Segunda parte da microssérie "O Último Sonhador". Por favor, depois de ler, deixe uma review, comentário, whatever. Eu acho que ainda vou revisar os textos dessa série por eventuais erros de gramática, repetições de palavras e etc. Mas por enquanto, é o que temos. Enjoy


O Último Sonhador

Parte II - O Destemido

Ele encontrou um canto sossegado no domo, não muito confortável devido ao chão frio e duro, mas ainda assim suficiente para recuperar as energias. Deitado e acomodado, fechou os olhos procurando relaxar. Logo, imagens começaram a se formar em sua mente, deformando a realidade ao seu redor.

Gart era diferente dos outros habitantes de Arris, isso era notório. Alguns acreditavam que isso se devia ao fato de ele ter vindo do domo Trann, do outro lado das ruínas ao oeste. Na época em que ele as atravessou, todos se surpreenderam, pois era praticamente impossível passar por ali e continuar vivo.

Foi em Trann que ele nasceu e cresceu. Lá, vivia com outras pessoas. Naturalmente, todos tinham fome e viviam em miséria. Assim como em Arris, o enertron era o único conforto.

Há muitos tempos corriam os boatos de que em Arris havia comida, o suficiente para muita gente. Mas ninguém ousava passar pelas ruínas. Ninguém era tão corajoso ou tão louco a ponto de passar por onde havia inúmeros monstros e mutantes. Para muitos, era o mesmo que cometer suicídio. Para muitos, mas não para todos.

Gart, um adolescente naqueles dias, não suportava sua vida miserável. Não escondia que desprezava quase todos os seus companheiros, aqueles que perderam a esperança por dias melhores. Para ele, eram perdedores, já estavam todos mortos. Eles também não simpatizavam muito com o jovem.

Houve uma época em que comida em Trann era menos que rara. Nem mesmo carne mutante podia ser encontrada. Gart pensou em uma única saída: atravessar as ruínas em busca de alimento. Ele dividiu sua idéia com os outros, mas ninguém aceitou a proposta. Talvez não quisessem encurtar ainda mais suas vidas, ou simplesmente não quisessem seguir o "jovem louco". Ele decidiu não se importar com mais ninguém. "Eles que morressem sozinhos", pensava, pouco antes de sair do seu lar.

Ele adentrou as ruínas com medo, porém obstinado. A única coisa que carregava consigo era uma pistola de raios negros que conseguira em Trann. Essa poderia ser sua única proteção, já que muitos monstros perigosos não reagiam a quaisquer outros ataques.

Ele seguiu sem parar pelos caminhos tortuosos, sempre com a arma preparada para disparar. Ao encontrar qualquer monstro, disparava sem hesitar. Mesmo assim, muitos lhe causaram graves danos e ferimentos. Mas ele não parava por motivo algum, nem pelas fortes dores que sentia no corpo, nem pelo cansaço.

Ele encontrara todos os tipos de monstros, uns incrivelmente fortes. Eles lhe tiraram toda a energia. Gart não andava mais. Ele arrastava os pés, um após o outro, torcendo para que nenhum mutante o surpreendesse. Eis que, no caminho a sua frente, o concreto e os destroços dão espaço ao deserto. Forçando os olhos ele vê ao longe uma forma arredondada com construções ao seu redor. "Arris", ele disse, com a voz fraca. Então sua visão começou a ficar turva, suas pernas cambaleantes, seu corpo débil. A pistola escapou de sua mão e caiu no chão, logo antes de seu corpo tombar inconsciente.

Em sua mente, viu um mundo fantástico e belo, com enormes répteis alados e cidades flutuantes tocando as nuvens. Nesse mundo não havia dor, nem fome ou sofrimento. E, talvez não tão por acaso, também não havia humanos, mas sim uma raça pura e muito mais desenvolvida. O Planeta não sofrera, nunca. Reinavam a paz e a evolução, até o fim dos tempos.

Esse sonho não durou tanto quanto queria, pois ele logo acordou. Ao abrir lentamente os olhos, viu-se deitado sobre algo como um colchão fino, quase confortável, em um lugar sujo e maltratado como seu lar. Passou pela sua cabeça que de algum jeito havia voltado a Trann, mas essa idéia logo desapareceu quando viu se aproximar uma bela jovem com um prato de comida.

Seu nome era Milena. Enquanto o alimentava, ela contou que ele havia sido encontrado na saída das ruínas ao oeste, quase morto. Eles o trouxeram até o domo Arris para que não morresse só e desde então Milena tinha cuidado dele. Ela também disse que ninguém acreditava que ele havia atravessado as ruínas. Achavam que todos em Trann deviam estar mortos. Gart conseguiu prestar atenção só em metade da história, já que passou a outra estonteado com a visão da garota.

Pouco depois de ter acordado ele pôde supôr que a situação por ali não era tão boa quanto ele esperava e logo Milena confirmou. Ela afirmou que eles tinham muita comida no subsolo, mas que ela já estava há muito tempo inacessível. O robô Guardião, que devia ser responsável pela segurança dos habitantes do domo, saíra de controle. Ele atacava todos que tentavam chegar aos depósitos. Os poucos que tentaram passar por ele nunca voltaram, por isso desistiram da comida em Arris e se voltaram para o que podiam arranjar do lado de fora. Gart ficou triste por isso. Seu objetivo não iria se concretizar. Ele acordou de seu sonho por dias melhores.

A muito custo, Milena o convenceu a usar o enertron. Os ferimentos dele eram graves e a máquina iria ajudar curá-las mais rapidamente. Ele odiava usar o enertron, mesmo num caso de vida ou morte, mas as palavras de Milena dobraram sua teimosia. Também foram as suas palavras que o incentivaram a ter esperança de novo e a voltar a sonhar. As mesmas palavras que o fizeram se apaixonar. Porém, não foi só com palavras que ambos trouxeram a pequena Lucile ao mundo.

Com o tempo, Gart percebeu que seus sonhos por dias melhores, impossíveis para os outros, eram de fato extremamente difíceis de se concretizar. Mas ele não se rendeu por isso, pois também percebeu que se esforçando ao máximo por um sonho quase impossível, realizam-se outros com os quais nunca sonhamos.


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Em "breve" (que no meu caso pode ser nunca, mas sejamos otimistas) a terceira e última parte! E aí eu finalmente vou saber se sirvo ou não pra escrever cenas de ação. XP