PARTE II

"... uma forte fenda nas nuvens manchadas de vermelho com minhas asas rasgadas..."

A respiração dela estava difícil, enquanto esperava em uma pequena saleta para ser conduzida até o altar. Seu pai estava sentado no lado oposto de onde ela se encontrava, uma frieza inquietante emanando dele, tão grande que era quase palpável. A ruiva atreveu-se a espiar pela fechadura mais uma vez, dezenas de convidados acomodados nas diversas fileiras de cadeiras dispostas pelo jardim da mansão onde ela moraria com seu futuro marido. Riddle era órfão e, até onde ela sabia, sem família. De onde havia tirado tanto dinheiro e tantas propriedades nos últimos anos era um mistério que intrigava grande parte da população bruxa, e um fato que ela mal havia pensado até ver o tamanho da casa onde ficaria. Os convidados dele eram, na imensa maioria, homens de famílias puro-sangue importantes, mulheres frias e bem-vestidas. Seus convidados eram poucos e pareciam estranhamente deslocados naquele jardim; apenas sua mãe e seu pai, de sua família; Luna Lovegood e Neville Longbottom, antigos colegas de escola; e Hermione Granger, sua futura cunhada, sem seu irmão ao lado, sentada sozinha e suportando olhares de nojo de grande parte das outras pessoas no jardim.

Olhou para o pai mais uma vez. Ele mal havia trocado uma palavra com ela durante aquela semana após sua formatura, apenas a encarava por longos períodos, a deixando inquieta e fazendo sentir-se culpada. Sua mãe não conseguia trocar duas palavras com ela sem ter os olhos marejados de lágrimas, e seus irmãos... Bom, seus irmãos deixaram claro o bastante que a consideravam nada mais, nada menos, que uma traidora. Por mais de uma vez ela se pôs a considerar o que a fazia agir assim, o que a levava a desafiar toda a sua família, a arriscar-se a perder seu afeto e, eventualmente, seu amor e simplesmente não conseguia explicar. Tinha uma necessidade de ficar com Tom Riddle. De deixar que ele a conduzisse para onde fosse, de afogar-se nos olhos dele, de apenas deixar-se levar. Não se sentia protegida próxima a ele, nem mais forte, nem mais centrada, sentia apenas que queria ele perto. Para sempre, se fosse possível. Estava irremediavelmente apaixonada, ela sabia disso com certeza, e a paixão a fazia perder um pouco da razão. Era a explicação mais plausível que ela conseguia produzir para si mesma. Sentiu a falta de Harry no casamento mais do que qualquer outra pessoa; sabia que ele não viria, mas, mesmo assim, não conseguiu evitar sentir-se um pouco mais triste quando percebeu que ele realmente não estaria ali. Não estaria mais ali para ela. Nunca mais.

Afastou esses pensamentos com impaciência, Harry não estaria, mas Tom estava. Estariam casados, juntos, e ele a protegeria e a ajudaria, e ela faria parte da vida dele, como jamais faria da de Harry. Deu alguns passos em direção ao espelho para admirar seu reflexo mais uma vez. O vestido imaculadamente branco era simples e belo, bordado por toda extensão com fores que refulgiam a luz da lua que entrava pela janela, justo no corpo e cheio na saia, com uma cauda que se arrastava atrás dela. Um decote que deixaria a mostra seu pescoço e parte dos ombros, se não estivessem cobertos pela mesma renda que recobria o vestido, o mesmo padrão floral nela que nos bordados, luvas brancas da mesma renda que subiam até acima de seu cotovelo e deixavam a parte superior de seus braços a mostra. Em seu pescoço, um antigo colar que Tom havia lhe dado, pesado em sua constituição e formato, diversas pedras incrustadas em prata, intercalando esmeraldas e diamantes, um belíssimo colar, que, na verdade, não combinava com Ginny, mas que ela concordara em usar porque Tom havia lhe pedido. O véu e a grinalda ocultavam parte de seu cabelo, que estava preso em uma trança onde estavam colocadas diversas orquídeas brancas, como as do buquê que estava segurando, e amarrado com uma simples fita de cetim, também branca. Notou pelo espelho, quando sua mãe entrou na sala, sua expressão parecendo mais adequada a um velório que ao casamento de sua única filha, os olhos inchados e vermelhos de tanto chorar, e avisou que Riddle havia chegado, ela devia entrar.

Arthur lançou um último olhar para ela quando Molly os deixou, e ela apressadamente arrumava-se em frete ao espelho. Foi até a filha e lhe deu um abraço forte, encarando-a novamente sem soltá-la completamente e ia abrir a boca para falar, quando Ginny sorriu e aconchegou-se mais no abraço do pai.

- Não pergunte, papai. Eu não vou desistir. Foi a minha escolha. – Arthur apenas suspirou e, resignado, ofereceu o braço para que ela segurasse, e entraram juntos no jardim. Um logo tapete formado de flores brancas marcava o caminho pelo qual ela passava entre as fileiras de cadeiras. Não conseguiu conter um sorriso de satisfação quando percebeu olhares de admiração de diversas pessoas. Nunca se sentira tão confusa e, ao mesmo tempo, tão feliz. Não sabia se deveria rir ou chorar, estava divida entre os dois impulsos igualmente. Olhou para frente e viu Tom a esperando, o olhar ansioso e admirado, vestido em vestes negras, como sempre, e parecendo mais belo do que nunca. Finalmente chegaram até o altar, e seu pai entregou sua mão para Riddle, dirigindo-lhe um olhar de profundo ódio, ao que ele respondeu com um sorriso frio. Seu pai afastou-se e a cerimônia começou, mas ela mal prestava atenção ao que acontecia. Suas mãos tremiam e ela sentia arrepios que nada tinham a ver com o tempo, que, na verdade, estava muito agradável para uma noite de fim de primavera. Era uma escolha sem volta. Estava se casando com alguém que sua família e todos os seus amigos desaprovavam. Estava alienando-se do mundo como sempre o conhecera para estar ao lado de Tom Riddle. E estava contente e temerosa por isso.

Antes que se desse por conta, a cerimônia chegava a seu fim e ela esperou, ansiosa, enquanto Tom lentamente retirava seu véu e a grinalda, deixando seus cabelos aparecerem, encarando-a nos olhos antes de depositar um rápido beijo em seus lábios. Ela sorriu e eles andaram de mãos dadas até o extremo do corredor, onde seus convidados seguiram, se sentado em diversas mesas espalhadas pelo jardim, onde o banquete e a festa aconteceriam. Ginny notou que seus pais e amigos haviam sumido, sem nenhuma palavra para ela, isso doeu fundo na ruiva, e seu sorriso esmoreceu por um momento, até sentir a mão de Tom segurar a sua com firmeza e ele aproximar-se da orelha dela e sussurrar "Juntos, Ginevra, não se entristeça." Ela levantou o olhar e sorriu para ele novamente, aproveitando a festa enquanto podia, tentando evitar os pensamentos que invadiam sua mente. Com o tempo eles se acostumariam e veriam que Tom não era tão terrível quanto eles queriam crer. Ele realmente não era. Ou isso era o que ela queria acreditar.

"…There is so much a man can tell you, so much he can say

(Há tanto que um homem pode lhe contar, tanto que ele pode dizer)

You became my power, my pleasure, my pain...

(Você se tornou meu poder, meu prazer, minha dor…)

Baby, to me you're like an old addiction that I can't deny...

(Baby, para mim, você é como um antigo vício que eu não posso negar...)

Won't you tell me, is it healthy, baby?…"

(Não vai me dizer que isso não é saudável, baby?...)"

A festa ainda não havia terminado e os convidados ainda dançavam quando Tom a pegou pela mão e discretamente a conduziu para dentro da casa enorme. Ela se deixou levar, nervosa, temerosa e contente. Entraram no salão principal da casa e subiram as escadas que conduziam ao corredor do andar de cima, Tom a guiando para o quarto deles, que a ruiva ainda não havia visto. Ele cobriu os olhos dela com as mãos antes de abrir a porta, conduziu-a para dentro e fechou-a atrás de si, murmurando um encanto que fez com que a lareira do quarto se acendesse e fosse a única fonte de iluminação do quarto. Outro sussurro, e ela ouviu a música da caixa que ele havia dado para ela começar a tocar; lentamente, a mão dele deixou seus olhos e ela pôde apreciar o quarto que agora seria seu. A lareira a um canto, próxima a ampla janela que dava para o bosque da propriedade; a cama de dossel feita em ébano, coberta com uma colcha verde-escura, bordada em prata; o tapete de pele bege sobre o qual ela estava pisando; o amplo espaço ao redor da cama, ocupado por uma escrivaninha de um dos lados e uma penteadeira de outro, ambos do mesmo material da cama e as cadeiras estofadas também em verde; as cortinas claras e, ainda assim, pesadas, sobre a janela. Olhou em volta e suspirou contente. Tom, ainda sem soltar a mão dela, a conduziu para perto da lareira, onde jaziam duas taças, um pedaço de pergaminho e, estranhamente, um punhal de prata.

Ele a tomou nos braços e olhou para baixo para encará-la enquanto o fazia, sentindo o nervosismo que a fazia tremer, os olhos negros e frios brilhando com o fogo da lareira de uma maneira que a fazia inquieta.

- Ginevra, você sabe que a guerra se aproxima cada vez mais, e que somos tudo que o outro tem de agora em diante. Eu não tenho família, não mais. E sua família... – ele hesitou quando viu o lampejo de dor nos lhos dela - eles ainda compreenderão algum dia, mas não logo. Por causa da guerra, Ginevra, eu quero ter certeza de que nada acontecerá a você. E de que nada acontecerá a mim, sem que você saiba. Pior do que a dor de perder alguém, é a dor de não saber o que acontece com a outra pessoa. Não quero que me entenda mal, jamais proporia nada assim se não sentisse necessidade extrema disso, Ginevra, mas é para nosso bem. – Ginny o encarou com certo receio.

- E o que seria, Tom?

- Um pacto de sangue. – Ginny congelou ao som das palavras e olhou em volta rápido, fixando o punhal sobre o console da lareira. Recuou um passo no abraço que Tom lhe dava, assustada, e encarou-o nos olhos.

- Isso... Isso é magia negra, Tom. – ela falou, quase incoerentemente, com os olhos fixos no punhal.

- Não, Ginevra. – ele falou, de maneira tranqüilizadora, - Não é o que parece. Não faremos nada errado. Eu apenas não quero... Não quero que nos afastemos, mesmo que não estejamos ao lado um do outro. – ele se aproximou e tomou-a nos braços novamente, não deixando os olhos dela fugirem dos seus desta vez. – É para o nosso bem. Para que realmente estejamos juntos para sempre. – disse persuasiva e lentamente, num sussurro, sem desviar o olhar. Era quase hipnótico o efeito que os olhos dele tinham sobre ela.

Quase sem perceber, ela concordou com um breve aceno de cabeça; ele sorriu, fazendo o sangue dela gelar desta vez. O moreno entregou-lhe um pedaço de pergaminho onde algumas palavras estavam rabiscadas, o feitiço parecia ter sido criado por ele mesmo, o que confortou a ruiva um pouco. Nada terrivelmente das trevas poderia ser criado, assim, apenas por rabiscos. Não era nada tão grave, ela tentava convencer-se.

Tom conjurou uma pequena mesa que ficou entre os dois e depositou a taça sobre ela. Erguendo uma das mangas da sua veste, murmurando algumas palavras que soavam como um encanto, mas que Ginny não conseguia identificar, pegou o punhal e fez um corte na parte interna do antebraço, deixado o sangue escorrer para dentro da taça enquanto falava as palavras que não eram as que Ginevra havia lido no pergaminho.

- No dia em que te tornas minha esposa, como prova de nossa união, para que estejamos sempre lado a lado, eu compartilho contigo meus olhos, para que veja através das sombras; meus ouvidos, para que ouça além da distância; minhas forças, para que não fique desprotegida; e meu sangue, para que nosso poder se torne maior e nada possa nos destruir.

Ginny sentia-se extremamente tonta com a música e a sensação de ver o sangue dele correndo para dentro da taça. A respiração mais uma vez acelerada, ela não protestou quando Tom, sem fechar se próprio corte, retirou a luva da mão direita dela e fez um corte no antebraço direito, segurando a sua mão branca que tremia convulsivamente e segurando-a sobre a taça, permitindo que o sangue dela também se acumulasse ali. Um olhar dele, e ela tentou lembrar-se das palavras que lera e do que ele havia dito, tentando repeti-las sem que sua voz tremesse tanto.

- No dia em que te tornas meu marido, como prova de nossa união, para que estejamos sempre lado a lado, eu compartilho contigo meu coração, para que sintas o que eu sinto; meus pensamentos, para que saibas o que eu sei; e meu sangue, para que nossas forças se tornem uma e nada de mal nos aconteça enquanto estivermos unidos. – uma luz parecia emanar do sangue dos dois escorrendo juntos para a taça e Tom falou a parte final do feitiço.

- Pelo sangue que derramamos juntos, pelo juramento que fizemos juntos, e pela vida que teremos juntos, que nossas forças se multipliquem e que nosso poder seja maior, para que possamos estar, para sempre, um com o outro. – ele pegou a taça e bebeu um gole de seu conteúdo, passando-a para Ginevra, que ainda tremia e não conseguia segurá-la direito. Ele contornou a mesa e segurou-a próxima a boca da ruiva, fazendo o sangue de seu braço manchar o vestido outrora branco dela. Ela bebeu um gole, sentindo-se inexplicavelmente tonta e desnorteada. Tom depositou a taça sobre a mesa e, com um aceno da varinha, fez esta desaparecer. Ainda próximo a Ginny, murmurou um feitiço que fez o corte no braço da ruiva desaparecer, sem curar o seu, no entanto. Abraçou-a por trás e, delicadamente, soltou os cabelos dela e retirou o colar, em seguida, beijou-lhe o pescoço, fazendo-a espantar-se pelo súbito calor que parecia emanar da boca dele, algo que ela não havia sentido antes. Ele continuou beijando-a, os lábios ainda sujos de sangue, manchando a renda do vestido enquanto ele lentamente a virava para ele e tomava a boca dela em um beijo dominador que a deixou ainda mais tonta. Os dedos dele correram pelas costas do vestido, desabotoando os botões enquanto ela sentia o frio voltar aos poucos à pele dele, sentindo-se arrepiar com o toque gelado em suas costas. Ela fechou os olhos e viu-se repentinamente desprovida de pensamentos que não fossem o toque da pele gelada dele na sua, da boca de seu marido encontrando a sua. Sentiu-se conduzida até a cama e percebeu que estava já sem vestido algum e ele também já não tinha mais vestes. Estava tonta e não compreendia o que estava acontecendo, mas via as manchas vermelhas no vestido e em sua pele clara, deixadas pela boca dele, e perguntou-se como ela também não deixava marcas na pele fria.

O toque de seu marido era como gelo, e nada havia de terno ali. Ele colocou-se entre as pernas dela, assustando-a com sua frieza e objetividade, beijando seu pescoço e segurando seus cabelos de forma possessiva. Ela sentiu a tontura aos poucos abandoná-la, sendo substituída pela dor que ele deixava enquanto unia-se a ela. Ginny mordeu os lábios para não deixar escapar os gemidos de dor que estava sentindo, e acabou por fazer sangrá-los, abriu os olhos e viu Tom encarando-a, sem deixar de mover-se contra ela, o olhar dele desviando-se para sua boca e sorrindo antes de beijá-la novamente, consumindo o sangue que havia surgido ali. Ela não conseguia corresponder, estava estranhamente entorpecida, sentia a dor consumi-la, quando ele aumentou o ritmo e finalmente relaxou sobre ela, deixando escapar um suspiro de satisfação. Quando se recompôs da dor o suficiente, ela abriu os olhos e o viu encarando-a, sorrindo, mais frio do que nunca. Ele apenas deslocou-se para o lado, puxando as cobertas sobre os dois e acomodou-a sobre o peito dele, acariciando os cabelos ruivos, e ela sentiu-se acalmar e voltou, aos poucos, a respirar normalmente. Ficaram assim por longo tempo, até que ele acenou com a varinha e diminuiu a luz da lareira, fazendo a escuridão dominar o quarto, ainda sem dizer uma palavra, os dedos ainda passando por entre as fartas mechas vermelhas. Ginny estava pensativa e sonolenta, pois uma coisa não lhe saía da cabeça. Sabia que não conseguiria dormir se não perguntasse.

- Você nunca disse. – ela falou, estranhando a própria voz, que parecia distante e rouca, embora ela não se lembrasse de ter chorado.

- O quê? – ele indagou de volta, parecendo despreocupado.

- Que me ama. – ela declarou, quase se arrependendo do que havia dito. Ele riu, levemente e aconchegou-a ainda mais a ele.

- Mas eu não lhe amo, Ginevra. – ele disse calmamente, sorrindo e, parecendo quase divertido. – O que lhe fez pensar isso? Casamento nada tem a ver com amor, Ginevra, tem a ver com alianças e poder, com escolher a melhor pessoa para estar ao seu lado. Amor é para os tolos. – concluiu, continuando a acariciar os cabelos da ruiva, sem ver a máscara de choque que o rosto dela havia se transformado, e sem perceber as lágrimas silenciosas que começaram a escorrer por seu rosto.

Os pensamentos em turbilhão, confusos demais para se fixar em algum deles, ela notou quando Tom, seu marido, parou de mexer os dedos entre os cabelos dela e adormeceu, enquanto ela ainda permaneceu acordada por horas, indagando a si mesma o que havia feito. Havia escolhido um caminho, deixado marcas que não sabia se conseguiria apagar. E agora não havia mais volta.

"... ardeu, ardeu...

o lugar da nossa promessa nunca mais retornará..."

Era como ser capaz de abrir os olhos e ver claramente pela primeira vez. Era acordar todos os dias ao lado de alguém que se tornava cada vez mais desconhecido, e ser tratada por ele com fria delicadeza e apreciação. Era ter permissão, e até mesmo ser estimulada, a ficar na presença dele e de seus aliados, e saber de cada detalhe dos planos deles. Era perceber a força e o poder dele aumentarem a cada dia, através do pacto que haviam feito. Era vê-lo usar esta nova força, a i sua /i força, contra todas as pessoas que ela amava, e vê-los sem atacar de volta, apenas defenderem-se, para não feri-la, mesmo que indiretamente. Era ver as crenças de sua família, tudo pelo que eles haviam lutado toda uma vida, perder lugar para seu marido, e saber que parte da responsabilidade era sua.

Era ver seu mundo desabar a sua volta, e perceber que compreendera tudo isso tarde demais.

"…But did you know that when it snows my eyes become large,

(mas você sabia que quando neva meus olhos se abrem,)

And the light that you shine can be seen...

(E a luz que você emana pode ser vista...)

Baby, I compare you to a kiss from a rose on the grave

(Baby eu comparo você ao beijo de uma rosa no túmulo)

The more I get of you, stranger it feels, yeah

(Quanto mais eu conheço você, mais estranho parece)

Now that your rose is in bloom,

(Agora que sua rosa está desabrochando,)

A light hits the gloom on the grave

(Uma luz bate nas trevas sobre o túmulo)

I've been kissed by a rose on the grave

(Eu fui beijado por uma rosa no túmulo)

(If I should fall, let it all fall away...)

(Se eu tiver que cair, deixe isso tudo definhar…)

I've been kissed by a rose on the grave

(Eu fui beijada por uma rosa no túmulo)..."

Ginevra começava a entender o que havia acontecido com ela. Via Tom persuadir pessoas que todos julgavam impossíveis de serem persuadidas, via-os cederem às pressões exatas que ele exercia, como ele sempre atingia os pontos certos, como manipulava as fraquezas alheias contra os outros e em seu benefício, como jamais desperdiçava uma única ação, como tirava proveito das menores informações que qualquer um deixasse escapar. Ginevra apreendia a técnica, entendia o processo e via refletido nas ações do moreno tudo que ele havia feito para conquistá-la. Tom havia brincado com suas emoções, aproveitado cada brecha que ela havia oferecido, insinuara-se para sua imaginação fértil e carente como alguém disposto a ouvi-la, como alguém que a deixaria participar de sua vida, quando tudo que ela tinha era insegurança sobre si mesma e super-proteção. Mas, depois de meses, longos meses, ela sabia exatamente o que era na vida de seu marido; Tom Riddle era um jogador, e Ginevra Weasley Riddle nada mais era que um peão.

Não demorou para que a ruiva passasse a voluntariamente alienar-se de qualquer coisa relacionada à guerra dentro do mundo bruxo, que havia sido finalmente declarada. A máscara do homem a que ela havia entregado toda a sua confiança tinha caído, e cada ação que ele tomava contra as pessoas que ela amava doía-lhe tão intensamente como se fosse ela mesma a desferir e receber o golpe. Queria poder desfazer tudo que havia feito, voltar atrás nas decisões que havia tomado, sair de vez daquele túnel negro onde ela estava presa. No entanto, sabia que não podia apenas fugir de sua vida; a única maneira de deixar tudo isso para trás era seguir o caminho até o fim. Ela apenas não estava certa de que era luz que a aguardava lá, nem tampouco tinha certeza de que poderia enfrentar o que estava do outro lado.

"…There is so much a man can tell you, so much he can say

(há tanto que um homem pode lhe contar, tanto que ele pode dizer)

You remain my power, my pleasure, my pain

(Você continua sendo meu poder, meu prazer, minha dor)

To me you're like a growing addiction that I can't deny

(Para mim você e como um vício crescente que eu não posso negar)

Won't you tell me is that healthy, babe?

(Você não vai me dizer que isso não é saudável, baby?)

But did you know, that when it snows my eyes become large,

(Mas você sabia que quando neva meus olhos se abrem)

And the light that you shine can be seen...

(E a luz que você emana pode ser vista...)"

Primavera e verão já haviam passado e o outono mais uma vez surgia e, no entanto, ela nunca sentira tanto frio; sentia como se morasse em meio a uma geleira, e pouco a pouco seu próprio calor ia se desfazendo, o que um dia haviam sido chamas vivas, agora não passavam de brasas adormecidas sob as cinzas.

A ruiva havia mandado construir uma estufa, onde cultivava orquídeas; passava grande parte de seu dia lá, quase como uma punição para si mesma. Cada orquídea lhe lembrava Tom, e Tom lhe lembrava que tudo o que ela estava sofrendo era única e exclusivamente sua culpa. Foi num entardecer de um dia frio, enquanto se encaminhava para sua estufa, que Ginevra ouviu as palavras que fariam sua vida mudar mais uma vez. Passava rapidamente pela sala onde Tom e alguns de seus aliados discutiam planos de ação na guerra, quando escutou a exclamação: "Maldito Potter!". A ruiva estacou, fora do campo de visão dos homens. Há quanto tempo não ouvia notícias de Harry? Um arroubo de saudade fez com que parasse e espiasse para dentro da sala, em busca de informações, e o que ouviu fez seu sangue gelar.

O rosto de Tom estava transformado em uma máscara de fúria, e um sorriso maléfico desfigurava seu rosto, de outra forma, belo.

- Sim, - o moreno declarou - já está mais do que na hora de acabarmos com aquele mestiço. – os outros assentiram, em aprovação - Mas não quero que nada dê errado desta vez. Harry Potter é uma questão pessoal, e eu quero matá-lo pessoalmente.

Ainda paralisada pelo choque, Ginevra percebeu que um tipo de alegria insana dominava seu marido, e, pela primeira vez, sentiu medo dele. Não por ela mesma, ela era o escudo que ele tinha contra as pessoas que a amavam, mas por Harry. E, em meio a dezenas de pensamentos confusos e díspares que corriam por sua mente, apenas um estava claro: ela não permitiria que isso acontecesse.

Convivera com Riddle tempo suficiente para saber que ele jamais esmorecia em seus propósitos e decidiu que, agora, cabia a ela impedi-lo. E para conseguir isso, sabia que estava na hora de jogar com as peças que Riddle usava. Era sua única chance.

"…Baby, I compare you to a kiss from a rose on the grave

(Baby eu comparo você ao beijo de uma rosa no túmulo)

The more I get of you, stranger it feels, yeah

(Quanto mais eu conheço você, mais estranho parece)

Now that your rose is in bloom,

(Agora que sua rosa está desabrochando,)

A light hits the gloom on the grave

(Uma luz bate nas trevas sobre o túmulo)

As I compare you to a kiss from a rose on the grave

(Conforme eu comparo você ao beijo de uma rosa no túmulo)

The more I get of you, stranger it feels, yeah

(Quanto mais eu conheço você, mais estranho parece)

Now that your rose is in bloom,

(Agora que sua rosa está desabrochando,)

A light hits the gloom on the grave…

(Uma luz bate nas trevas sobre o túmulo...)"

Durante toda a sua estadia na Mansão, Ginny havia entrado na biblioteca uma única vez. O lugar estava repleto de obras raras e volumes misteriosos, alguns livros continham magias tão poderosas que era possível sentir a sua presença. E não havia um único volume que não fosse sobre as Artes das Trevas.

Foram dias até que a ruiva encontrasse o que procurava, entre as prateleiras abarrotadas, e mais dias até que tivesse coragem de abrir o livro e dedicar-se ao que pretendia. Uma parte de sua consciência lhe dizia que se levasse a cabo o que havia se disposto a fazer, ela seria exatamente o tipo de pessoa que Riddle era, fria e cruel; outra parte dela, no entanto, lhe assaltava com pensamentos e pesadelos, sobre a morte de Harry e de sua família, e lhe fazia ver que, por pior que fosse, não lhe restava outra alternativa.

Dedicava todas as suas horas livres ao estudo da magia que pretendia realizar, apesar de suas constantes dúvidas. Levaria semanas para aprender e conseguir fazer tudo corretamente. Ela apenas desejava que não fosse tarde demais.

Numa manhã chuvosa, em que estava absorta na leitura do livro, Tom parou à porta da biblioteca e ficou a admirando por alguns minutos. Sentindo-se observada, a ruiva levantou o olhar e, ao vê-lo, sentiu a raiva ferver dentro dela. Seu marido, no entanto, parecia alheio ao olhar carregado de ódio que lhe era dirigido, aproximou-se dela e depositou-lhe um breve beijo nos lábios.

- Estarei ausente por algumas semanas, Ginevra. Assuntos a tratar na Bulgária, antes que eu resolva certas questões aqui.

Ela penas assentiu com a cabeça e ele sorriu, satisfeito, estendendo a mão direita e segurando-a pela nuca, dando-lhe um beijo verdadeiro desta vez. Por mais avessa que estivesse aos beijos dele, a ruiva obrigou-se a corresponder; não podia permitir que ele desconfiasse de nada.

Interrompendo o beijo, ele acariciou a face dela mais uma vez e a deixou só, parecendo mais confiante do que nunca; e a ruiva podia imaginar o porquê. Tom julgava conhecê-la tão bem, a garota frágil e facilmente ludibriada, a grifinória honrada que jamais usaria um feitiço das trevas contra alguém, que ele não se sentia nem um pouco ameaçado pelos riscos que um pacto de sangue, como o que havia realizado, oferecia; imaginando que ela jamais o prejudicaria.

Tom Riddle nunca estivera tão enganado.

"... veja eu posso flutuar melhor do que você pensava..."

O inverno já havia começado, e a neve cobria tudo mais uma vez. Tom voltaria àquela noite e Ginevra sabia porque podia senti-lo voltando. Nunca pensara que fosse possível estar tão afinada com os sentimentos de alguém como estava agora, através do pacto.

Não levou muito tempo para que conseguisse organizar tudo o que precisaria para a noite. Faria todo o necessário em seu quarto, o lugar do primeiro feitiço das Trevas que fizera; o lugar do último que faria.

Ao cair da tarde, dispôs velas brancas por todo o chão do quarto, dezenas delas, e as acendeu com um único aceno da varinha. Ela teria perdido minutos acendendo-as uma a uma, mas nunca tivera tanta força como tinha agora. Era o poder de Tom que ela partilhava e do qual nunca havia se utilizado. As velas deixavam um círculo em frente à lareira, que estava apagada. O ar estava parado, todas as janelas estavam fechadas, e as únicas coisas a perturbá-lo era a respiração de Ginny e os acordes da caixinha de música que jazia aberta, ao pé da cama. A ruiva trajava uma camisola branca, os braços e o colo nus, quase indistinguíveis da cor do tecido.

Sentiu quando Tom entrou na casa, e não demorou para que ele adentrasse o quarto e fechasse a porta atrás de si, estacando ao ver a mulher emoldurada pela luz das velas, ao som daquela música entorpecente; pareceu levar um momento para reconhecê-la.

- Ginevra? – ele chamou, tentativamente.

Ela admirou-o por alguns segundos, enquanto ele caminhava em sua direção; as vestes impecavelmente negras, salpicadas de flocos de neve, o roso pálido que emanava frieza... Era tão belo. E ele acabaria com tudo.

No momento em que o moreno entrou no círculo feito pelas velas, Ginevra estendeu a mão esquerda à frente e chamas surgiram entre os dois, uma ventania gelada começou a soprar, agitando os longos cabelos da mulher, enquanto todas as velas apagavam-se sozinhas, no mesmo momento, como se fossem uma. A única fonte de luz, agora, eram as chamas entre eles.

- O que... – ele começou, mas Ginevra estendeu a mão direita sobre o fogo, segurando um pequeno punhal e deu início ao feitiço antes que Tom tivesse tempo de impedi-la.

- Arderam, arderam; as cicatrizes indestrutíveis deixadas pelas palmas de minhas mãos... - enquanto falava, fez um corte profundo no antebraço e seu sangue caiu sobre o fogo, que pareceu alimentar-se dele e brilhar ainda mais forte, enquanto o vento aumentava. A voz dela saía entrecortada pelas lágrimas que caíam, mas ainda assim, clara o suficiente para que ele ouvisse cada palavra.

- Ardeu, ardeu; o lugar de nossa promessa nunca mais retornará...

- Pare! – ele pediu, em voz alta, e a ruiva constatou, com certa satisfação, que havia temor nas feições de gelo.

- Pelo sangue unidos, pelo sangue entrelaçados, que este mesmo sangue nos dê caminhos separados.

- PARE! – ele gritou, no momento em que a ruiva percebeu que ele tentara repeli-la por magia e não havia conseguido, seus poderes os tornavam iguais e o feitiço já começava a fazer efeito.

- Não há o que o fogo não destrua, pelo sangue que nele cai, que a essência destruída seja a sua. Todo poder que tens em ti, que a mim pertença; que nossa força resida agora em mim, e que nada de mal me aconteça.

Tom caiu de joelhos a sua frente, enquanto as lágrimas ainda rolavam pelo rosto da jovem.

- Ginevra... – ele falou, como um apelo. Ginny o encarou nos olhos, sem piedade, e sentiu todo o poder do homem escoar dele e inundá-la. Ele estava fraco e ela precisava terminar o que havia começado.

- Que arda, que arda, todas as feridas abertas por ti, espelhadas em tua própria alma. Que queime, que queime, as chamas o consumirão sem pesar ou volta. Que doa, que doa, como o toque de gelo eterno sobre tua pele. Ardendo, ardendo, que tua vida escoe e nada mais reste.

Ginny observou, entre horrorizada e satisfeita, cortes se abrirem na pele pálida, como se facas invisíveis estivessem o atingindo, e o moreno contorcer-se pela dor da maldição que ela havia lançado.

- Pelo pacto que fizemos, o poder que possuía, agora uso contra ti, para que pague por tudo que fez. Que o fogo arda e consuma, rápido e sem piedade. Que esse seja o fim, e que não haja mais volta.

Ele a encarou e Ginny não desviou o olhar.

- Há mais de mim em você do que eu imaginava, Ginevra. – foram as últimas palavras que ele disse, que saíram deformadas pela dor. O corpo dele ficou imóvel e a respiração não demorou a parar. Ela ajoelhou-se ao lado dele e chorou; de uma maneira estranha, havia amado aquele homem, e agora teria consigo uma parte dele para sempre.

"…Now that your rose is in bloom,

(Agora que sua rosa está desabrochando,)

A light hits the gloom on the grave…

(Uma luz bate nas trevas sobre o túmulo...)"

A criança dormia tranqüilamente no berço, e sua mãe correu a mão pela pele pálida, carinhosamente, sorrindo para filho. Sentiu dois braços fortes a envolverem pela cintura e virou-se, encontrando um par de olhos verdes sorrindo para ela. A ruiva sorriu de volta.

Fazia quase três anos que Harry e seus irmãos a haviam resgatado da Mansão, consumida pelas chamas, levando junto com elas Tom Riddle e tudo que ele representava. Seus seguidores se dispersaram e, exatamente como ela previra, comunidades mágica e não-mágica estavam definitivamente separadas. Um meio termo entre o que Harry e Tom desejavam.

Depois de seu resgate, fora perdoada por sua família e por Harry que, assim que soube de seu estado, não demorou a pedi-la em casamento. Alexander Weasley Potter tinha, agora, dois anos e meio, e eram raras as pessoas que o associassem a Tom Riddle. Os cabelos negros e lisos, olhos castanhos e pele alva, era uma criança adorável.

Vendo Harry desviar o olhar para a criança e sorrir, ela sentiu-se aquecida por dentro. Beijou o filho suavemente no rosto e seguiu seu marido para fora do quarto.

Grossos flocos de neve entraram pela minúscula brecha deixada na janela e pousaram sobre as mãos e acariciaram o rosto do pequeno, que sorriu, mesmo dormindo; o toque frio da neve zelando por seu sono, e a brisa suave e gélida embalando seus sonhos com um homem de gelo envolto em chamas que prometia, todas as noites, que guiaria seus passos.

N/a: Obrigada a guta, que betou, a telle que fez a capa , e às meninas que já leram. Valeu -

Qualquer pessoa de noção teria escrito algo mais consistente e menos... macabro, e eu juro que tem muita cena aí que eu não faço idéia de onde saiu. . Juro.

Bom, explicações básicas dadas,

Espero que tenham curtido a minha primeira T/G!! Comentem, por favor!!!!!!!!!!!!

Bjs pessoal!