nos olharam assustados. Até mesmo Gibson, que estava amargurado e distraído com a conversa alheia começou a prestar atenção em nós dois.
-Lembrar?
-Sim... Lembrar do nosso passado, afinal – olhei para meu irmãozinho. – Somos irmãos desde nossa vida passada, não é? Será que podemos consultar as memórias de Aioros, ou Aioria e descobrir algo sobre tudo isso que está acontecendo? Lendas que não foram passadas aos Anciões, somente aos guerreiros dourados?
-Acho... que o nosso passado, como Shura e os outros, não é como um livro que se folheia... – disse Nabir.
Nabir era um dos mais fechados de nós todos. Passava o tempo estudando tudo ao seu redor. Em uma das poucas vezes que ele conversou a sós comigo, ele me contou que sempre sentira uma dor forte no peito. Não, não uma dor física mas uma que ele não sabia explicar... Comentei se não era o fato de Shura quase ter destruído Atena sem querer... Mas ele disse que não, o Shura era o Shura. Ele é ele.
-Não somos os outros... Somos nós!
A inesperada contribuição de Ricky para conversa parece ter desconcertado Shiryu. Não sabíamos exatamente por que, mas pelo que ele continuava a falar:
-Todos nós nos reunimos depois de seis anos de treinos puxados por uma razão: disseram-nos que há 200 anos fomos um grupo de elite de guerreiros. Apesar de nós termos decidido encarar esse desafio... – ele olhou de esguelha para o mestre dele. – Não somos aqueles que se foram há tanto tempo. Não podendo acessar aquilo que ele viveram como eles é a maior prova disso.
-Minha irmã... É ela mesma? – indagou Gibson repentinamente. Nami se voltou para ele, com uma feição muito triste.
-Seria melhor você ficar aqui com alguém... – disse Áries. – Se nós tivermos...
-NÃO FALE!
Silêncio. Quebrado apenas pelas palavras doloridas do nosso amigo Escorpião:
-Vocês são um bando de egoístas! Ficam falando de vocês, dos seus passados e esquecem de Atena e da minha irmã... E da minha dor! Eu vi minha irmã morrer uma vez pela minha imprudência e agora se ela... se ela...
Ficamos boquiabertos pela repentina demonstração da raiva de Gibson. Sem ele mesmo perceber, queimava o seu cosmo ferozmente. Ele se levantou e encostando-se à parede como se algo lhe fosse arrancado devagar e dolorosamente de si.
-Vão e me deixe aqui. Por favor... – terminou mais calmamente.
Fomos indo em frente. Ricky se aproximou dele e uma das miçangas em seu cabelo se partiu ante uma das agulhadas de Gibson. A trança em seu cabelo começou a se soltar ao que foi caindo o restante das miçangas.
-Vai embora, cara... – Gibson ergueu a cabeça e olhou com um inesperado sorriso. – Atena... a Estrela... Chamou-te... Por que você é a única pessoa que ela entende e ela é única pessoa que te entende...
"Ela precisa de você... Que é forte e não de um fraco que ainda chora a morte da irmã..."
-Gibson...
Então ele fechou a cara e retornou a bradar:
-Vão! Logo!
Voltamos a retomar nosso caminho rumo ao próximo Baralho...
"Tio..."
Eu caminhava para voltar ao meu caminho rumo ao próximo baralho. Eu ouvi alguém falar comigo, mas não via ninguém.
"Tio Seiya... Sou eu... Mei..."
-Mei?! – disse espantado. – Mas... Mas...
"Não ligue, tio. Estou para lhe avisar algo sobre os Baralhos."
Eu finalmente vi a figura de Mei, diferente da última vez que a vi. Voltara seus cabelos negros. Mas, o que mais além dos planos maléficos de Perséfone, Mei tinha para falar?
"A última batalha entre Atena e Perséfone foi antes mesmo da geração do mestre de meu pai... Muito mesmo. Atena prendeu Perséfone numa alma pura para tentar purificar a deusa. Mas, parece que, quando essa alma 'morresse', ela se libertaria."
-Isso faz sentido... Pelo que soube, a sacerdotisa da deusa, Andréa, irmã de Gibson, morreu atropelada. – comentei despreocupado.
"Já fazia um tempo que eu e Saya desconfiamos de Andréa..." – continuou Mei, amargurada. – "Eu e ela acreditávamos que na verdade ela é a Perséfone."
-Andréa White... Ser a deusa Perséfone, esposa de Hades? – indaguei achando uma idéia ridícula. – Que loucura.
"Ao longo das batalhas, Perséfone perdeu seus cavaleiros e amazonas do Destino e por isso vários Baralhos estão vazios."
Fiquei olhando Mei. Ela estava vestida com um luxuoso vestido chinês, bordado com dourado e pedras preciosas. O tecido uma leve seda vermelha. Os longos cabelos negros como os do meu amigo Shiryu.
"O próximo Baralho está vazio. Só há somente uma alma viva, que é Gibson de Escorpião, agonizando uma tristeza horrível. A dor de ter como principal inimigo a irmã de próprio sangue." – ela levantou os olhos e demonstrava uma dor muito grande. – "Não o atormente, por favor..."
Ela desapareceu e eu fiquei observando o vazio.
Haku corria desesperado, segurando levemente o braço quebrado. Subia as escadarias apressado.
-Atena, estou a caminho!
Ele finalmente chegou e viu Seiya ali parado, observando o nada. E então, Haku gritou:
-Grande Mestre?!
Ele pareceu acordar do transe e olhou para mim como se visse um fantasma.
-Haku, você está bem? Está em farrapos... E pensei que tinha ido, pois seu cosmo desapareceu. – perguntou Seiya, se aproximando do rapaz.
-Mais ou menos... Meu braço...
-A casa literalmente caiu, não? Você, mesmo um cavaleiro não teria como escapar... Como foi...
Haku o interrompeu:
-Carol, Salete e Felícia... As amigas de Estrela. A nova Atena. Elas disseram que receberam de Atena uma missão. E vieram me salvar com uma fiandeira cibernética.
Os dois se entreolharam:
-Mas a Carol indiretamente me disse quem na verdade era... A senhora Shunrei, esposa de Shiryu... E eu... Mas eu... – Haku se complicava e enrubescia.
-Você gosta dela de verdade, não é Haku?
Haku corou de vez e olhava o chão distraído. Seiya sorriu descontraído e começou a andar, retomando o seu caminho rumo aos próximos Baralhos.
-Eu a amo. – disse Câncer, jogando para fora de uma vez seu sentimento.
-Mesmo sabendo que ela tem medo de outra pessoa dentro de você? Mesmo sabendo que de uma forma ou de outra, ela pode estar destinada à outra pessoa, mais especificamente o Shiryu? – indagou Seiya.
-Sim... Mas se eu não puder tê-la como namorada e quero tê-la como amiga, pois acho que o verdadeiro amor não é egoísta. – respondeu o garoto com simplicidade e delicadeza.
Chegamos a um Baralho com uma decoração muito curiosa. Cheia de estrelas prateadas pelo Templo todo e vários símbolos esotéricos de vários lugares do globo.
Ao longe, vimos uma espécie de trono e nele sentava uma jovem loira, cujo cabelo tem o tom prateado do loiro. Não parecia usar uma armadura e sim uma longa veste azul-petróleo. Ela dormia ou pelo menos parecia. Em uma de suas mãos, via-se uma pétala rosada talvez uma flor de cerejeira, não percebi muito bem e na outra uma espécie de varinha com uma estrela de cinco pontas prateada.
-Quem é? – indagou Amajones, estranhando muito a jovem em nossa frente.
-Sei lá... – respondeu Nabir.
"Cavaleiros de Atena...! Gostaria de saber se gostam de histórias medievais..." – uma voz soou em nossas mentes. Continuávamos a ver a menina no trono. Ela não movera uma sobrancelha sequer.
-Quem falou? – gritou Lira.
"Meu nome é Heidi de Mago, e estou à frente de vocês...!"
Heidi não se movia e realmente parecia dormir, porém se falou conosco não estava com certeza. Lira se pôs à frente de nós com seu rosário.
-Ela não é uma inimiga que se vence assim. Se ultrapassarem a linha ela os colocará no sonho dela. – explicou Lira.
-O que disse? – indagou Ricky, muito preocupado.
-Ela é uma Yumemi... E se coloca-los no sonho dela, vocês serão derrotados.
-E o que é Yumemi? – perguntou César com uma cara muito engraçada.
-Haku me contou da lenda das Yumemi, garotas que controlam os sonhos e os tecem... E através deles prevêem o futuro da humanidade.Vão, depois que Haku se foi, eu sou a única que pode derrota-la.
-Certo, Lira, estaremos a sua espera.
"Que idiotas!"
-O que disse? – bradou meu irmãozinho de Leão.
"O próximo Baralho é habitado por um ser que, depois de Perséfone, eu jamais ousaria me meter! Normalmente, seria uma estrela a brilhar, mas é Lua que domina o céu daquele lugar..."
-Isso nós veremos. – retrucou Claude.
Por fim, o restante dos cavaleiros, inclusive eu, saiu, deixando Lira ali sozinha.
Haku parou do nada em minha frente, estendendo ao lado do corpo o braço bom.
-Pare, tem algo aí em frente.
-Algo em frente? – perguntei.
Haku passou o dedo indicador no espaço vazio e de repente vi um fiozinho de sangue.
-Como eu pensei: é o fio da arma da Carol. Aqui deve estar cheio dos fios da Cesta de Fios. – falou ele com uma calma imensa.
-Mas, por que está cheio desses tais fios da fiandeira dela por todo o reino de Perséfone? – indaguei surpreso.
-Elas estão usando o fio para se locomoverem como sombras por todos os Baralhos. Eu não consigo ver os fios por serem muito finos, e além disso, eu mesmo tenho este cortezinho na bochecha por um fio desses. – explicou Haku.
Fiquei observando o vazio, em busca dos fios de Carol em vão.
-O que faremos? Esses fios podem nos destroçar, certo?
Como mágica, o sangue derramado por Haku numa das partes começou a percorrer o espaço e aos poucos os fios foram se tornando visíveis. E menos de 5 minutos, vimos um cruzamento de fios de ioiô à frente.
-Como fez isso, menino? – perguntei ao limite de minha imaginação.
-É o meu sangue, Grande Mestre... É o meu sangue.
E desviando dos fios chegamos ao outro Baralho.
"Você é a amazona tida como a mais próxima dos deuses? Soube que foi você que feriu gravemente minha colega Saya de Louco..."
-Sim e mesmo assim ela trouxe um baita problemão para nós. Deveria dar os parabéns? – ironizou Lira.
Lira se sentou no chão, cruzando as pernas e com a máscara de Andrômeda, não era possível saber o que se passava por seus olhos.
"Pretende entrar no reino dos sonhos? Esse reino é restrito aos Contempladores de Sonhos, ou Yumemi e aos Perscrutadores."
-Não me interessa. – Lira se posicionou em forma de meditação. E se viu entrar no mundo dos sonhos.
Lá viu Heidi, com uma armadura azul-marinha e seus olhos tinham o tom branco e ela segurava a varinha. Lira se viu sem a máscara.
-Ainda não entendo por que vocês usam máscaras... Atena é muito ridícula. Você tem um rosto bonito mesmo... – Heidi fechou por um instante seus olhos e virou sua cabeça para um lado.
-Estrela disse que eu podia tirar a máscara se eu quisesse e eu não quis. – respondeu Lira, com frieza. – Para ser sincera, jamais pensei em tira-la.
Virgem brandiu o terço, fazendo um barulhinho delicioso. Heidi ergueu sua varinha e abriu novamente os olhos.
-Vamos lá, então... – disse secamente a Amazona do Destino. – MAGIA ESTRELAR!
Um raio saiu da ponta da estrela de cinco pontas. Lira se revestiu com uma barreira em forma da Flor de Lótus. A amazona de Atena permanecia com os olhos fechados. E, diferente do efeito que dava em Saya, os olhos de Lira não irritavam Heidi.
-MAGIA ESTRELAR ETERNA!
Um raio ainda mais forte conseguiu destruir a barreira de Lira e causou-lhe um arranhão.
-Isso é tudo? – indagou Lira. – Aposto que só tem a sua força no mundo dos sonhos, não é mesmo?
Heidi sentiu-se gelada e perdida, mas não demonstrava. Ela ergueu novamente a varinha, mas ela voou de sua mão.
-No mundo dos sonhos, podemos fazer o que quisermos. Como não sou uma "convidada" eu posso fazer o que bem entendo. – comentou Lira, com um sorriso.
Mago deu um passo para trás.
-Não pensa em fugir para o mundo real, não é? – ironizou Lira novamente.
-Não.
Heidi se "fixou" no lugar. Lira abriu os olhos e o cosmo dela se tornou imenso.
-Mas que cosmo é esse? Ela apenas abriu os olhos! – exclamou Heidi.
-RENDIÇÃO DIVINA!
O golpe de Lira atravessou Heidi por inteiro. Ela caiu e Lira sumiu do reino dos sonhos. No mundo real, o corpo da mulher estava caído fora do trono e os olhos abertos e frios como vidros estavam escancarados.
-Lira de Virgem... – murmurou raivosa a amazona de Mago.
Lira se aproximou de Heidi com desdém.
-É digno dizerem que aquele que ver o seu rosto... Certamente irá para o mundo dos mortos...
-É mesmo, pena que só o descobrem quando é tarde... – disse ironicamente, enquanto olhava Heidi altiva, como se fosse um verme ali presente. Lira desferiu um soco contra Heidi que adormeceu definitivamente.
Virgem seguiu em frente, como se nada tivesse acontecido, mas deixou lá um objetivo num tom avermelhado-rosado perto do corpo sem vida de Heidi... Uma máscara...
Continua...
