Disclaimer:

Naruto não me pertence.


Haru no Omoi (Memórias da Primavera)

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Capítulo III – Gelose na Primavera


Estava consciente, tinha certeza disto. A escuridão de suas pálpebras parecia adquirir um tom avermelhado, denso. Pensou por alguns segundos, ponderando se valeria a pena lutar contra a retenção dos músculos doloridos. Estirada contra algo que parecia ser suave, a vontade de abandonar a suposta paz que a envolvia parecia tão distante quanto a necessidade de seus membros de se mover.

Mais guiada por seus instintos que por seus desejos, abriu os olhos, e aquilo que havia suposto aconteceu. A claridade que tornava carmim suas pálpebras a atingiu, fazendo-a pestanejar até habituar-se. Olhando para baixo, pôde se ver coberta por um fino lençol branco, de fato, tudo ao redor parecia branco. Tentou relaxar contra o travesseiro recém notado, enquanto buscava relacionar a sensação de dormência de algumas partes e de pura dor de outras com a falta de movimentos imediatos.

Lembrava.

Lembrava-se dos fatos e dos detalhes, não menos do que gostaria, não mais do que necessitava. Recordava o toque frio da chuva contra sua espádua, o pegar da lama em seus tornozelos, a força inútil dos ombros caídos e desvelados. Não olvidara vistas baixas, perecidas, ou os estremecimentos, olhos fúnebres, orbes vistosos e divertidos.

De fato, não esqueceria.

Inspirou, tratando de conectar os nervos e ignorar a sensação desconfortável que o movimentar produzia. Ergueu a mão direita até a altura dos olhos, a palma aberta, parecia buscar defeitos além da faixa que a envolvia. Flexionou os dedos, para dentro, para fora, antes de trocar de posição, observando o topo da mão. Estava vermelha e lanhada, e pelo que podia ver a bandagem não escondia nada melhor.

Abria e fechava, aberto e fechado, era tão mecânico.

Seria esse o fim?

Não era nada além de algumas falanges - ossos fortes, fracos - músculos e tendões, pele e pêlos. Teria algum deles a forçar necessária para fazer deste ponto final o início de uma nova sentença?

Não fazia muito tempo, na caminhada vespertina habitual, contada uma história lhe fora, seguida de segundo, terceiro e quarto capítulos. Ia desde contos infantis, ao fulgor da vitória e um canto de amor. Começava com um samurai qualquer – e nessa hora a memória lhe falhava – que se vingaria daquele que assassinara sua amada, buscando-o por tanto tempo que por vezes duvidara da própria busca. Aventuras que fariam os olhos de qualquer criança tornarem-se desejosos, de fato, os seus assim quedaram. Já cansado, o samurai encontrara o que haveria de ser seu arquiinimigo, a vista vaga e as olheiras fundas não mostravam em nada o homem que ele conhecera, o demônio do qual guardara as mínimas feições. Era um velho, idoso em movimentos e ações, podre no que se podia considerar vida. Não obstante, cultivou a raiva, todo o ódio dormente, jamais esquecido, pareceu ressurgir-lhe no peito, bradar-lhe da alma. Desafiou-o. O velho, mirada baixa e voz rouca, fez-se surdo, cantarolando um mantra. Bradou, grunhiu, interpelou-o, exigiu vingança. Quando o cansaço fez-se maior, a cólera albergou o desejo, volvendo-o escuro e, com força desnecessária, segurou-o pelas vestes, disposto a acabar de uma vez com a jornada de tantos anos. Viu olhos mortos, mais que fúnebres, refletida observou mais que dor, notou sua própria imagem; embravecido, ignorou qualquer vestígio de racionalidade e terminou o que levara uma vida tentando completar.

Ela lembrava-se de alegrar-se com o feito do samurai, saltar e congratular seus feitos.

No entanto, seu pai fizera menção de silêncio e continuara dizendo em palavras calmas o que sua tenra idade não fora capaz de assimilar. O samurai estava tão morto quanto o velho, sem para onde voltar, sem uma vida, sacrificara tudo por uma vingança que não durara.

Agora, sentada contra o travesseiro claro, orbes fixos num ponto distante, coração batendo num ponto entre a boca e a garganta, desejou.

Desejou ser o samurai, mesmo que a vingança não lhe valesse ao final da dívida.


- Como espera dizer a ela? – perguntou uma voz calma e pausada, poucos passos da entrada de um dos últimos quartos da ala.

- Como o fiz com todos – contestou, a loira, acelerando o ritmo para garantir a perda da outra.

- Você não o fez – retorquiu.

- Exato – terminou a conversa com um olhar significativo, pousando a mão sobre a maçaneta, disposta a verificar sua paciente.

Encontrou-a sentada, tal qual uma pintura, tronco pendendo para frente, como se duvidasse em aceitar a gravidade, mãos caídas obre o colo, o corpo lanhado e sujo dava-lhe uma idéia moribunda. Não parecia ter evoluído desde quando a encontrara fundida ao chão. Os olhos fixos voltaram-se lentamente, piscando uma e outra vez, mas as lágrimas recusavam-se se mostrar.

- Bom dia – comentou, tentando entabular uma conversa, enquanto dirigia-se à cadeira logo ao lado do leito.

Ela pestanejou lentamente, antes de voltar a encarar a parede. É, aquele não parecia um bom começo.

- Como te sentes?

Ow, pergunta inútil.

Ela piscou uma, duas, na terceira vez as pálpebras não lograram os últimos êxitos, e as bordas encheram-se, os músculos dos lábios, alheios à vontade do rosto, repuxavam, marcando a típica face de aflição. Viu os dedos enfaixados aferrarem-se ao tecido branco, a mandíbula tencionar-se, todo um esforço vão que desbordou em grossas lágrimas por suas bochechas.

O silêncio que a pequena se prestava a exercer não parecia disposto a ceder às tentativas da mais velha. O tempo pareceu opinar o mesmo, arrastando-se até que os olhos verdes pareceram tomar o controle.

- Não queres saber de ninguém? – tentou.

Ela meneou a cabeça, apertando os olhos até que todos os vestígios perecessem. Nenhuma das duas tornou a falar.


Existem aqueles animais – reles, diriam alguns - quase parasitas, que se apoderam da vítima, cercam-na sem mover-se, invadem-na sem serem sentidos, existem num instante tão longo que se tornam vitais, persistem num período tão curto que se tornam necessárias, pequenas drogas que controlam parte de uma vida que não mais se forma por um ser apenas. Era isso que se tornara, alguém dependente do silêncio. A fala lhe soava vaga, não tinha certeza de como seria vibrar as pregas vocais, não sabia se ainda podia vocalizar. De fato, isso não a importava.

Era o quinto dia. Não sabia por quantas horas a mulher resistia a esperar uma resposta que não viria; talvez perguntaria quem era ele, como era ele, o que queria ele. Não estava disposta a responder. Não obstante, após tanto pensar nele, nos mesmos olhos lânguidos por um desejo que ela julgara hipócrita, na mesma feição fantasmagórica, nos mesmos cabelos azeviches e lisos, a albergava a dúvida, a pergunta que até então não se permitira verdadeiramente formular.

- Quantos? – a voz saiu desafinada e rouca, como uma porta enferrujada pela falta de uso.

- Sete sobreviventes; oitenta e seis mortos – respondeu, os olhos fixos no ponto aposto do quarto. Não tinham valor para encarar uma a outra.

Os dedos finos e envolvidos pelo branco albergaram os lençóis que lhe tapavam o colo.

- Tsunade...? – comentou, buscando a densidade dourada com seus orbes verdes – Tsunade, a Shihan? – completou.

Tsunade anuiu, sem preocupar-se em acrescentar uma resposta vocalizada.

- Você pode me treinar – concluiu, os matizes questionadores da frase sumidos no tom da voz.

Em mel, os olhos pareceram esconder-se através das paredes brancas, as mãos fortes estreitaram o tecido das roupas, desta vez, não foi apenas o quarto que se submergiu em silêncio, Tsunade também o fez.


O tamborete pendia sobre os membros que persistiam em busca de comodidade, oito dias adormecidos num leito, a manhã do nono soava mais insossa que o alimento que insistia em encará-la com ângulos inexistentes, pastoso e fixo, gosto de estuque. O arroz enternecido assemelhava-se a uma mistura insólita de larvas e pirão tanto em aspecto quanto em paladar.

Sua mãe fazia um arroz muito saboroso, era uma receita de família, só poderia recebê-la depois do casamento.

Tentara descobrir, admitia, mas sempre fora pilhada. Numa vez, encolhida contra si mesma, cercada por todos os lados de tecido e madeira, esperara. Logo seria hora de iniciar o preparo diário da refeição e já podia escutar o tilintar dos sapatos que pareciam lutar contra o arrastar da lassidão. O primeiro na lista de preparo era o típico arroz. Pendida para o lado, os olhinhos verdes espiavam por entre o quadriculado da toalha de mesa, esperando o que acreditava ser o maior segredo de sua mãe. Viu-a mover-se pela bancada, o pote de grãos abarcado pelos braços, a panela sobre o fogão, enfeitando a ara estava uma seqüência não vista de condimentos e óleo. Esticou o pescoço buscando a forma feminina, quando os passos esfumaçaram-se no barulho fervente da tina. "Hey", escutara, olhando pro alto, vira o objeto da busca pendente atrás de si, sorrindo como um gato ao descobrir a presa. Voteou-se ao momento em que sua mãe dobrava-se e murmurava que se tratava apenas de uma "pitada de muito amor", apesar de ambas saberem se tratar de uma aleivosia infantil.

Sentia falta da tal pitada. Sentia falta da comida caseira.

A acidez que subia pelas paredes já frágeis de seu estômago não se demorava em receber algo para abrasar. Resignada, pegou os dentes de ferro pelo cabo de madeira, disposta a suprir os anseios angustiados de seu aparelho.

Deglutiu dez, vinte, trinta vezes, até que os músculos se acomodassem à quantidade superior de alimentos.

Tsunade não a ajudaria.

Moveu a arcada, os dentes desempenhavam um adereço, enquanto a massa escorregava pela língua até alcançar o topo da garganta.

Alguém a ajudaria. Dos sete clãs, algum dos líderes a aceitaria. Abume e Soteruno de Jagaimo, Naratsu de Yoku, Rin de Firumu, alguém.

A recuperação era meta passada, estava pronta para o passo seguinte.

Afastou os recipientes de comida, arrastando os membros pesadamente dormentes até tê-los pendentes perante as molas do tálamo. Mãos apoiadas no colchão; empenhou o corpo até pô-lo de pé, as articulações desabituadas à gravidade abdicaram e parede e leito lhe foram necessários para seguir.

- Bom.

Ergueu os orbes, antes concentrados nos próprios joelhos, para a figura que se apoiava no batente da entrada. A luz natural envolvia-lhe a forma, abrumando os tons visíveis e albergando à efígie poder que se esperava em um líder.

- Vejo que já estás pronta para o treino.


Bem, aqui está. Demorei demais? É, eu sei, meu processo de produção é lento, o tempo, curto, a quantidade de estórias, grande e o computador, pirado.

Além do mais, foi difícil de escrever, peso emocional demais, sabem?

De qualquer forma, perdão.

Respondendo e agradecendo:

A sakusasuke, lydhyamsf e Rai-sama o que fiz por reply e a:

Anna – Obrigada pelo elogio, é tão bom receber um depois de se esforçar! Eu admito, soa meio egocêntrico, mas eu não posso fazer nada se me sinto muito bem quando alguém gosta de um trabalho meu :p Espero que não tenha demorado demais e que você goste. Até!

kimochi s2 – Eu sei! Me senti tão mal escrevendo isso. Convenhamos, eu basicamente dei permissão pra um lunático matar todo um clã... Sem comentários. É foi ele mesmo, eu sei que soa como uma idéia muito infeliz, cruel, mal trabalhada, clichê, etc, etc, mas eu vou tentar recompensar, prometo! E aqui está a continuação! Depois de uma longa demora... Obrigada pelo comentário e até!

Meninas, eu sei que isso soa um tanto preguiçoso, mas, sim, as atualizações irão demorar por mais que eu queira que não e eu peço desculpas antecipadas por isso.

Outra coisa, como se trata de um mundo alternativo, eu vou disponibilizar no perfil uma descrição geográfica, com dados político-econômicos e, de quebra, um mapinha.

L Ganoza.