CARTAS

I – Carta à Sra Potter:

Querida Mãe,

Hoje escrevo porque a saudade que sinto é mais forte do que qualquer outro sentimento. Não sei ao certo se é por causa do Natal e eu me sinta solitário, vendo muitos alunos voltando para suas famílias e reencontrando seus pais e irmãos.

A verdade é que sinto a sua falta. Não me lembro muito de seus carinhos, ou da atenção do papai, mas acredito que tenham sido pais amorosos... Não sei se amaldiçôo meu destino por ter me privado da companhia de vocês, a verdade é que é muito difícil ter não somente o meu, mas o destino de várias famílias bruxas nas mãos.

Dumbledore deve ter contado a vocês sobre a profecia... Depois que Sirius se foi tudo ficou mais confuso para mim, parece que tenho que me tornar adulto mais cedo, sendo que já fui privado de ser criança desde sempre.

Isso foi uma preparação? A família que me restou nunca me amou, nunca aceitaria, por exemplo, que eu passasse os Natais com eles; aliás, tenho certeza de que não me querem em nenhum dia de suas vidas... Eu não vou mentir, mãe, eu sei que Tia Petúnia é sua irmã, mas não a amo. Dizem que retribuímos o amor que nos dão da mesma forma, mas ela me ensinou a não ter nenhum tipo de afeto pelos Dursley, por isso espero que me desculpe, porque apesar dela não gostar de mim, me acolheu, a contra gosto, mas acolheu...

Apesar da solidão que sinto em relação a você e ao papai, consegui em Hogwarts algo muito valioso. Consegui verdadeiros amigos, pessoas em quem posso confiar. Antes de Hogwarts, Duda sempre ameaçava quem chegasse perto de mim e ainda em Hogwarts sei que tem muitas pessoas que chegam perto de mim por causa da minha "fama"... Eu queria, pelo menos uma vez, não ser famoso por causa da morte de vocês...

Ainda não contei a eles sobre a profecia, tenho receio de que se souberem que eu tenho que ser morto ou matar Voldemort eles se afastem de mim.

O Rony é de uma família de bruxos tradicional, puro sangue. Provavelmente conheceram seus pais ou já ouviram falar no nome Weasley. Ele tem seis irmãos e a Sra Weasley cuida de mim como se fosse um deles. Espero um dia poder retribuir o que fazem comigo, eles merecem. O Rony é meu melhor amigo, é muito legal e inseguro também, por isso se atrapalha nas lições. Ele tem medo de que não seja tão bom quanto seus irmãos, mas não se dá conta de que é único.

Já brigamos uma vez e voltamos a nos falar logo, o que na época pareceu uma eternidade. Foi na mesma época em que vi você e papai, através daquela ligação entre a varinha de Voldemort e a minha...

Hermione é minha outra amiga. Tem assuntos que só trato com Rony, mas Mione tende a ser sempre mais racional. Ela é muito inteligente e nos ajuda com os estudos. Sendo uma bruxa nascida de trouxas, como você mãe, ela se esforça muito nos estudos – de forma exagerada, eu acho...

Mione e Rony brigam muito, acho que se gostam, porém não conseguem dizer o quanto... Ou talvez já estejam namorando e não me contaram... Esse fato fez com que eu me afastasse um pouco, sentia que estava invadindo o espaço dos dois. E volto a ser o que sempre fui, um solitário.

Sei que ainda tenho outros amigos, como o Neville Longbottom ou o Dino Thomas, mas nunca serão a mesma coisa que Rony e Mione e muitas vezes acabo me isolando por opção.

Talvez eu devesse arrumar uma namorada, sei lá. Já namorei Cho Chang, apanhadora do time da Corvinal, porém na maioria dos nossos encontros ela chorava lembrando de Cedrico Diggory, antigo namorado. Ele era apanhador da Lufa-Lufa, acho que a senhora o viu naquele dia, no cemitério. Ele foi morto pela varinha de Voldemort, pouco antes dele recuperar novamente o próprio corpo.

Fico pensando se Cho não se aproximou de mim para ficar lembrando de Cedrico. Prefiro nem saber...

Depois de tudo o que aconteceu, desde que descobri que sou bruxo, fico mais conformado de não ser igual aos outros, tanto trouxas quanto bruxos. Descobri que tenho responsabilidades e parece que a vida de muitos bruxos está nas minhas mãos, além da vida do próprio Voldemort e o meu próprio destino, claro. Não queria me tornar um assassino como ele, mas acho que não tenho mais escolha. Darei o melhor de mim, por você e papai e pelos meus amigos.

Este ano eu passo o Natal em Hogwarts, como sempre (exceto pelo ano passado, passei na sede da Ordem de Fênix) e agora tenho que ir. Rony está me apressando, porque não quer perder o banquete.

Apesar de saber pouco sobre você e o papai, eu quero que saibam que eu os amo muito, agradeço por terem lutado por mim até o fim e espero que um dia sintam orgulho de me terem como filho. Prometo não decepcionar.

Vou mandar minha coruja, Edwiges, com essa carta. Não sei para onde ela vai, não sei se vai localizar os destinatários. Agora que me dei conta de que não sei sequer onde vocês estão enterrados, mas hoje mais do que nunca, eu precisava escrever tudo o que sentia para vocês.

Feliz Natal.

De seu filho,

Harry.

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No dia seguinte, Harry acordou com Edwiges em sua cabeceira.
Ela não trazia mais a carta, apenas um lírio em seu bico. Ele sorriu.