Capítulo 3 – Barulho

Três figuras estranhas apareceram na entrada da velha Watari House. Era a velha SPK toda reunida, esperando para se encontrar novamente com seu antigo líder. Os três, dois homens e uma mulher, estavam prostrados na fronte, imóveis, pacientemente aguardando alguém responder à campainha. Eis que após algum tempo de espera surge o diretor:

- Bom dia senhores.

- Bom dia, responderam os três.

- Vejo que vocês atenderam ao chamado de L, não é mesmo? Sigam-me, por favor. Ao completar a frase, o diretor pôs-se a caminhar, sendo seguido imediatamente pelos três indivíduos. Ao longo do caminho o velho homem fez umas observações:

"Eu sei que já faz um ano desde que vocês foram dispensados por Near. Por mais estranho e impulsivo que tenha sido essa situação, eu lhes peço que não pressionem Near com perguntas desse feitio. Near não é mais o mesmo. Eu estou preocupado com sua saúde"

Conforme o tom de voz do diretor ficava cada vez mais sério e pessimista, Lester, o mais velho membro da SPK, resolveu falar:

- Por acaso Near, quero dizer, L está doente?

- Sim. Mas antes que me pergunte qual doença é, eu lhe dou a resposta: é mental.

- Como assim? Dessa vez quem falou foi Hal, a mulher do grupo. Dentre as três figuras era quem mais parecia preocupada.

- Irei responder sua pergunta com um fato que aconteceu logo quando ele chegou aqui. Logo após ter chegado aqui L foi até o dormitório do antigo L e ficou sentado na cadeira de seu predecessor durante dois dias. Eu tive de tirá-lo quase que à força, com medo que viesse a morrer de desidratação ou inanição.

"Vocês verão. É como se L estivesse perdendo a si mesmo, completou o diretor parando frente a uma porta. Mais um conselho que dou a vocês: não façam muito alarde para os cabelos dele".

Ao terminar sua frase, mesmo deixando os três membros confusos com tal afirmativa, o diretor abriu a porta, que dava caminho para um amplo salão iluminado por monitores de computador. Era um salão oval e que ficava no sub-solo do orfanato, e continha uma refinada rede de computadores altamente organizados. No centro da sala haviam diversos brinquedos esparramados, pilhas de pacotes de chocolate vazios, e uma pessoa de porte físico similar a de uma criança, sentada corcunda sobre as pernas, com uma mão entrelada nos cabelos e a outra na boca. Ah sim, e seus cabelos estavam muito mal pintados de preto.

Não é possível negar que aquela cena chocou os membros da antiga SPK. Aquele Near que viam sentado, acabado, cabisbaixo, depressivo, não era o mesmo Near que os dispensara há um ano atrás. Lester pôde sentir lágrimas formando-se em seus olhos. Antes que aquele momento tornasse-se ainda mais penoso e desagradável, Near resolveu falar:

- Olá, disse friamente, como era de seu feitio. Ele sequer havia se virado para encarar as pessoas.

- Near... disse abstratamente Hal, como se estivesse falando com um fantasma

- Vocês estão atrasados, disse novamente de forma fria Near.

- Sim L, nós nos atrasamos. Perdoe-nos, viemos o mais rápido possível, falou Gevanni.

- Vocês já estão sabendo da volta desse Baka Kira, não é mesmo?

- Baka? Como assim L?

- Baka porque este novo Kira pratica ações impensadas e tolas. Vocês já viram as vítimas dele?

- Não senhor, disse Lester.

- Tomem, Near pegou um chumaço de papéis e levantou-os graciosamente no ar, esperando que alguém fosse até lá buscá-los. Hal foi a primeira a se oferecer, tomando os papéis da mão de Near, que ainda não havia se virado para encará-los.

A loira caminhou até onde se encontravam os outros membros da SPK e entregou-os os papéis. Nele havia um sumário com todas as vítimas do novo Kira, e estavam sublinhadas seis vítimas. Eram todas estudantes de uma mesma escola.

- Parece que esse Kira matou muitos estudantes, concluiu Gevanni.

- Exatamente. E todos da mesma escola

- Deveríamos investigar os alunos dessa escola.

- Já fiz isso, disse Near, impassível.

- Já? E bem, já descobriu alguma coisa?

- Sim. Todas as vítimas tinham como objeto odiado o estudante Fábio Carlos. Levantei sua ficha policial e vi que ele já foi preso diversas vezes e foi acusado de dois estupros. Além disso, ele é um membro da KK, o Kira's Kult.

- L, acho que devemos investigar sobre esse, falava Hal, quando sua fala foi interrompida por Near.

- Eu já venho investigando este estudante e já tenho provas de que ele é o Baka Kira. No seu computador há conversas com outros membros da KK onde ele fala de possuir o poder de Kira e menciona várias vezes o caderno. Os investigadores disseram que o viram conversando sozinho diversas vezes, provavelmente falando com o Shinigami dono do caderno que ele possui. Por fim, eu tenho fotos dele com o caderno. Se quiserem vê-las é só procurarem pela página oitenta e nove do relatório que têm em mãos.

Vrush, barulho de páginas sendo reviradas. Conforme dito por Near, lá estavam as fotos na página oitenta e nove.

- Near... então o que você está esperando? Ele é o Kira. Podemos prendê-lo e acabar de uma vez por todas com isso, disse Lester.

Near parou de enrolar os cabelos. Uma sombra de tensão subiu pelo aposento preenchendo-o tal qual um veludo transparente. Lentamente o menino virou-se, encarando pela primeira vez em um ano os membros da SPK. Seus olhos estavam pesados com olheiras e seu rosto transmitia uma sensação ruim de abatimento e medo.

- Eu não consigo acreditar que seja só isso. Não pode ser. Não pode ser que esse Kira seja tão tolo. Não pode ser que ele faça tanto barulho e deixe tantas pistas. Ele sequer tentou esconder seus atos. Ele sequer merece ser chamado de Kira.

"Eu só posso concluir que ele deve estar usando um caderno falso, e que o verdadeiro Kira está por trás de tudo isso, manipulando Fábio e usando-o como isca para nos atrair"

Lester sorriu e disse:

- Near, nem todo mundo é um gênio.

Visivelmente entediado e aborrecido, Near pegou um boneco e esmagou-o nas mãos:

- Mande os esquadrões prepararem a captura.


Numa sala de bate-papo da Internet:

- K, chamou um soldado da Kira's Kult.

- Sim?

- Você estava certo. O caderno está com Foca.

- Muito bem soldado. Cumpriu muito bem a sua missão.

- Mais alguma coisa senhor?

- Mantenha guarda. Eu acredito que hajam grandes chances de que L esteja atrás dele e que possa tentar conseguir o caderno através de uma ação policial.

- O que quer que eu faça?

- Junte-se com outros atiradores de elite da KK e mantenha guarda 24 horas. Não deixem-no sozinho. Agora vá, eu tenho trabalho a fazer.

- Sim senhor


Baka Significa em japonês Bobo, Tolo

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Capítulo 4 - Mandinga

Near não é o único atrás do Death Note...