Contos da Escola de Circo
Quarto: Os Diários
– Mais três caixas, Yuri! – Bogdana gritou ao filho – Tem um monte de lixo aqui...
– Gostaria muito de saber porque diachos meu quarto foi transformado em depósito – ele resmungou – Só porque não durmo mais aqui não quer dizer que pode fazer o que quiser com ele.
– Você mora aqui?
– Não.
– Freqüenta a casa?
– Não.
– Me deu algum centavo que roubou do Kaleido Stage?
– Não roubei nada do Kaleido Stage!
– Não sou besta, Yuri. A resposta para todas as perguntas é não, portanto você não apita nada. Agora leve essas últimas caixas pra fora, o lixeiro vai passar hoje à noite.
Mirou-a com orgulho ferido. Talvez ela estivesse certa, mas isso não a dava o direito de dizer-lhe aquelas coisas. Viera ajudá-la a arrumar a casa de maior bom grado, não merecia ser insultado e diminuído daquela maneira.
– Mas eu perdôo você – Dana interrompeu o silêncio desconfortável.
– Me perdoa?
– Não me venha com a culpa também foi minha – ela cruzou os braços – Já ouvi demais isso daquela esquisita que se diz sua psicóloga.
– Talvez porque ela esteja certa?
– Impossível – ela retrucou – Você só voltou a si porque Layla tentou quebrar sua bochecha, caso contrário você ainda estaria pirado.
– Мать, apreciaria profundamente se parasse com esses comentários deleitosos.
– Aquela menina é uma santa, você até aprendeu a falar direito! – Dana apertou as bochechas dele e o acompanhou pelo corredor.
– Concordo – ele sorriu – Você até parou de fumar.
– Bem, aquela Técnica Incrível realmente foi inspiradora, e quando Layla me contou toda a história de como havia conseguido realizá-la e me pediu que parasse de fumar, eu...
– Técnica Fantástica.
– Como queira – fez um gesto vago com as mãos – Não pude deixar de pensar no seu pai enquanto estava lá... – ela comentou sorrindo.
– Já me disse isso, e eu já disse que eu também.
– Estávamos os dois chorando, não creio que tenhamos dito nada.
– Eu não estava chorando!
– Claro que não estava – ela sorriu – Mas, mudando de assunto – debruçou-se sobre um jornal aberto na mesa – Vi os anúncios para a próxima peça. Aquela Sora vai mesmo ficar com um papel secundário? Faz só alguns anos que ela fez a Técnica do Cisne e estava tão em forma...
– Técnica Angelical, a peça era "O Lago dos Cisnes".
– Que seja – ela repetiu o gesto vago – Ela vai mesmo deixar aquela ruivinha irritante com o papel principal?
– Vai – ele respirou fundo – Sora está se poupando para que possa continuar no ramo por muito tempo.
– E o bonitão que dizem ser assassino? Também?
– Leon não é assassino – ele levantou outra caixa – "Deus da Morte" é um apelido antigo. E sim e não para a sua pergunta. A rotina dele é bem complicada por si só, então diminuímos um pouco a participação dele para que não corresse nenhum risco.
– A revista de fofocas que eu li – Dana foi procurar a publicação – contava horrores de que ele e a Sora estavam com sérios problemas físicos e que talvez ficassem tetraplégicos.
– Por favor, isso é ridículo!
– Imaginei que fosse. O número anterior dessa revista sugeriu que os dois estivessem morando juntos.
– Outra mentira – ele mexeu no cabelo – Mas o que me preocupa são os papéis principais. Parece até que estava programado, minhas duas estrelas pedindo uma folga quase ao mesmo tempo... Nem sei como May e Rosetta-
– May e Rosetta? – a mulher interrompeu-o – E quanto a você? Não tinha dito que voltaria como produtor e trapezista?
– Isto é um fato discutível – Yuri embromou – Meu desgaste emocional de anos atrás é um obstáculo a ser considerado, assim como minha falta de treino nos mesmo anos e...
– Achei que gostasse de voar – ela comentou breve – Achei mesmo.
–... Eu gosto de voar – ele hesitou – É só que sozinho não é a mesma coisa e minhas opções de parceiras agora me desincentivam muito...
– Peça Layla em casamento de uma vez antes que você pire de novo ou que ela encontre outro.
–Мать!
– Odeio ser expectadora dessa novelinha mexicana de vocês! – desabafou ela – Sabe o que você fez quando chegou em casa da sua primeira aula de circo? Você quebrou dois pratos porque estava pensando nela! Você não desgrudou dessa menina desde então!
– Não é tão simples assim! Não posso virar para ela e dizer "Oi, a gente tem um passado juntos, quer casar comigo?"!
– Passado! Vocês namoraram e terminaram mil vezes, dentro e fora daquele maldito palco, você já até dormiu na casa dela...
– Nas duas casas dela...
– O que disse?
– Nada, prossiga com o sermão, estou escutando.
– Seu traste – mexeu no cabelo irritada – O que quero dizer é que a situação de vocês é ridícula! Com quantas mulheres você saiu desde os 17 anos?
– Duas: Layla e Sophie, quando ganhei o Festival de circo?
– Nenhuma, Yuri, e tenha a decência de não mentir pra mim – irritou-se – Sabe por que você é esse fracassado? Porque todo esse tempo você esteve pensando na Layla, sete anos que você olha para ela a distância e se contenta com a lembrança do tempo em que estavam juntos! Isso é um absurdo!
– O que você diz é um absurdo – ele deixou a última caixa de lado e também irritou-se – Jamais me contentei com lembrança alguma! Acha que não tentei, que não gastei todas as minhas forças em tentativas de reconquistá-la? Ou que ainda não tento? É claro que sim! A quem você acha que a metida a psicóloga culpou mais do que a você e a Отец por eu haver "pirado"?
– Sei disso, mas esse não é o ponto! Faz quatro anos que tudo se resolveu, não é tempo o suficiente para criar alguma vergonha na cara e voltar a sair com ela?
– Мать, não sei se sabe ou se você se lembra das viagens a Nova Iorque que paguei pra você, mas Layla está morando do outro lado do país no momento.
– Por que acha que ela fugiu de você?
– Ela tem a vida dela e eu tenho a minha! Ela está seguindo a carreira artística na Broadway e eu estou produzindo peças no Kaleido Stage! Ela não está fugindo de mim!
– Lógico que está, mas não é só ela – ela disse calma – Você está se escondendo dela também.
– Você conseguiu não fazer sentido algum de novo.
– Escute, criança, Мать tem uma lição de vida pra você: o Amor não tem barreiras.
– Muito lindo, Мать, mas o mundo não é uma canção dos Beatles.
– Yuri, imagine-se de volta ao palco, com rotinas relativamente difíceis, várias peças bem sucedidas, sempre com o mesmo elenco. Como se sentiria?
– Muito bem, obrigado.
– Imagine-se fazendo isso por três anos e sem vida social. E agora, como se sentiria?
– De saco cheio, pois o palco não me ofereceria mais desafio algum.
– Muito bem, seu traste – sorriu contente – Layla está entediada com a rotina na Broadway, estou certa. Isto é, para não mencionar que está se sentindo sozinha, carente etc.
– Ligou para ela ontem, não é?
– Sim, como sabe?
– Ela só demonstra essas coisas pra você e para a Sora... – ele respirou fundo – Você é uma vigarista, manipuladora, calculista...
– Esqueceu que, infelizmente, passei tudo isso para você?
– É exatamente o que me assusta.
– Deveria me agradecer, seu traste – brincou – Mas, por maior que seja a tentação, vou te deixar armar o plano sozinho. Talvez... Hm, não jogue a caixa pequena fora.
– Por quê?
– Tem material de pesquisa dentro dela.
– Material de pesquisa?
– Ponha-a no carro e só abra quando estiver sozinho no seu quarto e com o telefone fora do gancho. Ainda vai me agradecer.
Seguiu o conselho. Deixou a casa da mãe depois de almoçar e seguiu para um supermercado a fim de encher a geladeira até o fim do mês. Fê-lo em pouco mais de meia hora e logo se dirigiu ao caixa. Na longa fila, escutou uma voz conhecida chamando atenção de uma criança.
– Juan Antonio, dejalo ya!
O jovem virou-se. Atrás de si uma mulher morena segurando um bebê ordenava que o pequeno deixasse as compras dentro do carrinho. As feições da moça estavam um pouco diferentes, assim como a forma física, mas não havia erro.
– Ms. Fernández?
Ela desviou os olhos do filho para fixá-los no rapaz à sua frente, sorrindo instantaneamente.
– Señor Killian! Há quanto tempo!
Era mesmo quem havia pensado. Sua antiga professora de circo havia mudado pouco, se casara com Mr. Goldenburry como previra Layla, mas infelizmente, fechara a escola da qual um dia fora dona.
– Mas, por quê? Tudo estava tão bem quando Layla e eu nos formamos...
– Bueno, estávamos com poucos alunos, Juan Antonio estava quase nascendo e Gerald quebrou a perna. Tivemos que suspender as aulas até que ele se recuperasse e... En résumen, fechamos a escola – ela concluiu com um sorriso triste – Pretendemos ir para o México semana que vem. Ver mis padres.
– Puxa, não esperava uma coisa dessas.
– É triste de fato, mas chega de mim, e quanto a você? Olhe só no que o pivete que chegava atrasado nas minhas aulas se transformou! O melhor trapezista do país, de reconhecimento internacional...
Seguiram-se elogios mil e comparações com seu comportamento discutível quando aluno. O incidente de anos atrás foi ignorado durante a conversa. Tudo ia bem até a pergunta fatídica.
– Ouvi que Layla está na Broadway – ela comentou animada – Tem tido notícias dela?
–... Poucas – limitou-se a responder – Ela anda muito ocupada.
– Entendo... Sabe, Señor Killian, sempre achei vocês um casal muito simpático – sorriu doce e continuou antes que ele pudesse dizer que não eram um casal – Quando a ver mande lembranças minhas.
– Mandarei, Ms- quer dizer, Mrs. Goldenburry – ele sorriu-lhe – Até mais.
– Muito bom – Cathy disse com voz apática – Para uma criança de três anos numa peça de jardim de infância, está muito convincente.
– Obrigada – Layla respondeu de mau gosto – Ultimamente tudo que você tem feito é criticar minha performance sem nenhuma sugestão de como melhorá-la.
– Sua performance não está ruim, está intragável – Cathy revirou os olhos – Não sinto nada, absolutamente nada quando te vejo atuar.
– Estou seguindo o roteiro, estou dentro do ritmo, sei todas as minhas falas, estou com os joelhos roxos daquela cena que tenho que me jogar no chão e entendo muito bem a essência do meu papel.
– Hm – a mais velha suspirou desanimada – Não sei explicar qual é o problema, só sei dizer que está insosso. Quer saber, você precisa de férias.
– O quê?
– Isso mesmo, férias – ela insistiu – Vou cancelar as próximas duas semanas e faço do próximo o último fim de semana. Ai, encerramos a temporada, você tira uns meses de férias e, quando voltar, estará se sentindo muito melhor.
– Uns meses?
– Não soe tão horrorizada. Você não tirou férias desde que se juntou à companhia, posso ser processada se você...
– Férias? O que vou fazer com férias?
– Dá um tempo, Layla – Cathy banalizou com um sorriso – Vá pra casa, reveja aqueles tios e primos chatos que todo mundo tem, arrume um namorado, sei lá!
– Diz isso só pelo que aconteceu da última vez que fomos ao Kaleido Stage? Faz mais de uma semana, e não conversei com Yuri desde então...
– Tá aí um cara interessante.
– Sádico, você quer dizer.
– Não, o acho bem interessante – ela riu – Você me disse que já saiu com ele, que ele te botou na rua quando trabalhavam no Kaleido Stage, que você já esbofeteou a cara dele, depois teve coragem de pedir favores esdrúxulos, e, com toda essa bagunça, vocês ainda se gostam.
– Não gosto dele – a loira negou com uma careta apesar de não saber ao certo qual seria a resposta correta ao comentário – E nunca o esbofeteei, foi um só um...
– Contato um tanto agressivo entre a sua mão e o rosto dele.
– Exatamente.
– Não seja tonta – Cathy levantou-se e indicou a saída – Vamos almoçar, aí veremos se há algum motivo razoável porque você daria um fora num cara lindo e gostoso daqueles dando mole pra você...
– Não é tão simples como você está dizendo.
– É bem simples sim: dar pra ele uma vez ou dar pra ele sempre que possível.
– Cathy, não é isso – Layla insistiu já se sentindo frustrada – Yuri é uma pessoa muito difícil, inoportuna, teimosa...
– Por difícil você quer dizer que quando você quer, ele não quer e vice-versa; inoportuno é porque ele decidiu te beijar no meio de um monte de gente naquele coquetel depois da peça quando você não queria; e por teimoso você me diz que essa não é a primeira vez que ele faz isso.
– Às vezes gostaria que você me lesse menos.
– Sou boa nisso, não sou? – ela sorriu para a amiga – Acho que você deveria deixar de ser tão rija com ele – parou para pedir comida chinesa no drive-thru – Sabe, vocês não são mais crianças e não vejo nada de errado em se envolver um pouco.
– "Dar pra ele" é se envolver um pouco?
– Se você já deu pra ele antes, é. Estou supondo que com 23 anos você não esteja esperando que seu príncipe encantado, único amor de sua vida, leve sua doce inocência.
– Já superei essa fase, não se preocupe – Layla sorriu um tanto sem graça – Mas esse também não é o meu ponto. Há sete anos que rompi com Yuri, e nesse meio tempo aconteceram coisas demais...
– Você ou ele arrumaram outro ou outra?
– Não. Quer dizer, ele já, mas...
– Mas o quê?
– Ela morreu.
– Vá dar pra ele, Layla.
– Cathy!
– Certo, certo. Chega de falar de homem. Voltemos à peça: antes que eu decida realmente cancelar as últimas semanas, alguma sugestão?
– Vamos mudar um pouco a penúltima cena, o que acha?
– Você não vai dar nenhum mortal sob circunstancia alguma enquanto trabalhar no meu teatro, já falamos sobre isso...
– Mortal não, mas uma seqüência pequena e simples de acrobacia solo.
– Mas o seu braço...
– Uso um tencionador, não se preocupe.
– Está bem, mas suas temidas férias perigam aumentar se acontecer alguma coisa...
Não sei porque estamos fazendo isso, mas minha mãe sugeriu que comprássemos esse caderno feio pra 'registrar nosso relacionamento' ou qualquer coisa do gênero. Vou passar a caneta pra Layla ver se ela tem alguma coisa melhor pra dizer.
Nada a adicionar.
Yuri sorriu. Então era aquilo que sua mãe quisera dizer com "material de pesquisa". Os diários!
Essa menina é uma fresca. Ela disse que não podíamos sair hoje porque ela tinha que estudar. Quem nesse mundo prefere estudar a sair com o namorado? Que chata...
Yuri, que comentário maldoso! Mas obrigada de qualquer maneira. Se você não tivesse me explicado os gráficos de matemática nunca teria ido bem na prova.
A primeira briga, pensou, a primeira de muitas. Foi naquele momento que começaram a valorizar os diários: porque podiam ler, olhar um para o outro e rir juntos. Avançou mais algumas páginas até encontrar outra entrada interessante:
Hoje mencionei que nunca havia assistido alguns filmes da Disney e Yuri quase teve um ataque cardíaco. O bobo ficou dizendo que não tive infância.
Nota pra mim mesmo: vou levar a Layla pra Disney World de lua de mel.
– Boa idéia...
Estou puto da vida com ela! Ela fez as duas únicas coisas que me tiram do sério!
Ele está falando de cócegas e roubar o boné dele. Foi bem engraçado, principalmente quando um cachorro roubou o boné da minha mão e foi enterrá-lo em algum lugar no parque...
Se há algo que pode ser chamado de sacanagem era aquilo. Bonés são sagrados para meninos, todos sabem disso. E cócegas! Fora um golpe muito, muito baixo...
Pulou mais folhas. Estava disposto a descobrir quando seus problemas de relacionamento começaram.
Estou escrevendo bem tarde. Layla disse que vamos dar um tempo porque 'sem querer querendo' quis verificar se ela não tinha câncer de mama. Muito injusto da parte dela...
Você é um idiota, Yuri! Apertando meus seios sem permissão! Que atrevimento, que sem-vergonhice, que...! Ah, você é impossível mesmo!
Realmente, riu-se, fora um passo não muito bem calculado. Quantos anos tinham então? Contanto que nenhum dos dois fosse maior de idade, não poderiam prendê-lo por desejá-la. E com o corpo que Layla tinha (e tem!, lembrou-se), ninguém podia culpá-lo.
Voltamos. Graças a Dana. É meu aniversário. Não tenho nada a comentar.
Eu tenho!
Mas não se podia ler o que Yuri tinha a comentar. As linhas estavam rabiscadas até que o papel quase fosse rasgado. A caneta usada era preta e os riscos estavam em azul. Forçou os olhos o máximo que pôde, o suficiente para ter uma idéia do que se tratava.
– Ah, era isso... – ele entendeu com um riso maroto enquanto voltavam-lhe as lembranças da noite na qual escrevera aquilo – Mas aqui em baixo tem outra coisa...
Forçou mais os olhos. Estava escrito a lápis falho.
É uma promessa.
Selada a sangue.
Mais rabiscos, dessa vez sem esperança alguma de serem lidos. Promessa? O que seria aquilo? Não tinha a mais vaga idéia do que poderia...
– A promessa!
Como pudera esquecer? Como? Fez uma conta nos dedos. Sua mãe estava certa: era um fracasso amoroso, não era possível...
Passou vários minutos xingando-se para, assim que tomou a firme decisão de voltar a ver Layla, continuar sua leitura.
Coisas a corrigir no trapézio: tempo, posição dos ombros e levantar mais as pernas para o swing
E não esqueça de parar de virar o corpo, Laylinha! Ainda desloco o braço tentando te pegar daquele jeito...
Esta passagem foi digna de riso. O vício postural de Layla dera-lhe vários problemas com técnicas simples, mas a mania de virar o corpo rendeu o troféu de primeiro lugar no Festival de Circo a eles dois anos depois. Aliás, uma pena que haviam parado de escrever os diários antes da criação da Golden Phoenix, daria um romance épico best-seller.
Não leu o resto do caderno e pulou direto para o último, abrindo este no meio:
Ganhei meu primeiro carro. Pra falar a verdade, é uma lataria que resgatei do ferro-velho e consertei não sei como, mas é lindo mesmo assim. Faz uns barulhos estranhos às vezes, é pequeno e cheira a ferrugem, mas ainda é um carro: vai para frente, para trás com dificuldade e faz curvas pouco circulares. Mal posso esperar pra mostrar pra Layla!
Em baixo haviam alguns pedidos de desculpa rabiscados com a letra da jovem, mas a nota seguinte, apenas algumas linhas abaixo, era de uma natureza bem distinta:
Seu falso! Sei que a culpa foi minha, já admiti isso, não é o bastante? Precisava ficar tão bravo comigo? E não me seduza daquele jeito quando sua mãe está em casa! Você sabe que ela adora interromper!
Hey, Laylinha, não seja tão dura comigo. Você estourou meu fuscão, cara, é pra ficar fulo mesmo... Mas quem liga pro calhambeque? TENHO A PODEROSA AGORA!!! E graças a você! Valeu!
Descrições da marca e adereços mil do veículo seguiam-se, assim como uma nota de "Acho que vou trocar o estofado para vermelho". Sorriu de sua infantilidade. Por melhor que seu carro fosse (e continua sendo, já que sua idolatria pelo carro o impedia de vendê-lo), chamá-lo de "A Poderosa" era demais...
Não sei se já comentamos, mas na peça que vamos apresentar na escola eu sou o Malvado Dragãozinho Verde! GRRRRWOOOLLL!!! Irado, e vou agarrar a Layla pela bunda!
Peguei o Pequeno Pônei de Gelo, protagonista. Gostei do papel, é um personagem simpático.
Simpático não era bem a palavra, espelho talvez fosse mais apropriada. Pensando melhor, haviam brigado por essa exata observação, assim como concluíam as próximas entradas, todas de natureza ofensiva. Percebeu que a fonte inicial da maioria das discussões era o Kaleido Stage ou algum comentário muito criativo sobre a frieza dela ou a teimosia dele. Por trás, identificou com pesar, estavam suas intenções de vingança e desconfiança quanto a Kalos.
Que besteira, concluiu ao fechar o último dos cadernos. Então era por aquilo que estavam em costas opostas de um mesmo país? Não podia deixar as coisas como estavam, tinha que fazer algo, e depressa, antes que as previsões macabras de sua mãe se concretizassem. Hora de traçar seu plano:
Não precisou conferir o calendário para lembrar-se da data que se aproximava. Tirar vantagem da mesma era tentador e, apesar de soar como um golpe baixo, era a melhor que podia usar. Pegou um lápis sobre a mesinha de cabeceira e anotou no final de um dos diários que não podia esquecer de meia dúzia de coisas que não pareciam ter nexo algum e que, na verdade, serviam como instrumentos para um objetivo comum: reconquistar a mulher de sua vida.
