Contos da Escola de Circo
Quinto: Café com muffins
Layla ligou o chuveiro e começou a despir-se. Era estranho estar tomando banho no banheiro espaçoso da casa de praia, havia quase dez anos que não entrava naquele lugar. Ela mesma não tinha certeza do porquê havia vindo, mas achou que, como a estância ficava longe de tudo numa praia semideserta, seria o lugar perfeito para passar a esquecida semana de seu aniversário.
Entrou sob a água quente assim que o vapor fino começou a se formar. Um bom banho era tudo que precisava depois de outra temporada na Broadway. A última peça havia sido ótima e recebido críticas perfeitas, assim como todas as outras e apesar de não haver agradado nem a ela nem a Cathy. Numa tentativa de melhorá-la, insistiu em colocar uma seqüência de acrobacia solo e havia novamente contundido o braço. Dra. Kate havia dito que se não praticasse musculação com acompanhamento médico e freqüentasse fisioterapia (dos quais não estava fazendo nenhum) teria de ter "muito, muito cuidado com o braço". Um dia havia de aprender a escutar o que os médicos dizem.
Agora estava afastada por sete meses: um para se recuperar, cinco para fazer as malditas fisioterapia e musculação, e um de férias que Cathy insistira que tirasse, mesmo porque estava no contrato. Resolvera que descansaria na praia por enquanto, depois pensaria no resto. Agora tinha muito na cabeça, sendo a primeira Yuri.
Deixou cair o sabonete. Havia duas semanas fora ver a última apresentação de Amore, peça estrelada por Leon e Sora, e participara do coquetel de encerramento. Lá, no foyer do circo, rodeada por todos os artistas, patrocinadores, jornalistas e fotógrafos e um pouco zonza pela mistura de champagne e batida de frutas com rum, Yuri a havia engajado numa conversa confusa e longa para, sem que pudesse precisar quando, como ou porque, beijá-la com ardor. O choque, os lábios em chamas, o beliscão que o dera e as fotos e manchetes dos tablóides a assombravam até então. Aquele vigarista, manipulador, calculista...
Mais água quente. Difícil definir sua relação atual com Yuri. Guardara rancor dele pelo escândalo da compra do Kaleido Stage até que voltaram a dividir a sala de treinos para aperfeiçoar a Técnica Angelical. Naqueles dias ouviu a explicação completa de tudo que ocorrera entre ele e Sophie (nenhum relacionamento íntimo como ela pensava que havia sido) e uma recapitulação minuciosa dos motivos pelos quais ela, Layla, seria responsável pela instabilidade emocional dele e conseqüente compra e destruição do circo em que trabalhavam. A acusação a estagnou, irritou profundamente e a fez expulsá-lo da casa mesmo sabendo que ele não tinha mais lugar algum para ir, já que alugara o apartamento antes de ir para a França. No dia seguinte, teve de escutá-lo reclamar de dor nas costas por haver dormido no carro.
Depois disso voltou para Nova York e ele ficou em Cape Mary. Nenhum ou quase nenhum contato foi mantido e os eventuais convívios eram evitados por ela, por isso sua alteração quanto ao último de seus encontros. Longas conversas com Cathy a fizeram considerar ligar para ele, ou mandar uma carta qualquer, mas não sabia o que dizer se o fizesse. Pior, tinha era medo de dizer algo errado de novo, de estragar tudo como da última vez, com palavras néscias.
O xampu acabou, fazendo-a relembrar o ocorrido semelhante em sua última estadia na casa de praia. Que criancice, repensou o assunto, sentir insegurança ao conversar com ele. Não era como se quisesse reaver o relacionamento que um dia tiveram, esta era uma esperança da qual havia desistido quando, depois de dois anos que haviam entrado para a trupe do Kaleido Stage, viu-o andando de mãos dadas com outra, uma menina mais nova e bobinha, sobre quem ele jurou de pés juntos não haver transcorrido mais do que amizade.
Layla não conseguia confiar no sorriso sonso de Sophie, e muito menos na inocência de Yuri tratando-se de uma virgem ingênua. Porém, quando levadas em consideração às poucas semanas em que ele se hospedara na casa dela e a sinceridade quase ofensiva da qual se utilizara, talvez, e apenas talvez, houvesse verdade naquelas palavras. Bem, de qualquer maneira, não importava. Sophie estava morta (por culpa indireta dele) e não havia sentido em enciumar-se dos já falecidos.
Ciúmes? Será que tinha o direito de ter ciúmes de alguém que não lhe pertencia? Lógico que não tinha, e nem deveria ter, concluiu triste ao abrir um frasco novo de xampu. Mesmo que estivessem sempre juntos fisicamente nos últimos anos, nunca estiveram unidos, e agora que nem mais se viam não havia meio para tal união.
Esfriou a água. Chega de pensar em Yuri, já estava deprimindo-se.
Terminava de enxaguar o cabelo curto quando ouviu o telefone tocar. Não avisara ninguém de que estaria na casa de praia e somente seu pai e Macquarie tinham aquele número, logo não poderia ser ele. Tranqüila ainda que tensa, saiu do banho e enrolou-se numa toalha branca, colocando o roupão por cima. Ainda um pouco molhada foi até a sala e atendeu.
– Alô? – disse tentando disfarçar a voz para parecer a da senhora que limpava a casa de vez em quando – Quem é?
– Boa noite, Pequeno Pônei de Gelo – veio a voz jovial – Está resfriada?
Layla fechou os olhos e respirou fundo.
– Não me chame de Pequeno Pônei de Gelo – disse calma – E não estou resfriada.
Yuri riu.
– Estava tomando banho?
– Como sabia?
– Eu sempre sei, não sei? – disse brincalhão – Você tem o hábito nada saudável de tomar banho tarde. Minha mãe dizia que se eu fizesse isso ia pegar uma pneumonia e morrer antes de beijar minha primeira namorada.
– E...?
– Sempre fui um bom menino, tomei banho cedo e consegui beijar minha primeira namorada muitas vezes. Sou muito grato à mamãe por isso.
Depois de um breve silêncio, no qual Layla sentiu as bochechas esquentarem e Yuri sorriu, ela continuou a conversa tentando mantê-la num nível normal e longe de joguinhos com palavras, novo hábito dele que a irritava profundamente.
– A que devo a honra de uma ligação sua?
– Pergunta friamente formulada – disse no mesmo tom de antes – Digna do Pequeno Pônei de Gelo.
– Acho melhor manter a sua parte do acordo – ela sorriu – Ou posso não cumprir a minha.
– Nossa, isso foi uma ameaça?
– Talvez – abriu um sorriso – "Mamãe Pônei Cor-de-Rosa".
Contrariando toda a lógica humana e todas as pressuposições que Layla tinha quanto ao antigo parceiro de trapézio, Yuri riu.
– Acho que podemos parar com essa brincadeira agora.
– Você precisa parar com essa mania de mudar de tom o tempo todo.
– Como assim?
– Você me liga por nenhuma razão especial, no meio do meu banho, para me chamar de Pequeno Pônei de Gelo e depois diz que nós somos infantis?
– Você é séria demais para si mesma, Laylinha.
Algo parecia ter feito cócegas em suas orelhas. Havia um tempo considerável que não era chamada assim, e descobriu que ainda gostava muito do jeito com o qual ele o dizia.
– Bem – ele continuou –, liguei para dizer algo muito sério: não vou estar em casa amanhã à noite.
– E o que isso tem de sério?
– Não está com ciúmes? No mínimo curiosa para saber aonde eu vou?
Ela suspirou desanimada. Ciúmes. Não era essa a resposta que queria ouvir.
– Não.
– Tudo bem então, eu acho – ele soava desapontado – Até.
– Espere, não pode desligar agora.
– Por que não?
– Você... – sentiu que não podia deixá-lo ir tão cedo – Você não...
– Eu te amo, Laylinha – disse para silenciá-la – Até depois de amanhã.
O barulho constante e baixo no receptor do telefone dizia que ele havia desligado.
Layla acordou muito tarde na manhã seguinte. Depois de terminar seu banho (o qual passara ponderando cada palavra de Yuri), havia deitado na cama e mantido os olhos abertos mirando o teto, esperando que este respondesse que aquela ligação não passara de um sonho e que nem ele nem ninguém viriam para o seu aniversário, mesmo porque "depois de amanhã" seria um dia antes.
Levantou da cama e abriu as janelas da casa. Depois tomou seu leite quente e trocou-se para caminhar na praia. Saiu e comprou umas frutas (seu nutritivo almoço), a tarde foi à fisioterapia, à aula de Pilates e pediu uma pizza à noite. Nada de excepcional naquele dia. Nenhuma ligação, carta ou comunicado de qualquer espécie que dissesse que Yuri realmente viria no dia seguinte. À noite, trancou as janelas como de costume e demorou a dormir novamente, o teto ainda não dando resposta à pergunta "Foi só imaginação minha?".
A próxima manhã foi passada dormindo. Sonhou que seu pai havia lhe comprado uma festa com pessoas que ela não conhecia e todos choravam muito, mas não sabia o porquê. Yuri não estava em lugar algum e ela o procurava compulsivamente. Acordou devagar e não abriu os olhos. Se, assim que saísse do quarto, encontrasse alguém pretendia nadar até alto mar e se afogar. Respirou fundo e levantou. O quarto ainda estava escuro com as janelas e cortinas fechadas, mas não as abriu. Foi até a sala, depois à cozinha, o banheiro, o outro quarto e a sacada e até deu uma olhada na praia. Não havia uma alma humana a pelo menos dez quilômetros dali. Não estava aliviada, como pensara que estaria, muito menos feliz. Agora imaginava se ele realmente quisera dizer o que ela entendera.
Será que Sora não estava tentando localizá-la? Em seu apartamento em Nova Iorque um fax com as palavras "Feliz Aniversário, minha filha" devia estar chegando no dia seguinte, mas ali não havia nada nem ninguém. Estaria completamente sozinha, mais do jamais estivera em qualquer um de seus aniversários. Sentia-se vazia. Como era boba, fora para lá justamente para ficar longe de tudo e de todos e agora estava triste por estar só.
Com um suspiro na maresia calma da manhã, Layla encarou a verdade. Seguiu sua rotina, tendo um dia exatamente igual ao anterior. Quando caiu a noite, decidiu ir até a padaria local, por assim dizer (quase cinco quilômetros de bicicleta), comprar um doce. Daria-se isso de presente adiantado: um pequeno amontoado de gordura vegetal hidrogenada, leite, cacau e açúcar. Enfiou-o na boca sem sequer registrar o gosto e subiu na bicicleta, indo depressa para casa. Não queria e nem gostava de admitir, mas passara o dia inteiro esperando aquele traste e nada. Ele sequer ligara e não o fizera de propósito! Gostava mesmo era de brincar com os sentimentos alheios, não dava a mínima para o quão partido o coração dela ficava todas as vezes que ele fazia aquilo e...
Freou tão rápido a quinhentos metros da casa que a terra sob os pneus ficou marcada. Aquele carro vermelho parado ali, bem na garagem antes vazia da casa não podia significar...
Encostou a bicicleta num canto. Nenhuma luz acesa. Olhou dentro do carro e certificou-se de que estava vazio. Tirou a chave do bolso. Se havia deixado a casa trancada, e o carro estava vazio, então talvez ele não estivesse lá. Mas o carro estava ali, e nenhuma outra pessoa no mundo era tão excêntrica quanto ao polimento dado a um veículo esporte quanto ele. A parte racional dela dizia que ao abrir a porta não encontraria nada, mas a outra metade fazia o coração bater acelerado e rezava para a primeira estar errada. Com um "click" da maçaneta, abriu a porta.
O som suave que saía do rádio era de uma música conhecida e muito velha. A sala estava escura e havia uma bandeja de chá sobre a mesinha de centro. Não havia erro: Yuri estava sentado no sofá em "L" e sorrindo para ela assim que entrou.
– Bem vinda ao lar, Pequeno Pônei de Gelo – ele se levantou – Desculpe a invasão, mas você deixou a porta da varanda aberta, então entrei.
Deixando o casaco na entrada, Layla olhou-o desacreditada. Pensou por um instante haver esquecido as palavras com a bicicleta, mas logo sorriu e cruzou os braços, como se contemplasse alguma arte feita por uma criança pequena.
– Resolveu devolver meu CD do Bryan Adams?
– Sabia que você nunca falha em me desapontar?
– Sim, e essa é parte divertida – sorriu – Há quanto tempo está com ele, uns sete anos?
– Já que tocou no assunto – cruzou os braços – encontrei-o há uma semana, no meio de uns cadernos velhos...
– Cadernos... Os diários?! – ela corou – Você ainda está com eles?
– Não os diários, Layla – corrigiu-a e ela suspirou aliviada pelo momento – Achei os nossos diários.
Ela enrubesceu a ponto de ficar da cor das maçãs sobre a fruteira. Jurava que aqueles... Aqueles... Manuscritos haviam se perdido, sido jogados fora ou coisa parecida, mas estavam com ele. Considerava aqueles cadernos a coisa mais embaraçosa que já fizera na vida (continham detalhes demais sobre atos que prezava demais e que preferia que fossem conhecidos de menos), mal podia imaginar o que aconteceria se algum dia estes se tornassem públicos. Provavelmente adotaria uma identidade falsa ou se mataria em alto mar de verdade.
– E sabe que eles estão em ótimo estado? – ele continuou apreciando o rubor nas faces dela – Tive uma tarde e tanto lendo cada um deles... Não me lembrava de termos escrito tudo tão minuciosamente, foi quase como se estivesse acontecendo de novo...
– Poderia me dizer – ela formulou com dificuldade – o que você fez com eles?
– Estão no porta-mala do carro – sorriu – Achei que você gostaria de lê-los também e...
– Yuri – ela o interrompeu – Poderia me fazer o favor de parar com isso?
Ele pareceu surpreso com o tom irritado dela, mas recompôs-se rápido.
– Minha querida, – disse meloso – Algo referente a nossos namoros adolescentes a incomoda?
– Não seja tão arrogante! – ela esbravejou – É lógico que isso me incomoda! Você termina e mal fala comigo por dois meses, depois finge que não me conhece e que nada aconteceu entre nós por dois anos, sai com outra mulher só para me provocar, volta a me atormentar por mais um ano e então compra o Kaleido Stage e causa toda aquela confusão! De três anos pra cá você vem me assombrando e, de repente, resolve me beijar daquele jeito num lugar público! – respirou fundo mais rubra do que antes – Agora aparece na minha casa, na pior noite possível para ficar me lembrando desse passado horrível?
Depois de respirar fundo três vezes, Layla acalmou-se e se deu conta das incríveis asneiras que acabara de dizer. Podia ser o que sentia, mas sabia que aquele não era o único lado da história. Já haviam tido aquela discussão antes. Por que tinha que sempre estragar tudo com palavras agressivas? Estava acontecendo de novo: sabia que o deixara extremamente magoado com o que acabara de dizer. Não era isso que queria com a visita dele, só estava nervosa com os cadernos e a aparição semi-surpresa dele, e justo no dia qual ficava mais alterada.
Um longo e desconfortável silencio segui-se. Ela sentou-se no outro canto do sofá e abaixou a cabeça. Yuri só observou calado e, por fim, disse:
– Não acho que tivemos um passado horrível – falou casual como se nada fora do usual houvesse transcorrido há pouco – Teve lá seus momentos chatos, embaraçosos e tristes, mas eu não o classificaria como horrível. Já te dei esse sermão daquela vez que treinamos a Técnica Angelical, não é?
Ela só pôde concordar com cabeça, ainda sem coragem de encará-lo.
– Sabia que você envelhece quarenta anos quando fica séria assim?
Surpresa, Layla encarou-o. Ali estava o sorriso bobo de anos atrás, o sorriso doce que consertava qualquer briga.
– Desculpa – ela murmurou fechando os olhos – Estou meio nervosa desde cedo, não quis dizer aquilo.
– Eu sei – ele espreguiçou-se – Para uma chata, você é até bem controlada.
– Se sou uma chata, você é o responsável.
– Não acho que seja mentira, apesar de isso não me rebaixar nem um pouco. Fui criado por uma chata, talvez isso explique tudo – sorriu-lhe – Mas acho que estou bem com isso, afinal, ninguém escolhe os pais, certo?
– Acho que não – suspirou ela – E nem as atitudes deles.
– Se queria tanto que seu pai viesse, devia ter dito a ele onde estaria.
– Mesmo que dissesse, ele não viria.
– Mas ele foi gentil o suficiente para me passar o número daqui. Acho que você já adivinhou isso.
– Sim.
Percebeu só então que ele se aproximara dela enquanto conversavam, tanto a ponto de estar agora com um braço apoiado no sofá e pronto para abraçá-la. Era estranho ter aquela sensação de fragilidade e segurança de novo. Centrou-se, no entanto, na pergunta que estivera se fazendo desde a ligação de dois dias atrás.
– Yuri, por que-
– Não queria te deixar sozinha hoje. É de praxe, sabe?
– Praxe?
– Claro, mas vim aqui por outra coisa também.
– O quê?
– Está escrito em um dos diários: "Fizemos uma promessa selada com sangue".
Layla sentiu as faces quentes de novo, mas dessa vez olhou-o nos olhos. Ele se lembrava? A promessa não havia sido escrita, o único registro a seu respeito dizia que ela fora feita, mais nada.
– Veio de Cape Mary até aqui para...
– Lógico que sim – espreguiçou-se – Prometemos, não foi?
– Sim – confirmou – Prometemos.
– E além do que, – riu breve – Você está me devendo umas oito.
– Está insinuando que não fui traída nenhuma vez em sete anos que estivemos separados?
– Bem, se não estávamos juntos, não pode chamar de traição, pode?
– Não – respondeu seca ao lembrar-se de Sophie – Presumo que não.
– Mas sabe, faz um bom tempo que não traço ninguém.
– Ah, não?
– Não mesmo. E ao meu ver você também não.
– O que te faz pensar assim?
– Eu te conheço.
Ela cruzou os braços indignada. O pior era que ele estava certo.
– A menos que... – ele continuou incerto e em tom de brincadeira – Rolou alguma coisa entre você e a Sora?
Layla limitou-se a levantar uma sobrancelha e olhá-lo reprovadora.
– Oh, sim – ela respondeu com ironia – Rolou muito entre mim e Sora, altas noites. Suponho que você e Leon também estejam se divertindo no seu apartamento até tarde ultimamente.
– Que senso de humor mais horrível...
– Pelo menos não brinco com os sentimentos dos outros.
– Eu brinco com os sentimentos dos outros?
– Com os meus, por exemplo, assim como está fazendo agora.
– Você me quer, Laylinha, admita.
– Seu arrogante.
Encararam-se por segundos e ele riu.
– E não quero você – ela completou.
– Ah, não?
– Não – reafirmou – Você é que me quer.
– Bem, diferente de você, não sou cabeça-dura e tenho muito cuidado com o que digo. Sim, eu quero você.
– E não tem vergonha de dizer uma coisa dessas?
– É verdade, não há nada de errado em dizer isso.
– Seu bobo. Não devia...
Ela continuou o breve discurso sobre como ele era chato. Ele, ouvindo tanto quanto as paredes, a contemplava. Tanto tempo sem ela, tanto, mas tanto tempo, que estarem juntos de novo nem parecia real. Lembrou-se então da promessa e do verdadeiro motivo de ter vindo. Olhou o relógio e, considerando vinte para as onze como sendo meia-noite, interrompeu-a:
– Ah, sim – levou o indicador aos lábios femininos e a silenciou – Antes que eu me esqueça...
Passou o braço esquerdo sobre os ombros semitensos dela. Com todo o cuidado do mundo, pegou uma das mãos femininas e entrelaçou os dedos. Sorriu de novo e a olhou nos olhos, a situação saudosa a mesma de tantas outras.
– Feliz aniversário, Layla – ele sussurrou – Feliz aniversário.
Ele jurava que os olhos azuis dela haviam marejado, mas jamais saberia. No instante em que as últimas sílabas foram pronunciadas ela pendeu para o lado e lançou um braço ao redor dele.
Layla levantou o rosto para mirá-lo pela enésima vez em uma noite. Gostava demais daquele sorriso e daquela expressão serena, ao mesmo tempo amigável e ambígua. Lembrou-se da etiqueta aprendida no berço e sussurrou um leve e quase inaudível "Obrigada". Permitiu-se a liberdade de olhar fundo nos olhos azuis-claros, de uma cor tão fraca e ainda assim de uma luz tão forte, piscinas límpidas de sentimento puro. Aproximaram-se de maneira inconsciente até sentirem respirações mornas nas bochechas, deixando-a com as faces rosadas.
– Insegura ou acanhada?
– Nenhum dos dois... É só... Saudade...
Finalmente uniram os lábios num beijo muito diferente e muito mais carinhoso e terno que último duas semanas antes. Algo os fez imaginar por que, anos antes, haviam decidido que isso nunca mais devia se repetir. Yuri jamais se cansaria de beijá-la, era de longe a melhor sensação. Sentia o doce sabor dela fluindo para seu sangue em chamas, indo para o coração e queimando-o de fora para dentro e de dentro para fora. Se pudesse, ficaria ali com ela para sempre, por toda a eternidade junto a ela. Layla, por sua vez, entregou-se completamente ao sentimento, acariciando os cabelos claros do companheiro. Passara-se tanto tempo desde que sentira aquela paz, tanto tempo...
Inevitável, separaram-se. Ainda contida nos braços fortes, como tantas vezes fora e dentro do palco, sentiu que estava no lugar mais seguro do mundo. O silêncio calmo prolongou-se por alguns instantes até que ela murmurasse outro "Obrigada" e ganhasse um beijinho na testa.
– Não tem mais gosto de framboesa – provocou-a numa referência ao primeiro beijo deles – Parece...
– Chocolate – ela completou – Comi uma trufa antes de vir para cá.
– Vai ficar gorda assim, sabia?
Ela, aproveitando-se da posição, beliscou-o nas costas.
– Mas não sou eu quem está com pneuzinhos, Yuyu.
Beijou-a de novo.
– Adoro esse apelido, sabia?
– Será que nada nesse mundo te irrita?
– Depois de um ano de terapia na França, nada mais me tira do sério.
– Nada?
– Absolutamente nada.
Era a vez dela de brincar. Sorriu de lado, quase marota, e Yuri foi lembrado de um dos episódios escritos em um dos diários. Ah não, essa não...
– Nem mesmo se eu... – ela correu os dedos pelo lado dele – fizer is-so...?
Em uma série de movimentos rápidos com as duas mãos, Layla aplicou uma doze altamente perigosa de cócegas no parceiro. Ele, sendo extremamente sensível a elas, foi jogado de costas no sofá enquanto ria descontrolado arqueando o corpo para escapar.
– Layla... Não... Pára... Eu...
– Você merece! – ela intensificou o "castigo".
– Por... – ele afogou-se em risadas –... quê?
– Por ser tão insistente – ela debruçou-se sobre ele, ministrando cócegas em menor intensidade – Irritante, chato, cabeçudo...
– Mas eu...
– Por esse sotaque falso que eu adoro... – esfregou o nariz dele com o dela.
– Ti takAya prelEsnaya...
– Não faço a menor idéia do que disse – sorriu – mas o mesmo pra você...
Beijou-o com gosto. Hm, ela riu internamente, não era mais menta. Permitiu que ele a abraçasse e que rolasse os dedos por suas madeixas curtas, mas quando ele "sem querer" escorregou a mão para a região glútea dela, Layla mordeu a língua que brincava com a sua.
– Ai! – ele exclamou com a língua de fora – O que foi isso?
– Você estava passando a mão na minha bunda!
– Sim – respondeu sentando-se como se fosse algo tão normal e inocente quanto respirar – Não é motivo para essa agressão!
– Só agi em legítima defesa – ela riu da expressão indignada dele.
– Defesa do quê?
– De meu patrimônio privado chamado corpo.
– Privado?
Rosas vermelhas floresceram nas bochechas dela enquanto ele ria.
– Mantenha esse tipo de comentário – ela disse desconfortável – para você, e você exclusivamente.
– Manterei, Laylinha – ele conteve o riso – Afinal, só eu posso contestar a afirmação.
Ainda ruborizada, Layla enfezou-se.
– Como pode ter tanta certeza?
– Tendo, já disse que te conheço e...
– Mas sabe... – ela enrolou um pouco do cabelo no dedo fazendo charme – Nós, artistas da Broadway, levamos uma vida muito glamourosa...
– Imagino que sim – ele sorriu em resposta à provocação – Saindo do teatro tarde, indo para casa e caindo morta na cama, e aos fins de semana ensaiando compulsivamente. Vez por outra recusa um convite do pai para uma festa porque está muito ocupada. As Laylas artistas da Broadway devem ter uma vida super glamourosa...
– E a vida de um Yuri produtor do Kaleido Stage também deve ser muito interessante...
– De fato, é um pouco. Tive que lidar com uns tipinhos estranhos, como uma certa japonesa que não para com "Precisa de mais brilho", "Tem que ser maior" e "Quando a Layla-san estava aqui vocês não reduziam tanto o cachê dos shows". Se um dia falirmos você já sabe porque.
– Sora realmente disse isso?
– Disse... – ele percebeu-a mais calma – que tudo na época de Layla Hamilton, a Golden Phoenix, era maior, mais brilhante, mais mágico, mais tudo.
– Aquela boba, sempre se rebaixando perto de mim... Não sou tudo isso que ela pensa que sou.
– Você é tudo aquilo que ela pensa que você é e muito mais, sim... E outras coisas que ela nem imagina também.
– Outras coisas que ela nem imagina? – cruzou os braços – Que outras coisas?
– Na verdade não dá pra explicar, não sou bom com palavras.
– Não é?
– Tudo que digo você muda de assunto até que eu não saiba mais do que estamos falando. Então prefiro não falar.
– Que lógica mais incrível a sua...
– É que fui criado por uma chata, lembra?
– Agora quem está mudando de assunto é você. Ainda não me disse que outras coisas eu sou.
– Tudo bem, vou tentar: – ele levantou-se e estendeu a mão – você é forte – ela aceitou o convite e ele a puxou de pé – mas não sem alguém que esteja lá escondido para te ajudar.
Ainda segurando-a pela mão, guiou-a pela casa.
– Você é independente – ele continuou – mas se não houver alguém ali do lado para te dar direções de vez em quando, você não sabe por onde ir.
Encostou-a com cuidado contra uma das paredes lilases e acariciou o rosto feminino com a ponta dos dedos.
– Você é frágil, – sussurrou – frágil como porcelana – completou com a respiração morna no rosto dela – E você é carente... Carente demais...
Absorta na deliciosa mistura que as palavras carinhosas e os olhos claros dele formavam, Layla apenas se deixou conduzir para dentro do quarto pelo toque suave. Antes que percebesse estava envolta nos braços fortes e sobre a superfície macia da cama.
– E você queima – concluía entre beijos – Queima como a fênix antes de renascer...
Suspirou um sorriso, sentindo cada palavra ressoar em seu ser enquanto ele a tocava e beijava intimamente. Finalmente, pensou ao retribuir cada gesto com igual paixão, finalmente poderia senti-lo de novo com tanta intimidade que não mais se distinguiria uma alma da outra. Seriam ambos um, completo e sem fim.
Um arrepio leve de frio percorreu o braço dela. Havia muito tempo que não acordava nua, e devia dizer que não era uma sensação das mais agradáveis. Sem abrir os olhos, puxou sobre si os lençóis macios para cobrir-se e estendeu a mão a procura dele. Na cama, no entanto, estava só ela.
Segurando o tecido fino onde ele deveria estar, Layla pensou haver algo errado. Tinha certeza mais que absoluta de que havia alguém ali quando adormecera (mesmo que não soubesse quando fora), portanto ele deveria estar ali... Deveria...
Só então uma idéia inconcebível a atingiu: ele a havia usado, feito um objeto com o qual brincava quando tinha vontade, sem nenhuma importância maior. Como fora idiota, idiota a ponto de cair facilmente na armadilha dele. Era até óbvio, agora que repensava a situação.
Encolheu-se mais. Ele devia estar rindo dela agora enquanto tomava a estrada naquele carro extravagante e ridículo. Provavelmente ia parar em algum bar por aí, sair com uma outra qualquer, depois derrapar numa curva e morrer com o pára-brisa na garganta. Miserável, ele merecia, ele...
Depois de xingá-lo de todos os palavrões possíveis, virou-se na cama tentando encontrar uma posição mais confortável. Só então percebeu algo no quarto além da ausência dele: Luz.
Devagar e desacreditada, Layla abriu os olhos. A janela de madeira clara estava aberta e por ela via-se no meio do mar bem na linha do horizonte o sol nascente alaranjado e o céu róseo. O cheiro dele ainda estava no travesseiro a seu lado e havia um aroma suave de doces no ar.
Ainda com cautela, a jovem levantou-se e vestiu um penhoar branco simples que se encontrava a mão. Pisou de leve no chão. Os sapatos dele ainda estavam na entrada do quarto. O cheiro de doces estava mais intenso perto no corredor, e agora identificava também o aroma de forte café brasileiro. Chegando à porta da cozinha ouviu um distinto virar de páginas.
Na mesa da copa à sua frente estavam uma bandeja de muffins dos mais variados sabores e cores, uma cestinha de pães, uma jarra de suco ao lado da cafeteira cheia, geléia de blueberry, requeijão, e, sentado confortavelmente apreciando seu jornal e inteiramente vestido, Yuri sorria de lado.
– Bom dia, Laylinha – ele cumprimentou jovial – Dormiu bem?
As palavras falharam completamente. De onde viera toda aquela comida e o jornal?
– Sente-se – ele disse puxando a cadeira para ela – Prefere café ou suco? Trouxe seus muffins preferidos, de baunilha com kiwi e de pêssego.
Perdida e sem ação, ela obedeceu. Ele, muito descontraído, encheu um copo e o entregou a ela. Mirou com cuidado a expressão abobada e riu para si mesmo.
– Algum problema, Laylinha?
Ela levantou os olhos e se sentiu imersa nas piscinas de riso. Após inspirar e respirar três vezes lembrou que tinha o dom da fala.
– O que é isso? – murmurou, imaginando segundos depois se formulara a frase direito – Digo, tudo isso?
O sorriso unilateral espalhou-se pelas feições infantilizadas na luz matutina.
– Isto sobre a mesa nós chamamos de café da manhã. Aquilo ali é o café, isto no seu copo é suco de laranja, esses são...
– Não é isso que eu perguntei – ela já voltava a si – Por que você...
– Preciso de um motivo para te fazer um carinho?
Ele apoiou o queixo nas mãos para contemplar a expressão dela. Como descrever? Perdida, ou talvez chocada de maneira positiva, ou até emocionada, mas linda com certeza. Layla tinha as bochechas levemente vermelhas, os olhos bem abertos em surpresa e o queixo baixo, formando um pequeno "O" com a boca. Muito fofa, muito mesmo.
Mais três suspiros e ela voltou totalmente a si, bem o suficiente para formular a única pergunta pertinente àquele momento:
– Por que não me esperou acordar para fazer tudo isso?
– Por quê? – ele colocou o jornal de lado – Bem, não achei que seria muito romântico termos que tomar banho e nos trocar para só então irmos à padaria, voltar e finalmente tomar café.
– Tinha que ir à padaria?
– Você tem duas maçãs e meio pão de forma na dispensa, acha que isso dá pra duas pessoas?
– Hm – ela tomou um gole do suco – Talvez não. Você espremeu as laranjas?
– Na verdade, foi a moça da padaria, mas o café fui eu que fiz. – ele sorriu – Está bom?
– Sim...
Comeram com calma, e conversando pouco de maneira significativa e vazia. Ele parecia estar tentando compensar o fato de tê-la abandonado antes de acordar, e ela, que já havia completamente esquecido o fato, aproveitou cada instante. Era uma paz no peito, um sentimento de integridade que não sem lembrava de ter experimentado com ninguém antes.
Se tivesse parado para pensar no assunto, teria percebido que desde que desfizera a parceria com Sora estivera muito só. Morar sozinha e trabalhar num ambiente impessoal como o de sua equipe na Broadway haviam-na feito esquecer que momentos preciosos como aquele existiam. Era mais do que companhia e talvez para alguém como ela, Layly Little Icy Pony, difícil de definir. Limitou-se então a apreciá-lo, sem se preocupar com o que viria adiante, decisão que ela não estava acostumada a tomar.
Depois de dois muffins, um pão com requeijão, um copo de suco e uma xícara de café, ambos terminaram de comer. Yuri sorriu e a tomou pela mão de novo.
– Para onde dessa vez?
– Acho melhor você se trocar – ele olhou para o relógio – Se não vamos nos atrasar...
– Atrasar? – ela indagou sendo empurrada para o banheiro – Vamos a algum lugar?
– A lugar nenhum, Laylinha... – ele empurrou a porta, deixando-a só no aposento – Tome um banho e relaxe, quando estiver pronta me chame...
Com um sorriso, ela resolveu que não seria uma má idéia fazer o que ele havia dito. Algo ali soava a algum plano maluco dele, e pela primeira vez não estava assustada com a possibilidade.
Não se demorou em ficar pronta, e, na falta de informação sobre o que deveria usar, escolheu um vestido branco com estampas havaianas que só usava na casa de praia e um par de chinelos de dedo. Devia ser o bastante, pensou, desde que não saíssem de lá.
Passou pelo corredor e logo chegou à sala. Ele estava sentado no sofá em "L" assim como na noite anterior.
– Tenho algumas surpresas para você – ele disse animado – Feche os olhos e se sente.
Brincando junto, ela fez como comandado. Ouviu-o sair e voltar, em seguida várias coisas sendo arrumadas sobre a mesinha de centro. Depois o rádio foi ligado com o mesmo CD da noite anterior e ele saiu de perto de novo. Pensou tê-lo escutado falar com alguém, mas, como não teve tempo de se assegurar, esqueceu-se do pequeno murmúrio. Yuri então desligou o rádio, pressionou os lábios contra os dela e disse que podia abrir os olhos.
Devagar, Layla levantou as pálpebras. Ali à sua frente, sobre a mesinha estava um cartão em pé, semi aberto e com uma foto do Kaleido Stage na frente. Ela pegou-o com cuidado, sem deixar de mirá-lo um instante sequer. Dentro haviam pequenas mensagens escritas com canetas coloridas.
"Ms. Layla, feliz aniversário! Que a senhorita continue essa pessoa maravilhosa que sempre foi! –Rosetta"
"Ms. Layla, um feliz aniversário! Felicidades! –Ken"
"Layla (corações)! Tudo bem? Te desejo um feliz aniversário! Beijos, linda! –Sarah"
"Feliz aniversário Layla. Sentimos sua falta. –Kalos"
"Ms. Layla, superfeliz aniversário! Venha ver nossa apresentação! –Marion"
"Feliz aniversário Layla! Que você seja muito feliz! –John"
"Ms Layla, feliz aniversário! Te adoramos! –Mia"
"Feliz 'aniniversásário', Ms. Layla! –Anna"
(marca de cauda de foca)
"Feliz aniversário, Ms. Layla! Você é e sempre será minha ídola! –May"
"Um feliz aniversário, Layla. Felicidades. –Leon"
"Layla-san! Feliz aniversário! Queria dizer que você ainda é a melhor artista que conheço e que é muito bom saber que já dividimos o palco! É melhor ainda saber que posso te chamar de amiga e companheira! Saiba que estou aqui para tudo que você precisar! Um grande abraço –Sora"
Com uma mão sobre a boca e duas lágrimas rolando pela face, Layla sorriu em seu mais íntimo. Nunca recebera um cartão de aniversário. Todos haviam desenhado carinhas, corações, flores e sob o bilhete de Sora havia o desenho de um bolo com velinhas.
– Não tive tempo de assinar também – Yuri comentou enlaçando-a pela cintura – Me perdoa?
Com a visão meio embaçada ela o abraçou e o encheu de agradecimentos.
– Calma – ele deu um tapinha confortador nas costas dela – Ainda faltam dois presentes...
– Presentes? – ela limpou os olhos e o olhou – Que presentes?
– Sobre a mesa, Laylinha desatenta.
E realmente havia algo sobre a mesa: um porta-retrato de cor clara em forma de coração, este formado por pequenas flores. A foto em exibição mostrava uma versão dos dois oito anos mais nova, abraçados sob o sol do parque da cidade e tomando sorvetes.
– Minha mãe achou essa foto outro dia – ele sorriu – Achou que seria legal se você ficasse com ela, aí comprou essa moldura e me mandou dar pra você.
– Sua... Mãe mandou?
– É – ele rolou os dedos pelo cabelo macio dela, deliciado com o momento e um pouco ansioso – Mandou sim... Mas esse não é meu presente, é o dela.
– Agora fiquei curiosa – ela sorriu, entrando na brincadeira – O que é?
– Bem...
Ele espreguiçou-se. Considerou como formular a frase e se decidiu por um caminho inseguro.
– Hipoteticamente, digo, só por suposição...
– Sim...?
– Se eu estivesse pra te pedir em casamento, o que você diria?
Layla sentiu o sangue subindo-lhe as bochechas, parou, suspirou e sorriu.
– Eu diria não.
Ele pareceu desconcertado.
– Por que não?
– Porque você não "está para" me pedir em casamento.
– Não?
– Definitivamente não.
– Bem – ele cruzou os braços – e se isso já tivesse sido o pedido?
– Então talvez eu... – ela riu para si – Pense à respeito.
– "Pense"?
– Sim.
– Você é muito hipócrita...
– Eu?
– Sim, você.
– Não, não sou.
– Pequeno Pônei de Gelo minada! – ele a empurrou de leve.
– Mamãe Pônei Cor-de-Rosa! – ela empurrou de volta.
– Não mude de assunto, Laylinha.
– Pode me dizer qual é o assunto?
– Se você vai casar comigo ou não.
– Isso já foi uma possibilidade?
– Desde o exato momento que você foi feita mulher e eu homem, sim, sempre foi uma possibilidade.
Ela riu e ele a abraçou de novo. A brincadeira estava ficando boa.
– Certo – ela pendeu a cabeça para o lado – E o que te faz pensar que vou dizer sim?
– Hm – ele riu do tom de desafio – Desde que prometa não mentir, vou te fazer aceitar.
– Outro joguinho com palavras?
– Sim.
– Ótimo, tente.
Ele cruzou as pernas e se sentou de frente para ela no sofá com um sorriso maroto.
– Só responda sim ou não a tudo que eu perguntar – ele explicou – Você é o Pequeno Pônei de Gelo?
Ela gargalhou.
– Não.
– E sou eu a Mamãe Pônei Cor-de-Rosa?
– Não.
– Alguém já te disse que você é muito chata?
– Não, só você mesmo.
Ele puxou o rosto dela com cuidado para perto do dele e sussurrou a última tentativa.
– Você me ama?
– Sim...
Beijaram-se de novo. Ela calculava ser a trecentésima vez em doze horas, mas sinceramente quem se importava com contas? Além do que, não havia tal absurdo como excesso de beijos, abraços ou carícias. Sentiu um cafuné leve no cabelo e sorriu para ele.
– Então, – ele sorriu também – Mrs. Killian, gostou da foto?
– Muito.
– Por que não... – ele fez um gesto vago – Não dá uma olhada melhor nela?
Layla não antecipou o que aconteceu a seguir. Assim que pegou o porta-retrato percebeu que havia algo atrás do mesmo. Era uma caixinha vermelha aveludada na forma de uma estrela de cinco pontas. Yuri pegou-a e se ajoelhou à frente da amada.
– Miss Layla Hamilton, querida Pequeno Pônei de Gelo – ele recitou – Quer casar comigo?
A caixinha foi aberta, revelando um anel dourado com um rubi no mesmo formato e cor do continente. As cortinas adornadas com desenhos de ondas que cobriam a janela e portas de vidro mexeram-se, como se alguém espiasse de fora. A jovem sorriu singela e mais uma lágrima fez seu caminho pelo rosto alvo. Sem que ela respondesse, ele tomou-lhe a mão e colocou a aliança no anelar feminino.
– Quero – ela respondeu abraçando-o com força – Quero sim!
Yuri depositou um beijo na têmpora dela, afagou as madeixas louras e depois se beijaram longamente. Ele então a afastou um pouco e mirou o relógio.
– Agora acho que podemos ir – ele disse de maneira vaga e se levantou ainda segurando-a pela mão direita.
Ela, agora com os olhos limpos, encarou-o confusa.
– Aonde?
– Já disse que a lugar nenhum – ele garantiu indo a direção às janelas fechadas – Digamos que é parte do pacote.
– Pacote?
– Bem... – ele colocou a mão sobre os olhos dela de maneira que não pudesse ver nada e com a outra mão abriu parte das cortinas e a porta, em seguida guiando-a até a areia fina da praia – Sabe como são os pacotes de aniversário...
– Yuri... – ela ouviu movimentos na areia e um par de risos baixos – O que-
–... Vêm sempre com uma festa surpresa incluída.
A mão do jovem foi removida e Layla contemplou a visão de um conglomerado de pessoas junto a um arco de balões coloridos com uma faixa ostentando "Happy Birthday Layla!" e gritando "Surpresa!". Sora foi a primeira a deixar a multidão para abraçá-la.
– Feliz aniversário, Layla-san!
A compostura falhou-lhe e mais lágrimas rolaram sobre a face da jovem. Abraçou a amiga com força e foi recebida com vivas dos outros. Estavam todos lá: Rosetta, Ken, Sarah, Kalos, Marion, John, Mia, Anna, May, Leon, Cathy, Macquary, Julie, Charlotte, Dra. Kate, Jerry e até a foca Jonathan. Depois de cumprimentada por todos percebeu que uma churrasqueira portátil já preparava hambúrgueres para o almoço. O aparelho de som foi trazido para fora e a música ligada no último. Uma hora depois de comer Layla foi carregada pelas meninas e jogada no mar.
Se festas surpresas eram sempre assim, ela tinha certeza de querer uma por ano. Ao fim da tarde, um bolo de framboesa decorado com pequenos cavalinhos azuis foi servido. Havia somente quatro fatias sobrando quando o som de um motor de carro foi ouvido. Layla foi puxada pelo noivo até a entrada.
– Desta vez... – ela disse esperando algo escandaloso como uma trupe de palhaços itinerantes – O que é?
– Seu maior presente, com cumprimentos de todos nós – ele sorriu – Acho que você vai gostar muito...
De fato, havia um carro parado em frente à casa. Era preto, longo e devia ser bem caro. Do banco do motorista saiu um homem alto e de feições fortemente traçadas. Tinha o cabelo loiro misturado a inúmeros fios brancos e usava um terno de cor clara. Ele se virou e as suspeitas da jovem provaram-se verdadeiras. Seu pai acabara de chegar para sua festa de aniversário.
– Layla, filha – ele disse rouco – Desculpe o atraso, mas eu tive que...
O mais velho calou-se ao ser abraçado com carinho pela filha.
– Não importa – ela assegurou-o – O importante é que você veio...
Ele acariciou a cabeça da moça e viu um pequeno brilho na mão direita dela. Pegou-a e examinou o anel com interesse.
– É muito bonito... – transferiu o olhar paternal da jovem e encarou Yuri – Vai mesmo casar com esse traste?
– Vou – ela sorriu – É o melhor traste que já conheci, e gosto muito dele também.
– Então acho que tudo bem – o velho suspirou – Só que vou querer netos bons, e...
Layla achou graça, enquanto Yuri limitou-se a rir um pouco. A outra porta do carro abriu-se e uma mulher alta e com cabelo longo e solto saiu.
– Já estava na hora – ela comentou cheia de sotaque e sorrindo de lado, formando uma covinha de rugas – Você é mesmo um traste, Yuri...
– Мать, traste, eu?
– Mas claro – Bogdana e Layla responderam juntas e riram ao perceber tal.
– Você está em maus lençóis – Mr. Hamilton comentou colocando uma mão no ombro de Yuri –, genro.
– Duas contra mim é muito...
Dana deu um abraço amigo em Layla cumprimentando-a. Logo foram os quatro de volta à festa para acabar com o bolo.
Mais tarde, bem alimentados e cansados, os convidados dirigiram-se a um banco de areia que se formara com a maré baixa para contemplar a vista. O pôr-do-sol era no lado oposto, mas o crepúsculo insistia em tomar tons de rosa, laranja e vermelho perto do Kaleido Stage. Layla e Yuri haviam se sentado na varanda, preferindo ficar ali mesmo.
– Muito obrigada, Yuri – ela murmurou enquanto sentada no colo dele e envolta nos braços fortes.
– Pela festa? – ele colocou a cabeça no ombro dela – Não foi exatamente idéia minha, apesar de eu ter organizado tudo...
– Não só pela festa – ela aconchegou-se a ele quando uma brisa mais fria começou a soprar – Por tudo. Por se aproximar de mim na escolinha quando éramos pequenos, por gostar de mim apesar da minha frieza, por ver através da máscara que sempre usei e por nunca desistir de mim, nunca.
– Jamais desistiria de você, Laylinha – ele beijou-a de leve no pescoço – E pare de me agradecer por te amar, não faz sentido.
– Talvez seja mal do nome – ela sorriu um pouco amarga – Sabe o significado do meu?
– Acho que li no diário ontem... Leoa, mulher forte e decidida que pode enfrentar todo e qualquer desafio, certo?
– De acordo com a grafia, pode ser, mas, pela pronuncia, é escuridão.
– Fomos feitos um para o outro, então – ele sorriu – Yuri significa luz divina.
– E é por isso que estava te agradecendo – ela insistiu – Sabe... Quando eu era menor, quando minha mãe morreu, achei que a vida seria uma escuridão eterna que eu tentava iluminar com meus sonhos quanto ao Kaleido Stage, mas quanto os realizei todos ainda estava me sentia no escuro, e isto é porque ainda estava longe de você.
– Então você não vai mais ficar no escuro – ele prometeu enquanto traçava as linhas do pescoço dela com os lábios – Estou aqui, e nunca mais vou te deixar, nunca permitirei que a escuridão te aprisione de novo...
– Hm... – ela sorriu com a referência – De agora em diante só amanheceres e nenhuma noite, é isso que está dizendo?
– Ponha desse jeito – ele brincava com as madeixas curtas – Será a Aurora de nossas vidas.
– Aurora...
Sobre o móvel da sala havia vários retratos. O primeiro do canto tinha moldura formada por pequenas rosas, estas formando um coração, e trazia uma versão adolescente de um casal. Ao lado, um porta-retrato mais solene os mostrava em roupas formais, de terno azul-marinho e vestido branco cheio de babados mais precisamente. Por ocorrência de um vaso lilás que combinava com as paredes havia um espaço.
Na parede, outra foto do mesmo casal na Disney em lua de mel, ela com orelhas de Minnie e ele com um chapéu do Pateta. Um pouco a baixo, sobre o móvel novamente, estavam quatro pessoas em frente a uma parede recém-pintada, todos sujos de tinta colorida e uma das moças com barriga saliente.
A próxima foto era quase inteira branca. Nela estavam três pessoas num quarto de hospital, dentre elas um bebê com alguns poucos fios louros e olhos muito azuis. Os retratos seguintes seguiam todos os primeiros anos da bebezinha, desde um amontoado de cobertas vermelho-pastel até uma jovenzinha de cabelos curtos e com tiara, sorridente e talentosa.
Essa mesma menina agora olhava a coleção de retratos com muita atenção. Sua mãe insistia em esconder aquela foto do Festival de Circo, mas ainda iria achá-la.
– Aurora! – chamou Layla – O jantar está pronto.
– Estou indo, mamãe, estou indo...
