Contos da Escola de Circo

Terceiro: O Pequeno Pônei de Gelo

Adrenalina, vento no rosto e o sinal. Soltou a barra, deu a pirueta e, quando abriu os olhos, encontrou as mãos do parceiro longe demais para pegá-la. Sem tempo para virar-se, caiu de cara na rede e fez um raspão mínimo no nariz arrebitado.

– Pela milionésima vez, Yuri – Layla esbravejou – Mais rápido!

– Pela milionésima vez, Layla – o garoto sentou-se no trapézio – Não dá pra ir mais rápido!

Señorita Hamilton – chamou Ms. Fernández – Está un poquito rápido demais.

– Viu só? – Yuri comemorou – Eu te disse...

Engolindo o orgulho ferido, a jovem desceu da rede e voltou a subir as escadas bambas. Desta vez, com movimentos mais lentos e graciosos, sucederam na acrobacia.

Perfecto! – cumprimentou a professora – Señorita Hamilton, acrobacias rápidas são boas para certas ocasiões, mas en la majoria de los casos é melhor tentar num ritmo normal.

– Sim, Ms. Fernández...

Bien, é tudo por hoje, estão dispensados.

Suspirou ao descer para tomar água. A seu lado, Yuri sorria por haver-lhe corrigido. A jovem tentava ignorá-lo, mas falhou por completo com o comentário seguinte:

– Tenho uma surpresa pra você, Laylinha apressada.

– Que tipo de surpresa? Porque se resolver me dar outro coelhinho que dê tanta alergia como o último, eu...

– Já disse que não sabia que você tem alergia a bichinhos de pelúcia, e não é nada disso.

– Então o que é?

– Não vamos andando pra sua casa hoje.

– Por quê? Resolveu finalmente que sou apressada demais pra andar e vamos correndo?

– Pois é, você é tão apressada que nem me deixa terminar a frase – cruzou os braços – Posso falar? – não ouve resposta, e decidiu considerar que "quem cala, consente" – Nós vamos...

Mas não chegou a completar a frase de novo. Ms. Fernández interrompeu-os com uma pilha de papéis na mão.

Permiso – começou com um sorriso satisfeito – Lembram-se de que lhes pedi uma idéia para a apresentação de fim de curso?

Como esquecer, a jovem pensou. Havia um mês ou dois que fora anunciado um tipo de concurso para decidir qual peça seria feita pela escola inteira, abrangendo todos os níveis e todos os alunos. Layla havia sugerido algum conto de fada, enquanto Yuri fizera um rabisco ou dois, mas logo concluiu que suas idéias só seriam realizáveis num circo de grande porte e com um cachê extremamente maior do que dispunham.

– O grupo de manhã das crianças menores sugeriu uma peça simples e um pouco bobinha, mas é cheia de simbolismo, e como elas são maioria na escola... Bueno, aqui está.

Cada um recebeu um maço grosso com a inscrição "O Pequeno Pônei de Gelo" na frente em letras grandes e coloridas. Yuri folheou o roteiro lendo uma linha ou duas por página, mas parou de supetão na que definia os papéis.

– Como assim eu sou o "Malvado Dragãozinho Verde"?!

Señor Killian, o Malvado Dragãozinho Verde é a força que move a peça – Ms. Fernández explicou – Deixe-me contar a história... – abriu sua cópia e leu o trecho introdutório em voz alta – "Na Pôneilandia viviam felizes os Pequenos Pôneis, enquanto o Pequeno Pônei de Gelo era deixado sozinho por ser frio". Isto é, diferente dos demais. "Muito triste, o Pequeno Pônei de Gelos foi embora. Eis que apareceu o Malvado Dragãozinho Verde e sua gangue de mal feitores", é a sua deixa, Señor Killian, "Eles queriam comer os Bebês Pôneis e...".

– Além de malvado eu quero comer criancinhas? Não gostei desse papel...

– Deixe-a terminar a frase, Yuri.

Muchas gracias, Señorita Hamilton. Como eu dizia, "O Pequeno Pônei de Gelo veio em socorro dos amiguinhos que o rejeitaram. Ele consegue salvar os Bebês, mas é capturado pelo Malvado Dragãozinho Verde".

– Além de pedófilo meu personagem ainda é seqüestrador?

– "Os outros Pequenos Pôneis" – Ms. Fernández ignorou-o – "ficam preocupados, e com a ajuda da Mamãe Pônei", aliás, meu papel, "salvam o Pequeno Pônei de Gelo. Eles pedem perdão por haverem sido tão frios", isto é, indiferentes, "com ele", e a peça termina com a Mamãe Pônei acolhendo o Pequeno Pônei de Gelo. O que acham?

– Quero mudar de papel – Yuri pediu – Não gostei nem um pouco disso...

– Leia a cena oito, señor Killian.

– Mas eu...

– Cena oito – ela repetiu fingindo simpatia.

Virando algumas folhas, encontrou a cena desejada. Uma leitura rápida revelou que sua luta com o personagem do título não seria nada mais do que uma coreografia. Leu como seria finalizada (como deveria levar a pessoa embora, teria que levantá-la, e moças no balé são levantadas pelo traseiro) e, ao ver que Layla também lia com intensidade a mesma página com bochechas rosadas, ocorreu-lhe um sorriso involuntário.

– Por acaso... – suprimiu o riso – Você não seria o Pequeno Pônei de Gelo, não é, Layla?

–... – corou as faces mais ainda e o mirou irritada – E se for? Algum problema?

Não pôde mais segurar o riso, para a irritação pura da namorada.

– Mudei de idéia, Ms. Fernández – suspirou entre gargalhadas – Amei meu papel!

– Achei que diria isso. Señorita Hamilton – a mulher virou-se para Layla – Gerald e yo te demos o papel principal porque confiamos muito em você e também porque você tem se destacado bastante. É um papel que vai exigir muito de você em vários aparelhos. Está de acordo? Es decir, se quiser trocar, vou entender.

Semelhante a seu primeiro vôo no trapézio e a algumas situações envolvendo Yuri que não quis nomear na hora, sentiu fogo correr em suas veias só de pensar no que aconteceria. Primeira atriz, rotinas difíceis, os aplausos...

– Aceito com todo prazer.

– Fico feliz em ouvir isso, Señorita Hamilton. Os ensaios especiais começam semana que vem e...

Explicou com mais detalhes os horários novos em que poderiam usar o galpão da escola para treinar, e também algumas possíveis datas para ensaios grandes envolvendo vários grupos. Dispensou-os de novo como se não o houvesse feito antes e voltou a guardar o material cantarolando e jogando olhares casuais à mão direita adornada.

A caminho dos vestiários, Yuri tentava encontrar uma melodia que acompanhasse sua mais nova composição.

– Hm, talvez algum tema de Natal sirva – pigarreou antes de cantarolar o seguinte – Oh, Layly Little Ice Pony, oh so sweet Layly Little Ice Pony...

– Já chega! – bufou – É só um papel!

– Mas você é o Pequeno Pônei de Gelo! – satirizou – Tem idéia do tamanho dessa frase? O Pequeno Pônei de Gelo!

– Sim, e daí, senhor Dragãozinho Verde?

O menino curvou as costas, levantou as mãos fingindo-as de garras e fez uma careta ao modificar a voz.

– Isso mesmo, Pequeno Pônei de Gelo – imitou um dragão – E vou te pegar, te prender numa caverna escura e...

– E o quê?

– Bem... – prendeu-a contra a parede num movimento rápido e imprevisto – É uma peça infantil, Laylinha, não podemos encenar essa parte...

– Vou dizer isso com calma, Yuri – respirou fundo – Saia de cima de mim!

Empurrou-o sem sucesso. O rapaz era muito mais alto que ela e muito mais avantajado no que se referia a força física. Não pôde preveni-lo de beijá-la no meio do corredor e, mesmo que estivessem sozinhos, o rubor de suas faces era mesmo de quando o faziam em público. Seu primeiro beijo fazia seu segundo aniversário em breve e ainda assim ficava vermelha quando recebia outro.

– Troque-se logo – ele sussurrou – Quero te mostrar a surpresa...

Fez como pedido, mas acabou decepcionada. Não se tratava de um presente, de um convite ou de qualquer coisa do gênero. A ínfima surpresa, para o desprazer de Layla, era o carro mais velho, surrado e caindo aos pedaços que jamais havia visto. A pintura vermelha descascava em vários pontos, os pneus estavam murchos e gastos e o vidro de trás trincado. Viu também que os bancos estavam muito rasgados e que a antena de rádio estava partida ao meio.

– Linda, não acha? – o garoto disse orgulhoso – Ganhei ontem! E olha só! – tirou um documento do bolso – Motorista legal perante as leis malucas desse país injusto!

Sorriu com a animação dele, mas a perspectiva de entrar naquela lata velha amenizou seu comentário positivo.

– Que bom.

– O que está esperando? – perguntou já entrando no carro com as chaves em mão – Vamos!

Hesitante, acabou por entrar. A arrancada foi brusca e, apesar das características rudimentares do veículo, Yuri dirigia muito bem.

– Por que não me contou que estava tendo aulas de direção?

– Gosto de te surpreender – comentou ao tomar um caminho tortuoso e mais longo – Mas o que achou?

– Bem... – decidiu evitar a pergunta – Onde arrumou esse carro?

– No ferro velho – admitiu com outro sorriso orgulhoso – Eu mesmo consertei. Faltam umas partes novas, mas acho que assim que arrumar um emprego vou poder pagar por elas...

– Que emprego?

– Me formo do colegial logo, já te convidei até pro baile de formatura...

– Você não pretende lavar pratos depois disso, não é?

– Lavar pratos? De onde tirou isso? – riu de leve fazendo outra curva desnecessária – Quero um estágio num escritório perto do centro. O salário é bom, o que quer dizer meramente que ele existe, quando acabar recebo um diploma e talvez me contratem lá mesmo.

– Yuri, do que está falando?

Parou num sinal vermelho e viu a expressão desacreditada da passageira.

– Dos meus planos futuros, caso não tenha percebido.

– Não acredito em você – cruzou os braços com o olhar fixo a frente – Como pode dizer essas idiotices?

– Desculpe se minha mãe não pode pagar uma faculdade – irritou-se também – Não nado em dinheiro como certas pessoas.

– Não estou falando de faculdade e não nado em dinheiro – tentou manter o tom da voz calmo – O sinal já abriu, Yuri.

Com todo o bom humor perdido, o jovem continuou com suas voltas e retornos, saindo do centro, passando e repassando pelos subúrbios até dar uma volta completa e fazer uma curva para a estrada vazia ao lado do calçadão da praia. Um silêncio perturbador acompanhou-os por todo o percurso.

– Vai mesmo abandonar tudo? – perguntou ela com voz fraca.

– Não comece com isso de novo – suspirou – Vou sair do curso por um motivo simples: grana. Não quer dizer que vamos parar de nos ver.

– Quer sim – olhou pela janela – Por que insiste que não quer entrar no Kaleido Stage?

– Porque não quero.

– Por quê?

– Há mais na vida além daquele circo, Layla – apertou a direção – Adoro trapézio tanto quanto você, mas isso não quer dizer que queira colocar um nariz de palhaço pro resto da vida.

– Não fale assim do Kaleido Stage!

– Defende aquele lugar como se fosse algo especial – resmungou – É uma tenda, cem pessoas, espelhos, fumaça e linhas de segurança escondidas. Grande coisa.

– Yuri!

Jogou-lhe um olhar de "Você não sabe o que está dizendo" e voltou a mirar o oceano.

– Pare de diminuir o Kaleido Stage. Não entendo como pode não gostar dele sendo que você mesmo é trapezista.

– É um circo da morte, Layla.

– O caso de Cynthia Benigni foi um acidente – disse referindo-se à primeira página do jornal daquela manhã – Até o marido dela disse que foi um erro dela.

– Como você é teimosa! Não quero fazer a audição, e também não quero que você faça. Faça a meia dúzia de cursos que o seu pai quer, cuide dos hotéis e boa.

– Quem você pensa que é para decidir isso por mim?

– Da última vez que chequei, seu namorado. E achei que minha opinião sinceramente importasse pra você.

– Isso é opinião? Você está mandando em mim como se...

– Eu me preocupo com você, caramba!

– Não vou morrer entrando no Kaleido Stage!

– É claro que vai!

– Yuri, escute a si mesmo falando! – elevou o tom de voz – É como se um assassino estivesse me esperando na saída da audição! Não faz o menor sentido!

Estacionou perto da praia. Ela assustou-se com a parada repentina e com a força com que o freio de mão fora puxado, mas permaneceu quieta.

– Layla... – suspirou desanimado – Por favor, não me obrigue a contar a história toda. Só me escuta, dessa vez é sério...

O tom era triste, hesitante e até temeroso. O olhar baixo demonstrava dor que logo foi substituída por medo azul claro.

– Não faça a audição, Layla... Não quero... Perder mais ninguém...

– Você não vai me perder – reafirmou sem a menor sombra de simpatia – Se entrarmos juntos, tenho certeza que não vai.

– Deixe de ser tão cabeça dura – exasperou-se – Toda essa resolução pra entrar... Você não sabe o que é o Kaleido Stage.

– Fala como se você soubesse – voltou a cruzar os braços e a fitar os joelhos – Chega dessa besteira, Yuri. Ligue o carro e vamos embora logo.

– Está bem... – obedeceu de mau gosto – Vamos deixar o Pequeno Pônei de Gelo em casa...

Layla desceu do carro sem se despedir, entrou em casa pisando duro, não respondeu ao "Boa Tarde" de Macquarie, ficou meia hora sob o chuveiro gelado para em seguida jogar-se de cara no travesseiro para abafar um grito de raiva e angustia. Aquele insistente, chato, teimoso, mal educado, insuportável! Por que queria controlá-la como se fosse uma criança? Detestava-o por fazê-la sentir-se tão brava.

Algo vibrou no bolso da calça. Ah não, de novo...

– Alô?

– Chamada a cobrar. Para aceitá-la continue na linha.

Típico, pensou ela, era sempre a mesma coisa...

– Hei, Pequeno Pônei de Gelo – veio a voz dele chiada – Já esqueceu que estava brava comigo?

– Não – bufou – E você, decidiu entrar no Kaleido Stage?

– Não – respondeu impaciente – Posso ir ai?

– Com que propósito?

– Talvez lavar pratos – disse irônico – Vou te ensinar a dirigir.

– O quê?

– Sabia que ia adorar a idéia. To indo.

E desligou. Layla fuzilou o aparelho antes de finalizar a ligação. O orelhão mais próximo era a duas quadras, logo, considerando o carro maravilhoso dele, estaria ali em dez minutos. Lavou o rosto e desceu para a sala. Havia uma nota de Macquarie sobre o jantar estar no fogo e que seu pai avisara que jantaria em casa naquela noite.

A campainha soou e, como prometido, ali estava Yuri.

– Oi – cumprimentou – Vamos começar?

– O quê?

– Aulas de direção – sorriu forçado – É o único jeito de manter você calada e prestando atenção no que eu digo.

– Não quero aprender a dirigir.

– Todo adolescente quer dirigir – generalizou – Vamos, entra no carro.

– Isso não vai dar certo, melhor nem tentar.

– Não foi isso que você disse quando te perguntaram se você queria ser o Pequeno Pônei de Gelo.

– Isso é totalmente diferente.

– Ah – sorriu com malícia – Laylinha Hotéis Hamilton, Pequeno Pônei de Gelo, tem medo de dirigir?

– Yuri, pare de me chamar de Pequeno Pônei de Gelo!

– Entre no carro, droga, estou tentando não brigar com você...

Ambos pareciam saturados um do outro e ainda assim insistentes em fazer algo dar certo. Layla abaixou os olhos e resolveu seguir os comandos. Em meia hora conseguira dar a partida e nada mais, para o riso irônico dele.

– Você aprende rápido – parabenizou – Quer tentar sair?

– Está louco?

– Só até o fim da avenida – espreguiçou-se – É um pedaço de reta e uma curva. E a essa hora não tem ninguém na rua.

– De jeito ou maneira alguma! Sequer sei engatar a primeira marcha!

– Então vamos em segunda, oras.

– Yuri!

– Mulheres no trânsito são nervosas mesmo – coçou a cabeça ganhando uma sobrancelha levantada em irritação dela – Guie até a reta no píer que eu faço o resto, pode ser?

– Não! – gritou – Tenho medo de dirigir! Pronto, já admiti, feliz agora?

– Muito, pelo menos agora você está sendo sincera comigo!

– Você é impossível!

– Eu? Você é o Pequeno Pônei de Gelo e eu que sou impossível?

– Pare de me chamar de Pequeno Pônei de Gelo!

A ferocidade que sentia quanto ao namorado fê-la bater o pé, infelizmente, atingindo o acelerador com força.


Mr. Hamilton terminou seu discurso sobre responsabilidade e afins ao colocar as mãos nos bolsos preocupado. Sentada na cama, com a postura correta e cabisbaixa, Layla tentava esconder o curativo que tinha na lateral do rosto com o cabelo.

– Sabe o endereço do rapaz?

– Sim.

– Levante-se, vamos até lá.

Obedeceu sem protesto algum. Era a situação mais humilhante que jamais passara. Seu pai ficara furioso quando soube do acidente e pior ainda quando lhe disseram que não havia esperança alguma de recuperar o carro. Em sua opinião, permitir que a filha única namorasse um traste qualquer já era um absurdo, mas que ele a colocasse numa carroça velha e a jogasse contra um poste era demais.

– Pai – ela murmurou a meio caminho – Por favor, a culpa foi minha, Yuri não...

– Não tente defendê-lo. Este não é o ponto.

– Mas eu...

– A questão é financeira – ele afirmou soando ofendido – Você deve um carro àquele garoto, além de outras implicações do código de trânsito...

Isto encerrou a conversa de maneira desconfortável. A chegada na casa dos Killian, no entanto, teve um clima totalmente diferente e muito mais animado. Bogdana atendeu a porta com um sorriso, um copo de vodka com limão e um cigarro aceso entre os dedos.

– Ora, se não é Layla e acompanhante – brincou – Entrem. É seu pai, querida?

– Sim, Ms. Killian.

– Ah, vejo que alguém mais levou bronca – sorriu – Quer uma bebida, Mr. Hamilton?

– Ahn, não, muito obrigado.

O homem estava chocado com a recepção enquanto Dana não parecia perturbada de maneira alguma pelos ocorridos daquele fim de tarde.

– Yuri está deitado na cama olhando para o teto no quarto dele, Layla – a jovem mãe disse – Se quiser, pode ir vê-lo. Acredito que não seja nada que você não possa consertar.

Agradeceu a sogra com um sorriso falho e seguiu para os aposentos do namorado. Como descrito, ele estava jogado na cama com o olhar fixo no teto, todas as luzes apagadas e a parte dianteira do braço direito enfaixado com gaze.

– Oi – disse baixo para não assustá-lo – Você está bem?

– Defina estar bem – respondeu com a voz ríspida.

– Não estar muito bravo comigo.

– Então estou péssimo.

A menina cruzou os braços.

– O que aconteceu com "Desculpe, seu policial, a culpa foi minha"?

– Quem sabe se você fosse menos histérica, eu poderia ter contado a história toda!

– Como não ficar histérica? O carro bateu!

– Ah, dá um tempo, salvei tua pele e o que ganho? Não ouvi nenhum "Obrigado por virar a direção, se não eu teria morrido esmagada contra um poste" até agora!

Ela calou-se, sem réplica. Ele estava certo, não o agradecera por haver salvado a ambos. Porém, analisando a situação, não era a única culpada. Quem havia começado com a idéia insana de colocá-la detrás de um volante fora ele, assim como quem começara a briga. Por que deveria agradecê-lo se ele era o responsável por tudo?

– Ah, esquece – Yuri virou-se – Conheço seu orgulho e sei que ele maior do que o medo de me perder...

– Do que está falando?

– Estou dizendo que nenhum de nós disse "Desculpe" nos últimos tempos.

– Então não é só o meu orgulho que é o problema, é o seu também.

– O que veio fazer aqui a essa hora? – fugiu do assunto.

– Meu pai está entregando um cheque milionário para a sua mãe.

– Ela encerrou esse tipo de serviço quando eu nasci, mande-o embora.

– Não fale assim da sua mãe!

– Falo como bem entender! Só porque ela te trata como se fosse filha dela não muda o que ela fez!

– E o que ela fez que você está tão chato?!

– Me proibiu de ir ao baile de formatura!

A jovem recuou. Depois do carro, ir àquele baile devia ser a coisa que Yuri mais queria.

– Yuri... Eu...

– Já disse pra esquecer, nada que você diga ou faça vai corrigir alguma coisa!

– Quer tanto assim que eu vá embora?

O jovem virou-se de novo, colocando-a em seu campo de visão. Ela parecia muito ofendida, ou no mínimo triste. Respirou fundo, bagunçou o cabelo e se sentou na cama sentindo-se duplamente cansado e frustrado.

– Não quero que vá embora – disse ao chão – Só pare de gritar comigo.

– Se você parar – ela suspirou – Brigar com você me cansa, sabia?

– A mim também.

No espaço que o silêncio concedia, Layla sentou-se ao lado dele na procura de um abraço. A verdade que nenhum dos dois jamais admitiria era que na hora do acidente tiveram muito medo e que toda aquela agressividade os estava protegendo da demonstração de quão grande fora o susto. Gestos traduzem idéias melhor do que palavras, concluíram num ósculo, e aquele não foi o último dos gestos. Vieram outros familiares. Foram interrompidos, como já era costume, por Dana minutos depois.

– Layla, seu pai está chamando – disse da porta soando frustrada – E dê um jeito na sua blusa, está amassada.

– Foi mal – Yuri sorriu ao vê-la passando as mãos pela roupa – Mas fica bem assim.

– Muito engraçadinho – puxou os cantos da blusa – O que meu pai vai dizer se ver isso? Tem idéia de quantos problemas...

– Ele não pode me proibir de pular o muro e aparecer na sua casa de vez em quando – segurou as mãos dela – Ou de te prender numa... Como era mesmo? – pegou um bolo de papéis que estavam sobre a mesa de estudos e leu em voz alta – "Numa caverna escura aonde só criaturas do mal vão para devorar suas vítimas".

– Oh sim – roubou o roteiro – A mesma caverna na qual "o Malvado Dragãozinho Verde é enclausurado até que se arrependesse das atrocidades que cometera contra os Pequenos Pôneis".

– Sabe, acho que estou começando a gostar dessa peça.

– Porque você fica preso numa caverna?

– É simbólico, Pequeno Pônei de Gelo – sorriu com ar de superioridade – Uma "caverna escura" é a prisão da mente humana, as inseguranças, medos e arrependimentos. Prender personagens como o Pequeno Pônei de Gelo e depois o Malvado Dragãozinho Verde num lugar desses é mostrar como as pessoas excluídas são mal compreendidas e que resultados isto pode ter em suas vidas.

– Andou estudando literatura?

– Gosto dessas coisas, são muito interessantes.

– Layla! – soou uma voz masculina pelo corredor.

– Droga – o rapaz resmungou – Não dá pra pedir pra ficar mais, tipo o resto da noite?

– Se você pedir – riu ela.

– Hm, tá legal, fica pra próxima.


Estrela, passo, volta, passo, mini-tramp, cama elástica. Pulo, pulo, pulo e pegar o trapézio. Balanço, um, dois, trocar de... Droga!

Rede.

– Está bem, Señorita Hamilton?

– Ah... Sim – mentiu estalando o pulso de volta para o lugar – Vamos de novo.

Repetiu a seqüência, quase sucedendo. Outra vez, e ali estava a fenomenal fuga do Pequeno Pônei de Gelo.

– Perfecto, Señorita Hamilton. Mais três vezes e vamos para a próxima cena.

O ensaio individual acabou em tempo de participar da aula em grupo. Já estava reforçando seu alongamento quando Yuri chegou rodeado de outros garotos e algumas meninas curiosas. Os comentários de todos seguiam a mesma linha:

– Cara, ela é linda!

– Onde arranjou aquela beleza?

A jovem calou-se na hora. Havia uma semana desde o acidente, e não se encontrara mais com o namorado durante todos os sete dias graças a um castigo ridículo imposto por seu pai. De quem estavam falando?

– Você já fez de tudo com ela? – perguntou um dos mais animados do monte.

– Já – Yuri disse orgulhoso – Precisa sentir a direção... Hidráulica, e que motor potente, meu, vocês não tem noção...

– Então ela topa todas?

– Com certeza – sorriu mais abertamente – Saí com ela todas as noites essa semana, e, nossa, sem comparação com a última, fiz cada loucura...

– Ela bebe muito?

– Bem, até agora não senti no bolso, mas acho que mais tarde...

Uma veia pulsava na têmpora de Layla. Eles não estavam falando do que ela pensava que estavam falando, estavam?

– Ela já tem apelido, Yu?

A Poderosa, sem dúvida. Estou apaixonado por ela...

A veia parecia uma bomba relógio a ponto de explodir. Aquele safado a havia traído! Como ousava? E contando atrocidades daquele tipo para todos que quisessem ouvir!

A aula transcorreu quieta. Descobriu que, quanto mais nervosa estava, mais exatos e inexpressivos eram seus movimentos. Devia estar soltando fumaça pelas orelhas, já que ninguém, incluindo aquele que um dia chamara de namorado, fora conversar com ela. Até Ms. Fernández parecia temerosa de dirigir-lhe a palavra.

Foi para o vestiário sem fazer o alongamento final e, pela primeira vez desde que entrara na escola, colocou-se debaixo da ducha pouco limpa do banheiro feminino com a roupa de treino mesmo. Ficou imóvel molhando-se por cinco minutos, trocou-se e deixou o cabelo solto. Já não tinha mais machucados no rosto, mas por algum motivo não tinha mais vontade de usar as presilhas de sempre. Correu para fora na esperança de não ver ninguém e acabou por encontrar a última pessoa que queria.

– Olá, Pequeno Pônei de Gelo – Yuri cumprimentou-a com seu melhor sorriso em meses – Sentiu minha falta?

Respondeu com o olhar mais assassino que já dera. Ele ainda se atrevia a falar com ela, que insolente!

– Não vai acreditar no que aconteceu! – continuou animado ignorando a reação dela – Lembra quando me disse que seu pai tinha me dado um cheque milionário? Cara, achei que você estivesse exagerando, mas... Layla?

Ela continuara a andar como se não pudesse vê-lo ou ouvi-lo. O jovem alcançou-a e a segurou pelos ombros.

– Quer me escutar? Eu...

– Não, não quero escutar. Se me der licença, estou com pressa.

– Hei, que isso? Uma semana sem me ver e não sentiu saudades?

– Mais do que você, ao que parece.

– Do que está falando?

– Do que você estava falando durante a aula?

O jovem deu um passo para trás, mas logo quebrou suas preocupações com uma gargalhada satirizada.

– Do que acha que eu estava falando?

– Não se faça de desentendido! Estava falando de alguma-

– D'A Poderosa – sorriu ao interrompê-la – Quer conhecê-la? Acho que vai gostar muito dela.

Foi puxada pela mão até o lado de fora dos muros da escola esperando encontrar alguma menina irritante com cara de dondoca e roupas indecentes. Na rua, contrário a suas expectativas, não havia nada a não ser por um carro esporte vermelho muito caro, polido recentemente e com o símbolo reluzente de uma grife de veículos famosa. A jovem jurou que sentiu o queixo encontrar com o concreto da calçada.

– A Poderosa, Laylinha Pequeno Pônei de Gelo – Yuri as apresentou – Laylinha Pequeno Pônei de Gelo, meu carro novo!

–... Yuri... Quero dizer...

– Não diga mais nada, só entre! Você tem que ver o que ela faz, é incrível...

E realmente era. O interior de cor marfim dava um ar maduro ao ambiente enquanto o cheiro de carro novo permanecia como de praxe. Algo, no entanto, parecia não pertencer àquele conjunto: um caderno de capa roxa e amassada estava sobre o banco do passageiro e estava etiquetado "Não se atreva a abrir".

– Para que o diário?

– Ele estava comigo e esqueci de te dar – explicou – Já escrevi sobre a semana passada, sua vez.

Layla sorriu. Era algo que haviam inventado havia mais de um ano. Mantinham um diário conjunto, uma idéia maluca de Dana que não parecia ter propósito até o fim das primeiras dez páginas. Inúmeras brigas haviam sido resolvidas com aquele primeiro bloco de notas (sem falar nas grandes risadas em outras leituras), e desde então não haviam parado seus registros. Deviam ter cinco ou seis diários cheios agora, além daquele que tinha em mãos.

– E aí? Pronta? – perguntou antes de ligar o carro – Ela vai de zero a mais de cem quilômetros por hora em poucos segundos, tem câmbio automático e anda muito bem obrigado em qualquer terreno.

– "Qualquer terreno" quer dizer que já testou todos?

– De que loucuras você acha que eu estava falando na aula?

– Entendo – disfarçou e tentou continuar o diálogo – Não acredito que comprou esse carro!

– Também não, é linda, não acha? – disse passeando ao longo da costa – Valeu por ter batido aquela lata velha que eu tava dirigindo antes.

– De nada – sorriu ao ver que não mais se desentenderiam pelo acidente – Pode ligar o rádio?

– Não, se ligar vai gastar minha preciosa bateria.

– Sovina.

– Conversar com você é um prazer, Pequeno Pônei de Gelo – riu – Não precisamos de música.

– Que lisonjeio.

– Saúde. Mas vamos conversar.

– Certo – olhou pela janela e viu no horizonte a forma agora acesa do Kaleido Stage – Vamos começar pelo que vamos fazer daqui a dois meses.

– Vou te seqüestrar, lembra?

– Além da apresentação da peça, o que mais?

– Vamos pra algum clube noturno – sugeriu – Minha mãe disse que não posso ir à formatura, não disse nada sobre ir a outro lugar.

– Talvez – restringiu – E depois disso?

– Se quer que eu diga que vou casar com você é melhor pular uns anos de cara, esse "e depois" vai demorar muito.

– A audição para o Kaleido Stage, Yuri!

– Ah, não! Lá vem você com essa de audição de novo.

– Sim, de novo e de novo até você dizer que vai fazê-la também.

– Me dê um motivo para fazer essa joça.

– Vamos entrar juntos.

Ele acelerou e fez outro retorno para voltar a passar pela praia.

– Se eu disser que penso no assunto, você me deixa em paz?

– Se for realmente pensar no assunto, deixo.

– Então desisto.

– Quer dizer que vai fazer a audição?

– Quer dizer que você é muito chata. Faz assim: eu faço essa droga de audição, mas não garanto que vou passar.

– Vai errar tudo de propósito?

– Isso mesmo.

– Ah, como você é chato!

– Desista, Layla, não vou entrar no Kaleido Stage!

– Você tem que entrar! Quer que eu arrume outro parceiro?

– Estou te traindo com o meu carro, lembra? Não vejo nada de errado em arrumar outro parceiro.

– Você quase terminou comigo no dia que a Ms. Fernández pediu pra trocar de duplas e fiz par com o Jimmy!

– Jimmy? Desde quando você e o James ficaram tão íntimos?

– Viu só?

Ambos suspiraram em frustração. Estavam brigando de novo.

– Tá, talvez eu seja ciumento mesmo – ele admitiu – Mas isso só é motivo para não entrar no Kaleido Stage.

– Por quê?

– Vou morrer se você tiver que beijar outro numa apresentação.

– Se você não entrar, talvez eu tenha mesmo.

Nada mais foi dito até que chegassem à casa dela. Ali se despediram, confirmaram que se veriam no ensaio especial de sábado e trocaram um beijo frio.


Kevin Hamilton levava a mala pesada para fora enquanto Layla mirava-o com olhos suplicantes. Havia dois dias que ele tirara uma semana de férias para passar mais tempo com ela e agora estavam na casa de praia há muito tempo desusada. A estância era uma herança de sua mãe, uma casa térrea ampla, isolada e cuja varanda dava na areia da praia, o ambiente perfeito para qualquer feriado ou fim de semana em família. Antes da morte de sua mãe, tinha lembranças de visitas freqüentes ao lugar, mas depois só se lembrava de haver vindo uma ou duas vezes. A sugestão da vinda por parte de seu pai alegrou-a muito, mas essa alegria provou-se passageira.

– Sinto muito, Layla – ele disse – Tem certeza de que quer ficar? Posso te deixar em casa se quiser.

– Não, muito obrigada – deu um sorriso fraco – As empregadas tiraram folga, não há motivo para chamá-las de volta agora. Não se preocupe, vou ficar bem.

– Está bem. Ligo assim que chegar na França.

– Boa viagem.

O homem deu-lhe um beijo na bochecha de maneira carinhosa e saiu. O presidente dos Hotéis Hamilton na França havia falecido recentemente e seu pai, como proprietário da rede, fora chamado com urgência para resolver uma dúzia de problemas que haviam surgido. Quanto tempo ficaria fora ainda era um mistério, e com ou sem ele a peça "O Pequeno Pônei de Gelo", estrelada por sua filha única, seria apresentada no dia seguinte.

A jovem assistiu à partida do pai com o mesmo sorriso falho com o que o ouvira dizer que não iria à sua estréia. Depois entrou na casa, dispensou o jantar e decidiu tomar banho. Chutou a toalha quando esta caiu no chão, amaldiçoou o xampu por haver acabado e irritou-se inclusive com o homem do noticiário quando ele, sorridente, desejou boa noite aos telespectadores.

Desligou a televisão e se deitou no sofá, ligando o rádio com o controle remoto. Alguém havia abandonado Bryan Adams por ali, algo que a frustrou se possível mais. Gritar com o mundo, chutar as coisas e fuzilar jornalistas com o olhar não fariam seu pai dar meia volta e ver sua apresentação. Não era como se seu celular estivesse a ponto de tocar anunciando que tudo não passara de um mal entendido.

Mas o celular realmente tocou.

– Alô, pai?

– Chamada a cobrar. Para aceitá-la, continue na linha.

Ah não, agora não...

– Boa noite, Pequeno Pônei de Gelo – veio a voz de Yuri – Onde diabos você está? Estou a quinze minutos gastando minha buzina na frente da sua casa e ninguém atende.

– Talvez porque não haja ninguém em casa.

– Isso eu já percebi. Onde você está?

– Longe daí – respondeu desinteressada – O que quer?

– Dois meses é o limite para "dar um tempo", lembra?

– Como?

– Diário de número um, Laylinha.

– Queime os diários, Yuri! O que quer?

– Você tá estranha. Aconteceu alguma coisa?

– Meu pai não vem para a peça amanhã – disse sem pensar e logo se arrependeu dado o tom de voz da resposta de Yuri.

– Zoou, né? – disse soando divertido – Tipo, ele não faltaria a sua primeira apresentação, fala sério.

– Parece que faltaria.

–... Então me passa o endereço de onde você está.

– O que pretende fazer?

– Te consolar, oras.

– Não preciso de pena. Deixe-me em paz!

– Joga esse orgulho no lixo, sua chata! Não é pena, só quero...

Mas desligou o telefone antes que ele pudesse terminar. Layla encolheu-se no sofá com muita vontade de chorar, mas conteve-se. Havia dois meses que só falava com Yuri durante as aulas e ensaios, era a pausa mais longa que já haviam dado em seu relacionamento, suficiente quase para considerar um rompimento total. Ainda assim, ele havia ligado uma noite antes do aniversário de namoro deles para perguntar onde ela estava. Além de tudo, seu pai não voltaria a tempo de ver a peça. Era pedir por lágrimas.

Calculou ter ficado mais de uma hora examinando o lustre discreto da sala na tentativa de suprimir o que sentia. Sua contemplação sem sentido foi interrompida pelo som de um carro sendo estacionado na garagem. A jovem foi invadida por esperança: talvez seu pai tivesse voltado! Correu para a porta da frente, mas não encontrou o veículo preto longo habitual, e sim um vermelho esporte muito brilhante.

– Ufa, achei – Yuri sorriu ao sair do carro – Não sabe o trabalho que tive pra te encontrar nesse fim de mundo...

– Como você...

– Procurei o telefone da Macquarie na lista telefônica, o que foi um sufoco porque não lembrava direito o sobrenome dela, aí liguei pra ela perguntado onde você tava e como chegar aqui. Me perdi muito também, mas no final te achei.

– Yuri, por que...

– Você é a pessoa mais chata – sorriu de frente para ela – teimosa, irritante, linda e fofa que já conheci – abraçou-a – Será que não pode engolir esse seu orgulho maior que você só hoje? Amanhã é nosso aniversário, lembra?

Apesar de sua irritação, não pôde resistir à maneira doce dele, ao jeito carinhoso como a tratava quando sabia que ela estava ferida. Deixou-se abraçar e o abraçou também, sentindo o calor humano que tanto sentira falta. Talvez por um momento de fraqueza ou talvez porque o sentimento fosse real, mas chegou a perguntar-se por que não o queria por perto naquela noite.

– Hei, não vai me convidar para entrar, Pequeno Pônei de Gelo?

Curvou os cantos dos lábios para cima sem graça. Algo no sorriso bobo e doce dele que conhecia tão bem fazia suas preocupações e tristezas parecerem menos piores, e isto incluía quase esquecer de que estivera a ponto de decapitá-lo dois meses atrás.

– Música legal – ele comentou – Me empresta o CD mais tarde? Só não garanto que vou devolver logo, tem problema?

– Independente de ter ou não problema, vai demorar para devolver de qualquer jeito, não vai?

– Hm... – revirou os olhos em indecisão – É – sorriu bobo de novo.

– Pega logo.

– Valeu – olhou em volta com as mãos nos bolsos do jeans – Você nunca me disse que tinha uma casa na praia.

– Lembrei há pouco tempo que tenho.

– Você não tá bem mesmo, Pequeno Pônei de Gelo.

– Por quê?

– Ainda não me perguntou se decidi finalmente entrar no Kaleido Stage.

– Por quê? Você decidiu?

– Pensei muito no assunto desde nossa última briga – ficou de frente para ela, porém mirando os pés e com um sorriso apreensivo – Pensei em você, em nós, nas aulas de circo, na minha mãe, na grana... E também pensei muito em Отец.

Yuri respirou fundo. Ótimo, acabara de resumir seu maior labirinto de idéias em uma frase e meia. Na verdade era algo muito maior do que só pensar em seu pai. Mesmo havendo passado os primeiros cinco anos de sua vida nos galpões de treino, não se lembrava do dono do Kaleido Stage, apesar de saber muito bem o que ele havia feito com Arlon, com ele, com sua mãe e também sabia que ele podia fazer o mesmo com Layla. Ela era ingênua e dava estupidez por bravura sem pensar duas vezes; era mais do que propensa a cair na ladainha de um louco que prometesse ensinar-lhe a maior e melhor técnica de trapézio do mundo. Não podia deixar que aquilo acontecesse. Yuri havia assim estabelecido suas duas metas: colocar no lixo aquele que havia feito o mesmo com ele e sua mãe e proteger Layla do mesmo destino que tivera seu pai.

A jovem, alheia a qualquer conflito interno dele, tentou dar continuidade à conversa.

– E...?

– Ah, caramba Laylinha – fez-lhe um cafuné no cabelo para disfarçar – Não dá pra ficar longe de você, é muito pra minha cabeça.

– Então você...

– Isso mesmo – piscou-lhe com um olho só e sorriu derrotado – Vou fazer a audição.

Abriu os braços em tempo de recebê-la para um beijo. Que bom, pensou ela, pelo menos alguma coisa estava dando certo. Sorriu entre as carícias dele, estas cada vez mais íntimas e, para sua própria surpresa, não as reprimiu como costumava fazer à princípio.

– Tudo bem se amassar sua blusa dessa vez?

– Não, dá muito trabalho para passar.

– Então acho melhor você tirar.

– Yuri...


Passando muito da acima da velocidade permitida pelas ruas de Cape Mary, Yuri escutava impaciente às reclamações de Layla.

– Você é louco, vai nos matar se não for mais devagar... Ai, por que fui te escutar quando disse que devíamos ficar um pouco na praia? Vamos chegar atrasados!

– Layla, a peça começa em duas horas, não é motivo para pressa!

– Ms. Fernández disse para chegarmos mais de duas horas antes, motivo mais que suficiente para pressa!

– Que Pequeno Pônei de Gelo mais chata que você é – riu amargo com o cabelo ao vento – Nem parece a mesma Laylinha de ontem a noite...

– Yuri... – disse em tom de aviso e com as bochechas rubras.

– Tá, calei a boca. Pisa fundo que vamos chegar atrasados, já sei...

Estacionou torto e ambos desceram correndo com as fantasias em malas pequenas e abarrotadas. A escola estava uma verdadeira desordem com crianças pequenas amontoando-se ao redor de Ms. Fernández, outras fazendo grupinhos de ajuda mútua com as fantasias e alongamentos e uma mãe ou outra fazia penteados em meninas pequenas.

– Até que enfim! – esbravejou Mr. Goldenburry ao ver ambos o protagonista e o antagonista chegando – Vão se arrumar agora mesmo, estamos dez minutos atrasados... Coloquem as fantasias e você já para a fila de maquilagem, Mr. Killian!

– Tá, to indo... – virou-se para Layla – Te vejo mais tarde.

– Certo.

Foram os 120 minutos mais longos de sua vida. Vestiu-se, maquiou-se e arrumou o cabelo com ajuda de Ms. Fernández enquanto repassava seus números, aqueceu-se e foi para a concentração. Ali, entre as muitas criancinhas deixando a professora louca, Yuri veio vê-la. Ele usava uma calça e suspensório único transversal verdes e um boné transfigurado para parecer a cabeça e nariz de um dragão. Da cintura para cima o rapaz estava pintado de verde escuro e musgo e trazia pedaços de plástico colados em vários pontos do tórax, braços e rosto para parecer que tinha escamas.

– Que tal? – exibiu-se – Perdi a cauda de dragão, mas ficou bem, não?

– Está incrível – sorriu um pouco nervosa – E eu, como estou?

Sua fantasia não era tão exótica. Tratava-se de um colam azul claro, uma meia-calça e segunda pele brancos por baixo, uma saia e sapatilhas também brancas e um laço azul para prender uma trança feita em suas madeixas louras. María havia colocado apliques azuis na trança e prendido uma cauda de lã azul e prata à saia para que parecesse mais com um pônei. Estava fofa, para qualquer um que tentasse definir, e a de Yuri não foi nem um pouco diferente.

– Ti takAya prelEsnaya!

– O quê?

– Um dia te conto – riu – Melhor ir para o stand-by, já está quase começando, Layly Little Ice Pony! – riu reforçando o sotaque e foi embora.

Señorita Hamilton! – chamou Ms. Fernández – Dois minutos para o início!

Com o coração batendo rápido e um frio incontrolável na barriga, Layla preparou-se para entrar em cena.


– Por aqui, niñas – Ms. Fernández instruiu – Ahora calma, respirem fundo y buena suerte!

– Quando fica nervosa fala mais espanhol, sôra – comentou Yuri sentado num canto atrás do cenário.

Gracias pela observação, Señor Killian – irritou-se – Não tem que se preparar para sua cena? Es el próximo.

– Eu sei – sorriu malicioso – Daqui a pouco vou levar a Layla embora pela bunda... Mas essa cena antes é gigante – bocejou – E a senhora está um arraso, Ms. Fernández.

A mulher colocou as mãos na cintura parecendo muito brava. Ela usava um conjunto semelhante ao de Layla: um colam rosa com segunda pele e meia-calça brancos por baixo, mas usava faixas frouxas rosas ao redor dos braços e das pernas além da saia de mesma cor. Também tinha um chapéu, este tão rosa quanto o resto da roupa com muitos laços e cara de cavalo, e uma cauda púrpura brilhante e volumosa. Diferente de Layla que tinha uma combinação meiga, Ms. Fernández parecia uma alegoria carnavalesca com aquele coração de purpurina pintado no rosto.

– Vá para o seu lugar, Señor Killian, tengo que cuidar de los niños...

– O dia que aprender espanhol, talvez eu concorde com a senhora... To indo.

Viu o jovem ir para seu lugar com um sorriso. Aquele moleque podia ter um gênio terrível às vezes, mas era um bom rapaz no fundo.

Três meninas pequenas correram até ela chorosas porque "O Malvado Dragãozinho Verde dá medo!". Bem, talvez Yuri não fosse assim tão bom, mas em todo caso, tinha que acalmá-las para a cena depois da dele.

– Mas, Ms. Fernández, eu não quero entrar agora!

– Tienes que entrar...

– Não entendi o que você disse!

– Oh, Dios...

Uma das pequenas pediu colo, as outras duas começaram a puxar-lhe pela fantasia. Mr. Goldenburry veio em auxílio, mas com ele vieram mais crianças. Antes que pudesse evitar o desastre, duas das crianças agarraram-se às suas pernas fazendo-a tropeçar e cair com braço sobre um dos cabos que seguravam o cenário no lugar. O cabo, sendo de aço, não sofreu dano algum. A mão de Ms. Fernández, por outro lado, prendera-se nos fios e parecia quebrada.

– María! – Mr. Goldenburry ajoelhou-se a seu lado – Está bem?

– No es nada – mentiu tentando esconder os dedos partidos – Los niños...

– Está bem, fique aqui que já volto – disse preocupado e voltou-se para as crianças – Muito bem, todos os Pequenos Pôneis, Unicórnios e Alados formem uma fila por turma...

Todas as vinte criancinhas logo estavam organizadas e entrando no palco. Gerald voltou para ver como estava Ms. Fernández, mas o que viu foi o que menos queria. O polegar parecia realmente quebrado, o que a incapacitaria da última cena no trapézio com Layla.

– Precisamos de um substituto – ele declarou – Desse jeito você não vai conseguir fazer o Catch...

– Mas quem? – perguntou nervosa – No hay nadie que...

Por onde as crianças haviam saído vieram duas figuras brigando verbalmente. Ao que parecia, Layla estava brava porque Yuri havia demorado demais com ela no ar para se aproveitar de situação.

– Você quase estragou tudo! – irritou-se – Meio segundo a mais e teríamos saído do tempo...

– Menos, Layla, fomos muito bem!

– Ah, fique... – percebeu os olhos cheios de lágrimas da professora e foi até ela – Ms. Fernández, o que aconteceu?

–... É isso – sorriu Mr. Goldenburry com sua idéia brilhante – Não se preocupe, guria, vá para a caverna no palco, você tem que estar em cena até o fim agora – empurrou-a – Boa sorte!

– Mas e quanto a Ms. Fernández?

– Não se preocupe – ela disse – Creo que ya he entendido o que Gerald está dizendo...

Sem escolha, a jovem obedeceu indo para seu lugar no cenário. Yuri, por outro lado, foi puxado pelo professor.

– Preciso que cubra uma parte – disse-lhe – Escute bem: assim que Katie fechar as grades da caverna com você dentro, passe por baixo da cortina e volte para cá para trocar de roupa.

– Cobrir para quem? Peraí – reclamou enquanto suas escamas de plástico eram arrancadas sem cuidado algum – O que exatamente eu tenho que fazer?

– Layla vai subir no trapézio e se jogar para o segundo em Split. Pegue-a, puxe-a pra cima, sente com ela na barra e a segure, ela sabe a pose.

– Achei que eu era (ai!) o malvado da história, por que tenho que (ai!) dar uma de galã no fim? (ouch!).

– Você não vai como Dragãozinho – terminou de descamá-lo e tirou um pouco da tinta que o jovem tinha no rosto – Te explico enquanto te ajudar a se trocar, agora vá, você tem que ser preso pelos Pequenos Pôneis!

No palco, Layla atuou o horror de seu personagem ao ver seu seqüestrador voltando à cena, mas não teve que fingir por muito tempo. A tinta verde no corpo de Yuri havia sido esfregada sem cuidado com um lenço e ele tinha a pele vermelha e inchada onde as escamas uma vez estiveram. Quem olhasse realmente acharia que ele estivera fugindo de um bando de pôneis raivosos. Apesar de sua aparência, o jovem seguiu atuando. Exibiu-se em várias acrobacias enquanto fugia do resto do elenco até que libertou o Pequeno Pônei de Gelo de sua prisão.

– Estou na última cena – sussurrou ele enquanto abria a porta de grades.

A jovem não teve tempo de responder, muito menos de associar a informação. Continuou com seu papel indo brincar com os outros irmãozinhos pôneis assim como mandava o roteiro. Subiu ao trampolim com os alunos mais novos e depois de alguns truques começou a subir com graça a escada para o trapézio.

Cena final, "Acolhimento". Devia balançar-se conforme o tempo que Ms. Fernández, no papel de Mamãe Pônei Cor-de-Rosa, ditasse, realizar um Split, ser pega, abraçar sua mãe fictícia e terminar tudo com uma pose infantil. A posição de trapézio já era sua especialidade e não representava dificuldade alguma, por isso sentia-se calma enquanto subia a escada bamba de cordas.

Só ao chegar à plataforma entendeu o que o namorado havia dito. Do outro lado, segurando o trapézio que deveria ser de Ms. Fernández e usando a fantasia de Mamãe Pônei Cor-de-Rosa (inclusive o coração de purpurina no rosto e as estrelinhas e laços no cabelo) estava ninguém menos que Yuri.

O público pareceu rir baixo, mas nada poderia suprimir sua vontade de cair na risada ao vê-lo com aquele rabo de cavalo púrpura reluzente gigantesco tentando contar o tempo da música de fundo. Por profissionalismo, limitou-se a rir de maneira controlada, o suficiente para não perder o sinal dele e realizar seu ato com a mais sublime perfeição. Quando a ascendeu para sentar-se com ele, a jovem segurou uma das cordas que mantinham a barra suspensa e sinalizou para que ele fizesse o mesmo, em seguida deitando a cabeça no peito dele com um sorriso que dizia "Estou em casa".

Todos os presentes sem exceção levantaram-se batendo palmas enquanto o resto do elenco enchia o palco improvisado no galpão da escola. Do alto, com qualquer som abafado pelos aplausos, Layla permitiu-se rir.

– Cale a boca, Pequeno Pônei de Gelo – ele disse encabulado – Como a gente desce daqui?

– Rede – riu mais – Mamãe Pônei Cor-de-Rosa!

Quase meia hora mais tarde, depois de trocar-se no camarim improvisado no banheiro feminino, Layla foi interceptada por um grupinho de colegas de escola das meninas pequenas que fizeram os Pôneis Alados. Depois de muitos elogios por sua performance foi feita a pergunta sobre o Kaleido Stage. Assim que respondida, veio uma proposta inesperada:

– Ms. Layla, quando você entrar podemos montar um fã-clube seu?

Ocorreram sorrisos à jovem. Sequer havia entrado no circo e já tinha admiradores! As meninas despediram-se com a promessa de organizar tal clube. A próxima pessoa a encontrá-la foi Bogdana seguida pelo filho mal-humorado.

– Estava linda, querida! – parabenizou-a – Filmei tudo em fita! Ah, Yuri! – abraçou o filho com um sorriso sádico – Vou mostrar isso para meus netos! Meu filhinho, a Mamãe Pônei!

– Cor-de-Rosa – completou Layla.

Ambas riram com gosto para o desprazer de Yuri.

– Bem, foi uma peça maravilhosa – disse a mulher – Mas já tenho que ir.

– Não vai voltar pra casa?

– Foi o senhor que desapareceu ontem – apontou o dedo para o filho – Minha vez de ter um encontro.

– Encontro? – Yuri pasmou – Você? Quem em sana consciência sairia com você?

– Alguém pouco normal, suponho – sorriu ela – Tente chegar em casa antes das nove de amanhã, Yuri, estarei te esperando.

Assim despediu-se caminhando em direção contrária à que levava ao carro. O jovem continuou a olhá-la desacreditado.

– Ela tava zoando, né? Tipo, ela não tem um encontro, tem?

– Sua mãe tem 32 anos, acho bem saudável que tenha uma vida amorosa ativa – Layla disse fria e não dando devida importância ao assunto – Não vejo problema algum.

– Não foi isso que você disse quando achou que seu pai tava beijando a secretária!

– Isto é diferente – cruzou os braços ao fechar a porta do carro.

– Não, não é – retrucou mal-humorado – E ela não está fazendo isso porque é saudável, está querendo me provocar porque fiquei com você ontem a noite.

– Arrepende-se de ter ficado comigo, é isso que está dizendo?

– Não distorça minhas palavras e esse não é ponto, Pequeno Pônei de Gelo.

– Pare de me chamar de fria, Yuri!

– Ah, até que enfim percebeu o porquê do apelido!

– Percebi há tempos. Agora pare com isso, está acima do limite de velocidade de novo.

– Quem liga pra limite de velocidade?

– Eu ligo!

– Deixe de ser careta!

– Você devia ter virado três ruas atrás para me deixar em casa e agora está correndo!

– Estou tentando conversar com você como pessoas civilizadas, mas parece que é só abrir a boca que brigamos de novo!

Um silêncio desconfortável caiu sobre eles. De fato, depois de dita a segunda palavra tudo que faziam era ofender um ao outro. Isto o perturbava demais. Sentia que a cada insulto a coisa que mais temia parecia mais real: perderia-a.

– Quer um trato? – ofereceu em voz baixa – Não te chamo mais de Pequeno Pônei de Gelo se nunca contar pra ninguém minha ponta de hoje.

– Parece-me bem – disse sem mirá-lo.

– Quer carona para a audição semana que vem?

– Não, obrigada. Pretendo ir sozinha.

– Por quê?

– Caminhar até o Kaleido Stage é um bom aquecimento.

– Desculpa péssima.

– Não foi uma desculpa – declarou firme – Sejamos mais profissionais, sim?

– Profissionais? – disse amargo – Profissionais frios, sérios e sem comprometimento algum se não o Kaleido Stage?

– Talvez.

A fina linha entre apaixonados e completos estranhos parecia haver sido cruzada. Yuri tencionou os ombros enquanto Layla permanecia calada com os olhos baixos. Não queria e queria muito dizer aquilo. Era preciso, repetiu em sua mente, necessário e até um pré-requisito.

– Obrigada por me trazer – disse como que para um taxista quando finalmente chegaram à casa dela.

– Tem certeza disso? – Yuri segurou-a pela mão numa última tentativa – Sabe o que está fazendo, Layla? Está me trocando por aquele circo. Acha que é certo desistir de mim, de tudo que já passamos juntos, de...

– Yuri, não seja ridículo! – soltou-se – É o meu sonho e não pretendo desistir dele!

– Nem por nós, Laylinha?

Ele soava extremamente ferido. Layla levantou os olhos para ele demonstrando a maior frieza que podia para pronunciar as próximas palavras de maneira clara e decidida:

– Ainda podemos ser amigos.

Depois de um instante de palavras mudas, o jovem riu cheio de sarcasmo e ironia. Amigos, ela dissera, amigos...

– Como quiser, Pequeno Pônei de Gelo – bateu na direção dando-se por vencido – Te vejo na audição.

Saiu cantando pneus e deixando-a só sob um céu noturno tempestuoso. Não fazia a menor idéia de para onde estava indo, mas tinha certeza de que não pararia até que ficasse sem gasolina ou que o sol voltasse anunciando a chegada de um novo dia, o que viesse primeiro.

Layla assistiu-o ir e, assim que o perdera de vista, foi para dentro de casa. Uma vez que se encontrava na segurança de seu quarto, caiu trêmula sobre os lençóis brancos lutando para impedir as lágrimas que se formavam em seus olhos.