CAPÍTULO II
Hermionee nunca enfrentara tamanho perigo em sua vida, embora soubesse muito bem o que era ser maltratada por homens. Desde os seis anos de idade, passara a vida entrando e saindo de lares adotivos. Em uma de suas raras visitas à mãe aos treze anos, um dos amantes de Anna quebrara seu braço, depois de tentar violentá-la. Hermione correra dele, apavorada, mas fora alcançada e, depois de uma breve luta, rolara a escada.
A mãe ficara furiosa, mas não com o amante, que dissera que Hermione o havia xingado e ameaçado contar mentiras sobre ele a Anna. Hermione fora levada ao hospital, onde engessaram seu braço e, em seguida, de volta à casa. Sob o argumento de ser incorrigível, Anna lavara as mãos da responsabilidade pela filha.
Estranhamente, fora a insistência de James que levara Anna a buscar a filha, quando Hermione tinha quinze anos. James conquistara a menina, um pouco a cada dia. Quando Harry estava em casa, nas férias, ele provocava, deixando sua desaprovação tão clara, que a primeira lição que Hermione aprendeu na casa dos Potter fora como evitar o filho de James. A essa altura, já tinha muita prática em evitar os homens, e muitas cicatrizes emocionais. Anna achava tudo aquilo divertido. Como nunca fora mãe de verdade, ignorava a filha a tal ponto, que o único afeto que Hermione conhecera fora o de James.
Ela fechou os olhos. Seu próprio pai a empurrara para longe quando, aos seis anos de idade, Hermione implorara para ficar com ele. E, ainda, gritara que era a filha bastarda de outro homem, e que não queria vê-la nunca mais. Ordenara a Hermione que partisse junto com a mãe, a quem ele se referia como a "vadia", depois de tê-la apanhado na cama com um amigo rico. Hermione amara o pai e nunca havia compreendido por que ele não conseguira amá-la, também. Ora, ele pensava que ela não era sua filha, e ninguém poderia culpá-lo por isso.
Hermione continuava sentada em um pequeno quarto, naquela noite, sem comer, nem beber nada. Sentia-se fraca de fome e de dor, pois as cordas que prediam seus punhos e tornozelos quase impediam a circulação do sangue. De quando em quando, ouvia ruídos no andar de baixo. Era óbvio que os visitantes de Lopez haviam ficado lá por varias horas, pelos sons que chegavam aos ouvidos de Hermione. Ela também ouvia o sussurro do mar, batendo contra as rochas, do lado de fora da janela. Perguntou-se o que fariam com o seu corpo, depois de matá-la. Talvez a atirassem no mar, para ser comida pelos tubarões.
Enquanto lamentava seu destino, o céu havia escurecido. Mais horas haviam se passado, e Hermione cochilara um pouco. De repente, não estava mais sozinha. A porta se abriu e fechou. Ela abriu os olhos e viu os três homens que a haviam seqüestrado, reunidos em torno dela, como um bando de cães diante de um gato indefeso. Um deles começou a despi-la, enquanto os outros assistiam. O telefone celular caiu do bolso da calça, que lhe foi tirada. Um dos homens apanhou-o e riu, falando com o outro em uma língua que ela não conhecia.
Hermione fechou os olhos, tremendo de medo, e rezou para ter forças para suportar o que estava por vir. Lamentou ainda mais a rejeição de Harry, no último Natal que haviam passado juntos. Teria sido melhor com ele, do que com aqueles desconhecidos frios e cruéis.
Ouviu um deles falar em espanhol, discutindo detalhes de seu corpo, zombando de seus seios pequenos. Era uma reprise do que acontecera em um lar adotivo, quando Hermione tinha quinze anos. O filho mais velho da família quase a violentara, antes de ser interrompido pelo retorno dos pais. Ela fugira, e fora mandada para outro lar adotivo. Fora salva, daquela vez, mas não tinha esperanças, agora.Harry não faria idéia de como resgatá-la, mesmo que estivesse inclinado a salvá-la. Provavelmente, também não consideraria o resgate. Hermione estava sozinha no mundo, sem ter ninguém que se preocupasse com seu destino. Sua mãe, certamente, não choraria, mesmo que ela morresse. Assim como Harry, Anna culpara Hermione pelo que acontecera.
Tentando desesperadamente encontrar um meio de enfrentar o pesadelo que viria, de bloquear a realidade, Hermione lembrou-se da última vez em que vira a avó, antes que ela morresse, parada em um canteiro de rosas, acenando e sorrindo. Hermione costumava ficar com a mãe de seu pai, quando ele viajava com Anna. Ai, via-se cercada de amor, mas tal felicidade não havia durado muito. A avó morrera repentinamente, quando Hermione tinha cinco anos. Todos a quem ela amara, a haviam deixado, de um jeito ou de outro. Ninguém sequer sentira sua falta. James, talvez. Pensou pela última vez no pobre velho que, naquele momento, estava tão solitário quanto ela. Mas, com Hermione fora do caminho, talvez Harry voltasse para casa...
Ouviu-se um grito alto e rude. A porta se abriu e os três homens saíram. Com um suspiro tremulo, Hermione recuou com cuidado, até conseguir sentar-se em uma poltrona velha, junto à lareira. Sabia que não estaria livre por muito tempo. Ah, se pudesse livrar-se das cordas! Estavam cortando a pele de seus punhos e tornozelos. Vestia apenas calcinha e o sutiã, ambos brancos muitos velhos, usados pelo conforto, não pela aparência. Ninguém a via despida, desde que deixara de ser um bebê. Sentiu os olhos encherem-se de lágrimas, enquanto permanecia ali sentada, vulnerável, doente e envergonhada. A qualquer momento, aqueles homens voltariam. Teriam de desamarra-la, antes de usa-la. Ela teria de tentar apanhá-los de surpresa e fugir. Se conseguisse embrenhar-se na floresta, poderia ter uma chance. Era uma corredora rápida e conhecia muito sobre a vida na floresta. Essa era sua última esperança.
O homem que pedira a Lopez permissão para se divertir com ela voltou. Depois de fitá-la por um instante, retirou do cinto uma faca e, um gesto rápido e preciso, cortou uma das alças do sutiã de Hermione.
Ela xingou em espanhol, fazendo-se entender, apesar da mordaça. Sua mente girava em disparada. Se conseguisse enfurecê-lo o bastante para ele cortasse as cordas, o que teria de fazer, se pretendia violentá-la... Repetiu o palavrão com fervor renovado.
Ele praguejou, mas em vez de puxá-la para cortar as cordas, segurou-a pelo ombro e empurrou-a com força contra a poltrona. Então, encostou a ponta da faca na parte superior do seio de Hermione. Ela gemeu baixinho, quando a faca arranhou de leve a pele delicada.
- Vai aprender a se comportar, antes de acabarmos com você. – ele declarou com frieza, falando espanhol. – Vai fazer o que eu mandar! -Não fez qualquer menção de libertá-la. Ao contrário, puxou a parte do sutiã que fora cortado, e observou-lhe o seio nu com ar zombeteiro.
A ponta da faca provocava uma dor aguda. Hermione cerrou os dentes. O que estivera pensando? Ele não ia soltá-la. Ia torturá-la! Foi invadida por uma onda de náusea, provocada pelo medo. Ao erguer os olhos, viu que o homem estava gostando, não só de sua vergonha, mas também de seu medo.Depois de soltar uma risada satisfeita, ele se afastou e trancou a porta.
-Não queremos ser perturbado, queremos? – murmurou, reaproximando-se com a faca em punho. – Estive esperando por esse momento, durante toda a viagem, desde o Texas...
Hermione fechou os olhos e fez uma prece silenciosa. Pensou em Harry e em James. Empinou o queixo e com toda coragem que possuía, esperou pelo impacto da lâmina.
Ouviu-se uma comoção no andar de baixo, e do lado de fora da mansão. Hermione teve a esperança de que o barulho distraísse o homem que pairava sobre ela, mas ele parecia inteiramente concentrado em sua condição vulnerável, e não deu a menor atenção ao que acontecia fora do quarto. Então, ele apoiou uma das mãos nas costas d poltrona, atrás da cabeça dela, e apontou a faca para seu seio.
-Implore para que eu não faça isso. – ordenou, rindo. – Vamos. Implore.
Apavorada, Hermione ergueu os olhos para fitá-lo e, no mesmo instante, soube que ele a violentaria. As feições dele deixavam isso muito claro. O prazer fazia os olhos frios brilharem. Hermione sentiu o corpo gelado, ainda tomado pela náusea, e resignou-se. Sabia que ia morrer, mas antes disso, enfrentaria um sofrimento tão grande, que faria a morte ser bem-vinda.
- Implore! – ele comandou, os olhos faiscando de raiva, a lâmina ferindo a pele delicada.
Houve uma súbita explosão de tiros diante da mansão. Ao mesmo tempo, o vidro da janela atrás do homem que a ameaçava estorou. Seguiram-se tiros. O homem gemeu uma única vez, e caiu, de faca em punho, silencioso, coberto de sangue.
De olhos arregalados, aterrorizada e tremula, Hermione gritou ao se deparar com um rosto totalmente coberta por uma mascara negra, com pequena aberturas nos olhos e na boca. As roupas também eram pretas, e ele empunhava uma metralhadora em uma das mãos, e uma faca imensa na outra. Os olhos alertas fixaram-se no seio ferido, e ele emitiu um som irado, ao mesmo tempo em que chutava o corpo do bandido para o lado e puxava Hermione, colocando-se de pé, para cortar as cordas que prendiam seus punhos e tornozelos.
As mãos e os pés de Hermione estavam anestesiados, e ela quase caiu. Sem perder tempo em tirar-lhe a mordaça, ele a tomou nos braços e posicionou-a sobre um dos ombros, como fazem os bombeiros. Então, encaminhou-se para a janela. Aparentemente, sairiam por ali.
Depois de retirar os cacos de vidro que restavam na moldura da janela, ele puxou uma longa corda preta, que pendia do lado de fora, presa ao telhado da casa.
O homem era muito grande e muito forte. Hermione, ainda em choque devido ao pesadelo que estivera vivendo, os pés e mãos ainda anestesiados, não tentou falar. Nem mesmo protestou. Aquela era uma guerra de Gangues, e ela estava sendo raptada por outro traficante. Talvez, ele apenas a mantivesse em cativeiro para receber um resgate, e não permitisse que seus homens a torturassem. Hermione não tinha voz ativa sobre o próprio destino. Fechou os olhos e notou que havia algo familiar no perfume do homem que a carregava. Estranho. Talvez ele usasse uma colônia que lembra-se a de James ou do sr. Kemp. Bem, ao menos, ele a salvara da faca.
O seio ferido doía, onde a pele pressionava o tecido grosso da camisa que ele usava. O pequeno corte sangrava um pouco. Mas isso não importava. Desde que a tirasse das garras de Lopez, nada mais importava. Hermione sentia-se exausta.
Mantendo-a sobre o ombro, o homem saiu pela janela, agarrou a corda com a outra mão e, com a metralhadora em punho e olhos alertas, deslizou rapidamente para o chão. Nos primeiros segundos de queda livre, Hermione assustou-se, mas o homem não a soltou mostrando-se muito hábil no que estava fazendo.
Hermione lera sobre o rappel australiano, onde homens desciam por uma corda, com uma arma nas mãos. Nunca vira aquilo pessoalmente, exceto na televisão e em filmes de aventura. E, claro, nunca vira alguém realizar a proeza com um refém no ombro. Aquele homem devia ser muito experiente. Hermione perguntou-se se seria mesmo um traficante rival, ou, se era um dos mercenários de Eb Scott. Seria possível que Harry houvesse se importado com o desaparecimento dela, a ponto de pedir ajuda a Eb? Seu coração disparou diante da possibilidade.
Assim que atingiram o chão, Hermione deu-se conta de que seu salvador não estava sozinho. Mal pousara no gramado, ele fez um sinal e, no mesmo instante outros homens vestidos de preto, quase invisíveis na noite, espalharam-se para todos os lados. Homens vestindo ternos, ainda atirando contra eles, iniciaram uma corrida na direção da floresta.
Um veículo estava estacionado na entrada da propriedade, com o motor ligado e a porta de trás aberta. Seu salvador atirou-a dentro do carro, entrou atrás dela e fechou a porta. Hermione retirou a mordaça.
-Siga! – ele ordenou.
O veículo disparou na direção do portão, deixando atrás de si uma nuvem de poeira e cascalho. As janelas estavam abertas. Tiros atingiram as portas, e foram retribuídos pelo homem sentado ao lado de Hermione e pelo outro, sentado no banco do passageiro. Este usava barba e bigode, ambos bem-aparados, e parecia tão formidável quanto o companheiro. O homem ao volante conduzia o veículo com destreza, desviando das balas, enquanto os camaradas atiravam no carro que os perseguia.
Hermione vira outros homens armados, correndo na direção da floresta, e decidiu reformular sua opinião de que aqueles homens faziam parte de uma quadrilha de traficantes rivais. Pela maneira como agiam, mais pareciam soldados treinados. Calculou que os três homens dentro do carro eram parte de um grupo de ação enviado para resgatá-la. Somente uma pessoa possuía o dinheiro necessário para montar aquele tipo de operação, e ela apostaria todo o seu dinheiro em que Eb Scott estava por trás de tudo aquilo. Provavelmente, Harry pagara o amigo para contratar aqueles homens e salvá-la.
Se fosse assim, Hermione sentia-se grata pela intervenção, embora não fizesse idéia do que poderia tê-lo levado a agir assim. Talvez o pai o tivesse persuadido. Afinal, Harry jamais gastaria tanto dinheiro para salvá-la, por iniciativa própria. Ao contrário, ficaria deliciado com seu súbito desaparecimento.
Hermione sentia frio, além de profunda vergonha, por estar ali sentada, vestindo apenas calcinha e sutiã, junto a três desconhecidos. Infelizmente, suas roupas haviam sido completamente arruinadas e, na verdade, o homem que a salvara nem se dera ao trabalho de apanhá-las, antes da fuga. Tentou tornar-se o mais incógnita possível, encolhida em um canto, grata por não haver qualquer luz dentro do carro, e fechou os olhos, enquanto ouvia as balas ricochetearem ao seu redor. Não disse uma palavra. Os três homens pareciam perfeitamente capazes de lidar com a aquela emergência, e ela não queria distraí-los. Se fosse atingida por uma bala perdida, tudo bem. Qualquer coisa seria melhor do que a tortura que enfrentaria, caso Lopez recuperasse sua custodia.
Logo adiante, havia uma curva fechada na estrada. O homem que a resgatara disse ao motorista que parasse o carro. Apanhou uma mochila no chão do veiculo, saltou e puxou Hermione para fora. Então, fez um sinal para que os outros dois seguissem adiante. Ao mesmo tempo em que o carro se afastava, carregou Hermione para a floresta escura, deitando-se junto a ela entre a vegetação densa, à espera de que o veiculo que os perseguia também passasse. Espinhos feriram os braços e pernas nuas de Hermione, mas ela estava tão apavorada, que nem percebeu.
De repente, o veículo de seus perseguidores surgiu, mal diminuindo a velocidade pra fazer uma curva, voltando a disparar no encalço do outro carro. As luzes traseiras desapareceram na distância. Até ali. Tudo bem, Hermione pensou, sentindo-se estranhamente segura com o calor e a força do homem deitado ao seu lado. Ao mesmo tempo, rezou para que os outros dois, que haviam seguido com o carro, escapassem ilesos. Não queria que fossem feridos ou mortos.
-Deu certo. – ele declarou em voz baixa, antes de retirar da mochila um aparelho eletrônico e apertar os botões. Então, virou-se para ela. – Pode andar?
Aquela voz era familiar. A mente de Hermione estava certamente, pregando peças. Ela se levantou, ainda em roupas de baixo e descalça.
-Sim, mas... não tenho sapatos. – murmurou com voz rouca, ainda sob o efeito do choque.
Ele a examinou da cabeça aos pés, usando uma minúscula lanterna. Um palavrão escapou de seus lábios, quando perguntou:
-O que fizeram com você?
Era incrível, mas a voz dele era muito familiar.
-Não tanto quanto pretendiam, graças a você. – Hermione disse, tentando manter a calma. – Não foi um corte profundo. – acrescentou, notando que ele olhava fixamente para o seio ferido. – Foi apenas um arranhão. Vou precisar de sapatos, se vamos caminhar. E... Bem, suponho que não tenha uma camiseta extra? – indagou com o que restava de sua dignidade.
Sem dizer nada, ele retirou uma enorme camiseta preta e uma calça camuflada da mochila e estendeu-a para Hermione. Então, apanhou um par de botas de couro e dois pares de meias.
-As botas são grandes demais, mas as meias ajudarão. Depressa. Os homens de Lopez estão por todos os lados, e temos de nos reunir ao grupo.
Hermione sentiu-se melhor, uma vez vestida. As roupas eram enormes, e ela teve de enrolar as pernas da calça e as mangas da camiseta, mas fez tudo isso depressa, para então calçar as meias e as botas.
Estava escuro, mas o homem levava sua pequena lanterna. Hermione notou a faca na mão esquerda e, imediatamente, lembrou-se de que Harry era canhoto.
- Fique atrás de mim, bem perto. Não fale, a menos que eu peça. Não se mova, a menos que eu me mova, também.
- Certo. –ela sussurrou, obediente.
- Quando chegarmos a nosso destino, cuidarei do seu ferimento.
Hermione não respondeu. Estava exausta, morrendo de fome e de sede, mas sabia que não havia tempo para luxos como comida. Concentrou-se em onde pisava, rezando para não tropeçar em uma cobra. Sabia que havia cobras e lagartos e aranhas imensas, na floresta. Sentiu medo, mas Lopez era uma ameaça muito mais aterrorizante do que uma simples cobra.
Seguiu o companheiro taciturno pela selva, mantendo olhos e ouvidos alertas, buscando qualquer som mecânico. A escuridão era muito confortável, pois os sons se propagavam com maior facilidade. De repente, ouviu um ruído súbito nos arbustos e imobilizou-se, mas o homem à sua frente já localizava a lanterna, verificando que se tratava de um iguana.
Hermione riu, deliciada pelo encontro inesperado, provocando uma reação de estranheza em seu companheiro, que pareceu não entender o motivo de seu divertimento. Ele voltou a consultar seus instrumentos, apurou os ouvidos. Olhou para um lado e para outro e retomou a caminhada.
Os espinhos de alguns arbustos enroscavam-se em suas pernas e braços, e arranhavam-lhe o rosto. Hermione não se queixou. Lembrando-se de onde estivera pouco antes, sentiu-se grata pela possibilidade de fuga, sem se importar com as dores que lhe custaria.
Começou a pensar nas coisas que teria de fazer assim que estivessem num lugar seguro. Em primeiro lugar, telefonaria para James, ele devia estar preocupado com o seu súbito desaparecimento, e Hermione não queria que ele sofresse uma recaída.
Seu silêncio pareceu perturbar o homem alto que a conduzia pela floresta. Ele olhava para trás com freqüência, como se estivesse verificando se ela estava mesmo ali, mas não dizia nada. Às vezes, fazia movimentos estranhos, voltando pela trilha que haviam acabado de seguir, ou quebrando gravetos e pisando na grama em direção nas quais não seguiam. Hermione limitava-se a segui-lo, calada.Duas horas se passaram, antes que ele parasse perto de um pequeno riacho.
-Ficaremos seguros, aqui, por enquanto. – disse, colocando a mochila no chão e abrindo-a. Retirou uma garrafa de água e estendeu para Hermione. – Deve estar com sede.
Ela abriu a garrafa com as mãos trêmulas e bebeu metade da água de uma só vez. Lágrimas de prazer brotaram em seus olhos.
O homem acendeu um pequeno aparato que servia como fonte de luz, mas que não chamaria a atenção de possíveis perseguidores. Notando o entusiasmo exagerado com que ela bebia, franziu o cenho, enquanto apanhava um estojo de primeiros socorros.
- Quando foi a última vez em que bebeu alguma coisa? – perguntou.
- Antes... de... ontem. – ela respondeu, quase engasgando.
Ele praguejou e retirou a máscara, e Hermione deixou cair a garrafa, no momento em que seus olhos se fixaram nos olhos escuros de seu irmão de criação.
Harry apanhou a garrafa e voltou a estendê-la para ela.
- Imaginei que você ficaria chocada – murmurou ao perceber a expressão no rosto de Hermione.
- Veio, pessoalmente, para me salvar? – ela indagou, incrédula. – Mas... como? Porque?
-Lopez tem um agente infiltrado em uma das agencias federais. Não sei quem é, e não podia arriscar que viessem procurá-la, enquanto alguém estivesse passando a informação a Lopez. Na verdade, isso demoraria um bocado para acontecer, pois devem estar discutindo a questão das jurisdições, a essa altura. – Retirou da mochila um pacote embrulhado em plástico e estendeu-o para ela. – Aqui esta uma refeição parecida com a que servem nos aviões. Não é gostosa, mas se esta com fome, não vai se importar.
- Obrigada. – Hermione agradeceu, já abrindo o embrulho com dedos trêmulos de fome.
Harry observou-a comer com avidez
-Também não lhe deram comida?
Ela sacudiu a cabeça.
- Ninguém alimenta uma pessoa, para matá-la em seguida. – explicou, entre mordidas.
Harry ficou imóvel.
- O que disse?
- Ele me deu a três de seus homens e ordenou que me matassem. – Hermione esclareceu, desviando o olhar. - Disse que poderiam fazer o que quisessem comigo, antes. E foi o que fizeram. Ao menos, começaram, antes de você chegar. Fiquei sozinha, por alguns minutos com um homem de baixa estatura. Acho que era árabe. Tentei deixá-lo furioso o bastante para me soltar. Assim, eu teria uma chance de fugir. Ele ficou furioso, de fato, mas em vez de cortar as cordas, ele usou a faca para... me ferir. – Mastigou a comida em silencio, por um instante, lutando para não perder a compostura. – Ele disse que aquilo era uma amostra do que aconteceria se eu tentasse resistir de novo. Quando você chegou, ele estava prestes a me violentar.
- Vou cuidar do seu ferimento agora mesmo. A infecção instala-se rapidamente, em regiões tropicais como esta.
Harry abriu o estojo de primeiros socorros e verificou seu conteúdo. Então, praguejou baixinho. Em seguida, retirou a comida das mãos de Hermione e despiu-a da camiseta. Embora se sentisse constrangida, ela não protestou.
- Sei que vai ser difícil para você, considerando o que acabou de enfrentar, mas tente lembrar-se de que sou medico. – ele disse. – Ao menos, estudei para ser um.
Hermione engoliu seco, mantendo os olhos fechados.
- Ao menos, não zombará do meu corpo, enquanto estiver cuidando do ferimento. – murmurou, arrasada.
-Do que esta falando?
- Nada. Ah, estou tão cansada!
- Posso imaginar.
Ao sentir a mão enorme em suas costas, soltando o fecho do sutiã, ela reagiu involuntariamente, segurando a alça.
Harry imobilizou-se por instantes, então falou:
-Se houvesse outra maneira, eu a escolheria.
Voltando a fechar os olhos, Hermione respirou fundo e soltou o sutiã. Permaneceu quieta, enquanto ele a despia.
A visão do pequeno corte deixou Harry furioso. Hermione possuía seios bonitos, pequenos e rijos, com mamilos rosados. Seu corpo reagiu de pronto à visão do corpo seminu, e ele teve de lutar contra a onda de desejo que o invadiu. Forçou-se a se concentrar no ferimento, nada mais. Guardou o sutiã na mochila, pois não podia correr riscos de deixar quaisquer pistas atrás de si. As chances de estarem sendo seguidos de perto eram mínimas, mas tinha de ser cuidadoso.
Teve de tocar o seio de Hermione para limpar o corte, e ela se encolheu, sobressaltada.
- Não vou machucá-la mais do que o estritamente necessário. – ele prometeu, confundindo a reação dela com dor. – Cerre os dentes.
Ela obedeceu, mas de nada adiantou. Abriu os olhos, apenas o bastante para enxergar a mão grande, porém delicada, que tocava seu corpo. Era uma visão excitante, mesmo nas circunstâncias em que se encontravam. A dor tornou-se secundaria diante do desejo que Hermione sentia por Harry, já fazia anos. Ele não sabia, e não poderia saber. Ele a odiava. Voltou a fechar os olhos, enquanto ele cobria o corte com uma bandagem.
-Eu pensava já ter visto todo tipo de criatura desprezível, mas o sujeito que fez isso era pior do que todos os outros que já conheci. – Harry resmungou.
Hermione lembrou-se do homem e estremeceu. Harry estava vestindo a camiseta de volta sobre o curativo.
- Provavelmente, não é o que parece, mas tive muita sorte.– ela murmurou. Ele a fitou nos olhos.
- É um ferimento superficial, e não vai precisar de pontos. Creio que nem deixara cicatriz.
- Não faria diferença. – ela replicou baixinho.
- Faria. – Harry corrigiu e levantou-se, puxando-a consigo. – Depois de tanto tempo, você ainda me trata com hostilidade.
- Claro. Você não gosta de mim
- Ora, por Deus! – ele explodiu e virou-se de costas. – Será possível que não enxerga?
Hermione perguntou-se o que Harry estaria querendo dizer, mas estava cansada demais para tentar descobrir. Voltou a sentar-se, apanhou a comida e comeu com prazer. Não era fácil encará-lo, depois de ter ficado quase nua diante dele.Apontou para a calça camuflada que usava e disse:
- É pequena demais para ser sua
- Pertence a Gina. Ela me emprestou a roupa e as botas, para o caso de que você precisasse delas, quando eu deixava o Texas. – Harry explicou e pôs-se a operar um aparelho eletrônico.
- O que é isso? – Hermione indagou
-SPG, sistema de posicionamento global, que me permite informar meus homens de nossa posição, para que venham nos apanhar com um helicóptero. Há uma clareira logo adiante, onde toda a equipe se reunirá.De repente, Hermione franziu o cenho.
- Quem é Gina?
- Gina é a minha "faz tudo". Qualquer coisa de que precisemos em uma operação, Gina providencia. É uma garota e tanto. Na verdade, parece-se muito com você. Foi confundida com você, em um casamento que fomos juntos, em Washington, recentemente.
A idéia de que a tal Gina tivesse uma ligação mais intima com Harry era perturbadora. Hermione detestou o ciúme que sentiu, pois não tinha esse direito.
- Ela está aqui? – perguntou, ainda confusa com a relação aos últimos acontecimentos e às habilidades desconhecidas de Harry.
- Não. Nós a deixamos nos Estados Unidos. Está tentando obter algumas informações de que preciso, sobre o agente de Lopez infiltrado entre os federais. E, também, ficou encarregada de apanhar parte dos seus pertences e mandar para Miami.
- Por que diz "nós"?
Harry empinou o queixo, fitando-a nos olhos com expressão séria.
- O que, exatamente, você acha que faço para viver, Hermione?
À luz fraca, os cabelos negros brilhavam, o rosto másculo formava ângulos e sombras. A visão de Hermione ainda estava um pouco embaçada, em conseqüência da droga que lhe fora administrada, que também comprometera o seu raciocínio.
- Sua mãe deixou uma herança. – disse.
- Minha mãe deixou dez mil dólares. – Harry especificou. - O que não pagaria o conserto do motor da Ferrari que dirijo em Nassau.
Hermione parou de comer, ao mesmo tempo em que noções estranhas começavam a se formar em sua mente.
- Você terminou a residência? – indagou.
-Não. A medicina não era para mim.
- Então, o que...
- Use a cabeça, Hermione. – ele a interrompeu, irritado. – Quantos homens você conhece, que são capazes de invadir a casa de um poderoso traficante e fugir levando consigo um refém?
- Trabalha para alguma agencia federal?
- Meu Deus! – Ele se levantou e pôs-se a guardar tudo de volta na mochila. – Você não faz idéia, faz?
- Não sei muito sobre você, Harry. – Hermione admitiu enquanto terminava de comer e entregava a pequena bandeja para ele. – Foi assim que você sempre quis.
- Em certos casos, não vale a pena fazer propaganda. – Harry declarou. – Eu trabalhava com Eb Scott e Cy Parks. Agora, tenho minha própria equipe. Somos contratados pelos governos de vários paises para operações secretas. Trabalhei para o departamento de justiça, durante dois anos, mas agora, sou um mercenário, Hermione.-Ela ficou boquiaberta por alguns segundos, sem saber o que dizer. Agora, começava a compreender muitas coisas.
- Seu pai sabe? – perguntou.
- Não, e não quero que saiba. Se ele ainda se importa comigo, isso só serviria para deixá-lo nervoso.
- James o ama muito, Harry. Ele gostaria de fazer as pazes com você, mas não sabe como. Sente-se culpado por tê-lo expulsado de casa e culpado por... pelo que minha mãe fez.
Harry apanhou outra refeição e desembrulhou-a, antes de falar:
- Você também me culpou.-Hermione passou os braços em torno do corpo. Fazia frio na selva, exatamente como mostravam nos filmes.
-Na verdade, não. Minha mãe é muito bonita. – murmurou. Lembrando-se dos cabelos castanhos, da pele clara e dos olhos azuis de Anna. – Foi modelo por um curto período, antes de se casar com meu... com o primeiro marido.
Harry franziu o cenho.
- Você ia dizer "meu pai".
- Ele disse que eu não era filha dele. Apanhou minha mãe na cama com um sujeito rico, quando eu tinha seis anos. Não compreendi, na ocasião, mas ele me rejeitou brutalmente e ordenou que eu nunca mais voltasse a me aproximar.Disse que não sabia de quem eu era filha. Foi quando ela me mandou para um lar adotivo.
Harry passou vários instantes olhando para ela, incrédulo.
- Mandou para onde?
Hermione engoliu seco.
- Ela me entregou para adoção, alegando que não podia me sustentar. Fui para um abrigo juvenil e, de lá, para meia dúzia de lares adotivos. Vi minha mãe apenas uma vez, durante todos aqueles anos, quando ela me levou para casa, em um Natal... Foi por pouco tempo. – Fixou os olhos no chão. – Quando ela se casou com seu pai, ele insistiu para que ela fosse me buscar. Mamãe mentiu, dizendo que eu vivia com minha avó. Eu estava em um lar adotivo, mas ela me tirou de lá, para convencer seu pai de que era uma boa mulher. – Soltou uma risada amarga. – Fazia dois anos que eu não a via, nem tinha qualquer noticia dela. Ela me ameaçou, dizendo que se eu não fingisse uma grande afeição entre nós duas, diria às autoridades que eu havia roubado algo valioso. Então, em vez de voltar para um lar adotivo, eu iria para a prisão.
