IV – Ao meu amigo e irmão

Godric's Hollow, outubro de 1981

Enquanto preparava o café da manhã daquele domingo ensolarado, o barulho da torradeira chamou a atenção da Sra Potter.

– Querido, uma carta. – disse ela, assim que pegou a folha de pergaminho, praticamente fervente e colocando-a sobre a mesa.

Tiago Potter desceu as escadas quase correndo, colocando seu filho, Harry, no cercado que tinham na sala. Examinou o pergaminho.

– Ah, é do Sirius. – disse ele, sorrindo marotamente – Bem pensado, se fosse por coruja poderiam interceptar.

– Ainda bem que ele não manda mais pela chaleira – Lílian riu, lembrando da última carta.

Tiago não respondeu, apenas se sentou em sua poltrona favorita e iniciou a leitura.

Caro Pontas,

Espero que esta encontre você e sua família bem. Faz mais ou menos um mês que não o vejo, sinto muita a falta do meu irmão e amigo mais querido.

Eu sei que está acostumado com nosso espelho comunicador, mas onde estou é melhor não chamar muita atenção quanto a falar com espelhos na frente de trouxas, por isso o deixei em casa. E sorte a sua que estou disposto a escrever, você sabe o quanto eu odeio cartas...

Se estiver – e eu sei que está – bem, quer dizer que a Lílian toma conta de você e do pequeno Harry muito bem. Realmente vocês se merecem, eu sei disso desde que percebi como ela é tão teimosa quanto você e te esnobou pela primeira vez.

Desculpa te confessar isso agora (e sorte a minha que é por carta) mas era muito engraçado quando a Lílian te esnobava e você vinha chorar suas mágoas conosco, então saíamos para nossas aventuras nas noites de lua cheia.

Por falar em lua cheia... Eu sei que podemos estar cometendo um erro, afinal de todos nós o Remo sempre foi o mais sensato, mas não há como negar que ele anda distante.

O Pedro me abriu os olhos quanto a isso e não nego que fiquei decepcionado com o Remo. Eu sei, você provavelmente está dizendo que não temos certeza, só que também não podemos arriscar a segurança da sua família. Você sabe, lobisomens nunca foram muito confiáveis, são muito influenciáveis.

Eu sei o que você está pensando e peça para a Lílian não fazer "aquela cara" que eu sei que está fazendo agora. Ela sabe que nunca me importei com o fato do Remo ser um lobisomem, mas os fatos são inegáveis: ele anda distante, por mais pacato que seja, é um lobisomem que pode ser manipulado.

Encontrei com o Remo no Beco Diagonal antes de partir. Ele me pareceu normal, fez perguntas sobre você, eu neguei onde você estava, claro. Não sabe como me senti chateado por ter mentido pro Remo, mas não tive escolha. Ele sabe que Voldemort quer pegar vocês e me perguntou se não usou o feitiço "Fidelus". Como se ele já soubesse que você pediu que eu fosse o fiel do segredo.

Pois foi aí que eu tive uma idéia. Acho que é a melhor até agora. Imagine só: se suspeitarem que sou o fiel do segredo, então deixe que venham atrás de mim, enquanto seu segredo é guardado por outra pessoa!

Já sei o que está pensando: "Dumbledore se ofereceu", mas eu acho que tem que ser algo entre nós, entre os marotos, entende? Eu sei que o Remo fazia parte, mas nas atuais circunstâncias não podemos contar com ele, então... Por que não o Pedro?

Não pense que é mais uma brincadeira, Tiago. Eu não brinco quando se trata de Voldemort, você sabe disso – tente convencer a Lílian também, por favor. Agora, imagine só: faremos aqueles idiotas perseguirem a pessoa errada (e você sabe que não vai ser fácil me encontrar) enquanto que o Pedro estará bem escondido, tranqüilo e guardando o seu segredo sem a menor suspeita!

Cá entre nós, quem suspeitaria do Pedro? Mesmo depois de adulto, ele continua... você sabe que ele nunca foi tão corajoso assim, não é? Ninguém pensaria que você fosse escolher alguém como Pedro para fiel do segredo...

Que droga, vamos mudar de assunto! E aproveite que hoje estou com muita paciência para escrever – eu mesmo estou surpreso, acho que nunca escrevi tanto! Mas enfim, até agora eu perguntei de você e da Lílian e não perguntei do pequeno Harry. Acho que vai gostar disso, achei um pomo de pelúcia e darei de presente a ele quando chegar. Mas não vá pressionar o garoto, espere ele pelo menos começar a andar para ensiná-lo a voar numa vassoura, certo?

Queria ver a cara da Lílian tentando arrumar o cabelo que ele herdou de você, aliás, ele herdou praticamente todas as suas características! Uma pena, ele não vai ser bonito então... risos.

Há um outro assunto que eu queria contar e se eu souber que você riu, juro que parto a sua cara... Lembra que eu disse que não deixaria nenhuma garota colocar uma coleira em mim? Pois é, retiro o que eu disse... Depois que conhecia a Claudia passei a repensar essa história de constituir uma família.

Tudo bem, você com certeza deve estar rindo só porque sabe que eu nunca me dei em relacionamentos, mas é que ela é diferente. Espere e verá. Se não se incomodarem, gostaria de apresentá-los, acho que a Claudia vai se dar bem com a Lílian.

Dentro de uma semana estarei de volta e irei direto ver como estão, bem a tempo da festa do Dia das Bruxas. Pense no que eu lhe contei sobre o Pedro.

Saudações do seu amigo e irmão,

Sirius.

Tiago dobrou a carta, risonho e pensativo. Harry brincava com o móbile do cercadinho, vários pomos sobrevoando sua cabeça. Lílian estava sentada no braço da poltrona, acompanhando a leitura do marido.

– Não acredito que Remo seja influenciável – disse ela, quase imediatamente.

– Também não quero acreditar – Tiago se levantou e caminhou em direção a Harry – Ainda preferia que fosse Sirius, mas... Talvez ele esteja certo, Pedro é o menos suspeito de ser o fiel do segredo... – tornou a observar o filho tentando pegar os pequeninos pomos – Mas se Sirius estiver errado, nunca me perdoaria por não ter confiado em Remo, em nenhum deles.

Tiago sentiu a mão de Lílian em seu ombro. Virou-se e ela sorria de forma graciosa.

– Seja lá o que decidir, saiba que eu estou com você. – Tiago a abraçou, se sentindo confortado pelo apoio da esposa.

O pequeno Harry continuava brincando com o móbile. Vendo os pais se abraçando, começou a balbuciar e pedir colo também, sem saber do tipo de conseqüência que aquela escolha traria em sua vida.