VII – Ao meu amigo e irmão II

Caro Pontas,

Faz muito tempo desde minha última carta. Aquela última e maldita carta que antes não tivesse escrito. Permaneci 12 anos em Azkaban; tempo suficiente para refletir e pensar no que aconteceu e por quê.

Nunca amaldiçoei tanto a minha existência como no dia em que vi seus corpos nos escombros da casa em Godric's Hollow. Naquela noite, ainda pude ouvir o choro de Harry, que era carregado por Hagrid. Eu tinha o direito da guarda Queria acalentá-lo, mas nosso amigo desempenhou bem o seu papel. Ele o levou em segurança, na minha moto. Foi melhor assim, tive certeza de que Dumbledore o deixaria em segurança.

Parece tolice, não é verdade? Se alguém "respeitável" no mundo bruxo me visse agora, invadindo uma casa trouxa, escrevendo com papel e caneta para um defunto, com certeza diria que Azkaban me enlouqueceu. Talvez tenham razão, ou talvez preferissem que fosse verdade. Até alguns dias atrás eu teria preferido; hoje eu fico aliviado de ter a minha mente lúcida, porque consegui, Tiago. Consegui o perdão de Harry, embora eu nunca me perdoe. Ele sabe a verdade, e agora quero desabafar com você tudo o que aconteceu naquele dia. É seu direito saber por mim.

Depois de esconder Rabicho, eu pensei que ficaria tudo bem... Fui um idiota, um cego que queria bancar o herói e enganar a todos. Chamei Lupin de influenciável e olhe só pra mim... E veja quem conseguiu nos passar a perna! Quem pensaria que Pedro era o traidor! PEDRO! Um covarde que molhava as calças só de ouvir falar em Voldemort! Mas não tiro de mim a responsabilidade sobre suas vidas, Tiago... Tenho que ser justo, acabei levando você e sua esposa para a morte... Foi um milagre Harry ter sobrevivido.

Naquela noite, ainda, eu falei com a Cláudia pela lareira da sua casa, destruída quase por completo pela explosão. Não sei o que aconteceu com ela, nem se está viva, mas naquela noite, quando disse que não voltaria até encontrar Pedro ela chorou, como se soubesse o que estava por vir. Por muito tempo pensei nela, mas é provável que ela acredite na versão do Ministério, de que eu era o Fiel do Segredo e me odeie por isso. Mal sabe ela que eu me odeio por não ter sido.

Voltando ao Pedro, aparatei diversas vezes até que o encontrei num bairro trouxa. Ele não é tão burro quanto imaginávamos, Pontas. Veja bem o que o nosso querido Rabicho aprontou: ele corria feito um maricas que sempre foi, mas só agora – só agora – é que me dei conta. Quando eu o encurralei, ele começou a fazer escândalo, dizendo que eu os havia traído, que eu era o espião. Para mim, ele estava delirando, louco, e me perguntei se ele teria agido sob o efeito de um 'Imperius'.

Tentei estuporá-lo, mas ele revidava bem. Pedro conseguiu me cegar no momento em que lancei uma maldição imperdoável – sim, eu queria matá-lo de qualquer forma, então eu só ouvi uma explosão. O quarteirão inteiro foi pelos ares. Mal pude conjurar um escudo. Foi um caos, Tiago... Treze mortos, Pedro desaparecido e dado como morto, deixando apenas um dedo para trás.

Por um momento eu achei que ele tivesse usado toda a sua força para me matar. Cheguei a pensar por breves instantes que ele tirou a própria vida em arrependimento, mas Pedro é covarde demais para isso.

Você pode me chamar de louco agora, muitos o fizeram e ainda o fazem... Mas a única reação que me ocorreu naquele momento foi rir, gargalhar de forma alucinada. Sim, eu gargalhei por Pedro ter conseguido se matar; gargalhei pensando que tivesse conseguido me vingar; gargalhei e chorei ao mesmo tempo de desespero porque eu continuava vivo e você não. Gargalhei e chorei, porque apesar de pensar que ele estivesse morto, eu não estava.

Logo os aurores chegaram e me prenderam. Fui direto para Azkaban e esperei por um julgamento que nunca aconteceu. Por fim, quando vejo Belatriz chegar do próprio julgamento, percebi que haviam me trancado como um louco e traidor. Não me importei da acusação, não estavam totalmente errados. Sou responsável pela morte de vocês, não me importava de pagar pela morte merecida daquele verme.

Não tinha nada alegre para pensar. Resolvi fechar minha mente dos poucos momentos felizes da minha vida, resolvi que não enlouqueceria com os dementadores. Não deixaria que eles me vencessem.

Então, comecei a imaginar se o que tinha presenciado era real. Pedro tinha tanto medo da morte que não lançaria uma maldição que arriscasse a própria vida. Passei a ter dúvidas sobre tudo o que havia acontecido, desde o início, quando Pedro conseguiu fazer com que não confiássemos em Remo, até a explosão. Essas dúvidas duraram anos.

Até que há alguns meses, no último verão – se é que ainda tenho noção de tempo – eu tive certeza. Eu o vi, Tiago. O idiota que nomearam Ministro da Magia, Cornélio Fudge, se não estou enganado, foi fazer uma vistoria em Azkaban e tinha um jornal nas mãos. Eu vislumbrei a figura da primeira página, com uma família de bruxos, todos ruivos. Um dos garotos tinha um rato no ombro. Um rato qualquer para qualquer um, mas eu pude reconhecer.

Precisava ver a cara do ministro quando eu pedi para ler o jornal. Ele parecia aterrorizado só de pensar que estava falando comigo – e veja agora o que a fama não faz, caro Pontas – e me entregou o jornal. Fiquei observando a figura durante um certo tempo, o que pareceu uma eternidade, para ter certeza de que aquele rato que estava no ombro de um dos garotos era Pedro. E o garoto, que tinha a idade de Harry, voltaria para Hogwarts em breve.

Só de pensar no que Pedro poderia fazer a Harry passei a ter pesadelos e quando dei por mim, estava fora do castelo, como cão. Nadei até a terra firme e caminhei ainda por muitos dias até chegar onde queria.

Vi seu filho, Pontas. Realmente era como se eu estivesse vendo você quando estávamos em Hogwarts. Os olhos são de Lílian e ele joga quadribol melhor que você. Remo estava em Hogwarts também, até onde sei ele leciona Defesa contra Arte das Trevas. Também vi Snape. O ranhoso está em lá, lecionando Poções. Por causa dele eu quase fui entregue aos dementadores...

Se não fosse por Harry, agora eu e um hipogrifo estaríamos mortos. Ele tem a sua rebeldia também, aliada á teimosia de Lílian. Faz bom uso da sua velha capa e do nosso mapa, você deve estar orgulhoso.

No fim das contas, falhei de novo e lamento, Pontas. Ainda não me senti vingado em relação a Pedro. Ele conseguiu escapar e eu continuo um foragido do ministério, com a cabeça a prêmio. O melhor de toda essa história é que provei para Harry que nunca os traí e isso aliviou um pouco a minha culpa. Dumbledore também acredita em mim e Remo é meu amigo de novo.

Tenho que ir. Vou fugir para o sul, para que não suspeitem que Harry me ajudou. Além do mais, isso fará o ministério retirar os dementadores de Hogwarts. Soube que eles afetam muito meu afilhado.

Prometo fazer o melhor para seu filho. Não vou decepcioná-lo de novo, Tiago.

Seu irmão e amigo,

Sirius.

Sirius Black deixou a casa dos trouxas numa noite chuvosa, já transformado em cão, com o envelope seguro em sua boca. Não tentou proteger a carta contra a chuva, achou inútil. Chegou no cemitério de Godric Hollow's em pouco tempo, demorando um pouco para encontrar as lápides certas. Por fim, lá estavam elas.

Tiago Potter e Lílian Evans Potter
Protegeram seu tesouro mais precioso até o fim.

Sirius deixou a carta apoiada onde se encontrava um pequeno vaso de flores, encharcado pela chuva. Olhou por alguns segundos a lápide e as lágrimas se misturaram à chuva que molhava seu pêlo.

Ouviu um barulho estranho e decidiu correr, sair dali o mais rápido que podia. Se tivesse olhado para trás, teria visto um cervo branco saindo das sombras, em direção à lápide. O cervo pegou a carta, olhou na direção em que o cão saiu e voltou para as sombras.