VIII – Papel Picado

Querida Hermione...

Rony mal termina de escrever a última letra e já amassa o papel furiosamente. Pega uma nova folha de pergaminho.

"Talvez se começar com 'querida Hermione', ela ache brega, vai saber o que a Mione pensa..." – pensou. "Vou tentar de novo..."

Cara amiga Hermione...

"Não, não! Tudo errado! Quero dizer, ela É minha amiga, mas não quero que seja SÓ minha amiga" – pensou, enquanto amassava novamente a folha. "Talvez o método anterior fosse melhor."

Querida Hermione.

Rony franziu a testa, a pena roçando levemente seu rosto, pensava no conteúdo apropriado e à altura de Hermione.

Querida Hermione,

Eu sei que você virá para a Toca ainda hoje, mas resolvi escrever mesmo assim. Queria saber se você está bem...

"Que coisa idiota de se escrever, é claro que ela está bem!", pensou rasgando o papel na mesma hora, ao mesmo tempo em que não queria imaginar o que faria se acontecesse algo a ela ou sua família. O papel que jogou parou perto da porta, que se abriu para permitir que Harry entrasse.

– Hei, Rony, o que está fazendo? – perguntou, entrando e se dirigindo direto para a escrivaninha, onde Rony acabara de borrar o que escrevera e se preparava para amassar mais uma folha.

– Hã? Nada... – ele tentou esconder o conteúdo, mas Harry pôde ver o cabeçalho.

– Rony... você por acaso pretende se declarar para Hermione por carta? – perguntou, tentando evitar o riso, inutilmente, claro.

– Não enche! – Rony ficou com as orelhas vermelhas – Além do mais, ela gosta de receber cartas. Já viu quantas cartas ela recebe do Krum? E... não estou me declarando.

– Ela recebe cartas de você também. Vocês se correspondem todos os verões. – Harry deu de ombros. – E se não está se declarando, por que está escrevendo?

– Porque... ah, droga! Tudo bem, estou me declarando... Eu só pensei que se fosse por carta, talvez ela pensasse que fosse... romântico... – ele completou a frase com uma careta. – As garotas gostam disso, não é?

– Bem... Acho que elas gostam que falemos diretamente a elas... – Harry ficou pensativo. Quando começou a namorar Gina, ele simplesmente demonstrou que queria, as palavras ficaram para depois, bem depois.

– Pra você talvez seja fácil, o problema é que... estamos falando de Hermione! Se ela preferiu o Krum no quarto ano, não deve ser difícil de preferir agora!

– Rony, você precisa de mais atitude e menos ciúmes! – Harry aconselhou. Como o amigo continuasse inseguro, sugeriu: – Não quer deixar isso pra depois? Podíamos praticar um pouco de quadribol.

Rony olhou para o campo, o céu tinha um azul convidativo. Voltou seus olhos para o pergaminho e suspirou resignado.

– Seria ótimo... mas se não fizer isso hoje, acho que não vou conseguir nunca! E se ela de repente fica noiva do Krum sem eu ter nem a chance de tentar?

– Pelo menos você está tentando. – Harry sorriu, solidário ao amigo – Certo, então. Vejo você mais tarde.

Saiu da sala ouvindo o som de papel sendo picado. Rony pegava uma nova folha de pergaminho. "Talvez, se eu conseguir escrever mais formalmente..."

Querida Hermione,

Espero que esta página singela chegue em segurança e que você e sua família estejam com saúde.

Rony olhou para o que escreveu. Leu durante cinco minutos.

Fez uma careta e amassou o papel. "Que lixo, não é meu estilo, definitivamente". Jogou o papel longe e pegou um novo. "E se eu for direto ao assunto?"

Molhou a pena no tinteiro, pensou no que escrever e começou:

HERMIONE, EU TE AMO!

"Pensando bem, direto demais", pensou, rasgando mais uma folha. Gina entrou no quarto, no momento em que ele pegava mais uma folha.

– Harry disse que você estava escrevendo uma carta para a Mione – disse ela – Para que, se ela vai chegar ainda hoje?

– Não é da sua conta – respondeu ele, rubro. Gina entendeu logo.

– Ah... – ela sorriu, maliciosa – Só uma dica, seja você mesmo. A Hermione mesmo me aconselhou a isso, acho que você devia fazer o mesmo, ela vai preferir assim.

E saiu da sala, com um sorriso maroto no rosto. Rony a acompanhou com os olhos, até a porta se fechar e continuou observando por alguns minutos.

"Ser eu mesmo?", pensou. Olhou para a folha de pergaminho vazia. "Por que não? Parece tão idiota que pode dar certo".

Querida Mione,

Você sabe que eu sou péssimo em palavras e que na verdade odeio escrever cartas, mas esta aqui eu resolvi me esforçar e escrever especialmente pra você.

Eu sei que você está prestes a chegar aqui em casa e que vamos passar um bom tempo sozinhos... Não digo sozinhos, eu e você, quero dizer, não se você não quiser, eu quis dizer que vamos nos reunir aqui em casa, para o casamento do Gui e que podíamos ficar sozinhos... para conversar!

Quero dizer, se você quiser fazer outra coisa... Mas nada de indecente, claro! Não estou pensando em nada disso, é que... só estou tentando dizer que podíamos nos divertir só nós dois durante a festa de casamento. Eu acho que o Harry vai voltar com a Gina, então para não ficarmos de vela, não é melhor ficarmos juntos? Juntos, quero dizer, conversando... Ah, você me entendeu.

Viu só o motivo pelo qual não gosto de cartas?Eu sempre me enrolo com o que quero falar, acabo me confundindo todo. Garanto que você vai ler e vai anotar vários erros gramaticais e de concordância. Mas quer saber? Não ligo. Pelo menos hoje não.

Apesar de eu ter curiosidade de saber se você encontra muitos erros nas cartas do Krum. Ele não conseguia falar nada na nossa língua, imagino a letra dele como deve ser. Ah, por favor, não venha brigar comigo por causa dele de novo, isso cansa. O problema com o Krum é que parece que ele veio se meter entre nós e isso me incomoda. Entre nós, quero dizer, eu, você e o Harry. Acho que você entendeu.

Não achei justo, afinal somos uma equipe. E não venha dizer que a Lilá também caiu de pára-quedas, você sabe que ela, hm, foi um erro.

E quer saber? A verdade é que mesmo quando eu estava com a Lilá, eu só pensava em você. Queria que você ficasse com raiva, porque soube que você namorou o Krum. Senti ciúmes, afinal. O que mais poderia sentir?

Enfim, depois de toda essa ladainha, você deve estar se perguntando por que estou escrevendo, já que você chegará daqui a pouco. É que tem coisas que fica difícil dizer frente a frente, Mione. O Harry me disse que talvez você preferisse, mas eu não consigo.

E não venha brigar comigo por causa disso. Você não sabe o que é me preocupar com a minha família e ainda com você e o Harry. Principalmente com você, e por isso é melhor você não acompanhar o Harry.

Você provavelmente vai dizer que sou egoísta e que deveria apoiá-lo, e eu apóio. Não vou deixar Harry na mão como deixei no quarto ano, mesmo porque não me esqueço de como você me cobrava isso naquela época. Eu prefiro ir com ele sozinho, a levar você com a gente. É muito arriscado e eu não ia querer te ver machucada, nem o Harry.

Eu sei que você é uma ótima bruxa, sabe todos os livros de cor, é cem vezes mais inteligente do que eu e talvez conseguisse lidar melhor com comensais. Mas Mione... a verdade é que gosto de você e por isso não queria que você fosse.

Talvez você pense que eu digo isso tudo porque somos amigos. Bem... a verdade é que eu queria ser muito mais que amigo seu, Mione. Eu pensei que o ciúme que senti do Krum era porque você é minha amiga e tudo mais, mas não era isso. Eu entendi depois que comecei... bem, depois daquele dia dos canários na sala de aula vazia.

Outra coisa que eu odeio em cartas é toda essa enrolação. Eu comecei a escrever com um único objetivo e não consegui falar nada.

Só queria que soubesse, que apesar de ser você me achar um idiota insensível, que aconteça o que acontecer, eu gosto de você Mione.

Na verdade, vai além de gostar, eu te am...

– Rony! – a porta se abriu e Hermione entrou na sala.

Automaticamente, Rony amassou a folha de papel e a apertou com força na mão. Seu rosto ficou vermelho.

– O que você faz aqui tão cedo? – ele perguntou, um pouco ofegante pelo susto.

– É bom te ver também – Hermione respondeu, azeda. Seus olhos pararam nas mãos de Rony – O que estava escrevendo?

– Nada – ele respondeu. A intenção era que a carta fosse entregue por coruja, nunca em mãos – Hm... vamos descer. Já falou com o Harry?

– Ainda não – ela voltou sua atenção para a porta. – Por onde ele anda?

– No campo, acho. – Rony respondeu, se levantando e soltando o papel – Vamos, melhor falarmos logo com ele.

– Por acaso é ele ali, jogando? – Hermione apontou para a janela.

Rony se virou e não viu ninguém.

– Onde?

– Acho que foi impressão minha. Vamos?

Saíram juntos do quarto, Rony sem saber que Mione guardara aquele papel amassado em seu bolso.

Mais tarde, naquele mesmo dia, ela estava exultante pela Toca e não se cansava de sorrir. E quando Hermione respondeu uma carta a seu amigo Krum, Rony finalmente entendeu o que Harry quis dizer sobre tomar uma atitude.