Capitulo 14 – Brilho

-Eis o baralho mais alto... Sol. – murmurou Nabir. Ele mostrava sua imparcialidade comum.

-Que lugar mais estranho... Num reino de trevas como este, aí dentro tem uma luz tão gigante... – comentou Mushu. – Será mesmo um guerreiro que aí está ou o próprio astro-rei?

-Eu não sei...

Gibson estremeceu sua voz. Será que ele já sentia o cheiro de sua irmã? Ele queria correr para salva-la e ao mesmo tempo queria ficar distante dela. Eu vi isso nos olhos dele. Foi então que fiz um sinal para o meu irmãozinho e fomos com tudo.

Dentro do templo, vimos uma moça com cabelos dourados e olhos verde-claros. Sua armadura brilhava de uma forma que não podíamos distinguir sua forma. A cabeleira da mulher era gigante e parecia ser um complemento do Sol.

Sem percebemos, uma parede de luz separou eu e meu irmão dos outros três cavaleiros dourados.

-Segundo o brilho solar de vocês, eu jamais conseguiria enfrenta-los, Escorpião, Libra e Capricórnio. E também são ordens da senhora Andréa deixa-los passar.

Aquela mulher possuía um sotaque estranho, que lembrava vagamente o de Nabir. Foi então que me lembrei dele falando espanhol, a língua da terra de seu treinamento e conclui que aquela mulher era espanhola.

-Passem vocês três, eu, Delia de Sol, comprometo acabar com os dois irmãos dourados.

-Vão! – gritei. – Salvem a Atena, por favor...

Ricky nos olhou indeciso. Por fim, puxou Nabir e Gibson. Eu e Mushu voltamo-nos a aquela mulher, soberana do Sol.

-Não entendo, por que deixou Ricky, Gibson e Nabir partirem... – perguntou Mushu.

-Os sentimentos deles três... Podem fazer o cosmo de cada um se tornar o próprio Sol. – respondeu ela calmamente. – Nabir, tido o mais fiel à deusa medíocre da Atena; Ricky, o cavaleiro que mais ama a ridícula e Gibson, o irmão de sangue da senhora Andréa.

-E por que nós não? – perguntei.

-Vocês são cavaleiros de Atena sem qualquer beneficio de algo mais próximo a esta batalha; não são os mais fieis, os mais amantes e os mais unidos a laços de sangue nessa batalha. – e então nos encaramos friamente.

-Lira!

Eu sorria feito bobo e nem me preocupava com meu braço quebrado. Abracei minha amiga recém-desperta.

-Haku... O que...? – murmurava ela.

-Você deve ter sido afetada pelo golpe da Heidi... – falou Nami.

-Por que vocês não seguiram em frente... – falava ela com a voz fraca. – Os outros devem estar em apuros...

-De fato, agora pouco houve uma batalha terrível... – comentei. – Mas sinto Mushu e Li enfrentando outros inimigos em Sol.

-E Nabir, Ricky e Gibson estão chegando ao templo de Perséfone... – completou Nami.

Lira desviou os seus olhos para o chão. E deixou uma lágrima cair...

-Eu quebrei meu voto... – murmurou.

-Hã? – indagamos eu e Nami ao mesmo tempo. – O que foi?

Lira não respondeu agora. Estava com uma expressão calma, mas claramente dolorida. O fiozinho pequenino vertia de seus olhos.

-Uma amazona não deve mostrar o rosto, mas eu... eu...

-Você é uma garota muito bonita, Lira. É uma honra ter uma colega tão forte e tão bela como você... – disse Nami. – Atena já liberou as amazonas para não usarem máscaras.

Lira tentou iniciar um sorriso, mas ainda estava triste. Ela se ergueu e sentou-se do meu lado e tocou de leve o meu braço quebrado.

-Está doendo muito, Haku...? – perguntou-me a menina.

Fiz um "não" com a cabeça. Finalmente ela fez um sorriso, pequeno, mas fez. Nami ajoelhou-se do meu lado e do de Lira.

-Vamos continuar? – perguntou Nami.

-Não.

Lira segurou Nami pela mão, já que este iria se levantar. Eu olhei minha amiga já entendendo.

-Já foi dito que essa batalha é na verdade de Gibson e Ricky... – explicou Lira. – Deixemos os dois lutarem.

E ficamos ali, olhando nascer dos pequeninos pontos brilhantes no céu. Pontos que nos protegiam. Estrelas.

Mushu, Li e Delia. Três guerreiros. Três vidas. E mini-Sol ali, brilhando sob forma de armadura.

Delia então usou sua técnica mais poderosa. Ela erguera sua mão aos céus e uma esfera de luz:

-LUZ INVISIVEL!!!!

Uma luz inundou todo o Baralho, fazendo aparecer o dia por um instante naquela noite. Ao voltar a noite novamente, os irmãos dourados não viam um palmo a frente do nariz. A luz os cegara.

-O que você fez? – perguntou Li, nervoso.

-Eu os ceguei, não percebeu? O ser humano não suporta olhar diretamente para o Sol, senão fica cego. – explicou Delia. – Nem mesmo um milagre os fará vencer agora.

Mushu estava espantado e no fundo sentia um temor grande. Mas, mesmo sendo o mais novo de todos, este não deixava de lado o seu impulso leonino de ser precipitado.

-RELAMPAGO DE PLASMA!!!!!!!!

Mas sem ver e sem muita experiência em batalhas, seu golpe nem tocou Delia. Li, guiado pelo cosmo, parou o punho de seu irmão.

-Pare, Mushu... Assim não conseguirá efeito algum. Não podemos ver mais. Se nos desesperarmos, iremos perder. – falou Li, calmamente.

-JÁ PARARAM O ATAQUE? – gritou Delia, sorrindo confiante. – ENTÃO, MORRAM!!!

Delia vinha correndo com tudo. Li mantinha calma fisicamente, mas mesmo assim...

-SOL RESPLANDESCENTE!!!!!!!!

Um facho de luz solar vinha de encontra aos irmãos. Li puxou seu irmão para outro canto e ficou ali, esperando o momento certo para atacar.

-Delia, podemos não ver, mas eu senti como é o seu ataque. Ele não funcionará comigo e com meu irmão. – disse Li.

Delia não os via, já que Li e Mushu estavam escondidos num canto. Li disse outro conselho para seu irmão:

-Mushu, concentre-se em seus outros sentidos. Concentre-se nos cosmos aqui. Veja com outros olhos, olhos mais poderosos...

-Mano... Eu... to conseguindo te ver... – murmurou o leonino.

-Isso! Se você consegue me ver, você consegue ver Delia também! Vamos, erga-se e vamos derrotar essa mulher e irmos de encontro a Gibson, Ricky e Nabir!

E num piscar de olhos, Delia viu Mushu ao seu lado direito e Li no seu lado esquerdo.

-Resolveram morrer em minhas mãos? – ironizou a amazona.

-Olha aqui, dona. Nós temos um outro compromisso e não podemos perder tempo! – falou mushu confiante.

De repente, uma rede de fios dourados se multiplicou pelo salão. Delia se perdera.

-RELAMPAGO DE PLASMA!!!!

Mushu usara seu golpe contra a amazona, que sem opção não se mexia. Usando o pavor daquela mulher, Li usou o seu golpe no momento de distração de Delia.

-TROVÃO ATOMICO!!!!!!!!

O golpe atingiu em cheio o corpo de Delia e a armadura parou de reluzir. Mas também não foi possível ver sua forma, pois ela se desfez completamente. E Delia partiu para outro mundo.

Mas sem verem, Delia ainda os atacou e várias rachaduras surgiram nas armaduras de Leão e Sagitário. Mushu e Li retornaram a ver, mas por poucos segundos e enfim, tombaram também.

-Elza, que lugar é esse? – perguntei a ela, já que eu achava aquele lugar muito estranho.

-Este é o Reino de Perséfone... – e então ela puxou um cordão, com um pingente de lua crescente cheia de efeitos. E então, o fio dourado do cordão nos envolveu.

-Mas, o que é isso?

Ela não respondeu e me puxou para retornarmos a andar. Eu continuava a fita-la, em busca de uma resposta. Ela não abria mais a boca.

-Por favor, Elza, por favor me responda.

-Este cordão é o Medalhão da Lua. É o meu guardião.

Disse-me de forma simples.

-Ele pode se dividir de acordo com as fases da Lua. Ou seja, em 4 cordões. Esse cordão existe desde o tempo dos deuses. E guarda um grande poder.

"Graças a ele, poderemos nos mover incógnitos por esse templo e assim, você poderá cumprir a sua missão, Eric de Gêmeos."

-Ainda não entendo por que me chama de "Eric de Gêmeos". – falei.

-Você é a nova forma do Kanon de Gêmeos...

-Reencarnação, você diz? – indaguei.

-Sim. E não só você, mas seu irmão também. Ele é o Saga. – explicou Elza.

-Não...

Eu estremeci. Eu não acreditaria nisso, era... era tão... absurda. Eu resolvi sair daquele enlaço. Eu não acreditava.

-Eu e meu irmão nos conhecemos há tanto tempo?!

E ia correr mas Elza me parou. Eu senti tanto, mas tanto com o toque dela. Uma força estranha, pacifica e tão enérgica e poderosa. E por um instante eu vi uma mulher alta, de longos cabelos loiros-esverdeados cacheados. Olhos mel, pele tão alva quanto a neve de minha terra. Mas a imagem se desfez e vi Elza novamente.

-Pare! – ela bradou.

-Por que? O que você quer com tudo isso?

-Sua paz de espírito. Não parece, mas dentro de ti há uma alma agoniada. Kanon está sofrendo e se cessar o sofrimento dele, tudo melhorará para você. – respondeu Elza.

Fiquei estranhamente magoado. Eu fitei os olhos de Elza, que se encheram de tristeza. Mas não era apenas pelos olhos de Elza e sim pelos meus próprios sentimentos.

-Elza, se sou mesmo esse tal que você diz, qual é a prova?

-Você a terá em breve.

-Será que este é o Templo de Perséfone, onde prenderam Atena? – perguntou Nabir. Vi Gibson se estremecer. Era um temor?

-Não. – falei. – Olhem lá em cima, no portal.

Em cima das frondosas portas de oliveira lia-se em baixo-relevo as letras, sujas de limo, o nome daquele Baralho: "DEATH".

-Mas esse... É o Baralho de Morte. O Baralho de minha irmã. – balbuciou Gibson.

-Mas, se todos os templos seguiam a ordem crescente do Tarô, por que "Morte" está aqui? – indagou Nabir.

-Estou com um mau pressentimento.

Falei tão somente e fui subindo um pequeno lance de escadas. Abri as pesadas portas e um rangido agudo se fez, nascidas das dobradiças.

-Ricky!

Não havia cosmo algum ali. Não passava de um grandioso salão, frio e mal-iluminado por tochas e pequenos feches de luz prateada da lua.

-Mas o que acontece aqui? – indagou Nabir. Gibson parecia soltar um "ufa" de alívio. Não vira ainda sua irmã.

Foi aí que vimos uma espécie de altar. Era todo de mármore e em seu centro havia uma armadura negra, de brilho semelhante aquela que vi os meus antecessores vestirem quando Milla os fez de escravos.

Tinha uma forma humanóide, uma mulher, que parecia vestir um longo vestido medieval. Possuía asas bem dobráveis e se assemelhavam a asas de morcego. E em sua mão direita uma ceifa, com detalhes dourados e algumas pedras. Os detalhes da armadura eram prateados.

Atrás dela, na parede, um entalhe em alto relevo, mostrava uma mulher grega, de cabelos presos, segurando uma espécie de fruto numa mão e na outra uma semente da mesma.

-Mas, o que é isso? – indaguei.

-Eu acho... Que é um altar à Perséfone. – respondeu-me Nabir.

Olhávamos melhor a arquitetura. Foi aí que me lembrei da historia de Perséfone. A filha de Deméter que comera seis sementes da romã e fora condenada a ficar no Inferno por seis meses, dando origem aos meses do ano. Foi com este ato que ela tornara-se a senhora do Inferno, esposa de Hades.

-E aquela mulher no entalhe é a própria deusa. – disse Nabir.

Gibson não queria nada falar. Afinal, ao que parece, até a deusa despertar era a sua irmã que comandava a batalha contra Perséfone.

-Acho que sua irmã não deve estar vestindo a sagrada armadura de Morte. – falei eu para Gibson. – Pois se esta armadura aqui está, só pode ser a dela.

-Sim. – falou Escorpião. – Aqui está vazio, não faz sentido estarmos aqui...

-Gibson...

Toquei-lhe o ombro e o olhei seriamente.

-Quer mesmo ir?

E ele me respondeu, de forma triste, distante daquele jeito bad boy dele. Mas ao mesmo tempo, confiante:

-Eu já me decidi, Ricky... Meu amigo...

Eu sorri por fora, mas assim como Gibson, meu coração estava dilacerado por dentro.

-Então, está certo.

Pusemo-nos a correr rumo a última parada das escadarias: o Templo de Perséfone!

A barreira que prendia a alma de Atena estava enfraquecendo de novo. Para aqueles que podiam ver o invisível, a barreira começava a rachar.

-Já passaram onze horas e cinqüenta minutos desde que formara esta barreira, Atena. – disse confiante Andréa. – Como minha senhora previra, falta um minuto para toda a estrutura de sua barreira rachar por completo e você sucumbir ao sono eterno. HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!!!!!!!!!!!

-Andréa... – balbuciava Atena, fraca e cansada. – Por favor, pare com isso... Essa não é você...

-Cale-se, moribunda! Mesmo sendo uma deusa, você nada pode fazer para conter o seu desastroso destino! Faltam apenas alguns segundos para virar uma casca vazia, mulher! – ralhou a amazona.

-Onde está o amor que tens por seu irmão? – murmurou Estrela. – Por que machucas o coração de Gibson, por que fazes isso?

-Ora, sua!

Andréa levantou a mão com tudo, disposta a descer um tapa ao rosto de Atena. Mesmo prestes a se quebrar, a barreira conteve o tapa de Andréa, queimando a mão.

-Como? Mesmo estando para rachar, a barreira conteve até um mero tapa. Por que?

Uma gota de suor correu pelo rosto de Andréa. E sentia poderosos cosmos rugirem ao ritmo do vento. Eram esses cosmos que sustentavam a barreira que lacrava a alma de Atena no corpo de Estrela.

-Quem são essas pessoas?! – balbuciava Andréa.

-ESTRELAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!

A barreira rachara. Passara mais quinze segundos do tempo máximo. Uma mão varava a caixa de Hypnos feito espada. Uma figura dourada aparava a queda do corpo adormecido de Estrela.

-Não... Os cavaleiros de Atena!!!!?

Continua...