Capítulo 7 Travada

Num quarto escuro onde uma densa cortina impedia a entrada dos raios solares sentava a figura um tanto bestializada de T. De um lado estava um caderno de anotações. Do outro estava um monte de folhas.

-Meu caro shinigami, falava T, nós já estamos trabalhando juntos faz o que, uma semana?

-Alguma coisa assim. Não estou muito acostumado com o tempo humano ainda.

-E mesmo assim, nós sabemos muito pouco um do outro, não é verdade? – T rabiscava algo no seu quadro branco.

-Sim. Algum problema nisso? – a figura fantasmagórica comia entretida uma barra de chocolate.

-Ao meu ver, sim. Afinal, não vejo o motivo pelo qual um deus da morte viria para o mundo humano. Imagino que deve ter muito mais coisas a fazer, correto?

-Não é bem assim – dizia o shinigami estridente e irritantemente – O mundo shinigami é tedioso e feio e sem muita coisa para se fazer.

-Verdade? – T fingia surpresa, mas parecia que já sabia disso tudo – O que os deuses da morte fazem lá?

-Alguns ficam jogando, outros dormindo, nada demais.

-E as mortes? Eles não matam as pessoas? – falava T, novamente com falsidade.

-Mortes? Ah sim. Quando a expectativa de vida de um shinigami está baixa é só ele matar um humano com o Death note e o que -sobrava da sua expectativa de vida é adicionada à do shinigami.

-Sim sim, isso é um tanto óbvio. Mas então por que descer para a Terra quando você pode matar humanos lá do mundo shinigami?

-Por que lá é difícil de enxergar. Sabe, é bem mais fácil matar humanos com humanos, entende? – Shidoh já estava na sua terceira barra de chocolate.

-Você está querendo dizer que um ser humano que mate outro com o death note alimenta a expectativa de vida do shinigami dono do caderno? – falava T. Pelo seu tom de voz, ele já sabia de tudo aquilo.

-Exatamente.

-Entendo... e como é que um shinigami torna-se dono de um death note?

-Shidoh ficou em silêncio. Aquele humano estava sendo muito impertinente, fazendo todas aquelas perguntas. Principalmente perguntas que ele não sabia direito como responder.

-Bem – disse o deus após um silêncio constrangedor – o death note é entregue pelo rei shinigami a um shinigami portador.

-Sim sim, entendo. Bem, você me disse que é possível um ser humano abdicar do death note, ou perdê-lo, não é mesmo?

-Sim. Você até já fez o Fábio abdicar do death note dele, não é mesmo?

T sorriu, se lembrando o quanto teve de torturar Foca para fazê-lo desistir do Death Note. Alcançando alguns dados, continuou a bateria de perguntas:

-Se seres humanos podem perder o Death Note, então podem shinigamis perdê-los também?

-Sim, sim.

-Me responda então, Shidoh, você já perdeu seu death note?

-Já não chega de perguntas? – Shidoh irritou-se. Estava cansado daquele humanosinho irritante. T, ao ouvir tal resposta, sorriu:

-Pela sua reação, parece que já.

-Escuta aqui, se você continuar com essas perguntas chatas vou escrever seu nome no meu Death Note!

-Mas eu já lhe falei, caro shinigami, que eu estou fazendo essas perguntas para poder, assim, usar todo o potencial do Death Note e, com isso, matar várias pessoas. Não é isso o que você quer? Não quer que eu aumente sua expectativa de vida? – Shidoh consentiu num grunhido – portanto, meu amigo, responda minhas perguntas sinceramente.

-Tá certo... bem, eu já perdi meu death note uma vez. Ou melhor, fui roubado.

-Explique-se – T anotava tudo em um laptop encima da bancada.

-Eu estava tirando um cochilo bem longo, lá no mundo shinigami, e outro shinigami, chamado Ryuk, enganou nosso rei e conseguiu como prêmio o meu Death Note. Eu, dormindo, nem percebi o roubo.

"Quando acordei percebi que estava sem meu Death Note e minha expectativa de vida estava muito baixa, e eu precisava conseguir o caderno de volta caso não quisesse sumir. Foi o maior problema conseguir o caderno de volta, mas eu consegui."

-Para onde foi Ryuk quando roubou seu caderno? – havia um brilho nos olhos de T. Alguma idéia se formava em sua mente.

-Ele veio pra Terra e deu o death note para um homem.

-Por acaso seria esse homem Kira? – T tentou controlar sua voz, mas ela saiu alta e exaltada.

-Kira? – Shidoh forçou sua memória – Ele era conhecido como Kira, mas seu nome era Light, Yagami Ligth.

T gargalhou arremessando da mão os dados. Alcançou um celular e falou com alguns oficiais para que procurassem tudo sobre Yagami Light. Shidoh observava, impassível, tentando entender porque tamanha euforia.

-Por que tanta alegria?

-Nada... é que eu sou um grande fã deste carinha – riu T, tentando conter a emoção – mas me responda uma coisa que está mal contada: se Kira estava com o seu caderno, e considerando que ele matou milhares de pessoas com ele, como é que sua expectativa de vida continuou baixa?

-Bem, como eu havia dito, Ryuk enganou o nosso rei numa jogatina e conseguiu o meu caderno. Enquanto eu estive dormindo, ele era o dono do meu caderno, e, portanto, todos os mortos iam para ele, e não para mim.

-E é por isso que você está aqui, não é? Precisa que seres humanos usem o caderno para matarem outros humanos e assim aumentar sua expectativa de vida.

-Exatamente.

-Pois bem meu caro colega, você me ajuda a conseguir meus planos e eu te ajudo a não morrer de velhice, certo?

-Tudo bem. Agora, me responda uma coisinha, já que eu lhe respondi tanta coisa.

-Claro Shidoh, o que foi?

-Por que você não quis ser o dono do Death note? Quando Foca abdicou o dele, você entregou-o para seu irmão.

-Ah, isso? Ora, você mesmo me disse, quando começamos a nos falar, que todos os donos do Death Note tem uma vida miserável de má sorte. E entenda, por mais que eu não acredite em superstições tolas, eu não posso descartar a possibilidade de que esta seja verdadeira. Afinal, este é um caderno da morte vindo de um deus da morte... tudo que vier dele pode ser realidade.

T riu sarcasticamente olhando para Shidoh, voltado a digitar algo em seu laptop. E o silêncio deitou naquele ambiente, só pelo tempo suficiente para ser quebrado pelo barulho do toque de um celular que T atendeu:

-Então Koro, conseguiu achar algo sobre Light Yagami.

-Irmão, uma de nossas bases foi invadida por L.

-O sorriso que estava estampado no rosto de T minguou, conforme cerrava as mãos com raiva.

-Precisamos nos encontrar imediatamente. Volte para nossa casa. Tenho de lhe contar, pessoalmente, o plano.

-Já estou indo irmão.

Do outro lado do mundo, Near via os relatórios do ataque à base da KK. Nele havia um diagnóstico do ataque, o número de prisioneiros e os equipamentos conseguidos. Contudo, K não estava lá. A única coisa que lembrava o tal líder misterioso da KK era um computador que servia como servidor. Era dali que as mensagens de K vinham.

Near comia morangos de chocolate, enquanto corria com um carrinho vermelho pelo monitor do computador. Tudo daria certo. As conexões da base estavam sendo estudadas e, cedo ou tarde, todas as bases conectadas serão atacadas e, em alguma delas, estará K.

É só uma questão de continuar montando as peças certas que logo o quebra-cabeça estaria completo e a imagem de Kira estaria pronta. Ele venceria. Ele tinha de vencer.


Próximo capítulo, Raiva

T bola seu plano contra Near