3. Desilusão

"O que foi que eu perdi?" James cutucou o amigo durante a aula de Feitiços, apontando para Peter e Remus, emburrados em lados opostos da sala.

"Ah, bom" Ele suspirou. "Moony e Wormtail discutiram sobre algo a ver com garotas. E o Rem está com raiva de mim porque... Eu não sei por quê"

"Ah, seus trasgos" James revirou os olhos. "Eu saio de perto por alguns minutos e já estão se matando?"

Sirius bufou.

"Quietos!" O professor exclamou. "Muito bem. Hoje vocês aprenderão um novo feitiço."

"Espero que seja um para desacordar esse cara" Um aluno à frente deles comentou com a colega.

"Eu ouvi isso, Sr. Ethelman" O homem respondeu. "Como eu estava dizendo, vocês irão aprender um feitiço novo. O Feitiço da Desilusão."

Os alunos começaram a cochichar.

"Silêncio!" O professor bradou. "Todos, levantem-se"

Os jovens ficaram de pé.

"Agora, formem duplas, posicionando-se um em frente ao outro" O velho barbudo continuou. "O Feitiço da Desilusão é muito simples, porém de curta duração. Ele consiste em enganar a pessoa enfeitiçada, fazendo-a acreditar que o que lançou o feitiço é algo ou alguém diferente."

"Por exemplo" Ele fez com que um dos alunos se aproximasse. "Se eu jogasse o feitiço na Srta. Merrington, me concentrando, digamos, numa simples cadeira, isto é o que ela veria e acreditaria que eu fosse."

"Se o feitiço é tão simples, por que não é mais comumente usado?" Ernest Davis, da Sonserina, perguntou.

"Por que além de durar um curto período de tempo, a maioria dos locais possui proteção contra ele. Hogwarts a tem."

"Então não poderemos treiná-lo aqui?"

"Ah, não se preocupem. Pedi para Dumbledore desativá-la hoje cedo. Agora, os alunos voltados para lado direito da sala, vocês serão as primeiras vítimas. Os outros, peguem suas varinhas. Libertem-se de quaisquer pensamentos mundanos e concentrem-se no que desejam aparentar. O objetivo deste feitiço é, obviamente, que o enfeitiçado não esteja ciente de tal fato. Então, os à esquerda, virem-se de costas." Sirius se virou. "Agora, alunos, movimentem as varinhas da esquerda para a direita, e em seguida de cima para baixo, formando uma espécie de cruz."

Os alunos mexiam as varinhas, entusiasmados.

"Depois de decidirem como querem que o parceiro os vejam, pronunciem mentalmente: — vocês devem ter deduzido que o Feitiço da Desilusão é não-verbal — Illusorium!"

Os estudantes começaram a chacoalhar as varinhas bobamente, enquanto suas duplas encaravam o lado oposto.

"Muito bem, agora, vítimas, virem de frente para suas duplas!"

Os alunos começaram a se virar e soltar gemidos de exclamação. Alguns davam risadas, enquanto outros pareciam não ver diferença nos colegas.

Sirius se virou e encarou a pessoa à sua frente. Uma bela garota, de expressivos olhos verdes e sedosos cabelos ruivos o observava.

"E então?" Ela perguntou.

"Você virou a Lily"

"Bosta de dragão. Era para eu virar uma mesa" James respondeu.

"Isso que dá estar apaixonado. Mas veja pelo lado bom, pelo menos eu pude ouvir a Lily falar "bosta de dragão" pela primeira vez na vida" O garoto riu.

"Agora troquem" O professor retornou a falar. "E quem obteve resultados errados, não se preocupe; o efeito do feitiço passará em questão de minutos."

James virou de costas para o amigo e Sirius começou a seguir as instruções do professor.

Formar uma cruz... Se concentrar no que quer aparentar... O que eu quero aparentar? A imagem de Sarah veio à sua mente. Seguida pela de Dumbledore, e depois do próprio professor de Feitiços. Então a de Remus... Se concentre, o que eu quero aparentar, o que eu quero aparentar... Sua visão bateu numa pequena mesa no fundo da sala, cheia de xícaras e utensílios de chá.

"Agora!" O homem no centro ordenou para que os alunos lançassem os feitiços.

Sirius pensou meio que imediatamente, Illusorium!

"Virem de frente!" O barbudo exclamou novamente.

Os jovens começaram a se virar, e os mesmos ruídos de exclamação de antes puderam ser ouvidos.

James olhou por um segundo o que deveria ser seu amigo, e depois um som contínuo de altas gargalhadas encheu o aposento. Aos poucos, os outros adolescentes foram se voltando para os dois, até que todos estavam parados observando o moreno que parecia estar tendo uma crise.

"Sr. Potter!" O professor bradou.

"O que foi?" Sirius perguntava inutilmente.

"Hahah— É que..." Lágrimas de riso rolavam pela face de James.

"O que foi, James? O que eu virei?"

"Cara..." Ele fez um esforço para parar de rir por um momento. "Você é o bule de chá mais lindo que eu já vi" E se deixou cair em gargalhadas novamente.

Alguns alunos soltaram risinhos. O professor se aproximou deles.

"Sr. Potter, pare de rir! Pode me explicar o que está acontecendo?"

"D-Desculpe..." Ele suspirou. "É que eu não... Não consigo" O garoto disse, entre risos.

Sirius lhe lançou um olhar de desgosto.

"É que... O feitiço do Sirius..." James respirou fundo. "Deu errado, professor"

"Não há motivo para fazer tanto alarde. Controle-se!" O velho tentou acalmar a situação. O de óculos soltou mais uns risos.

"Imbecil" Sirius xingou-o. "Como eu faço para isso parar?"

"Concentre-se para voltar a ser você mesmo. Vai passar logo, é por isso que chama Desilusão" O homem respondeu.

"Você acha que eu não tentei?" Ele respondeu com raiva.

"Modos, Sr. Black. Não se preocupe, o feitiço deverá passar logo..."

"E se não passar?"

"Vai passar, vai passar" O professor pareceu dizer mais a si mesmo do que ao garoto.

"E se não passar?" Sirius insistiu.

"Bem, se não passar nos próximos quarenta e cinco minutos, vá consultar madame Rosemary. Ou Dumbledore" Ele acresentou.

"Ótimo" O maroto disse quando o homem se afastou. "Vou ficar assim para sempre. Velhaco estúpido" O amigo ainda ria a seu lado. "Dá para parar?"

"Eu não consigo!" Ele respondeu. "Você tem umas florzinhas cor-de-rosa e outros enfeitezinhos!" James ria desesperadamente. "Fora... o fato de ser um bule de chá gigante e falante" Ele apoiou-se na mesa, rindo.

"Vá para o inferno" Sirius retrucou, furioso.

Vinte e dois minutos depois, para alívio de Sirius, o efeito do feitiço finalmente passou. James estava vermelho como um tomate e completamente sem fôlego de tanto rir. A aula de História da Magia havia começado, e estava extremamente chata.

"Sabe," O de óculos disse, enquanto o professor explicava algo sobre a Guerra dos Quinhentos Seres Mágicos, o que os dois não faziam idéia do que era. "Eu preferia a aula de Feitiços. Pelo menos eu estava rindo"

"E eu preferia mais quando você era a Lily. Quem sabe ganhava bom senso"

"Mas cara, você tinha que ter te visto! Cheio de frufus e tudo mais..."

"Ta, ta, já entendi. Chega de falar disso"

"Certo. Mas então..." Ele apontou com a cabeça para o garoto de cabelos claros à frente deles. "Quando é que você vai resolver isso?"

"Por que eu?" Sirius perguntou.

"Você é que sabe por que os dois brigaram; dê um jeito deles fazerem as pazes. Somos os Marotos — os quatro" James reclamou "Fora que o Rem está bravo contigo, então você também fez alguma coisa. Resolva isso aí"

"Mas eu não fiz nada!" Ele respondeu. "O Remus é maluco"

"Você sabe tão bem quanto eu que ele é o mais são de nós"

Sirius não respondeu.

A Guerra dos Quinhentos Seres Mágicos na verdade só possuía quatrocentos e oitenta e três seres. Mas quem se importa com quantos dragões foram ilegalmente utilizados nas batalhas? Ou com quantos vampiros se rebelaram? E por que diabos Remus estava bravo com ele?

Isso o deixou perplexo. Quer dizer; ele não tinha feito nada. Tinha? O garoto repensou no que fizera recentemente. Encontrara o amigo hoje de manhã. Mas qual o problema nisso? E, claro, tinha os sonhos. Mas espera, isso é absurdo. Como Remus poderia saber dos sonhos?

Sirius mergulhou num mundo frio e sem luz. Vampiros o rodeavam, tentando morder-lhe o pescoço; bules de chá corriam pelo chão, seguidos por xícaras coloridas que tropeçavam e se partiam em milhares de pedacinhos ao caírem. Até que...

"SIRIUS"

"Quê? Onde..."

"Temos que ir para as estufas" James disse.

"Estufas? Por quanto tempo eu dormi?"

"Uma hora e meia. Mas não se preocupe, o professor nem percebeu que você estava inconsciente."

"Argh" Sirius disse, enquanto atravessavam os jardins. "Que dor de cabeça."

"Outro pesadelo?" O de óculos perguntou.

"Não. Só um sonho esquisito"

"Pelo menos dessa vez você não gritou" James falou, adentrando a estufa.

A magricela professora e os alunos já se encontravam em seus lugares. Haviam começado um relatório sobre alcamora na semana anterior, e agora, em grupos de quatro e de pé em frente a mesinhas com estranhas plantas verde-azuladas, fariam a parte prática.

O único grupo incompleto era o dos marotos.

"Olá" James cumprimentou os amigos brigados.

"Oi" Peter respondeu-o.

"Remus?" O de óculos balançou a mão na frente do aluado. "Eu disse oi"

"Oi, oi" Ele disse, entediado.

"O que exatamente é para fazer com isso?" Sirius perguntou, apontando para o estranho vegetal.

"Espremer todo o suco, colocar nesse recipiente e cortar o resto." Remus falou, como se lesse de um pergaminho.

"Certo. E como a gente faz isso...?"

"Ponham as luvas e apertem delicadamente." O garoto falava como se explicasse quanto é dois mais dois.

"Ok, vamos fazer logo isso" Peter arregaçou as mangas.

"Assim?" Eles começaram a espremer a planta.

"Blergh, isso é nojento" James falou.

"Vocês estão fazendo errado"

"Ah, então explica, Senhor Sabe-Tudo" Peter zombou-o.

"Cuidado para não..."

Mas antes que pudesse terminar a frase, um esguicho meio azul meio verde voou de encontro ao rosto de Sirius.

"Puta que..."

"Isso não é tóxico, né?" James perguntou ao vento.

"Eu disse que estava errado"

"Verde-azulado definitivamente não é sua cor" Pete riu.

"Boa essa" O loiro comentou, tapando o riso com a mão.

"Obrigado"

"Fico muito feliz que tenham feito as pazes rindo da minha cara" Sirius disse, limpando aquela meleca de seu rosto para que pudesse falar. "Mas eu preciso sair daqui. Lavar o rosto, sei lá"

O animago foi dar um passo, quando... POFT!

"PUTA QUE PARIU!" Ele gritou.

"Hoje não é seu dia, Padfoot" James falou, vendo o amigo caído de costas no chão.

"Só me ajuda a levantar"

"Aqui" Remus estendeu-lhe a mão, sorrindo.

"SR. BLACK!" A professora apareceu por trás deles. "Mas... Que bagunça é essa?! Vinte pontos a menos para a Grifinória!"

"Mas professora..."

"Calado!"

"Mas não foi minha culpa!"

"Chega! Detenção, neste sábado! E fim de papo"

"Mas eu já tenho detenção de Poções no sábado." Ele reclamou.

"Ótimo, então terá duas." A esquelética respondeu, num sorriso cínico. "Pode comparecer à minha em seguida" Disse, indo embora.

Sirius soltou um punhado de palavrões enquanto via ela se afastar.

"Desculpe por termos feito você pegar detenção"

"É. Não foi de propósito" Peter falou.

"Tudo bem. Não é como se eu não estivesse acostumado" Ele riu.

"Vem, eu te ajudo a tirar isso aí" Remus disse, acompanhando-o para fora da estufa, enquanto os outros dois terminavam a tarefa de cortar a alcamora.

"Sirius"

"Oi?" O animago se virou.

"Você tem noção de que com um simples feitiço daria para limpar tudo isso do seu rosto, não?"

"Tenho. Mas de que outro jeito eu poderia sair da aula daquela bruxa velha?" Ele riu alto.

Lupin apontou-lhe a varinha e o suco de alcamora desapareceu instantaneamente.

"Obrigado."

"Disponha" O lobisomem respondeu. "Então, o que a gente faz? Fica vadiando nos jardins e deixa o Wormtail e o Prongs com o trabalho?"

"Claro!" Sirius sorriu. "Além do mais, o James me deve uma mesmo"

"Pela aula de Feitiços? O que foi aquilo?"

"Depois eu explico" O animago respondeu. "Ah. Remus"

"Fale" Ele o encarou.

"Você não estava bravo comigo hoje de manhã, estava?"

"Não" O garoto respondeu. "Por quê?"

"Nada, parecia que estava"

"Bom, eu não estava."

"Certo" Sirius assentiu. "Por que eu pensei que tivesse feito algo, e eu não fiz..."

"É, não fez"

"Certo" O animago pensou em algum assunto para puxar. "Hum... No que você se transformou com o Feitiço da Desilusão?"

"Ah. Não lembro" O aluado disse. "Acho que numa mochila. E você?"

"Acho que não vou precisar explicar. O Prongs está vindo aí e com certeza vai ficar feliz de te contar com detalhes no que eu virei" Ele disse, olhando para os dois marotos que vinham se juntar a eles.

"É tão ridículo assim?"

"Ah, você vai ver" Ele ria, enquanto os quatro se dirigiam ao castelo.