Capítulo 2

Mil coisas se passavam pela cabeça da garota. Seria uma armadilha? Afinal, ela era a melhor amiga de Harry e o professor nunca tinha feito nenhum esforço para esconder que a odiava. Mas ao mesmo tempo a lógica lhe dizia para confiar nele. Não havia qualquer vestígio de arte das trevas na carta, portanto, aquela varinha só poderia ter se materializado para ela se a pessoa que havia realizado o feitiço tivesse boas intenções.

Mais uma coisa: Dumbledore era o bruxo mais poderoso do mundo moderno. Caso ele tivesse sido enganado por Snape, seria este quem deveria levar tal título. Dumbledore confiava em Snape e devia ter um bom motivo pra isso. Quem era ela então, mesmo diante das evidências, para discordar?

Resolveu que quanto antes descobrisse o que estava acontecendo, mais rápido poderia tomar uma atitude. Colocou suas vestes bruxas, apanhou a varinha e se lembrou de um detalhe: seria a mansão Snape a única casa em Spinner's End? Provavelmente não. Bom, o pai do professor era trouxa, portanto não seria uma típica casa bruxa, tal como a dos Wesley. Contudo, era uma mansão, e com certeza Eileen Prince deveria ter Elfos Domésticos para fazer seus serviços. Mesmo que ela tivesse morrido a muito tempo, a magia dos elfos os prendem a casa de seus senhores e lá eles devem servir até a morte... coitados – ela pensou. Um dia ainda retomaria suas idéias sobre o FALE.

Com esses pensamentos, Hermione aparatou e poucos segundos depois apareceu na rua onde morava o professor. Apesar de ainda ser madrugada, fez um feitiço desilusório em si mesma. Precaução nunca é demais, principalmente nos tempos em que estavam vivendo. Como havia pensado, realmente havia várias casas construídas em estilo trouxa ali. Foi caminhando pela rua escura e logo percebeu uma casa que se destacava das demais. A construção era tradicional e elegante. Nada espalhafatosa como a mansão Malfoy, que diversas vezes aparecera no Semanário Bruxo e no Profeta Diário, contudo parecia bem confortável e bem cuidada. Estendeu sua varinha e sentiu uma leve vibração na mesma. Sinal de magia. Realmente, ela havia encontrado. Certificou-se de que havia trazido também a varinha escura em seu bolso. Se seus palpites estivessem certos ela seria devolvida para o dono, não sem muita explicação antes.

OoooOoooOoooOoooO

A menina de cabelos lanzudos bateu à porta. Esperou. Ninguém atendeu. Não se ouvia nenhum som vindo de dentro da casa. Estranho, se o professor lhe mandou uma carta no meio da madrugada dizendo que estava esperando, era porque realmente precisava dela com alguma urgência. Ao se lembrar da carta sentiu uma pontada de tristeza – nem mesmo quando aparentemente precisava de ajuda ele perdia a chance de maltratá-la? É claro que era óbvio que ninguém gosta de ser chamado de "intragável sabe tudo"! Voltou à si e concentrou-se no motivo pelo qual estava ali: descobrir a verdade. Bateu novamente à porta. Levou sua mão à maçaneta. Estava aberta. Com a varinha em punho, entrou.

Estava escuro lá dentro. Ainda com o feitiço desilusório sobre si disse: lumos e uma luzinha fraca saiu de sua varinha. Estava na sala. Era ampla e possuía uma mobília antiga. E numa poltrona mais ao fundo percebeu uma forma humana com uma garrafa do lado. Severo havia se embriagado com Wisque de Fogo.

- Nestas condições além de inofensivo ele não será capaz de me dizer o que está acontecendo – pensou Hermione. Chegou mais perto do professor e percebeu que o mesmo, que sempre andava impecavelmente elegante, estava maltrapilho, com a barba por fazer e olheiras profundas. Impensadamente levou a mão de encontro ao rosto do homem e como por reflexo ele acordou.

- Ah, é você – ele disse com certo desdém.

- O que está acontecendo, professor? Porque o senhor está assim? O que houve entre o senhor e o professor Dumbledore? O Harry está mentindo, não está?

- Sempre com muitas perguntas, Srta. Granger. Sente-se. Realmente, só uma grifinória poderia se arriscar a vir atrás de um assassino. Eu matei Dumbledore. Aquele Potter idiota não mentiu.

Neste momento Hermione gelou. O que ela estava fazendo sozinha com o assassino confesso do Diretor? Teria ela se metido em uma armadilha? Decidiu que o melhor a fazer era manter a calma e tentar dialogar, afinal, ela estava armada, ele não.

- Professor, estou aqui não por tolice ou ousadia grifinória. Estou aqui porque confio que Dumbledore é o maior bruxo da modernidade, não o senhor. Portanto, não creio que pudesse tê-lo enganado. E o segundo motivo de eu estar aqui, o senhor me chamou. Creio que tenha algo a me dizer. Se quiser começar, estou pronta para ouvir.

- Muito bem. Acho que não basta dizer. Devo provar. Venha comigo.

Snape se levantou e andou em direção á outro cômodo da casa. No meio do ambiente estava uma penseira de pedra com símbolos enigmáticos esculpidos ao seu redor e, ao lado da penseira, quatro frasquinhos com substâncias prateadas dentro.

- Minhas memórias são suas Hermione.

Por um momento a garota estranhou ser chamada pelo primeiro nome, mas logo se lembrou que ele estava bêbado e não deu muita importância a questão. Na verdade, só o fato de estar diante do assassino mais procurado do mundo bruxo por livre e espontânea vontade e sem sentir medo era algo estranho, mas Hermione não se importou com isso. Por algum motivo que não conseguia distinguir ela confiava em seu professor. Pegou o primeiro frasquinho, jogou seu conteúdo na penseira, mexeu com a varinha e mergulhou nele.

Como que caindo do teto, Hermione se viu na mesma sala onde estivera minutos antes. Ali estavam Snape, Bellatrix e uma mulher muito loura e parecida com Draco Malfoy. Hermione presenciou toda a conversa. Viu os três fazerem o voto perpétuo, onde o professor assumiu a responsabilidade por Draco e por sua tarefa. Como que sendo sugada para fora da penseira, voltou à presença do atual Snape. A menina não disse nada. Achou melhor ver tudo o que ele queria mostrar antes de tirar qualquer conclusão ou fazer qualquer comentário.

Abrindo o segundo frasco, jogou seu conteúdo na penseira e novamente mexeu com a varinha. Entrou ali e caiu na floresta proibida. Viu que o Diretor e Snape discutiam.

- Por Merlin Dumbledore! É claro que eu não vou cumprir esse voto perpétuo! Eu o fiz com plena consciência de que deveria ser o mais útil possível à Ordem até que chegasse o momento da minha morte!

- Escute bem Severo – disse Dumbledore – antes de fazer qualquer voto com Narcisa, você jurou fidelidade a mim. Você vai fazer o que estou dizendo que deve ser feito. Essa é minha última palavra: você deve me matar. Apenas assim poderei ter alguém fiel à mim ao lado de Voldemort e apenas assim Harry Potter poderá se aproximar o suficiente dele para cumprir sua missão. É isso o que digo Severo: eu já estou velho, pouco tempo de vida me resta, em pouco tempo já não poderei fazer muita coisa pela Ordem. Contudo, você pode. E mais um detalhe, quando eu morrer, você será o fiel do segredo da ordem. Você será meu sucessor.

- Mas Dumbledore, mesmo que eu obedeça, quem acreditará em mim, um Comensal da Morte assassino? Todos desejarão ver minha alma sugada pelos dementadores e é isso que acontecerá antes que eu consiga me aproximar da Ordem ou de Potter!

Severo, meu filho, eles acreditarão. Apenas siga seu coração.

OoooOoooOoooOoooO

Como que sendo puxada pelo umbigo, Hermione retornou à sala na mansão Snape. Mas que espécie de conselho era aquele que Dumbledore dava ao professor? E desde quando Snape sabia o que era ter um coração?

Novamente a garota preferiu não dizer nada. Percebeu que o mestre de poções tinha os negros olhos fixos nela, estudando todos os seus movimentos, mas isso não a intimidava. Na verdade, ela não sabia muito bem o porque, mas não se sentira intimidada nem mesmo antes de saber que o professor não era traidor. Pegou o terceiro frasquinho, repetiu os procedimentos tomados nas vezes anteriores e mergulhou em seu conteúdo.

Estava na torre de astronomia. Viu o símbolo da morte no céu, mas não era para prestar atenção à paisagem que estava ali. Draco Malfoy estava cabisbaixo com a varinha abaixada próximo ao diretor. A garota concentrou suas atenções no mestre de poções. Percebeu que a expressão normalmente tão inabalável de seu professor exprimia ódio sem limites. Com certeza Severo Snape não era o homem mais feliz do mundo naquele momento. Viu quando ele se aproximou do diretor e chegou mais perto também. Ouviu as últimas palavras de Dumbledore: "Severo, por favor".

OoooOoooOoooOoooO

Nesse momento tudo ficou claro para a menina. Voltando à mansão, com algumas lágrimas escorrendo pela face, ela percebeu que tudo o que Severo fizera fora cumprir fielmente as ordens de Dumbledore. Este suplicava pela morte, não pela vida. Realmente, ele fora fiel até a morte. – Espere: desde quando o ela pensava no professor Snape como "Severo"? E qual relação havia entre o professor seguir seu coração e chamá-la no meio da madrugada?

Hermione pegou o último frasco. Imaginou o que mais o professor desejava mostrar-lhe. Olhou para o homem no canto da sala e viu um relance de medo em seus olhos. Jogou o conteúdo do frasco na penseira e sentiu medo também.

A menina sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. Estava diante do Lorde das Travas sentado em seu trono. Ouviu tudo o que ele disse para Bellatrix e para o professor. Viu Lestrange ser morto e uma grande cama ser conjurada. Ela não precisava ver mais nada ali. Com um esforço tremendo conseguiu sair da penseira antes de presenciar as cenas de sexo que com certeza estavam por vir.

Hermione chorava abundantemente.

- Eu não tive escolha Hermione. Foi uma ordem direta do Lorde das Trevas. Me sinto a pior das criaturas. Além de matar o único amigo que já tive, tive que cooperar na concepção do herdeiro das trevas. Confesso que não sei o que devo fazer. Lembrei-me do conselho dado por Dumbledore na Floresta Proibida. Nunca fui um homem de agir emocionalmente. Não sei nem o motivo de tê-la chamado aqui. Só sei que essa foi a única coisa que me pareceu correta.

A garota não tinha palavras. Instintivamente aproximou-se do professor e o abraçou.

O professor assustou-se com aquele gesto. Não esperava nenhuma reação de carinho da aluna. Na verdade, assustou-se quando percebeu que ela havia atendido ao seu chamado. Depois, pensou que ela seria fria, racional e que apenas lhe daria algum conselho de sabe tudo sobre como deveria proceder com os membros da Ordem. Mas além de tudo ela o havia aceitado. Isso só podia ser... magia!

OoooOoooOoooOoooO

O dia estava amanhecendo. Hermione estava sentada no confortável sofá da sala de estar da mansão Snape. Estava pensando na vida, em tudo o que havia visto naquela madrugada. Severo Snape, por sua vez, estava deitado, adormecido no colo daquela jovem mulher, aproveitando um dos poucos momentos de refúgio que tivera na vida.

OoooOoooOoooOoooO

Há muitos quilômetros de distância dali, na casa dos Riddle, Bellatrix acordava. Percebeu que o próprio Lorde das Trevas havia velado seu sono.

- Ah, Bella! Que bom que acordou. Apenas gostaria de dizer que enquanto você dormia criei um feitiço de proteção sobre você. Enquanto você carregar meu herdeiro no ventre, nenhum feitiço perigoso poderá atingi-la e nenhuma poção mágica terá efeito sobre seu corpo. Sei que você sabe se cuidar e proteger, mas agora sua segurança é um dos meus assuntos mais importante. Creio que a mulher que dará à luz ao meu herdeiro deve ter toda a proteção necessária. – Dizendo isto, o homem com cara de cobra retirou do bolso de suas vestes um pesado medalhão de ouro e esmeraldas e colocou no pescoço da mulher.