4. Insônia

"Sirius?"

"Oh não, oh não, de novo não" O animago se virou.

"O que houve? Por que você está agindo tão estranho?" O rosto familiar de Remus o encarava, perplexo.

Ele parecia real o bastante. Ele soava real o bastante. Talvez... Não. Sua consciência o contradisse. Ele não é real. Não é real.

"Sirius? Você está bem?"

"Fique longe de mim" O garoto deu um passo para trás.

"Por quê? O que está havendo?"

"Você não é real. Fique longe de mim!"

"Como assim eu não sou real? É claro que eu sou real" Aqueles olhos castanhos estavam confusos.

"Não. Você não é. Você não pode... O Remus não..."

"Eu não o que, Sirius?" Ele continuou, dando um passo à frente.

Atrás de Sirius só havia parede.

"Fique longe, eu mandei!" O grifinório não achou forças para empurrá-lo para longe. Ele ainda era idêntico ao Remus.

"O que há de errado com você? Por que está agindo tão esquisito?" O outro continuava.

"Não se aproxime! Eu..."

"Sirius, acorde!"

"O quê?"

Tudo que ele ouviu em seguida foi o som do seu próprio corpo se chocando contra o chão frio do dormitório.

"Sirius, acorde!"

O animago soltou um pequeno grito ao se virar e perceber quem o sacudia preocupado. Sua cabeça doía por ter batido contra a madeira do piso.

"Sirius, você está bem?" Os mesmos olhos castanhos que vira segundos antes o observavam.

"Estou" Disse, se soltando dos lençóis que havia trazido com ele na queda. "O que está fazendo acordado?"

"Não consegui dormir." O lobisomem respondeu. "Te ouvi balbuciar qualquer coisa, mas você caiu antes que eu pudesse te acordar"

"Ah" Ele olhou em volta. Os outros amigos ainda dormiam.

"Teve algum pesadelo ou algo assim?"

"Não... Não me lembro"

"Deve ter sido bem ruim, para você acabar desse jeito"

"É... Deve ter sido" Ele piscou os olhos.

"Bom, eu vou deixar você voltar a dormir" Remus falou, se afastando.

"Eu não vou dormir" Sirius deixou escapar.

"Por quê?"

"Eu... Não estou com sono"

"Seus olhos estão vermelhos de tanto sono" O aluado disse, franzindo a sobrancelha.

"Mas eu não quero dormir"

"Por quê?" O garoto insistiu.

"Porque vai que eu tenho outro pesadelo e caio da cama de novo. Vou acordar cheio de hematomas amanhã."

"Está bem. Mas não vai ficar cansado?"

"Nah" Ele deu de ombros, ignorando o olhar desconfiado do outro.

Com os dois sem saberem o que falar, o silêncio tomou conta do aposento nos minutos seguintes.

"Sirius, vá dormir"

"Quê? Não, já disse" O moreno balançou a cabeça.

"Eu posso te ver fechando os olhos de vez em quando e quase caindo no sono daqui, neste escuro!"

"Eu não vou dormir" Ele respondeu, sério.

"Certo, então vamos ficar os dois aqui se encarando?"

"Estou te incomodando?"

"Não!" O aluado respondeu no mesmo momento. "Não, não me incomoda. Bem... Vamos conversar então" O garoto se levantou, atravessou o pequeno espaço entre as camas e se sentou na de Sirius. O animago sentiu os pêlos de sua nuca arrepiarem. Tremeu.

"Então..." Começou, em resposta ao sorriso de incentivo do outro. "Vai sair com aquela corvinal?" Quê? Sirius Black, seu imbecil. Não podia ter achado um assunto melhor? Pensou consigo mesmo.

"Quem?"

"Aquela Liz sei-lá-das-quantas... Do café da manhã"

"Ah" Remus pareceu lembrar-se. "Não"

"E depois eu que tenho problemas..." Oh, eu sou um idiota; e preciso aprender a controlar minha boca. Droga. Rezou para que o lupino não tivesse escutado.

"Eu não disse que você tinha problemas." Ele respondeu. "Peter disse"

"Ah" Sirius encarou o dossel.

"Por que, você acha que eu deveria?" O aluado pareceu curioso.

"Não; não sei, não reparei nela. Como disse, não é meu tipo"

"Oh sim" O garoto soltou um suspiro e virou o olhar.

Mal havia ido embora, o silêncio voltou a se apossar do dormitório. Aquilo deixava Sirius nervoso. E o pior, ele nem sabia dizer por quê. Conhecia Remus há quase sete anos; já ficara sozinho com ele inúmeras vezes. Então por que agora parecia diferente? Por que aqueles olhos o faziam sentir como se suas pernas, de tão trêmulas, não fossem agüentar o peso de seu corpo no minuto em que tocassem o chão? Talvez fosse o fato de estar sonhando com o amigo momentos antes deste acordá-lo. Mas não queria pensar nisso. De fato, era a última coisa em que desejava pensar. E era por isso que o silêncio o incomodava tanto. Precisava de alguma coisa para quebrá-lo. Qualquer coisa. Mas não encontrava nada, nenhum assunto. Parecia que sua mente estava lhe pregando uma maldita peça!

Vamos, algo, o que for... Lembrou-se de alguma brincadeira que vira umas segundanistas usarem para matar o tempo. Algo estúpido. Estúpido é o melhor que eu tenho no momento, não? Pensou. Vai ter que servir.

"Vamos jogar um jogo?" Disse, temendo que aquilo soasse a coisa mais patética do mundo.

"Que jogo?" Moony perguntou, na expressão mais gentil que só ele podia fazer.

"Não é exatamente um jogo... É só para passar o tempo." Sirius explicou.

"E como é?" Aquele sorriso cheio de compaixão só aumentava o nervosismo do animago.

"Hum, bom, um diz uma palavra, e o outro responde o que vier à cabeça. E assim em diante" Ridículo. Mas serve

"Ta bem. Você começa ou eu?"

"Acho que eu posso começar" Padfoot respondeu, olhando para as cortinas da janela. "Hum.. céu"

"Manhã" Remus falou.

"Aula"

"Desilusão" Ele pareceu pensar um pouco antes de responder.

"Hunf... Chá" Sirius revirou os olhos. Moony segurou o riso.

"Ah... café da manhã"

"Dumbledore" Padfoot disse a palavra tão rápido que quase não percebeu quando a pronunciou.

"Fênix" Lupin olhava para os lados, com os olhos levemente pesados de sono.

"Escarlate" Sirius viu que o outro o encarava. "Quê? Como se eu não soubesse palavras difíceis" Eles riram.

"James"

"James?" O animago perguntou.

"É. Por causa dos cabelos da Lily, ruivos. Me fez pensar no Prongs" Moony sorriu.

"Ah" Sirius fez que entendeu. "Hum, olhos." Quatro. Ah, maldito sono... Sirius esfregou os próprios olhos, que começavam a doer.

"Azuis" Remus falou tão apressadamente que não pareceu entender o próprio sentido do que dissera.

Já o moreno, caindo de cansaço, demorou ainda mais para entender. Encarou a colcha da cama como se tentasse decifrar uma equação matemática, até que venceu o sono e sentiu como se a simples palavra tivesse cortado o ar em volta deles como um raio e pudesse ver claramente agora. Azuis, fora isso que o aluado havia dito. Olhou para o outro e... Pode jurar que vira seu rosto ganhar um leve tom vermelho! Mas... Não, era o sono de novo o fazendo imaginar coisas. Maldito sono.

"Hum" Tentou dizer uma palavra e o amigo de cabelos claros voltou-se para ele. Nada veio. Como da última vez em silêncio, nada se passava em sua mente. Como se tivesse sido jogado em um enorme galão de tinta branca e era só isso que podia enxergar. Branco, vazio. Inferno! Azuis, azul... É algo tão óbvio!

"Ah... Cor" Sirius disse por fim, em tom de desistência.

"Cor?" O lobisomem perguntou.

"É, cor. Azul é uma... cor" Sorriu amarelo. Lupin olhou-o, sarcástico. "Ok, eu não consigo pensar em mais nada."

O aluado riu. "Então acho que a brincadeira acabou"

"Não... Dá para continuar de... Ta, não dá para continuar de 'cor'." Se deu por vencido. Remus riu ainda mais, então se dirigiu às janelas.

"Que horas você acha que são?" Padfoot perguntou, se levantando.

"Quase cinco horas" O outro respondeu, abrindo uma das cortinas.

"Como você sabe?"

"Pela posição da lua" Disse, calmo.

"Sério?" Sirius aproximou-se dele, ficando lado-a-lado em frente à janela.

"Bom, isso e porque parece um pouco mais claro que antes"

"Ah!" Ele exclamou, desapontado.

"Mas você bem que acreditou, não foi?" Sorriu.

"Quem sou eu para desconfiar de um sabe-tudo..."

"Eu não sou isso" Remus falou. "Só mais responsável que vocês três" Ralhou-o.

"Ei, eu não estou reclamando" Padfoot disse. "O que seria de mim sem Remus Lupin para copiar os deveres?" Deu um grande sorriso cínico.

"Hum, um mendigo?"

"Isso foi meio exagerado."

"Pelo menos o cabelo você já tem" Moony soltou umas risadas.

"Ei!" Sirius exclamou alto. Fez menção de retrucar, mas o amigo fez sinal para que falasse baixo, apontando para Peter que se mexia e parecia quase ter sido acordado pelo barulho.

"Não é porque nós dois somos madrugadores que eles também precisam perder o sono"

"Certo" Sirius assentiu. "A propósito, Moony, por que você não conseguiu dormir?"

"Ah, hum, você sabe..." Disse dando de ombros, como se não quisesse se aprofundar no assunto.

Na verdade, não, ele não sabia. Tinha noção do quanto o amigo achava incômodo a condição de lobisomem, mas não podia nem imaginar como devia ser sentir aquilo... na pele, literalmente.

Porém, Sirius não se lembrava de vê-lo passar noites em claro por causa disso. Lupin calculava minuciosamente quando seria lua cheia, sim, mas também não era tão paranóico a esse ponto. Se bem que, talvez ele simplesmente não soubesse disso. Costumava ter sono pesado, então poderia muito bem nunca ter visto o amigo acordado por isso. Mas... Ah! Que importa? Moony não parecia querer falar mais, então não insistiria.

O aluado afastou-se da janela e começou a procurar suas vestes em uma grande mala marrom. Vestiu-se discretamente — enquanto o outro observava o teto — e se virou, sorrindo.

"Vamos descer"

"Descer?" Sirius encarou-o, perplexo. "Mas são cinco da manhã"

"Sim. E?"

"O que há para se fazer lá embaixo as cinco da manhã?"

"O mesmo que há para se fazer aqui as cinco da manhã"

"Mas deve estar frio" Ele não demonstrava a mínima vontade de deixar o quente e confortável dormitório.

"Está bem. Então eu vou sozinho"

"Não" O animago exclamou enquanto Lupin abria a porta. "Eu vou com você"

Definitivamente, era melhor ficar no frio e acompanhado do que só em um dormitório aconchegante. Bom, pelo menos foi isso que Sirius disse a si mesmo enquanto descia as escadas da torre da Grifinória.

Os dois atravessaram o Salão Comunal e se embrenharam nos corredores vazios e mal iluminados da escola.

"Você tem alguma idéia de para onde estamos indo?" Padfoot disse enfim.

"Por que, tem alguma sugestão?"

"Não. Nenhuma."

Os marotos andaram por mais alguns minutos, desceram algumas escadas e atravessaram uma passagem secreta que os levou à parte de fora do castelo.

Remus continuou a andar, até que encontrou uma árvore próxima à entrada da Floresta Proibida e sentou-se embaixo dela.

"Aqui?" Sirius perguntou.

"Aqui. É longe o suficiente da escola para que ninguém apareça, mas perto o bastante para ouvirmos o que estiver acontecendo lá dentro. Além do mais, tem uma bela vista do lago agora que está amanhecendo."

"É, mas está frio" O moreno resmungou enquanto sentava ao lado do outro.

"Não seja tão molenga, Padfoot. Tome, pode ficar com o meu cachecol."

"Você não vai ficar com frio?"

O aluado deu de ombros.

Algumas corujas piaram longe, mostrando que a claridade as havia acordado.

"Ainda não sei por quê você quis vir aqui se nós..."

"Sirius, se você reclamar mais uma vez, eu juro que vou..." O lobisomem começou a falar, mas foi interrompido.

"Está bem, desculpe. É que a minha cabeça não pára de doer e o frio não ajuda."

"Não sabia que você era tão mau-humorado pela manhã"

"Eu não sou" O garoto respondeu. "Pelo menos não quando eu durmo. E não me olhe com essa cara de "Eu disse que você devia dormir", Moony." Sirius completou, ao ver que o amigo o encarava.

"Não olhei com cara nenhuma!" O loiro respondeu. "Eu sei bem que não se deve discutir com quem é cabeça-dura."

"Hum, que bom" Ele riu, em seguida fechando os olhos e descansando as costas no tronco da árvore.

­

Os raios de luz começavam a encher os terrenos de Hogwarts. Alguns sons vindos da Floresta Proibida mostravam que seus morados já estavam ativos. No castelo, por outro lado, reinavam a paz e o silêncio. Todos pareciam estar dormindo. Inclusive um garoto nos jardins.

"Padfoot"

"Que?" O animago resmungou, sonolento.

"É que... Você não é exatamente leve como uma pena, sabe?"

Sirius abriu os olhos e percebeu que estava apoiado no amigo, com a cabeça bem em seu ombro direito.

"Desculpe" Disse, se afastando.

"Sem problemas"

"Eu dormi por muito tempo?"

"Bastante. Mas ainda é cedo. Melhor esperar um tempo até todos acordarem para irmos tomar café."

Uma chuva fina começou a cair sobre os terrenos da escola. Os dois garotos continuaram ali, sentados, cansados demais para iniciar uma conversa. O sono perdido durante a noite os alcançava agora. À medida que o tempo ia passando, os barulhos vindos do castelo aumentavam cada vez mais, indicando que os alunos já estavam despertos.

"Sirius"

"Oi?" Ele virou para encarar o amigo, mas Remus permaneceu em silêncio. "Sim?" Insistiu.

"Bom, eu..."

"Moony! Pads!" Um moreno de óculos veio correndo até eles.

"Olá, Prongs" Sirius levantou-se. O aluado fez o mesmo.

"Pete e eu estávamos procurando por vocês. O café já está sendo servido."

"Ah" O de cabelos longos olhou para Remus. "Pode ir na frente. Nós já vamos"

Após ver o amigo se afastar, voltou-se para o lobisomem.

"Então, o que você queria me dizer?"

"Ah, não era nada importante. Melhor irmos logo antes que o Wormtail coma todo o mingau de aveia" Remus começou a andar apressado e Sirius ficou para trás.