Contos da Escola de Circo
Segundo: Parceria
O galpão estava barulhento como de costume e vários pré-adolescentes, em sua maioria a quem Layla não conhecia, sentavam-se no primeiro degrau da arquibancada. Puxa, justo hoje Yuri tinha que chegar atrasado. Só esperava que ele não demorasse muito, estava ansiosa para começar a aula daquele dia.
Olhou animada à frente. Uma enorme rede de segurança se estendia à um metro e meio do chão, lá no alto um par de trapézios havia sido solto das cordas que o guardavam no teto e para chegar lá em cima havia uma escada de corda de aparência instável. Fogo corria nas veias da jovem de catorze anos só de pensar que subiria no trapézio pela primeira vez. Estivera esperando por isso desde a primeira visita ao Kaleido Stage.
Ms. Fernández, diferente dos outros dias, usava um colam vermelho, os punhos e pulsos enfaixados e no rosto um sorriso satisfeito. Mr. Goldenburry também não ficava atrás no quesito roupas, de fato, seu conjunto até combinava com o de sua parceira. Ele, se possível, parecia mais ansioso que os alunos.
Yuri chegou bem a tempo de responder à chamada. Parecia haver perdido o ônibus da escola e vindo correndo. Exausto, largou-se na arquibancada ao lado de Layla.
– Tô morto – disse ofegante.
– Boa tarde para você também – respondeu reprovadora.
– Sempre esqueço que a princesa não é do mesmo plano terrestre que eu – inspirou fundo – Boníssima tarde para a senhorita.
A professora pigarreou, chamando-lhes a atenção. Brevemente resumiu tudo que já havia dito sobre as outras modalidades em "É muito mais perigoso que todos los otros juntos". Explicou o princípio, mencionou vários músculos envolvidos e quão bem preparados deveriam estar, e disse outras coisas que a maioria não prestou atenção. O simples pensamento de se balançar naquela barra liberava adrenalina suficiente para deixá-los irrequietos e com vontade de serem os primeiros.
O menino de origem russa permanecia a única exceção. De fato, parecia sentir-se até um pouco ameaçado pelo aparelho à sua frente. Encostou-se de maneira mais cômoda a fim de parecer a vontade com a situação, mas a farsa não passou despercebida por Layla. Durante o alongamento tentou falar com ele.
– Algum problema? Você está estranho hoje.
– Meu cachorro morreu – mentiu – Foi atropelado pelo ônibus que eu ia pegar para chegar a tempo, aí fui enterrá-lo e me atrasei.
– Nossa... – disse com ironia – Meus pêsames.
– Muchachitos – disse Ms. Fernández com ares de mãe dando uma lição moral – O que vou dizer agora é de extrema importância, entonces presten atención.
Vendo que os rostos estavam virados para ela, começou a falar.
– Alguém aqui tem um amigo a quem confiaria sua vida?
Algumas meninas disseram coisas como "Minha melhor amiga!" umas para as outras enquanto os meninos limitavam-se a olhares cheios de significado. Yuri nada disse e Layla tampouco.
– Bien, pois vou lhes contar o maior truque para qualquer um que queira se tornar trapezista.
Como se esta houvesse sido sua deixa, Mr. Goldenburry começou a subir as escadas.
– Como estamos a ponto de demonstrar, – olhou de relance para cima com olhos carinhosos – Mr. Goldenburry e eu, o trapézio voador, que é com o que vamos começar, é praticado em pares, duplas, ou seja, com a ajuda de um parceiro.
Houve um pequeno rumor entre as meninas novamente.
– Uma vez escolhido o seu parceiro – Ms. Fernández continuou – é feito um laço muito importante – mirou o próprio parceiro antes de continuar – A parceria não é só uma questão de profissionalismo, de acreditar na covardia do outro que não tem coragem de te deixar cair. Não, na verdade é muito mais que isso. É a máxima expressão de confiança.
A mulher parou ao perceber o pouco caso que lhe faziam seus melhores alunos. Talvez um pouco de demonstração os animasse. Pediu que Gerald realizasse alguns truques enquanto explicava a complexidade dos movimentos, precisão do tempo e outros tópicos que considerou importantes.
– Vamos começar bem devagar – disse para terminar a parte teórica da aula – Quero todos com equipamento de segurança e em fila.
Do alto, Mr. Goldenburry deu uma pirueta no ar e caiu na rede.
– Para sair caiam de costas – adicionou mirando Yuri e Layla – E nada de tentar coisas muito perigosas, hoje quero que experimentem e só.
Procederam como ordenado, e Yuri estava visivelmente nervoso. Os meninos tentaram alguma piada para desinibi-lo, mas tudo que conseguiram foi uma bronca por subestimarem o perigo.
– Puxa, Yuyu – disse uma gordinha – É tão assustador assim?
– É, Yuyu – riu um dos garotos – Está com medo?
O resto da classe cochichava comentários maldosos. O russo fechou o cinto de segurança com força e encarou o rapaz que o havia provocado.
– Estou com medo sim – disse para a surpresa de todos – Mas acho que alguém sem experiência alguma como você devia estar mais nervoso que eu.
O silêncio foi geral e Layla o aplaudiu com um sorriso. Adorava a franqueza dele, era chocante e sempre usada a seu favor. Posicionou-se à frente dele na fila e foi a terceira a subir na plataforma.
Primeiro desafio do dia: a escada de cordas balança. Tremendo um pouco, a jovem foi puxada para cima com a ajuda do professor.
– Ansiosa? – perguntou enquanto prendia o equipamento de segurança e a segurava pelo cinto.
– Acho que é normal estar.
Ele riu e a ajudou a posicionar-se.
– Deixe os pés afastados, segure a barra com as duas mãos e dedões por baixo – esperou que cumprisse as orientações – Quando eu der o sinal dê um pulinho para trás e deixe os pés em ponta, não relaxe os ombros e tente só balançar, entendeu?
– Sim – disse com os olhos em chamas e respirou fundo ao preparar-se – Estou pronta.
– Ao toque de três. Um, dois e três!
Um salto, ar correndo contra seu rosto, as cordas de segurança dando-lhe impulso e a jovem sentiu-se voando pela primeira vez.
– Señorita Hamilton – chamou Ms. Fernández – Solte quando eu disser!
Como? Tão cedo? Mal balançara pela segunda vez...
– Agora... Pernas para frente – esperou que ela obedecesse e prosseguiu – para trás e para cima e solte!
Frustrada, Layla deu um mortal involuntário e caiu de costas na rede. Desceu sem entusiasmo e voltou para a fila a fim de assistir Yuri. Ele, semelhante ao que havia sido feito à princípio, balançou uma vez e recebeu a ordem para soltar-se. O único problema foi que estava tão nervoso que errou os passos e, se não fosse pelo puxão fortíssimo que Ms. Fernández deu na corda de segurança, teria quebrado o pescoço na queda.
– Está bem, señor Killian?
– Hm, é, acho...
– Quer sentar um pouco? Você parece um pouco pálido.
– Vou sim, valeu...
Os comentários maldosos de antes se intensificaram. Admiração não era o que sentiam pelo colega quando este se exibia em outros aparelhos, era inveja disfarçada. Layla repetiu os exercícios como os outros e, durante a pausa para tomar água, foi até Yuri.
– Está melhor?
– To – disse aceitando o copo de água – Valeu – tomou um gole e mirou os outros alunos – O que estão falando de mim lá?
– Quer mesmo saber?
– Quero, só por curiosidade mesmo.
– Estão te chamando de exibido, falso e covarde.
– Sério? Vou mostrar pra esses bestas...
– Só vai se provar um exibido assim.
– Mas vou confirmar que não sou covarde.
– Yuri, desculpa se estou me intrometendo, mas por que ficou com medo? Quero dizer, é uma sensação muito boa estar lá em cima...
– Ah, más lembranças – disse olhando para onde os trapézios eram presos no teto – Lembranças bem ruins, na verdade.
– Entendo – disse compreensiva – Quer tentar de novo? Vamos começar o Knee-Hang depois do intervalo.
– Tá, acho que vou. Qualquer coisa, estou com cinto, certo?
Ela assentiu com a cabeça e voltaram juntos. Daquela vez o jovem mostrou-se melhor e, apesar de não haver completado a técnica muito rápido, sucedeu em fingir a mesma dificuldade que os outros.
– Difícil, não? – comentou ele assim que a aula chegou ao fim – Muito mais complicado que os outros.
– Realmente – ela disse – É rápido demais, nem um pouco instintivo e requer muita força... Acho que vou perder um pouco de peso, deve ficar mais fácil.
– Não faça isso – aconselhou – Se perder mais uma grama vai sumir.
– Não seja bobo, estou um pouco acima do peso sim...
– Desisto de entender as mulheres – cruzou os braços antes de se separarem para ir aos vestiários – Quando digo que está gorda me bate, e quando digo que está magra levo bronca também.
– Hei, eu nunca te bati.
– Bem, não, mas tenho a impressão que ainda vou apanhar muito – sorriu e, antes de qualquer reação dela, continuou: – Me espera antes de ir?
– Espero, mas por quê?
Mas ele já havia entrado no vestiário masculino. Sem querer se atrasar, logo procedeu em trocar-se. Enquanto o fazia, não pôde evitar escutar a conversa das outras meninas.
– Coitadinho do Yuyu – disse a gordinha – Ele deve ter ficado com muito medo mesmo...
– É um tosco – disse uma outra – Fica se exibindo como se fosse o rei do circo e agora resolve que é um bebezinho assustado.
– Gente – falou uma ruivinha – quando o vi pela primeira vez achei que ele era bicha.
– Verdade, ele tem uns trajeitos estranhos...
– E aquele sotaque forçado? Como é besta e irritante...
Calada, Layla logo as deixou fofocando sozinhas. Que horror, pensou, se diziam aquilo de Yuri que não as esnobava, nem queria pensar no que falavam dela que fazia questão de apontar os erros alheios.
Encontrou-o esperando por ela no banco do lado de fora.
– Vai com o tio hoje de novo?
– Na verdade, não. Meu pai está cortando custos desnecessários e despediu o meu motorista.
– Vai voltar a pé?
– Não tem outro jeito, tem?
Ele sorriu de lado como se acabasse de ter uma idéia incrível.
– Você vai passar pelo parque? – esperou a resposta afirmativa – Não quer passar lá em casa? Minha mãe disse que ia fazer torta de blueberry.
Sorriu mais ainda ao vê-la corar de leve. Aquela inocência boba de Layla às vezes o fazia ter vontade de beijá-la de surpresa só para ver o que aconteceria.
– Obrigada pelo convite, mas não posso chegar tarde em casa.
– Essa desculpa foi melhor do que "Esqueceu que eu estou de regime?".
– Yuri – mirou-o como se pedisse que parasse de insistir – Meu pai vai ficar preocupado se...
Foi interrompida pelo som caricato de Greensleves que vinha do celular tocando. O aparelho logo foi atendido e o garoto calou-se para prestar atenção na conversa.
– Alô?... Oi pai... Mas você... Tudo bem, eu entendo... Não, não há porque se desculpar... Até semana que vem...
– Deixe-me adivinhar – debochou quando a viu desligar – Seu pai não vai jantar em casa hoje.
– Pior que isso, está numa reunião e depois vai sair a negócios para o outro lado do mundo...
– Desculpe o sarcasmo, mas que conveniente – disse com simpatia falsa – Agora quer vir comer torta em casa?
Layla fuzilou o telefone com os olhos sem haver escutado o último convite. Sem pensar muito ligou para casa.
– Macquarie?... Vou chegar meio tarde... Não precisa, obrigada... Só não comente nada com o meu pai se ele ligar... Sim, até amanhã.
Yuri riu a seu lado. Não era sempre que via demonstrações de infantilidade vindas de Layla. Esperou que ela guardasse o celular já desligado dentro da mochila e arriscou pegá-la pela mão.
– Vamos?
– Sim...
Contrário ao que esperava, ela não o repeliu. Parecia que a raiva momentânea estava dando lugar a tristeza e, se não se enganava, ao sentimento de abandono.
– Se cortarmos caminho por dentro do parque chegamos mais rápido – disse casual – E não fica assim por causa do seu pai...
– Não use "por causa", é feio.
–... É normal, ele deve ser bem ocupado, não?
– Mas é a terceira vez que ele cancela esse jantar.
– Comemorando alguma coisa?
–... Hm – hesitou em responder – Meu aniversário.
– Sua chata, e nem me contou que era hoje!
– Foi há três semanas – continuou andando e contemplando a calçada – Mas meu pai prometeu uma festa que esqueceu de programar, aí disse que íamos jantar juntos, e agora isso...
– Acho que tem velas em casa...
A jovem olhou-o incrédula.
– O que isso sinceramente tem a ver com o assunto?
– Vamos cantar Parabéns pra você!
– Yuri, não seja bobo, não somos mais crianças!
– Desculpe senhorita "sou gente grande há vinte e um dias", só estava tentando te animar...
Ela cruzou os braços desconfortável de modo a soltar a mão. Yuri jogou a franja para trás frustrado. Estava tão perto, mas tão perto...
– Desculpa – ela sussurrou – Não quis ser rude, é que estou meio nervosa por causa do meu pai...
À princípio, o jovem sequer soube responder, mas assim que ela se virou para ele a última frase o atingiu.
– Você disse!
– Disse o quê?
– Por causa! – comemorou – Você disse "por causa do meu pai"!
Riu do descuido dela e Layla limitou-se a sorrir. Havia sempre aquele momento leve entre eles que se sentia livre de preocupações mundanas e que podia contar a ele os menores conflitos que ele encontraria algum ponto engraçado no meio da história.
– Gosta de blueberry? – ele perguntou minutos mais tarde.
– Sim, adoro frutas.
– Minha mãe não cozinha nada bem, mas a torta de blueberry tem gosto aceitável. Talvez você até goste.
– Isso é jeito de falar da comida da sua mãe?
– A sorte é que ela quase nunca cozinha, ou tem comida congelada ou eu mesmo faço alguma coisa.
– Você cozinha?
– Sim: macarrão instantâneo, salada, sanduíches variados, hambúrguer, ovo... E ainda lavo os pratos!
– Que prendado...
– Também sei abrir garrafa de refrigerante, de suco, sei esquentar água para café ou chá, e estou aprendendo a espremer laranja.
– Se também souber o telefone da lavanderia já pode morar sozinho.
– Faço melhor que isso – riu convencido – Sei até pilotar a máquina de lavar e a secadora!
Layla não conteve o riso. Yuri sabia mesmo como dissipar a tenção. Viraram juntos a esquina ao sair do parque e, para o desprazer da jovem, havia ali um edifício ostentando Hamilton Hotel em dourado. O garoto assoviou e fez algum comentário baixo.
– Meu pai deve estar aqui agora – ela disse – Estava terminando uma reunião quando me ligou.
– Se a gente for ver ele, será que...
– Claro que não – emburrou um pouco – Ele jamais interromperia...
Mas não terminou a frase, uma vez que a porta principal do prédio foi aberta revelando a figura de seu pai e uma outra executiva. Rápido, Layla agarrou mão do acompanhante e o puxou para trás de modo a não serem vistos.
– Que foi? Por acaso aquele é...
– É sim, fica quieto, ele vai ouvir...
– O que você anda falando de mim na sua casa que o seu pai não pode nos ver juntos?
– Yuri, fique quieto, não consigo escutar o que eles estão dizendo!
Mesmo em silêncio nenhuma palavra foi ouvida. O ângulo em que se encontravam não favorecia a espionagem, logo, quando a mulher de terninho bege aproximou-se do rosto de Mr. Hamilton, a impressão que a jovem escondida teve não foi das mais agradáveis.
– Nossa – sussurrou Yuri atrás dela – Não sabia que você tinha madrasta...
– Não tenho!
– Ou pelo menos não tinha...
– Yuri!
– Eles estão se beijando, olha lá!
Mas quando voltou a mirá-los já haviam se separado, seu pai com uma expressão preocupada, e entrado no táxi, provavelmente aquele que os levaria até o aeroporto. O rapaz saiu de trás da lata de lixo que o estivera escondendo e coçou a cabeça. Não esperava encontrar uma cena dessas e, ao ver a amiga levantando-se, imaginou que nada poderia haver sido pior. O semblante dava a entender que escondia o que realmente sentia e falhava miseravelmente. Voltou a pegá-la pela mão e sorriu para ela.
– Se servir de consolo – disse tentando confortá-la – podemos passar numa padaria e comprar uns muffins, o que acha?
– Pode ser – ela respondeu com a voz rouca – Acho uma boa idéia.
– Tem um lugar legal no próximo quarteirão que tem uns diferentes, tipo baunilha com kiwi e de pêssego.
– E são bons?
– Muito – ele sorriu – São doces, mas não chegam a deixar enjoado, e...
Continuou a monologar por um tempo na tentativa de distraí-la, não atingindo o objetivo. Na mente de Layla só vinham cenas de quando sua mãe ainda era viva e da noite antes de sua morte, quando ouvira seu pai chorando por ficar só e preocupado com a filha única. Haviam se passado seis anos desde aquela data, e ainda assim parecia haver sido ontem. A ferida continuava recente demais para que cogitasse ver outra mulher com seu pai.
– O preço é bom e... – percebeu que estava sendo ignorado e decidiu testar algo – Mas sabe, acho que eu sou lindo mesmo, não concorda?
– Hm-hum – ela respondeu sem prestar atenção.
– Fale a verdade, Layla, você está morrendo de vontade de sair comigo, não está?
– Hm...
A brincadeira perdeu a graça logo e o jovem decidiu aproveitar-se do estado avoado em que ela se encontrava. Já tinha um plano interessante para quando chegassem.
– Estamos longe?
– Já está cansada, princesa? Foram só quatro quadras e um pedaço do parque...
– Não estou cansada.
– É ali, Layla.
Ele indicava uma casa semelhante à todas as outras do bairro, paredes pintadas de uma cor velha, jardim de grama mal cortada e cortinas fechadas. Não era exatamente a imagem de uma casa dos sonhos para uma família perfeita e simples como a de Yuri soava ser. A cerca fraca indicava que não havia nenhum animal na residência e a porta destrancada também era sinal de despreocupação com possíveis invasores.
– Мать, cheguei – ele disse ao adentrarem a sala mal iluminada.
O aposento cheirava um pouco à fumo, mas isso não foi o que incomodou Layla à primeira vista. A decoração não podia ser mais discrepante: havia uma manta colorida sobre um sofá cor de poeira, uma televisão que parecia quebrada e um tapete em forma de flor preta. As paredes eram de um azul desbotado e vários quadros de naturezas bem distintas as adornavam. De uma porta na lateral podia-se ver a cozinha ladrilhada de laranja claro e de dentro dela veio uma mulher estranha.
Usava um vestido cinza sobre o corpo magro e alto, levando o cabelo loiro quase branco mal preso por um bico de pato. Na boca tinha um cigarro pela metade, carregando marcas de idade que não tinha no rosto, mas foi nos olhos azuis apáticos que Layla encontrou a maior evidência de parentesco com Yuri.
A mulher disse algo em língua estrangeira e só o rapaz soube responder. O que haviam dito a jovem jamais saberia, mas as poucas palavras um pouco rosnadas pelo companheiro fizeram sua mãe sorrir insolente e dar uma baforada de fumaça turva. De braços cruzados e um pouco cambaleante no andar, ela se aproximou.
– Muito prazer, querida – disse em voz rouca e pesada com sotaque russo – Bogdana Killian, mãe do Yuri.
– Igualmente, Mrs. Killian – sorriu Layla na tentativa de ser simpática – Layla Hamilton. Yuri e eu freqüentamos a mesma escola de circo.
– Miss Killian, por favor – tragou o cigarro de novo – Entre, fique a vontade...
E perdeu-se no corredor ao lado. O garoto de repente parecia um pouco desconfortável, mas logo se moveu para a cozinha, sinalizando para que a convidada o seguisse.
O cômodo estava limpo de maneira impecável e sua simplicidade surpreendia um pouco. Havia uma mesa com três cadeiras ao lado da janela, uma geladeira num canto, uma pia cheia de louça a lavar ao lado do fogão. Do outro lado, entre armários bem fechados estava um microondas antigo e fora da tomada. Qualquer um ao ver tal ambiente concluiria que ninguém na casa gostava de cozinhar. Layla, no entanto, não se deixou intimidar.
– Não sabia que você não falava inglês em casa – ela comentou tentando puxar assunto.
– Só falo quando vem alguém. Minha mãe prefere evitar se for possível.
O forno foi aberto, mas não havia nada ali. O rapaz suspirou frustrado.
– Мать! – chamou na direção que a mulher havia tomado e seguiu-se uma discussão. Ao final, a mãe saiu da casa com uma bolsa no ombro.
– Algum problema? – Layla perguntou com cautela.
– Ah, essa folgada ficou com preguiça de fazer a torta... – ele coçou a cabeça – Foi mal...
– Imagine – a jovem estranhou como ele se referia à própria mãe, mas continuou – Você sabe que eu não vim aqui por isso.
– Mas era uma ótima desculpa – Yuri sorriu ao abrir uma porta que levava ao quintal – Na verdade eu queria te mostrar uma coisa, vem comigo...
A jovem seguiu-o pela passagem. A grama estava tão negligenciada quanto a do jardim e havia uma árvore com um balanço torto no canto da cerca. Nenhum desses elementos, no entanto, foi o responsável pelo sorriso instantâneo que se formou no rosto dela.
– Minha nossa...!
À sua frente estava um trapézio duplo bem baixo feito inteiramente de madeira e corda comum, algo bem artesanal e que prometia desafios.
– Gostou? – veio a voz dele – É bem mais simples que o da escola, mas ainda dá pra treinar.
– Como...? O que...? Digo... Você tem um trapézio em casa?
Maravilhada, correu até o aparelho e passou a examiná-lo fazendo todo o tipo de comentários positivos. Yuri sorriu satisfeito. Aos catorze anos ela parecia uma menininha na Disney pela primeira vez enquanto examinava o "brinquedo". Era fofo demais aquele sorriso alegre dela...
–...isso?
– Quê?
– Estou falando com você, não estava escutando?
– Foi mal, tava pensando em outra coisa – disse indo em direção à ela – O que foi?
– Quem construiu isso?
Um sorriso de puro orgulho veio aos lábios do garoto.
– Отец.
Riu ao ver que ela não havia entendido, mas achou melhor ignorar o fato. Era melhor que ela não soubesse mesmo, era parte da mágica. Tratou de mudar logo de assunto:
– Quer tentar subir uma vez?
– Sem corda ou rede de segurança?
– Não esquenta, o máximo que já me aconteceu foi quebrar a perna uma vez – brincou – Mas você sabe cair e a grama está fofinha...
– Não vou subir nisso.
– Princesa – provocou – Deixa que eu subo no outro, e se acontecer alguma coisa tenha certeza que eu te pego.
– É muito baixo, se você tentar me pagar caso eu caia quem dá de cara no chão é você.
– Confia em mim – insistiu – Eu sei o que eu tô fazendo.
– Já fez Catch alguma vez na vida?
– Já – mentiu – Confia em mim, Laylinha, prometo que vai dar certo...
Rosas claras floresceram nas bochechas da adolescente. Como ele a havia chamado? Que atrevimento, nem seu pai a chamava assim e, de fato, ninguém algum dia a chamara com tanta intimidade. Aquilo a irritou um pouco, mas diferente do usual que seria repreendê-lo, decidiu retribuir o apelido provocando-o.
– Está bem – ela cruzou os braços – Vamos tentar... Yuyu.
E posicionou-se em um dos trapézios, esperando-o. O rapaz, também contrário ao esperado, sorriu e fez o mesmo.
– Pule quando eu disser, se não estivermos sincronizados talvez eu não consiga te pegar...
Adrenalina, vento no rosto e veio sinal. Repetiu-se o treino feito em classe, mas dessa vez quando ela arqueou as costas para mirar a barra encontrou olhos claros e braços fortes que a pegaram pelo antebraço. A voz rouca disse-lhe para soltar as pernas e ela assim o fez, mas as manteve encolhidas para que não raspassem no chão.
– Viu só? – ele debochou – Disse que ia te pegar...
Ela calou-se com isso. Tomou certo impulso e se deixou balançar com ele.
– Estou muito pesada?
– Ah, um pouco – riu – Mas eu agüento mais um tempinho...
– Bobo...
– Me chama de Yuyu, é melhor do que bobo.
– Achei que não gostasse quando te chamam disso.
– Quando você fala não me incomoda – disse baixo e, antes que pusesse obter uma resposta, continuou – Para descer é só esticar o corpo, acho que assim da pra tocar no chão.
Corada, ela obedeceu e logo ele também estava com os pés no solo.
– Quer saber? – ele disse – Isso foi muito legal, podemos fazer de novo?
Ela disse que sim com a cabeça. Repetiram o procedimento por mais algumas vezes antes que parassem para tomar água. Layla não perdeu a oportunidade para tirar uma dúvida.
– Yuri, onde aprendeu a fazer essas coisas?
– Na escola, igual a você.
– Mas hoje você disse que já tinha experiência.
– Отец. – repetiu – Não vou explicar mais que isso.
– Certo – irritou-se um pouco – E por que você estava com medo antes?
– Отец.
– Yuri...
– Vamos mudar de assunto, Laylinha?
Ali estava o apelido de novo. Fazia cócegas em sua orelha o jeito como ele o pronunciava com sotaque que não tinha.
– Algum problema te chamar assim? – ele perguntou como se pudesse ler a mente dela.
– Ahn... Não – ela decidiu – É melhor do que princesa.
Houve um instante de silêncio entre eles. Havia algo se movendo no peito de Layla, um calor confortante que se acostumara a sentir quando perto dele, normalmente em momentos como aquele quando estavam sozinhos. Arriscou mirá-lo e só então percebeu os orbes azuis procurando os dela.
– Sabe, Layla – ele hesitou – Eu estava pensando se...
– O quê?
– Bem, se você, digo, a gente...
A porta da frente da casa foi escancarada e Bogdana marchou para dentro.
– Desculpa a demora, querida – disse para Layla ao entrar na cozinha e os encontrar com copos de água na mão – Esqueci de fazer a torta, mas fui buscar algo para vocês...
Trazia uma caixinha de papelão que continha muffins. A aparência era apetitosa, e a anfitriã os colocou sobre a mesa, pegando guardanapos e sucos também.
– Sentem, querem café ou chá? – pôs água para ferver e só então mirou os dois com cuidado – Posso saber o que vocês estavam fazendo que estão tão vermelhos?
Yuri resmungou algum palavrão e se sentou à mesa.
– Nada – murmurou – Nada mesmo...
Apesar de um pouco intimidada com a situação, Layla arriscou pegar um bolinho esbranquiçado com pontinhos verdes. Mordeu-o incerta e, para sua surpresa, encontrou o doce mais saboroso que já experimentara em anos.
– É muito bom – falou à mãe do companheiro – Delicioso.
– Esse é de baunilha com kiwi – disse o rapaz – Gosto muito também.
Bogdana limitou-se a assisti-los conversando sobre nada em especial sem deixar que o silêncio viesse. Logo procurou outro cigarro dentro da bolsa e foi para o lado de fora. Que interessante, pensava, a cena que se passava na copa naquele instante parecia-lhe familiar demais, fora, aliás, um dos motivos pelos quais começara a fumar. Tomou o primeiro trago ao respirar fundo, o aumento no nível de nicotina em seu sangue aliviando-lhe a tenção. Só podia esperar que aquela menina fosse mais inteligente que ela, ou teria que duplicar seu consumo de cigarros.
Do lado de dentro, Layla mirou o relógio. Considerando o horário não haveria ninguém em casa.
– Acho que já vou – disse cortando algum assunto sem importância pela metade – Se for agora chego antes de escurecer.
– Ah, é cedo... – disse o outro. Não podia deixá-la ir agora, nem colocara seu plano em prática ainda – Você não esqueceu a chave de casa? Ou, sei lá, ta com medo de voltar sozinha?
– Claro que não, estou com a chave de casa aqui no...
Mas não havia nada no bolso direito da calça, muito menos no esquerdo. Na mochila que deixara na sala também não estava. Numa nota de pânico, ela mirou o dono da casa como quem dizia "Você planejou tudo isso, não foi?".
– Nossa, parece que hoje não é o seu dia...
– Mas parece ser o seu – Layla falou entre os dentes – Preciso ligar para Macquarie, ela deve ter a chave.
– O último ônibus que passa perto da sua casa saiu faz meia hora – Yuri apontou – E aposto que essa Macquarie mora bem longe daqui, então...
– Então o quê? Estou trancada para fora de casa!
– Você pode dormir aqui se quiser, querida – veio a voz de Bogdana do lado de fora.
O sorriso cheio de segundas intenções de Yuri trouxe-lhe certo rubor, mas manteve-se séria.
– Muito obrigada, Miss Killian – respondeu educada – Mas acredito que é melhor ligar para minha empregada...
– Pode usar o telefone da sala.
– Obrigada.
Discou o número com pressa. O garoto, cruzando os dedos, agradeceu a própria sorte. Agora o que faltava era...
– Boa noite, gostaria de falar com a Macquarie... Hm... Mas como?... E ela está bem?... Não, nenhum problema... – lançou um olhar nervoso ao rapaz – Imagine... Posso vê-la hoje?... Ah, certo, passo por aí amanhã... Sim, obrigada...
O receptor foi colocado de volta no gancho e a jovem parecia preocupada.
– Algum problema?
– A mãe da Macquarie se machucou no trabalho hoje enquanto eu não estava – suspirou – Parece que ela quebrou a perna e uma tia veio cuidar dela...
– Hoje realmente é o meu dia...
– O que foi que você disse?
– Que hoje não é o seu dia! – remendou com um sorriso – Faz assim: não esquenta com isso agora, coma mais um muffin e vemos um filme, que tal?
A jovem sentia-se desconfortável. Por bom senso, dormir na casa de alguém simplesmente porque estava sem a chave de casa parecia usurpador de sua parte.
– Querida – Bogdana entrou – Não se preocupe, prometo trancá-lo no quarto para que não te ataque durante a noite – referiu-se ao filho – E parece que você precisa de uma noite fora de casa...
– Мать...
– Agradeço muito, Miss Killian – sorriu Layla tímida – Não é da minha conduta fazer esse tipo de...
– Sem formalidades... Layla, certo? Essas coisas acontecem, e eu não duvidaria que esse traste estivesse com a sua chave no tênis – adicionou ao sentar-se na mesa e se servir de um bolinho de pêssego – Mas não é sempre que temos visitas, fico contente que você fique.
A expressão alegre da mulher era quase maternal, algo que fez Yuri revirar os olhos.
– Se vão à locadora – ela continuou – poderiam passar no mercado e comprar algo para janta?
– Мать, não podemos jantar pipoca?
– Você queimou a pipoca da última vez – ela repreendeu – Pegue o dinheiro na minha bolsa e vá logo...
Yuri arrastou os pés para a sala e Layla foi deixada a sós com Bogdana. Começava a simpatizar com ela apesar dos apelidos pouco carinhosos que trocava com o filho. Um bip da cafeteira anunciou três xícaras de café prontas, estas logo recolhidas e postas na mesa.
– Açúcar?
– Sim, por favor.
– Ah, se Yuri fosse educado assim... – comentou ao entregar-lhe o açucareiro – Um traste, é o que eu digo...
– Bem, ele não é uma pessoa má, Miss Killian.
– Pode me chamar de Dana, querida, é mais prático. Não sou tão velha assim para que me chame pelo sobrenome.
– Desculpe, não era minha intenção...
– Você é uma menina engraçada, sabia? – sorriu ao terminar o café e começar a tirar a mesa.
– Yuri me diz isso constantemente – a jovem levantou-se para levar sua xícara até a pia – Mis... Quero dizer, Dana – corrigiu-se – Por curiosidade, o trapézio que está no quintal, quem o construiu?
– Aquele balanço? – Dana soou aborrecida – O pai do Yuri, quem mais além daquele suicida? – percebeu a sobrancelha levantada de Layla e prosseguiu – Como se não bastasse se matar também queria que o filho fizesse o mesmo...
– Como?
– Layla! – Yuri chamou – Vamos?
A jovem mirou Dana e recebeu um sorriso triste e um "Vá" como resposta. Virou-se em direção à porta da frente onde o rapaz já a esperava. O pai de Yuri era suicida? Não entendera metade do que acabara de escutar. Mas quando perguntara quem havia construído o trapézio Yuri disse a mesma coisa do que quando questionado por que estava com medo de saltar na escola, então isso significava que...
– Algum problema? – ele interrompeu seus pensamentos – Parece que cê viu um fantasma com essa cara...
– Estava pensando – ela disse querendo mudar de assunto – Nada de importante. Que filme vamos ver?
– Que tal "O Massacre da Serra Elétrica" ou "A Coisa"?
– Talvez "Love Story" ou "A Lagoa Azul" seriam melhores.
– De jeito nenhum, isso é filme de menininha – ele debochou – Vamos ver algum de ficção científica ou daqueles de aventura...
– De aventura tudo bem – ela restringiu – Desde que não seja sangrento.
– Qual o problema com sangue?
– Filmes sangrentos perdem o propósito, ficam cansativos e nojentos.
– Fala a verdade, Laylinha – Yuri provocou – Você morre de medo de filmes de terror...
– Hm – cruzou os braços – Não é verdade.
Ele riu do biquinho que se formava no semblante dela. Que fofa, pensava, que super fofa. Acabaram por pegar alguma comédia velha que não queriam assistir e prosseguiram em discutir no supermercado sobre o que levar. O macarrão instantâneo ganhou da torta de frango e a jovem foi ao banheiro enquanto ele pagava.
Esperando-a voltar, Yuri distraiu-se com uma cascata artificial montada do lado de fora do supermercado como propaganda para algum produto de limpeza. O arranjo estava bem feito e seria uma visão bonita se não fosse pelo anúncio publicitário e pelo cheiro fraco de desinfetante de morango que exalava. Layla chegou e, ao vê-lo entretido com a pequena queda de água, não resistiu à tentação de aplicar-lhe uma peça, por menor e mais boba que fosse. Em silêncio, colocou-se de costas para ele e pôs as mãos sobre os olhos dele.
– Hm... – ele murmurou – Julie? Não, Annie... Ou talvez Jane... Quem sabe Mary ou Betty Ann? Não, essas mãos inchadas de trapézio só podem ser...
Pegou as palmas e puxou os braços dela sobre seus ombros de modo a levantá-la do chão e a apoiá-la sobre as costas. Escutou-a rir quando deu uma volta do lugar e a deixou descer.
Um sorriso doce e alegre o cumprimentou quando ficaram de frente. Havia carinho nos orbes cor de céu e algo mais que ousou chamar pelo mesmo nome do sentimento que tinha por ela. Yuri resolveu arriscar colocar seu plano em prática, se desse certo dessa vez...
Inclinou-se para frente de maneira sutil.
A risada histérica de Dana acompanhou alguma piada do filme enquanto Layla limitou-se a jogar a bala de framboesa para o outro lado da boca. Não era engraçado, não era inteligente, e se tratava de uma situação muito forçada, mas no momento qualquer minúscula desculpa para não mirar Yuri seria muito bem-vinda. Tinha quase certeza de que suas bochechas estiveram vermelhas durante todo o caminho de volta e que estavam até aquele instante.
O rapaz estava jogado no chão. Sua vontade maior era que a Terra engolisse sua mãe para que ela sumisse da sala e os deixasse a sós. Como poderia dar continuidade ao plano com ela ali fazendo escândalos? Por Deus, de quem havia sido a idéia de pegar um filme que ela também queria ver?
Suspirou desanimado. Parecia que nada estava indo conforme o planejado. Não contava com aquele ser o primeiro beijo de Layla, muito menos com aquela reação de choque, e talvez menos ainda com a determinação com que Bogdana insistiu em sentar-se entre eles no sofá e depois jogá-lo no chão. Logo o rapaz cansou-se do filme bobo e pediu licença para tomar banho. Se sua convidada queria distância dele, muito bem, teria distância.
Layla afundou no acolchoado. Quem fora a criatura inescrupulosa que escrevera aquele roteiro? Era de longe o filme mais idiota, sem sentido e cansativo que já vira. O semblante de Yuri ao sair da sala só piorou as coisas. Sentia borboletas voando como loucas em seu estômago e seus lábios ainda queimavam só com a lembrança do que transcorrera entre eles, era uma sensação estranhíssima, ruim e boa ao mesmo tempo. Deu graças a Deus por Dana não lhe haver perguntado se estava bem, era uma pergunta que exigiria muito raciocínio.
Depois de mais dez minutos, finalmente, os créditos começaram a rolar e a anfitriã sorriu-lhe.
– Gostou do filme? – levantou-se e prosseguiu sem esperar resposta – Não muito, não é mesmo? A trama é bem fraca... Yuri! – gritou – Saia logo desse banheiro!
Ouviu-se um resmungo, uma porta do corredor abrindo-se com força e outra se fechando com a mesma intensidade. À jovem foi emprestada uma troca de roupa para depois do banho enquanto as suas estivessem lavando e, ao entrar no banheiro recém usado por Yuri, encontrou escritos no espelho embaçado pelo vapor d'água.
Me perdoa?
As borboletas voaram em fúria enquanto sob a ducha quente e as bochechas ficaram mais vermelhas que antes. Sentia raiva dele e vontade de chorar, convivendo esses sentimentos com o desejo de correr para os braços dele. Qual não foi seu desgosto e prazer ao descobrir que a camiseta e os shorts emprestados eram dele? A jovem nunca havia desejado tanto estar em casa...
Jogou água fria no rosto, vestiu-se e saiu do banheiro, presumiu, menos rubra do que entrara. Respirou fundo três vezes e bateu na porta pela qual havia visto Yuri entrar. Houve um murmúrio que ela decidiu encarar como "Está aberta".
Layla já havia imaginado o quarto dele como bagunçado, com pôsteres de bandas assustadoras nas paredes, meias usadas brotando do chão, um skate no canto ao lado de uma esquecida pilha de livros e da cama desarrumada, mas nada disso provou-se verdadeiro. Muito pelo contrário, as paredes estavam limpas, assim como o chão e a cama, nenhuma peça de roupa jogada apesar de vários cadernos abertos numa escrivaninha ao lado da janela. Embaixo da cama via-se um violão esquecido e, sobre ela, havia um jovem sem camisa, com aparência de sono e expressão surpresa em vê-la.
– Que cê tá fazendo aqui?
Yuri levantou-se e deu dois passos em direção a ela. A jovem parecia um pouco pálida, tinha as mãos trêmulas e o olhava fixamente com ansiedade.
– Algum problema?
De novo, não houve resposta. Ela fez que ia dar um passo à frente, mas ele precipitou-se em abraçá-la antes. Algumas palavras sem nexo vieram a ele, coisas como "Sinto muito, eu não devia ter...", mas todas foram silenciadas assim que Layla reuniu toda a coragem que possuía em si e elevou os lábios.
O toque, apesar de inesperado, foi intensamente apreciado dessa vez. Numa nota mental um tanto infantil, ela registrou que "tinha gosto de menta e não era tão nojento quanto parecia".
– Wow – ele murmurou ao separarem-se.
– Wow o quê?
– Você beija bem demais para ter sido a segunda vez...
Ganhou um riso sem graça e a beijou de novo, e de novo e mais uma vez e depois outra, e mais e mais até que ela risse da maneira boba e possessiva como a mantinha abraçada.
– Yuri... Já chega...
Relutou em dá-la mais espaço e a mirou fundo nos olhos, estes turquesas transbordando carinho. Ocorrem-lhe várias opções do que dizer em seguida, algumas mais óbvias que outras, mas a escolhida não foi uma convencional:
– O que você vai fazer no sábado?
–... Nada.
– Então passa aqui em casa pra gente-
– Ótimo, estava pensando mesmo em treinar mais.
A decepção foi tanta a ponto de ele soltá-la.
– Treinar? – perguntou incrédulo.
A jovem sorriu do semblante desacreditado dele.
– Isso mesmo – voltou-se para a porta e lhe sorriu já saindo – Acho que vou dormir, boa-
– Boa noite o caramba! – segurou-a pela mão – Onde pensa que vai?
– Para sala, onde a sua mãe estava colocando uns lençóis no sofá, oras.
– E que tipo de namorado eu seria se te deixasse dormir no sofá?
– Quem disse que estamos namorando?
– Estou dizendo agora!
O momento de silêncio repentino e de bochechas vermelhas foi quebrado mais uma vez por Dana abrindo a porta. A mulher riu ao perceber a situação.
– Bem, adoro interromper, mas prometi a nossa convidada que te trancaria no quarto, Yuri – disse soando alegre em infernizar o filho – Layla, sua cama está pronta e já é tarde, melhor dormir...
– Muito obrigada, Miss Killian.
– Dana, por favor – corrigiu-a – Vamos...
Saiu sem esperar que fosse seguida.
– Essa chata insuportável! – o rapaz xingou.
– Ela está certa, Yuri. Deveríamos dormir mesmo...
– Você não vai dormir antes de me dar uma resposta!
– Não houve nenhuma pergunta, para começo de conversa!
– Não vai me fazer dizer com todas as palavras, vai?
– Lógico que vou! – esbravejou com o que sentia serem lágrimas nos olhos – Primeiro você fica me flertando na escola, ai me beija no supermercado só para me deixar completamente confusa, depois escreve desculpas bobas no espelho, como se isso pudesse consertar qualquer coisa... Ai eu venho falar com você e... – respirou fundo – E agora essa história de "não dizer com todas as palavras"... Será que não cansou de brincar comigo ainda?
– Acha que eu estava brincando com você? Layla... – abraçou-a de maneira quase forçada – Eu nunca... Jamais poderia...
– E quanto a Julie, Annie, Jane e...
– Sua boba, acha que eu te trocaria por uma qualquer?
– Mas você...
– Como poderia não querer a mulher que amo...?
As palavras dele atingiram-na com força, deram-lhe frio na barriga, suador nas mãos e tremor nos lábios. Era a primeira vez que ouvia algo do gênero, não só a declaração como também ser chamada de mulher era algo novo em absoluto.
Desta vez, quando uniram as bocas, não foi ele e tampouco ela que estava sendo beijado, sendo ambos os agentes.
– Ainda quer dormir na sala?
– Mantenha suas mãos comportadas que minha resposta será não.
– Então vou pegar um travesseiro extra...
Bogdana acendeu o terceiro cigarro seguido e tomou um trago longo. Ah, em fim, a nicotina. Relaxou um pouco contra a parede do quintal enquanto admirava o céu noturno e tentava não pensar no erro homérico que (possivelmente) acabara de cometer.
Sem sombra de dúvida, pensava, aquela Layla era a namorada menos pior que o filho arranjara até agora, algo que por si só já era muito dado o número astronômico delas. Um arrasa corações, diziam na escola; um traste, dizia a mãe. Pirralho irritante, sem a mínima educação e, não obstante, culpado por suas noites mal dormidas.
Culpar Yuri era, havia dez anos, sua válvula de escape para problemas cotidianos, a começar por sua falta de aliança. Não se cansava de repetir que, se o estimado filho tivesse nascido um ano depois, ela e Arlon ainda estariam juntos.
Acendeu mais um cigarro. Ninguém podia culpar uma garota imigrante ilegal de quase 15 anos com documentos falsos de 21 por se apaixonar por um jovem americano de 22. Era, aliás, impossível não cair de amores por alguém como Arlon: lindo, inteligente, divertido, podre de rico, educado, carinhoso e simpático. Logo, quando um deus grego desses a convidou para sair, não teve dúvidas de aceitar; quando ele a pediu em namoro, também não houve hesitação e quando, meses mais tarde, perguntou se ela queria dormir no apartamento dele, a resposta não foi nem um pouco diferente. Mais ou menos ao mesmo tempo, arrumou um emprego que pagava quase bem, foi legalizada e conseguiu comprar a casa caindo aos pedaços na qual ainda vivia. Aquela fora a época mais feliz de sua vida, e uma que durou pouco mais de um ano.
Engraçado, o único micro detalhe que poderia dar errado àquele ponto seria esquecer de tomar o anticoncepcional ou Arlon esquecer de comprar o preservativo, e, como não poderia deixar de ser, ambos aconteceram na mesma noite.
Ficar grávida não foi a parte ruim da história, de maneira alguma. Ela e o namorado já falavam havia um tempo em casar-se assim que a construção do Kaleido Stage estivesse concluída, e ter um filho do homem que amava não era algo que não desejasse. A grande falha foi levar dito homem ao médico com ela para o primeiro exame. O velho linguarudo dissera que "não parecia uma gravidez de risco, mesmo para uma mocinha menor de idade".
Abriu outro maço e procurou o isqueiro. Aquele fora o início das desconfianças dele que ela o estivesse usando para conseguir uma cidadania americana e que, se ela mentira sobre algo tão trivial como a idade, sobre o que mais teria mentido?
Encontrou sua fonte de fogo e tentou ligá-lo três vezes antes de suceder. Decidiu cortar longas horas debruçando-se sobre suas tentativas frustradas de convencê-lo que realmente o amava. O que aconteceu foi que pararam de se encontrar, começou a receber uma pensão para pagar o enxoval do bebê e também começou a suspeitar que ele arrumara outra pessoa (um caso a parte, relembrou-se, já que a tal parceria de trapézio com aquele fulaninho magrelo estranho era muito suspeita).
Riu sarcástica ao lembrar-se de uma conversa torturante particular pelo telefone.
– Um menino?
– Acabei de dizer que é.
– Então vai ser George.
– Que nome feio, por quê?
– Significa trabalhador honesto
– Hm... Chame-o de Yuri, é a versão russa.
– Por que em russo?
– Ele tem que parecer pelo menos um pouco comigo!
E assim havia desligado na cara dele. Mais tarde descobriu que o nome também poderia ser lido como "Luz de Deus" (e em pesquisa recente, poderia ser "Lírio" em japonês), mas na hora aquilo não foi nem um pouco importante. O que importou foi que no início de março, sob o signo de peixes, nasceu um menino gordinho e saudável. O nome dado foi Yuri Killian sem mais discussões e, graças a uma maldita depressão pós-parto, Arlon viu-se aprendendo a trocar fraldas.
Meses depois, quando o bebê já podia ser colocado numa cadeirinha nas costas do pai, Yuri voou num trapézio pela primeira vez, dois anos depois andava na corda bamba sem cabos de segurança e em um espaço mínimo de tempo já sabia dar mortais na cama elástica, enquanto que ainda encontrava dificuldade no malabarismo e com tecidos. Até os cinco anos saía cedo para treinar com o pai e só voltava à noite já dormindo no carro, uma vez que a lei estabelecia a guarda da criança para a mãe.
Dana sorriu de novo. O segundo período de maior felicidade foi aquele, quando com pura ingenuidade e após cinco anos tentando reconquistá-lo pensou que havia sucedido uma noite em que quase foi beijada de novo. Essa época feliz não durou muito, talvez algumas semanas ou um mês no máximo, uma vez que uma tarde "os meninos" (como já os apelidara) chegaram cedo e Arlon explicou-lhe que estava saindo de viagem para treinar "uma técnica incrível para o Kaleido Stage". Aquela foi a única vez que viu seu filho único chorar desde que este deixara as fraldas.
– Não! Não quero que Отец vá!
– Não se preocupe, vai ser por pouco tempo.
– Papai, eu te amo muito e não quero que vá!
– Também te adoro, Yuri, e papai vai voltar bem rápido com um show maravilhoso para você e para a mamãe...
Fora uma cena de cortar o coração, e a adição mínima de "e para a mamãe" a encheu de esperança que talvez ele estivesse voltando a gostar dela. Depois daquilo, o telefone tocava religiosamente todas as noites, mas nem as ligações carinhosas ou as promessas de volta breve puderam impedir Arlon de cair do trapézio, rolar por um barranco no qual provavelmente havia quebrado o pescoço, afundar no rio perigosíssimo que corria abaixo ou serviram de consolo para o fato de que seu corpo nunca foi encontrado.
O último cigarro, prometeu-se, em memória do ilustre momento em que fumara pela primeira vez. A tristeza da viuvez da mãe solteira pedia o uso de drogas, estas lícitas e baratas devido a sua condição econômica. A bebida não foi uma boa opção, já que a dava enxaquecas impiedosas e também não gostava de perder o controle do próprio corpo como quando estava bêbada. Os cigarros, até aquele momento, não a haviam causado outros males senão algumas tosses e rouquidão.
Cultivou outros vícios também para livrar-se da dor. O primeiro foi a pintura, um que praticava na calada da noite quando não podia dormir e já estava desidratada pelo choro, e o segundo foi a dança. Quando menor sonhava em ser bailarina, e ter aulas junto ao filho foi a única maneira que encontrou para tentar aproximar-se dele, mesmo que também não houvesse durado muito por questões financeiras. Acabou por quase desistir do menino, criando-o sem muitos critérios ou preocupações. Ele transformara-se no traste que então dormia abraçado à namorada.
A vida era irônica, concluiu ao terminar de fumar. Deus permitisse que aquela Layla fosse menos estúpida que ela e não cometesse os mesmos erros, que Yuri não fosse tão horrível quando Arlon fora para com ela, que nada se repetisse, ou talvez não tivesse paciência para esperar o desenvolvimento de seu câncer de pulmão.
Na sala, o telefone tocou. Apesar do horário e do sono, Dana atendeu.
– Por favor, poderia falar com Layla?
Puxa, já a estavam procurando como se morasse ali? Quando as coisas ficaram tão sérias assim?
– Ela está dormindo, Mr...
– Hamilton – o homem disse – Layla é minha filha. A empregada me disse que ela estava na casa de um amigo e me indicou esse número.
– Ela está sem a chave de casa, Mr. Hamilton, então ofereci que dormisse aqui. Pode pegá-la amanhã de manhã.
– Vou mandar o motorista. Muito obrigado, Mrs...
– Miss Killian, se não se importa – ela corrigiu simpática – Desculpe a intromissão, mas há algo errado com Layla? Ela me pareceu um pouco triste.
– Bem, diga a ela que sinto muito se é por culpa minha. Eu queria falar com ela quando a vi hoje à tarde, mas minha assessora sussurrou-me que a ignorasse por estar se escondendo com um garoto...
– Ah, com isso não se preocupe, meu filho sabe se comportar quando quer, e eu jamais deixaria que ele fizesse algo a Layla.
– Se estiverem dormindo em quartos separados, conformo-me – soou cansado – Muito obrigado, Miss Killian. Espero poder conhecê-la pessoalmente.
– Até.
Desligou. Sujeito simpático, e que voz instigante... Em todo caso, riu-se, quartos separados... Como se aquela possibilidade existisse.
