Disclaimer: Naruto não me pertence.
Peço desculpas pela demora, admito ter parte da culpa, mas o peso emocional do capítulo era mais do que eu costumo trabalhar. Sem contar que tive que reiniciá-lo depois de ter o computador re-formatado. Também sei que esta parte pode ser considerava cansativa por tratar apenas de sentimentos, mas considerei que seria mais real se a fizesse passar por todas as fases da morte.
A verdade é que apenas consegui escrever por dois motivos, primeiro, o fato de a Muri-Poia ter guardado parte da estória, e segundo, uma música de Dead Can Dance, recomendo até que a escutem, busquem por "Dead Can Dance (mais) Mylene Farmer" e substituam o parênteses pelo símbolo, no YouTube, caso desejarem.
Outra coisa, se virem necessidade de uma explicação sobre a divisão territorial, avisem que me encarregarei de organizá-la. Mais uma vez, sinto muito pelo atraso exorbitante, a verdade é que eu estava quase desistindo da estória até perceber que seria puro egoísmo ignorar as reviews.
Sendo assim, aqui está.
Haru no Omoi (Memórias da Primavera)
Capítulo II – Cinerário Primaveril
O corpo se afastou com dificuldade do chão. As mãos e joelhos dando o apoio para a tentativa frustrada de se re-erguer. Os músculos pareciam atrofiados e os ossos rangiam pelo longo tempo sob a chuva. Sentou-se sobre as pernas, tentandoidentificar entre as grossas gotas - que perpetuavam o precipício - o cenário quase surreal que a rodeava.
Não tinha muita certeza do que acontecera antes de apagar. A única imagem que mantinha fixa em seus pensamentos era a lembrança daquele sorriso sarcástico enfeitando os lábios finos e frios.
Seus ombros tremiam levemente, e aquela angústia voltou mais forte que nunca. Seus dedos se fecharam sobre o solo, pressionando as unhas contra a palma, marcando ali parte de algum sentimento que ela ainda não conseguia definir. Realmente acontecera. Depois de tudo, ela sobrevivera.
Ergueu-se ignorando a instabilidade se seus joelhos, e seguiu em direção ao último local onde vira o pai. Ele ainda estava ali. Uns instantes se passaram enquanto ela fitava o corpo pálido e imóvel. Sem mais qualquer outra reação. Dirigiu-se ao que parecia seu o cadáver de sua mãe, surpreendida ao constatar que aquilo não mais a assustava, mas também não a impedia de sentir medo.
Sentou-se ao lado da carcaça – as costas contra a parede, o ombro esquerdo havia se transformado em um buraco carmim que se seguia até a altura do peito. A despedida, que se supunha, deveria acontecer, já passara antes mesmo da senhora estar realmente morta. Não havia o que fazer agora. Assim como não houvera com seu pai.
Engoliu a saliva algumas vezes, tentando fazer com que o bolo preso na sua garganta descesse. Inútil. Não eram lágrimas presas, como sua mãe lhe contara em algumas estórias de amor; não era o medo; nem mesmo a dor da perda. O que sentia, era algo muito maior, e que exigia se si mesma mais que a queda entre suas próprias dores e mágoas. Era a simples e crua vingança.
Ergueu-se novamente. Quedar ali não mudaria aquela situação. Como remanescente, deveria sepultar os corpos, mesmo sabendo que não teria forças para fazê-lo todos.
Seguiu a passos lentos até sua casa, a última de todo o vilarejo. Vazia. Por alguns instantes a saudade a fez hesitar. As pontas dos dedos ainda tocavam a porta, quando a pergunta que ela evitara fazer a si mesma desde que acordara atingia mais forte do que imaginara.
Os lábios tremiam levemente e o choro contido não passava de um resquício do medo que sentira ao perceber que ficaria sozinha. Sabia que não teria forças pra retirar a própria vida. E por isso rezara, mesmo que inconscientemente, com todas as suas forças para que ele reconsiderasse o comentário. Para que ela se tornasse digna de morrer por suas mãos.
Seus passos seguiram até o sofá onde seu pai sentara durante a última conversa que tiveram. Passou os dedos pelo tecido, não havia motivo para evitar as lágrimas. Xingou-se mentalmente ao constatar que seu lado racional tomara conta da situação. Os dedos se agarraram ao sofá, entrando pelo tecido gasto; os olhos, fixos num ponto qualquer da sala, brilhavam pelas lágrimas que escondiam uma pequena mancha negra.
E chorou, não um choro baixo e calmo. A boca aberta buscava, com toda a força de seus pequenos pulmões, o ar ao seu alcance, um ruído esganiçado, vindo da sua própria garganta, corria as ruas da vila que não mais existia. Não havia um motivo certo, era apenas choro, uma forma de apaziguar todos os sentimentos que se acumulavam no coração ainda infantil.
Cortou com pressa todo o caminho que a separava do quarto de seus pais, encolhida em um canto da cama que não mais tinha donos, com o rosto afundado do travesseiro que a mãe usara, as mãos agarradas ao lençol já desgrenhado, o cabelo longo pingando.
Acomodou-se contra o colchão, virando o rosto na direção da parede. Do outro lado, uma garotinha pálida e molhada, com grandes olheiras e orbes inchados, a encarava de volta. Seguiu o reflexo até a cômoda, seus olhos sendo chamados por um pequeno objeto brilhante. Fungando, seguiu em direção ao móvel e, com um sorriso trêmulo, recolheu o que, agora, lhe parecia a lembrança mais querida de sua mãe.
Passou as costas da mão contra os resquícios de lágrimas, impedindo que qualquer coisa atrapalhasse sua visão. Com a ponta dos dedos, traçou todos os contornos do prendedor de cabelos. As lembranças de todas as vezes que ela o usara vindo à tona, a saudade mais real que antes. O bolo que se formava em sua garganta foi engolido enquanto ela passava os olhos pela habitação atrás de algo que pudesse proteger o pequeno artefato.
Três pétalas formavam parte de uma flor de cerejeira de um tom rosado; pequenos detalhes verdes enfeitavam a parte central, e tudo se prendia a uma tira arroxeada, como miolo, jazia uma circular pedra vermelha, incrustada na peça de madeira.
Abriu as gavetas até encontrar um lenço, nada além de um tecido branco. Ajoelhada perante a cama, com um cuidado que suas mãos nervosas jamais tiveram, embrulhou o prendedor, dobrando as pontas até tê-lo todo protegido.
Um pedaço de pano jamais protegeria algo tão delicado, mas ela queria acreditar que, como seus pais haviam tentado protegê-la, ela poderia tentar resguardar aquelas lembranças. Poderia proteger as memórias de uma vida que já se fora. Proteger sentimentos que deveriam persistir. Proteger. De alguma forma... a si mesma.
Passou uma mão na mandíbula, sentindo-a dolorida, não conseguia se lembrar se fora atingida ali ou se era o efeito do choro preso. Com os joelhos marcados pelas tábuas, um pequeno embrulho de coisas que precisaria e uma pá; ela seguiu até onde vira os corpos pela última vez.
As casas estavam todas vazias, o vermelho já não mais fazia parte das paredes, a água fizera o papel de acalmar todos os sentimentos presos em cada canto da cidade fantasma. A terra molhada tornava denso o andar, os músculos doloridos sentiam o peso de seguir adiante. Passou a mão em frente à blusa, enrolando os dedos no tecido empapado e gosmento - tingido de marrom e vermelho. Sentia o diafragma pressionando todos os outros órgãos, num movimento que lhe tirava o ar dos pulmões, cansados de soluçar.
Não precisava mais conter o choro, não havia mais lágrimas. Os olhos secos e vidrados fitavam o caminho que aninhara suas doces lembranças, embalara suas brincadeiras infantis, guardara seus medos.
Os passos lentos e arrastados pareciam ceder ao cansaço a cada pisada, os ombros caídos, castigados pela chuva, tensos pela dor. Agarrava o cabo, espalmando o pé contra a pá até afundá-la o bastante para retirar a terra. Os pingos continuavam a constante e consternadora descida, a umidade não podia ser mais absorvida. A visão daquele céu primaveril tornara-se um quadro borrado em tons de cinza, algo não identificável aos orbes inchados pelo choro.
Foi naquele momento, no exato instante em que a ardência dos olhos, o aperto no peito e todo o mais que ela nunca sentira com tanta intensidade se uniu e formou aquilo que ela viria a chamar de "eu". No momento em que os dedos - com articulações doídas - puxavam corpos até as covas recém feitas, no momento em que a força infantil parecia mais do que qualquer um já tivera, no momento em que a extenuante tensão emocional transformou em paz... Não o tipo de paz que ela desejara ter algum dia, uma placidez tensa, doentia, o tipo de sentimento de um guerrilheiro pronto para morrer por uma causa, mas aquela não era uma causa sua, não era a causa que ela desejara, era a necessidade de ser algo, alguém capaz de tê-los protegido; não o pequeno estorvo que ficara atônito.
Precisava provar que a culpa por ter sido nada poderia ser subjugada pelo esforço em se tornar algo; com essa intenção plasmada como uma pequena tatuagem dolorosa e recém adquirida percebeu finalmente como se sentia: molhada.
Com os olhos fixos no próprio movimento que exercia, notou como a pá batia contra a terra, assentando-a, garantindo que o corpo ali permanecesse – assim como fizera com os quase quinze anteriores -, espirando salpicos de água e barro; então, imaginou. Imaginou como seria poder ceder à precipitação, escorrer calmamente e fundir-se na terra fofa, passando e ignorando tudo em seu caminho, sumir dos olhos críticos dos mortos mais adiante; e assim o fez...
Derramou-se sobre a terra, sucumbindo a tudo aquilo que antes a motivara, mas não se fundiu contra o solo. Apenas dormiu, desejando em seus pequenos devaneios que aquele fosse seu sonho dos mortos.
Continua...
Uhn, um detalhe que pode interessar às mais românticas, haverá cenas SasuSaku apenas a partir da capítulo quatro.
Bem, agradeço a Kiyuii-chan, Kelen Potter, Uzumaki Kawaii, The Freedom Fighter1, Sakura Soryu e Kimochi s2 as quais repondo por "reply" e a:
Morguene Evans: Realmente agradeço a afirmativa animada xD Desculpe novamente o atraso, simplesmente não saía e eu não quis postar algo que não valesse a pena ler. Yup, tudo planejado na minha mente doida xD Agradeço pela atenção e consideração ;D
Uchiha Lara: Olá e obrigada xD É, a diferença deles fica considerável, de uns oito anos, na verdade. Eu já tinha calculado antes e imaginei umas cenas que se tornam muito mais românticas com essa diferença. Aqui está a continuação ;D
-youkokurama-: Bem, aqui está a continuação, sinto pela demora e agradeço a consideração ;D
nanny: Não, não é o Itachi, é o Sasuke mesmo xD A verdade é que essa especulação me agrada, seria interessante imaginar a estória dessa forma xD O Itachi será bem mais digno que no anime e me agrada mais dessa forma, devo dizer o.o'
Muri-chan: Gah, sua pentelha, já falei contigo sobre isso, pois acha logo a estória pra que eu possa fazer propaganda xD
Sakura: Realmente, é um dos casais mais divertidos de serem trabalhados, obrigada pela consideração xD
Agradeço novamente – incluindo aqueles que perderam seu tempo lendo - e espero que tirem proveito do novo capítulo; beijos, abraços e morangos com chocolate pra todas ;D
