Preso em uma Rede
Tradução da Fic "Atrapado en una Red"
Link: w w w . f a n f i c t i o n . n e t / s / 1829890 / 1 /
Autoria: Anasazi
Tradução: Inna Puchkin Ievitich
Capítulo 13
Meu pequeno segredo
O que faço para que me entendas?
Se minto é porque nunca acreditarias
Que onde eu estiver
Sempre estarei pensando em ti?
- Ricardo Arjona "Mentiroso"-
-----------------
Se perguntassem a Harry qual fora o pior momento de sua vida, sabia que o que responder. Sem dúvida alguma, a sensação de ser banhado no sangue de sua melhor amiga de há seis anos – a mulher pela qual sentia o que não sentia por ninguém mais – foi a mais terrível experiência na jovem vida de Harry.
E, considerando que ele era O-Menino-Que-Sobreviveu-Para-Sofrer, era dizer muito.
Sentia que algo desejava sair dele, algo orgânico e estranho, que originava da boca de seu estômago. Subiu de seu estômago à sua garganta, ardente e pulsante, saindo de seu corpo como uma grande serpente buscando a liberdade. Quando chegou à sua boca, reconheceu a sensação do que realmente era.
Um grito.
Abriu sua boca e soltou um grito lancinante. Gritou e gritou e gritou até que o mundo deu-lhe voltas em um torvelinho de angústia, sua atormentada alma suplicando por uma só coisa, enquanto tudo era tragado pela escuridão.
A morte.
Mas ela não concedeu esse desejo a Harry, já que no momento seguinte sentiu umas fortes mãos segurando-o pelos ombros, sacudindo-o violentamente. Abriu os olhos para encontrar o ansioso rosto de seu ruivo amigo Ron. – ACORDA! ACORDA! - Ron gritava uma e outra vez enquanto sacolejava Harry com desespero.
"Era uma pesadelo... apenas um pesadelo."
Uma onda de alívio inundou-lhe a cabeça com tanta intensidade que sentiu que choraria de alegria. Sua cabeça latejava, sua cicatriz lhe ardia, os lençóis enredados em suas pernas estavam lhe cortando a circulação, o conteúdo de seu estômago borbulhava como se houvesse engolido uma bomba química, e, contudo, sentia-se tão feliz que poderia dançar.
"Ela está bem... todos estão bem."
- Estou acordado. – sussurrou Harry com voz rouca, a sensação de ardor na boca do estômago piorando a cada segundo que se passava. Ron, que até esse instante continuava sacudindo-o, suspirou aliviado e finalmente o soltou. Harry olhou a seu redor para constatar que Seamus, Neville e Dean também haviam acordado e estavam parados ao redor de sua cama, com expressões de alarme em seus rostos.
- Está bem, amigo? – perguntou Ron com voz trêmula ao tempo em que olhava preocupado para Harry. Harry assentiu debilmente enquanto se concentrava em conseguir fazer com que seu coração voltasse a bater em velocidade normal.
- Sim... foi apenas um pesadelo. – respondeu um Harry sem fôlego, usando seus braços para sentar-se na cama. Não foi algo fácil, já que seu corpo doído gritava ante o esforço.
- Harry, compartilhei este quarto com você por quase sete anos. Da próxima vez que me acordar com seus gritos, vou asfixiá-lo com a almofada! – disse Dean, regressando à sua cama, sacudindo a cabeça com um sorriso que dizia a Harry que o rapaz apenas meio que brincava.
- Perdão, rapazes. – sussurrou Harry, respirando profundamente, tentando deter os tremores que lhe corriam pelas extremidades.
- Ao menos não dormimos em beliches. Imaginem Harry caindo em cima da gente? Seria o suficiente para um ataque cardíaco. – disse Seamus com um pequeno sorriso antes de pular em sua cama, e esconder-se sob seus lençóis.
- Está seguro que está bem, Harry? Você parece tão pálido quanto o Barão Sangrento. – perguntou Ron com suavidade. Harry considerou contar a Ron sobre o pesadelo... por apenas um segundo. Ron se poria nervoso e acordaria Hermione, que se poria frenética, e, com Dumbledore fora do castelo, não haveria nada que se pudesse fazer.
Harry concordou fracamente enquanto afastava as pernas para um lado e se empurrava da cama. – Sim... preciso apenas de um pouco de água. – Lentamente levantou-se, o sangue descendo pelas pernas a tal velocidade que o deixou mareado. Sentia que seu corpo estava queimando, e não queria outra coisa a não ser molhar o rosto com água gelada. Ron parecia não crê-lo, mas estava muito sonolento e cansado para reclamar-lhe, e finalmente deu-lhe um pequeno sorriso antes de caminhar de volta para sua cama, encolhendo-se sob os lençóis dos Chudley Cannons que Hermione havia lhe presenteado de Natal.
Harry caminhou para a porta dos fundos do quarto e abriu-a, mas antes que pudesse sair, ouviu alguém chamar-lhe pelo nome. Olhou por sobre seu ombro para encontrar Neville, que estava em silêncio desde que Harry despertou, sentado em sua cama, olhando a fotografia que tinha em seu criado-mudo. Era uma foto de seus pais, Alice e Frank Longbottom, em seu sétimo ano em Hogwarts. A expressão no rosto de Neville enquanto olhava para seu pai levar sua mãe de cavalinho, não deixava dúvida do que estava pensando nesse momento.
- Este pesadelo... não tem nada a ver com... com Quem-Você-Sabe, não é Harry? – perguntou Neville, sua voz estranhamente desprovida de sentimento, seus olhos jamais abandonando a foto de seus pais.
Em realidade, Harry não sabia o que responder. De que fora o sonho? Foi uma visão como a que Firenze disse que experimentou em Adivinhação? Por que Hermione tivera o papel principal? Acaso era uma mensagem de seu inconsciente acerca da particular situação que vivia com sua melhor amiga? E se era uma pesadelo, o que tinha a ver com Voldemort? Como poderia encontrar seu significado?
Maldito seja! Onde estava Dumbledore quando precisava dele?
- Não se preocupe, Neville. Volte a dormir. – disse Harry com toda a segurança que pode acumular, assentindo para seu amigo. Neville finalmente fitou-o, seus olhos inspecionando o rapaz de olhos verdes, antes de suspirar e esboçar um pequeno sorriso a Harry.
Harry abandonou o quarto e arrastou seu corpo pelo corredor, até que chegou ao banheiro dos rapazes. Curvou-se sobre a pia e abriu a torneira, salpicando água fria em seu cansado rosto. Sentia-se pegajoso e sujo... como se nunca voltasse a estar o suficientemente limpo.
Enquanto a água escorria por seu rosto, as gotas pingando do cabelo que agora tinha grudado na testa, Harry ergueu o olhar para encontrar-se com seu reflexo no espelho. Seus olhos verdes haviam perdido seu brilho, e agora estavam vermelhos e inchados, com sombras escuras rodeando-lhes. Afastando para um lado o cabelo que lhe tapava a testa, ficou observando a cicatriz em forma de raio que fora sua maldição desde que tinha pouco mais de um ano de vida. Sentia como se a cicatriz lhe queimasse desde o interior e, contudo, a marca parecia igual a como se vira durante os transcorridos 16 anos.
Harry girou, apoiando-se na fria porcelana do lavabo e fechou os olhos, tentando recriar em sua cabeça o que havia vivido há pouco mais de dez minutos.
Impulsivamente começou a morder o lábio inferior, quando sua mente foi invadida pela recordação de Hermione em sua cama. Parecera tão real: o seu doce peso sobre ele, o aroma de baunilha e lavanda que sempre a rodeava, as cócegas que lhe provocavam os castanhos cachos acariciando suas bochechas, o hálito que lhe afagava os lábios.
Quanto desejou contar-lhe nesses instantes sobre a poção, que não lhe importava nada no mundo exceto ela, que não queria curar-se dessa enfermidade, e que não deseja nada mais que sentir seus carnosos lábios sobre os dele! Mas, tal como o louco amor que sentia por ela, fora somente uma ilusão.
Uma ilusão que rapidamente tornou-se um inferno.
Por que a súbita mudança? Por que viu seus amigos presos no Salão Principal, pendidos do teto como pedaços de carne crua em um açougue? Por que Hermione ocupou o papel principal no pesadelo? Por que estava presa em uma teia de aranha? O que é a esfera? O que fazia flutuando sobre ela?
A sensação do sangue de Hermione chovendo sobre ele invadiu-lhe novamente o corpo. Recordou o sabor amargo e metálico de sua essência enquanto descia-lhe pela garganta, e sentiu como o conteúdo de seu estômago começava a subir-lhe pela garganta. A náusea atacou-lhe de golpe. Abriu os olhos e correu para um dos vasos sanitários, ajoelhando-se diante da porcelana e vomitando tudo o que tinha dentro.
Depois de cinco minutos que pareceram eternos, as violentas sacudidas de seu estômago cessaram. Harry sentou-se no chão, recostando a cabeça sobre a parede, a pouca força que havia recobrado depois do pesadelo falhando-lhe por completo.
Não parava de pensar no sonho e no seu possível significado, ainda quando a dor de cabeça agora pulsava como tanta intensidade detrás de seus olhos, que a pouca luz do aposento lhe feria.
Ouvindo apenas a sua agitada respiração, Harry pensou que havia chegado a uma possível explicação sobre o pesadelo. Com poção ou sem poção, Hermione era a pessoa mais importante para Harry em toda Hogwarts. Ela era sua melhor amiga, a pessoa que o entendia e compreendia como nenhuma outra, e sua aliada número um na batalha contra Voldemort e seus Comensais da Morte.
Se ele se permitisse cair na fantasia de que estava apaixonado por Hermione, arruinaria sua amizade. Ela estaria presa em uma rede, metaforicamente falando, e ele sofrendo no interior por medo de machucá-la. A tensão se faria demasiada forte, e ele finalmente a perderia por completo.
E sem Hermione, não havia nada para ele em Hogwarts... nem educação, nem amigos, nem Quadribol, nem exames... nem futuro.
Hogwarts sem Hermione significava nada para ele.
A idéia de que algum dia poderia ter uma vida sem Hermione a seu lado lhe aterrorizava mais que o pesadelo que acabava de experimentar, mais que o Tio Vernon e seu cinto de couro quando era pequeno, mais que o cachorro da Tia Marge tentando mordê-lo enquanto o perseguia pelo jardim, e até mais que ver-se cara a cara com Voldemort naquele cemitério.
Sem sua melhor amiga, Harry estaria destroçado... dominado... derrotado.
"Não estou apaixonado."
Deslizou suas mãos por seu cabelo azeviche, que estava empapado de suor.
"É apenas a poção."
Engoliu em seco e fechou os olhos, ignorando o súbito desejo de chorar. Por Merlin! Era já era um homem! E não qualquer homem, mas sim aquele que tinha em seus ombros o destino do mundo mágico. Que coisa boa viria de chorar?
Em realidade era uma benção que o que sentia por ela não fosse real, porque se o fosse... apenas Deus sabe o que teria arriscado para ir lutar com um vilão com sonhos de dominação mundial.
E, ainda sentado no frio piso de mármore de um banheiro vazio, Harry Potter, O-Menino-Que-Sobreviveu, Salvador do Mundo Mágico e Enorme Idiota, quedou-se adormecido.
Sexta-Feira, 31 de Outubro
7:24h
A próxima vez em que Harry abriu seus olhos, os raios de sol haviam se infiltrado no banheiro. Sentiu uma incessante cutucada em seu ombro direito, e girou o rosto para encontrar-se cara a cara com Colin Creevey, que estava ajoelhado junto a ele, com expressão de preocupação.
- Harry, você está bem? Sente-se doente? Quer que eu busque Hermione? – perguntou Colin rapidamente, seus grandes olhos inspecionando Harry.
"Por que todo mundo pensa em chamar Hermione quando estou com problemas? Estou começando a pensar que sou um pouco co-dependente."
- Estou bem, Colin. Estou apenas um pouco doente do estômago. – disse Harry, fazendo uma careta enquanto se afastava do piso. Ainda sentia-se bastante fraco, e não ajudava o fato de que houvesse passado sabe-se Deus quantas horas adormecido no chão frio. Colin agarrou-o pelo braço e ajudou-o a incorporar-se, e não soltou-o até que confirmou que Harry podia manter-se parado por si.
- Ai, você também? Eu estive doente ontem. – disse Colin, empalidecendo ante a recordação. – Está seguro de que está bem?
Harry assentiu como resposta, lentamente arrastando seu dolorido corpo de volta a seu quarto. Lá restavam somente Neville e Ron, os quais se mostraram visivelmente aliviados ao ver Harry quando este entrou no quarto. – Onde estava? – perguntou Ron, ao tempo em que dava o nó na gravata.
- Por aí. – esquivou Harry, sentindo-se bastante envergonhado de ter passado a noite diante de um vaso sanitário. Deu-se conta do olhar de incredulidade que compartilharam Neville e Ron, mas decidiu ignora-los enquanto se vestia com o uniforme. Tão logo terminou, os três amigos caminharam em silêncio pelos corredores de Hogwarts até chegar ao Salão Principal.
Um violento tremor percorreu as extremidades de Harry ao pisar no grande salão, as recordações do sonho assaltando seus sentidos: os corpos pendendo do teto... as paredes jorrando... Hermione presa na teia de aranha... o sabor do sangue de sua amiga descendo por sua garganta.
- Harry, você está bem? – a voz preocupada de Neville penetrou seus pensamentos. Harry ergueu a cabeça para deparar-se com Neville e Ron olhando-o como se esperassem que a qualquer momento que ele se rompesse em mil pedaços. Ter pessoas que se preocupavam tanto com ele era simultaneamente uma benção e um fastio.
"Acalme-se, Potter. Foi apenas um pesadelo. Ela está bem; todos o estão."
- Sim, estou apenas um pouco enjoado. Isso é tudo. – assentiu Harry, logrando mostrar um pequeno sorriso. Ron e Neville novamente compartilharam um olhar que indicava que não era fácil engana-los, mas aparentemente haviam aprendido a lição depois do fiasco da noite anterior: era melhor não meter-se nos assuntos pessoais de Harry até que o jovem estivesse pronto para deixá-los fazer.
- Vamos pôr algo no estômago, amigo. – disse Ron, sorrindo-lhe suavemente enquanto lhe dava uma palmada no ombro. Caminharam até a mesa dos Gryffindor e se sentaram no final, Ron ao lado de Harry, Neville do outro lado da mesa. Em poucos minutos chegou Ginny, que deu um tímido sorriso a Harry antes de beijar Neville na bochecha e sentar-se a seu lado.
Ron estava amontoando as panquecas no prato de Harry e dizendo-lhe que "mandasse ver", mas Harry estava muito preocupado para conseguir comer, porque percebera que não havia decorações festivas no grande refeitório.
Acaso fora uma artimanha da parte de Roger para conseguir que Hermione se fosse com o fim de ajudar Flitwick com as decorações do baile? Se isso era verdade, teria que dar crédito a Roger por inventar tão simples e eficiente mentira.
Seu estômago dava saltos nervosamente, seu coração batia como tambor em seu peito, e as palmas das mãos suavam a cântaros. Apertou o garfo com tal força que o ferro vergou.
"Não estou apaixonado."
A lembrança de sua amiga, não a do sonho, mas sim a de carne e osso que havia dançado com ele na noite anterior, ao ritmo de uma melodia silenciosa, colou-se em seus pensamentos para torturá-lo. Fechou os olhos e concentrou-se somente nessa recordação.
Estivera tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe... Acaso Roger já a beijara? Acaso sentira o corpo dela contra o seu? Acaso planejava subi-la em sua vassoura e voar juntos sob a luz da lua?
Acaso havia dançado com Hermione como ela o fez com Harry?
"É só a poção."
Harry soltou uma grande exalação e finalmente abriu os olhos. Encontrou-se com Ginny e Neville tentando tirar mais informação do ruivo sobre seu enigmático disfarce, mas Ron se enrubescia enquanto olhava para Luna, que lhe sorria com se vivesse em um sonho, do outro lado do grande salão.
- Em breve saberão. – disse Ron, mordendo seu bacon bruscamente. Ginny, que parecia ter voltado à sua emotiva forma de agir, dirigiu sua atenção a Harry.
- Que tal sua fantasia, Harry? Também é um segredo nacional ou pode nos dizer? – perguntou a mais jovem dos Weasley antes de dar uma mordida em suas tostadas. Quando viu a expressão deprimente no rosto de Harry, engasgou levemente.
- Eu sinto. – murmurou após engolir. Harry sorriu-lhe fracamente, um sorriso que ele esperava que transmitisse sua esperança de que as coisas logo voltariam ao normal.
- Não se preocupe, Gin. É apenas uma fase. – sussurrou antes de obrigar-se a começar com seu café. Apesar da comida estar saborosa, seu estômago em realidade não se sentia em condições de ser comprazido. Por isso, depois de uns bocados apenas, Harry se conformou em olhar em silêncio o desfile de alunos que entravam e saiam do grande refeitório.
A hora do café estava a ponto de terminar, e duas pessoas muito importantes ainda não haviam se apresentado: Hermione Granger e Roger Davies.
Teve que confiar em uma das víboras fofoqueiras para perguntar o óbvio.
- Sabe onde Hermione está? – perguntou Lavender de seu lugar ao lado de Ginny, sua pergunta dirigida diretamente a Harry.
"De que tenho cara? De ser o namorado dela? Pergunte ao idiota do Roger!"
- Não a vi desde ontem à noite. – murmurou Harry, sussurrando "não que seja da sua conta" entre os dentes, enquanto empurrava distraidamente uma solitária uva por todo o prato.
- Ah! Já sei o que aconteceu à ela. – disse Parvati, piscando o olho com malícia a Lavender. A não tão inocente expressão nos olhos da garota fez com que um alarme se ativasse na cabeça de Harry.
- O que? O que aconteceu com Hermione? Ela está bem? – perguntou rapidamente Harry, o medo evidente em sua voz ao tempo em que imagens do pesadelo da noite passada passeavam diante de seus olhos. Lavender e Parvati olharam-no como se lhe houvesse nascido um terceiro olho.
- Roger. – respondeu Parvati, compartilhando uma risadinha irritante com sua amiga. Ron e Neville olharam lastimosamente para Harry, que estava agarrando sua varinha sob a mesa e imaginando-se como seria aplicar-lhes a azaração do morcego esvoaçante em ambas as garotas, mas foi Ginny que silenciou as jovens com um "calem-se, harpias".
Antes que a Terceira Guerra Mundial eclodisse na mesa dos Gryffindor, Hermione surgiu na entrada do grande refeitório. Ainda à distância, Harry notou o quão cansada Hermione parecia.
O resto do mundo ficou em segundo plano enquanto Harry olhava Hermione caminhar para a mesa.
Estará chateada pelo beijo que quase aconteceu na noite anterior? Dir-lhe-á que quer romper sua amizade com alguém que não podia tirar as mãos de cima de si? Gritaria com ele por ter quebrado os laços de confiança e amizade que haviam compartilhado por seis anos?
Hermione sentou-se no espaço vazio ao lado de Harry antes que o rapaz de olhos esmeralda recobrasse seus sentidos. A jovem murmurou "Bom dia" a todos antes de agarrar uma tostada da bandeja próxima e dar-lhe uma boa mordida.
Certo, parece que Hermione havia decidido ignorar a situação.
Harry surpreendeu-se consigo mesmo quando não soube identificar se isto lhe fazia feliz ou triste.
Os companheiros sentados ao seu redor olhavam entre fascinados e horrorizados para Hermione comendo seu café da manhã com um entusiasmo apenas igualado ao de Ron depois de uma partida de Quadribol. Já estava em sua terceira tostada quando Ginny rompeu o silêncio: - Você está anormalmente faminta esta manhã.
- Eu sinto. – disse Hermione com um sorriso tímido, limpando um pouco de manteiga que havia se resvalado pelo queixo. – Estive acordada toda a noite. – Essa simples enunciação fez com que Lavender e Parvati começassem a rir novamente. Todos menos Hermione lhes lançaram adagas com o olhar até que se acalmaram.
- Perdi algo? – perguntou Hermione, seu olhar saltando das garotas para Ron e Harry, os quais estavam agindo estranhamente ainda para eles, nesta manhã.
- Onde está Roger? – Lavender perguntou em um tom não muito sutil.
Harry rangeu seus dentes; parte dele sabia que trazer o tema Roger era tão doloroso quanto um exame de próstata pelas mãos de um gigante, mas outra parte dele queria saber o paradeiro do Monitor tanto quanto Lavender e Parvati.
Esperançoso em ouvir um "Buckbeak o pisoteou até deixá-lo em pedaços esta manhã", Harry por pouco se engasga com seu suco de abóbora quando Hermione deu de ombros casualmente e respondeu: - Descansando, suponho. O pobre rapaz estava exausto quando acabamos.
Lavender e Parvati soltaram um forte "whooohooo", ao tempo em que batiam as mãos no ar como se acabassem de ganhar a loteria. Harry já havia suportado tudo o que podia suportar dessas garotas nessa manhã. Com seus olhos diminuindo ameaçadoramente, Harry olhou para as jovens e lhes disse: - Ou vocês duas se calam... ou eu me encarrego de cala-las.
Ao menos as duas garotas tiveram a decência de parecer intimidadas pela oca ameaça (ou não acreditaram que fosse tão vazia), já que ambas se levantaram da mesa e, sem olhar para trás, saíram do Grande Salão.
Se o franzido no cenho de Hermione fosse mais pronunciado, Hermione poderia ter uma cicatriz permanente entre suas duas sobrancelhas. Uma vez mais, voltou-se para seus amigos e perguntou: - Estão seguros de que não perdi nada?
- Sim! – Harry, Ron, Ginny e Neville responderam simultaneamente, cada um tentando aparentar que estavam ocupados com seus respectivos cafés. Hermione não parecia convencida, mas Luna, que vinha caminhando desde a mesa dos Ravenclaw com um pergaminho enrolado na mão, lhes protegeu de mais perguntas.
Dando um sonoro beijo na bochecha de Ron, Luna rapidamente dirigiu sua atenção a Hermione. – Recebi a resposta de meu pai. – disse ela, agitando o pedaço de pergaminho em sua mão. Harry não tinha nem a mínima idéia sobre o que Luna estava falando, mas aparentemente Hermione não tinha o mesmo problema, julgando por como a loira havia capturado toda sua atenção.
- O que lhe disse? – perguntou Hermione, colocando os cotovelos sobre a mesa e descansando o queixo sobre as mãos. Uma rebelde mecha de cachos cor chocolate caiu sobre sua bochecha. Impulsivamente, Harry roçou seus dedos sobre o rosto de Hermione e colocou a mecha atrás da orelha da garota. Um tremor correu-lhe o corpo quando deu-se conta do que fizera. Contudo, Hermione se limitou a dar-lhe um agradecido, embora um pouco tímido, sorriso antes de devolver sua atenção a Luna.
Sentando-se no espaço vazio ao lado de Neville, Luna sussurrou: - Disse que não tem muita informação sobre o artefato perdido, mas que seus informantes disseram que, antes que a exibição do museu abrisse, o artefato estava sob a proteção do Departamento dos Mistérios, e que havia rumores de que estava sob a guarda direta dos Inomináveis.
O Departamento dos Mistérios – o lugar que era a fonte de muitos dos pesadelos de Harry. Sua mente divagou pelo final de seu quinto ano, à imprudente viagem para salvar Sirius das garras de Voldemort, à esfera que guardava a Profecia que se converteria na maldição de Harry, à recordação de sua melhor amiga caindo ao chão, quieta e aparentemente sem vida, e ao véu que, em última instância, tirou a vida de seu padrinho.
Inesperadamente, sentiu uma cálida sensação na mão que tinha descansando sobre sua coxa. Dedos se aferraram à sua mão e a apertaram suavemente, um polegar traçando gentis círculos sobre sua pele. Seus olhos seguiram o braço da pessoa que lhe havia segurado a mão debaixo da mesa, apenas para deparar-se com Hermione com um terno sorriso no rosto.
Ela por instinto já sabia como ele se sentia. De algum modo, ela já o sabia, e, como sempre, não havia desperdiçado nem um só momento sem deixá-lo saber que ela estava ali para ele.
Era irônico que nesse momento, com a simples sensação de Hermione segurando-lhe a mão, Harry Potter sentia-se como a pessoa mais afortunada do planeta.
Ainda segurando Harry pela mão, Hermione voltou sua atenção novamente a Luna antes de dizer: - Você entende que se em realidade o artefato estava sob os cuidados dos Inomináveis é porque é um objeto essencialmente perigoso, não é? Provavelmente um canal para as artes das trevas.
- Não sei, mas suponho que seja algo que faria muitíssimo dano se caísse nas mãos erradas... – agregou Luna, aparentemente entrando em um de seus estados meditativos, um peculiar hábito ao qual o Trio já havia se acostumado.
- Estava sob a proteção de nosso Ministério da Magia? – perguntou Neville com um cenho franzido. Luna assentiu.
- Então, como foi da Inglaterra para a Alemanha, em primeiro lugar? – Luna e Hermione cruzaram olhares, incapazes de dar-lhe uma resposta.
Harry sentiu que Hermione dava um último apertão em seus dedos antes de soltar-lhe a mão para coçar o nariz. De imediato, sentiu falta do calor de sua pele, mas não quis pensar no porquê.
"Não estou apaixonado. Apenas sou feliz por ela ser minha melhor amiga."
Ginny, que estivera observando Harry e Hermione de soslaio, limpou a garganta antes de dizer: - Ouçam. Alguém mais acredita que seria uma boa idéia se almoçássemos lá fora? Está um belo dia! Seria uma pena desperdiçá-lo dentro do castelo.
- Creio que é uma idéia maravilhosa. – Luna disse languidamente enquanto Ron e Neville se limitaram a concordar. Em verdade, os quatro amigos haviam concordado na noite anterior, após Harry regressar de seu "encontro", que o melhor que ele poderia fazer é estar longe das paredes do castelo... e longe de Roger Davies.
- Terão que repetir outro dia, porque hoje não posso. Já tenho planos com Roger. – disse Hermione, depois de terminar seu suco.
- Mude-os. – disse Ron bruscamente. Um chute na batata da perna da parte de sua irmã caçula lhe informou que estava se comportando como um idiota.
Hermione, talvez acostumada à rudeza de Ron ou simplesmente decidindo ignorar o arrebatamento, respondeu-lhe tranquilamente: - Não posso. Preciso falar com ele urgentemente.
"Não estou apaixonado. Apenas... apenas quis... que ela viesse conosco... não que fosse com ele."
- Eu... nós sentiremos sua falta. – sussurrou Harry, dando-lhe um leve sorriso. Somente ela o ouviu e, julgando pelo pequeno sorriso que brincava em seus lábios, apreciava o sentimento. Um travesso brilho surgiu em seus olhos, e inesperadamente lhes esboçou um grande sorriso.
- Bom, que tal esta idéia? Se quiserem, posso falar com McGonagall para conseguir-nos vistos para irmos a Hogsmeade amanhã. Com todo o trabalho extra que tive que fazer para o baile, estou segura de que ela me dará um dia para relaxar com meus melhores amigos. – disse Hermione com entusiasmo.
- Eu me disponho! – disse Ron, erguendo a mão. Luna e Neville fizeram o mesmo, enquanto Ginny se perguntou em voz alta se em Hogsmeade lhe serviriam whiskey. A atenção de Hermione se pousou em Harry, e seus olhos se cruzaram com os dele em uma expressão inequívoca de "o que você me diz?".
"Amanhã, estou seguro de que a poção já não estará funcionando. O que teria de perigoso ir com ela a Hogsmeade?"
"Admita-o, Potter. Você quer apenas uma escusa para passarem tempo juntos."
"Não estou..."
"... apaixonado, blá, blá, blá. Que seja."
- Parece bom. – disse Harry com suavidade, um tímido sorriso brincando nos cantos de seus lábios enquanto desviava o olhar. Ouviu Hermione rir e sentiu os delicados dedos revolvendo-lhe o cabelo negro por uns momentos, antes dela levantar-se de seu assento.
Arrumando o suéter, Hermione disse: - Bom, amanhã serei toda sua. Agora, se me permitem, preciso devolver um livro à Senhora Pince. Vejo-os em breve. – E com um último sorriso, Hermione girou e começou a caminhar para a saída.
Todos os olhos se pousaram em Harry enquanto o rapaz olhava para sua melhor amiga distanciar-se dele.
Ele parecia, ironicamente, com um menininho que havia passado as últimas cinco horas olhando para a última vassoura profissional na vitrine de Artigos de Qualidade para Quadribol...
E que sabia que nunca teria a oportunidade de voar sobre ela.
12:03h
Pátios de Hogwarts
Foi uma estranha manhã para os alunos de Hogwarts; a única coisa verdadeiramente familiar foi a reprimenda que Hermione descarregou em Ron e Harry quando começaram a roncar no meio da aula do Professor Binns sobre o problema dos duendes vermelhos no tráfico de seda na China do século 15.
A aula de Defesa Contra as Artes das Trevas fora cancelada, já que seu professor, o Professor Dumbledore, ainda encontrava-se fora do castelo. Novamente, Harry sentiu-se estranhamente nervoso; embora não sempre via as coisas da mesma forma que Dumbledore, Hogwarts sentia-se muito mais segura com o ancião por perto. A única que parecia compartilhar seu nervosismo era Hermione, principalmente porque sabia que Harry não se sentia cômodo ao falar de seus sonhos com ninguém que não fosse Dumbledore.
"Não seja tão paranóico. Nada vai acontecer."
Harry havia sugerido (para a surpresa de todos seus companheiros, exceto Ron) visitar a biblioteca durante o período livre. Hermione o felicitou por seu desejo de fazer "melhor em seus estudos", mas se desculpou dizendo-lhe que não poderia acompanhá-lo à biblioteca porque ainda tinha que trabalhar em uns feitiços para o baile. Ron disse a seu triste amigo que ele o acompanharia se ainda queria rir, mas, claro, tudo fora uma desculpa para passar tempo com Hermione. Finalmente, Neville, Harry e Ron decidiram permanecer sentados no chão do corredor da sala de Adivinhação por quase uma hora e meia.
A aula de Adivinhação foi particularmente incômoda para Harry, e não somente porque era a única aula que não compartilhava com Hermione. Nada havia mudado comparado às outras aulas que Firenze havia ensinado, e, contudo, Harry sentia uma tensão tão forte ao redor que quase podia se cortar com uma navalha. O centauro apenas o observava, e não lhe falou nem uma só vez durante o transcurso da aula.
Logo ao fim da aula, Harry decidiu esperar que os demais saíssem com a intenção de desculpar-se com seu professor pelo arrebatamento da última vez. Ron lhe disse que o esperaria no corredor, e finalmente Harry ficou sozinho com Firenze.
- Professor, eu...
Não havia concluído a frase quando Firenze colocara sua mão de forma consoladora no ombro de Harry. Harry estava mais que surpreso quando o usualmente estóico centauro olhou-o nos olhos e lhe disse: - Jovem Potter, se eu tivesse as respostas às suas perguntas, eu as daria com prazer. Mas não as tenho. Sou apenas uma simples criatura presa nesta rede que chamamos existência.
- Eh... de acordo, Professor. Perdoe-me por ter-lhe faltado o respeito no outro dia. – disse Harry envergonhado, reticente em cruzar olhares com o centauro.
A expressão no rosto de seu professor tornou-se mais séria enquanto este continuou: - Lembre-se... o destino escolheu outros para que trilhem o mesmo caminho que a você compete trilhar.
- Professor, o que quer dizer com...
- Lembre-se que... para a abrir a porta... você precisa da chave.
Acaso era somente a percepção de Harry ou Firenze tendia a ser mais confuso que a própria Trelawney?
"Que demônios esteve fumando?"
Firenze suspirou, sacudindo sua cabeça suavemente, e permaneceu calado por uns instantes. Finalmente, acrescentou: - Apenas siga seu coração, jovem Potter, como Marte segue Vênus na Casa Número Doze, e lhe prometo, tudo sairá bem ao fim. – Havia um sorriso quase imperceptível adornando seu atraente rosto.
Harry devolveu-lhe um sorriso e saiu do salão, sentindo-se simultaneamente aliviado porque o professor aparentemente lhe havia perdoado o arrebato, e perturbado por suas palavras de despedida.
As palavras ainda faziam eco em sua cabeça enquanto seguia Neville, Ginny, Ron e Luna para o local onde decidiram ter seu piquenique... a árvore à margem do lago. Era uma quente porém ventilada tarde, parecida a que tiveram na segunda-feira quando Harry, por erro, havia bebido a maldita poção de amor. Seu coração sufocou quando seus pensamentos novamente se pousaram em Hermione, a quem vira de relance enquanto passaram diante das portas do grande refeitório, sentada ao lado do Ravenclaw que menos ele apreciava.
Finalmente chegaram à árvore, abrigados sob sua refrescante sombra. Harry sentou-se contra o tronco enquanto Ginny abria a cesta que Dobby lhes havia preparado. Neville e Ron acomodaram a toalha quadriculada sobre a úmida grama enquanto Luna aplicava um feitiço para manter as formigas longe da comida.
- Obrigado. – murmurou Harry quando Ginny lhe entregou um prato com frango frito e batatas com salsa e começou a comer em silêncio, sua mente divagando pela última vez em que estivera sob esta árvore.
Naquela tarde, Hermione havia recostado sua cabeça sobre o ombro de Harry enquanto riam com uma das histórias de Ron. Ainda podia sentir a forma como o cabelo de Hermione lhe fazia cócegas na bochecha, podia cheirar o característico aroma dela impregnado em sua pele, podia ver-se colocando seu braço sobre o ombro da garota quando a sentiu tremer de frio.
Distraidamente, se perguntou por que recordava essas coisas quando ainda não estava sob os efeitos da poção.
"Não estou apaixonado."
- Não está comendo, amigo. Você está bem? – perguntou Ron com suavidade, ao tempo em que sentava-se ao lado de Harry. O jovem não se dera conta de que já levava dez minutos sem tocar em seu prato.
- Parece que não. – suspirou Harry, enquanto deixava o prato ainda cheio em um lado. Recostou-se contra o tronco e fechou os olhos cansadamente, decidindo ignorar o olhar lastimoso de seu amigo.
- Aquela é Hermione? – perguntou Neville subitamente, olhando por sobre o ombro de Ron a um lugar indeterminado. Harry abriu os olhos a tempo para ver Ginny dando uma cotovelada nas costelas de Neville e murmurando algo entre os dentes. Tanto ele como Ron olharam ao redor da árvore para comprovar que Neville estava efetivamente certo, já que Hermione se encontrava na outra margem do lago. E não estava sozinha.
- Já é hora da sobremesa! – disse Ron, tratando de devolver a atenção de Harry ao piquenique. Todos os demais continuavam com seus respectivos almoços, mas para Harry, que não tirava os olhos de cima de Hermione e de seu acompanhante, a idéia de comer era infinitamente absurda. Desejava poder observá-los mais claramente, e não como figuras distantes no outro lado do campo.
Repentinamente, Harry recordou um feitiço que Hermione lhe ensinara no início do semestre. Ela o havia encontrado entre os tantos livros que leu durante as férias de verão, e o havia memorizado com a intenção de ensinar a Harry. Era um simples, mas eficiente feitiço. Harry duvidara que algum dia fosse precisar dele... até hoje.
Levantando-se e rodeando a árvore até ficar do lado oposto, Harry sentou-se contra a madeira novamente e, em voz muito baixa para que os demais não o escutassem, murmurou entre dentes a frase "Oculus Maximus" enquanto dava um toque com a varinha em seus óculos.
"Lembre-me de agradecer a Hermione por este feitiço... sem dizer-lhe como o experimentei, claro."
A paisagem diante de si se intensificou consideravelmente e enfocou nas duas figuras na outra margem do lago. A brisa havia aumentado, e Hermione colocou um indomável cacho detrás de sua orelha para evitar que lhe batesse no rosto. Roger falava animadamente, movendo as mãos à sua frente freneticamente, aquele sorriso de modelo de revista plasmado em sua face.
"Idiota."
"Depois vem dizendo que ela seja feliz..."
Subitamente, Hermione estancou e, metendo as mãos nos bolsos de sua capa, baixou seu olhar para o chão. Roger parou de falar e girou para olha-la, seu cenho levemente franzido.
Já que não podia ler lábios nem se sua vida dependesse disso, Harry limitou-se a observar com interesse como Roger disse algo antes de colocar sua mão sobre o ombro da garota.
Hermione ergueu o olhar e respondeu com um sussurro. O franzido no entre cenho de Roger se fez mais pronunciado e, enfiando as mãos nos bolsos da calça, esperou que Hermione continuasse. Momentos se passaram nos quais Hermione e Roger cruzavam olhares, mas não palavras, enquanto Harry lhes observava à distância.
Harry não soube o que foi que saiu da boca de Hermione em seguida, mas enquanto fluíam as palavras podia jurar que os ombros de Roger se relaxaram notavelmente, a usualmente orgulhosa postura que adotava traindo-o. Hermione baixou o olhar para o chão, e disse algo que fez com que o olhar de Roger divagasse, seus olhos azuis brilhando com algo que Harry nunca vira no Monitor.
Olhando para Roger novamente, Hermione terminou de falar. Outro silêncio caiu entre eles, um que parecia ser mais longo e pesado que o anterior. Finalmente, Roger ergueu a cabeça e cruzou o olhar com Hermione. Tomando as mãos da garota nas suas, Roger sussurrou algo antes de levar as mãos dela aos seus lábios e beijar-lhe ternamente os nós dos dedos.
Nesse momento, Harry não desejava mais que odiar Roger com todas suas forças, mas, para sua surpresa, viu que não podia. Fora um gesto gentil, delicado, genuíno e sumamente terno, e Hermione não merecia algo menos que a tratassem com total devoção.
"Se eu apenas aprendesse a tratá-la assim..."
Os lábios de Hermione esboçaram um sorriso, doce e amargo, enquanto dava um passo para Roger, fechando a distância entre eles consideravelmente. Desocupando uma mão, afagou o rosto do jovem, seu polegar acariciando com suavidade a pele da varonil face, e começou a falar.
Como um transeunte que se convertia em testemunha de um acidente automobilístico, Harry encontrou-se incapaz de desviar o olhar do casal diante de si. Seu peito doía, sua respiração se fizera curta, as palmas das mãos suavam, e, contudo... não podia sequer fechar os olhos. Nem sequer quando sentiu que Ron agachava-se a seu lado, pode desviar o olhar do outro lado do lago.
- Por que você está se fazendo isso? – perguntou Ron suavemente, a tristeza evidente em sua voz, conhecendo exatamente o que havia capturado a atenção de Harry por tanto tempo.
- Não sei. – foi a resposta oca de Harry.
- Diga à ela o que sente, amigo. – suplicou Ron, seu olhar passando de seu amigo para Hermione e Roger. Sabia que não havia maneira alguma de que Hermione sentisse por Roger o mesmo que parecia sentir por Harry.
- Não estou apaixonado, Ron. – Harry sussurrou o mantra que havia guarnecido sua cordura desde a noite anterior, sua voz soando-lhe aos ouvidos como a voz de um estranho.
- Isto não é o que parece daqui. – suspirou Ron, retornando sua atenção a Harry.
- Vou contar a Snape sobre a poção e vou suplicá-lo pelo antídoto. Não me importa o quando zombe de mim... não vale a pena sofrer tanto por algo irreal. – sussurrou Harry com voz vazia.
- Há algo que possa faze-lo mudar de opinião? – perguntou Ron, mas Harry não podia responde-lo, já que a paisagem novamente havia capturado sua indivisa atenção.
Todo o sentimento de alegria fugiu dele quando viu Hermione aproximar-se de Roger, seus lábios capturando a boca do Ravenclaw em um casto beijo.
"Há algo que possa me fazer mudar de opinião. Torne-me quem ela ama."
- Não, Ron... não há nada que se possa fazer.
15:45h
Masmorras
As memórias da tarde fizeram-se indefiníveis e borrentas na mente de Harry. Não recordava caminhar de regresso ao castelo depois do almoço, nem o nome da criatura que havia lhe picado na aula de Trato de Criaturas Mágicas. Desconhecia o porquê de Ron e Hermione terem discutido enquanto iam para a aula de Poções. Sentiu-se um pouco confuso quando de momento encontrou-se na masmorra, sentado diante de sua mesa, remexendo um asqueroso líquido verde em seu caldeirão.
- O que se supõe que se esteja fazendo aqui? – murmurou para Ron, que estava parado ao lado dele remexendo sua própria poção.
- Bom, o que supõe-se que estejamos fazendo é a primeira fase da Poção dos Mortos. – respondeu Ron, olhando para Snape de soslaio, o qual estava ajudando um dos Slytherin com seu trabalho. Observando o conteúdo do caldeirão de Harry, Ron murmurou: - Não sei o que demônios tem aí.
Lamentavelmente, Ron tinha razão. Dando-se conta de que sua poção já era irrecuperável, Harry murmurou Fregoteo, e o conteúdo do caldeirão se desvaneceu. Sabia que reprovaria na lição de hoje, e francamente não lhe importava em absoluto. Tinha coisas mais importantes na cabeça.
Como já era de costume, os olhos de Harry tomaram consciência própria e buscaram pelo salão até que encontraram Hermione. A garota estava mordendo o lábio inferior com suavidade, como tinha acostumado a fazer quando estava sumamente concentrada em uma tarefa, mexendo sua poção com cuidado, seus olhos pousados sobre o brilhante líquido. Harry riu por entre os dentes, não porque lhe parecesse divertido, mas pela incrível ironia de que somente sua melhor amiga podia ver-se tão encantadora fazendo coisas triviais.
Nesse momento, Hermione olhou para cima e conectou o olhar com Harry. Depois de uns instantes, a garota esboçou um suave sorriso, um gesto tranqüilizador em sua familiaridade. Harry devolveu-lhe o sorriso antes que ela retornasse sua atenção a seu trabalho.
- Tenho a avaliação das poções que entregaram na segunda. Novamente, não fizeram nada mais que decepcionar-me. – a voz de Snape penetrou os pensamentos de Harry. Olhou para a mesa de Snape para encontrá-lo sentado, os braços cruzados sobre o peito, com uma expressão de verdadeiro desgosto no rosto. Sentiu como a bílis lhe revolvia no estômago quando recordou que era a este homem que teria que pedir ajuda. Em circunstâncias normais, o rapaz preferiria engolir um pimentão que ir a Snape, mas não havia nada de normal em sua peculiar situação.
Harry não sabia como ela conseguiu, mas no momento seguinte sentiu a familiar mão de Hermione em seu antebraço. Olhou para sua direita para encontrá-la fitando-o com uma expressão de preocupação em seu agradável rosto. – Você acaba de aparecer? – foi a única frase mais ou menos inteligente que saiu de sua boca.
- Não, bobinho, caminhei até aqui. Embora não me surpreenda que não tenha se dado conta. Você não tirou os olhos de cima de Snape por quase dez minutos. – disse Hermione pacientemente. Dez minutos? Merlin, as perdas de noção de tempo verdadeiramente começavam a agravar Harry.
- Vejo que não se saiu muito bem com sua poção. – disse Hermione, seus olhos pousando-se sobre o caldeirão vazio de Harry. Harry apenas assentiu, hipnotizado pela maneira com que ela lhe segurava o braço.
"Me pergunto se... quando as coisas voltarem à normalidade... me darei conta destes detalhes."
"Você quer se dar conta?"
Não teve oportunidade de descobrir a resposta, já que Hermione voltou sua atenção para ele e lhe sussurrou: - Harry, tenho que sair daqui tão logo acabe a aula, mas queria apenas lhe deixar saber que espero que tenha mudado de opinião sobre o baile. Não queria que o perdesse.
Ela parecia tão esperançosa que Harry não teve coração para dizer-lhe que não iria. Distraidamente pensou no afortunado que era ter uma amiga como ela, enquanto respondeu: - Eu... vou pensar a respeito.
Hermione esboçou-se outro desses sorrisos que faziam com que as pernas do rapaz tremessem, e disse: - Se vai ao baile, me daria a honra de dançar comigo a primeira música?
- A primeira. – respondeu Harry, obrigando-se a devolver-lhe o sorriso. Não pensou que era apropriado nesse momento dizer-lhe que dançaria com ela a primeira, a última, e todas as canções intermediárias se ela somente o pedisse, de modo que ficou calado para evitar parecer um idiota.
- Bem. Espero vê-lo esta noite, Harry. – disse Hermione, brindando-lhe outro formoso sorriso antes de apertar-lhe o braço como despedida. Voltou-se para olhar para Ron, que estava concentrando-se sobre seu caldeirão, comprometido em ser aprovado na lição de hoje.
- E definitivamente mal posso esperar para vê-lo esta noite, Ron. – disse ela, sua voz cheia de travessura. Ron voltou-se imediatamente desconfiado e, franzindo o cenho, perguntou-lhe o porquê.
- Oh, digamos apenas que Luna me contou sobre as fantasias. Definitivamente rogarei a Colin por uma foto sua. – disse Hermione. Piscando o olho travessamente, a garota afastou-se deles.
O murmúrio do salão foi interrompido por Snape: - Quando terminarem sua poção, preparem uma amostra para análise. Tragam-na à minha mesa para que possam recolher sua pobre nota de seu trabalho da segunda.
Hermione deixou sua amostra e pegou seu exame dentre os pergaminhos que se encontravam amontoados na mesa. Sorriu pelo que era, obviamente, outra nota excelente, ignorando a careta de desgosto do Professor Snape enquanto abandonava o salão.
- Ao menos sei que tirarei uma boa nota, para variar. – comentou Ron, enquanto preparava sua amostra. Harry murmurou uma fraca resposta entre dentes e aproveitou para olhar seus companheiros. A maioria deles estava visivelmente emocionada pelo baile dessa noite, falando entre si sobre os passos que haviam aprendido e os disfarces que haviam comprado.
A atenção de Harry divagou para o lado dos Slytherin. Constatou que todos, exceto um, estavam no mesmo estado de euforia que os Gryffindor. Inesperadamente, era Draco Malfoy o que parecia não estar de humor para unir-se a celebração. De fato, o loiro se comportava de forma pouco nesperadamente, era Draco Malfoy o que parecia nestado de entusiamos falando entre si sobre os passos que haviam aprendido e os característica, enquanto preparava sua amostra, até o ponto que parte do líquido derramou sobre a mesa.
"O que se passa com este agora?"
- Pronto? – perguntou Ron, sua amostra preparada enquanto jogava sua mochila sobre o ombro.
- Não. – respondeu Harry, sacudindo sua cabeça, tirando os olhos de cima do Slytherin. – Esperemos que todos os demais se vão.
Os garotos esperaram até que somente Malfoy e Snape se encontravam no salão. Malfoy finalmente pôs a rolha no frasco e o entregou a Snape. O Slytherin recolheu sua avaliação e enfiou-a de mau modo em sua mochila sem revisa-la, saindo do salão com marcada pressa.
- É agora ou nunca. – sussurrou Harry enquanto ele e Ron caminharam para a mesa de Snape. O Professor de Poções estava lendo o pergaminho que tinha em suas mãos, e não apartou os olhos da folha até que Harry limpou a garganta audivelmente.
- Sim, Potter? – perguntou Snape, erguendo os olhos do pergaminho e olhando para Harry com óbvio desdém. Ron colocou sua amostra com as demais e recolheu seu teste de sobre a mesa.
- Professor... Professor Snape. Tenho um pro-pro-pro-problema... – Harry começou a dizer, mas não teve a oportunidade de terminar seu pedido, já que inesperadamente foi interrompido.
- O QUE?! – gritou Ron, efetivamente calando Harry. Harry olhou para seu amigo, para encontrá-lo com uma expressão de assombro, empunhando sua nota na mão.
- Tem um problema, Senhor Weasley? – perguntou Snape, veneno saindo em cada palavra.
- Falhei... FALHEI! – gritou Ron, olhando de Snape a Harry, sacudindo a folha em seu punho.
- O QUE? – perguntou Harry, sua mente racional apagando-se enquanto arrancava o pergaminho das mãos de seu amigo. A pior nota possível fora escrita no pergaminho em brilhante tinta vermelha, ocasionando instantaneamente que o coração de Harry começasse a bater no dobro de sua velocidade normal.
"Não, não pode ser. A poção funcionou! Isto quer dizer... isto quer dizer que Snape quer contrariar a razão! Ele odeia quando nos saímos bem nos trabalhos!"
- Como... como pude receber essa nota quando minha poção funcionou? – questionou Ron, dando voz aos pensamentos de Harry enquanto dirigiam sua atenção ao mestre de Poções.
Lentamente, Snape ergueu-se de sua cadeira e, colocando as palmas das mãos sobre a mesa, concentrou toda sua atenção em Ron. - Senhor Weasley, se está falando sobre a poção que me entregou na segunda-feira, deixe-me assegurar-lhe que recebeu a nota que merecia. Você NÃO entregou a poção Philtrum Casses Amator como lhe foi pedido. – disse Snape por entre dentes, seu corpo tremendo de raiva.
"Não estou apaixonado... não estou apaixonado..."
- Se a poção não funciona, como é que... – começou a dizer Ron, seu olhar pousando-se em Harry.
A mesma preocupação enchia a mente de Harry, e, contudo, não tinha os suficientes neurônios para dizê-lo em voz alta. Mal podia olhar para Ron com a boca aberta, sua respiração curta, suas mãos tremendo.
"NÃO ESTOU APAIXONADO."
- DE QUE DEMÔNIOS ESTÃO FALANDO? – gritou Snape, cansando dos ridículos olhares que Ron e Harry compartilhavam.
Porém, o Professor de Poções não obteve resposta, porque no momento seguinte Harry Potter saiu do salão como alma que leva o diabo, seu melhor amigo tentando alcança-lo e falhando.
A realidade viera bater em sua porta, deixando exposto seu pequeno segredo.
Notas Finais da Tradutora:
Pergunta de 1 milhão de biscoitos Scooby:
Sobre o que Hermione e Roger conversaram na outra margem do lago? Firmaram um compromisso ali ou... Hermione disse a Roger algo que ele não esperava ouvir? - Ah, se toda pergunta de 1 milhão fosse fácil assim... ;-)
Momento 'entrelinhas': "Ele parecia com um menininho que havia passado as últimas cinco horas olhando para a última vassoura profissional na vitrine de Artigos de Qualidade para Quadribol... E que sabia que nunca teria a oportunidade de voar sobre ela. VOAR SOBRE ELA. – piscando maliciosamente para a platéia. – SOBRE – cutucando a platéia – "ELA". – risada de Clodovil.
Go-go-Harry: Lavender e Parvati teriam feito por merecer a azaração de Harry. Dar asas às duas seria apenas mero detalhe, já que morcegar é algo que elas fazem muito bem. ;-)
Ai-Ai-Harry: Aquele lance de comparar o tema Roger Davies a um exame de próstata realizado por um gigante foi realmente... ui, doloroso! Até pra mim. ;-)
Da enfermaria: Não sei quanto a vocês, mas eu adoro os chiliques de Snape, ahauhauahauahuahaua!
Questão de ordem (ou desordem): Como sempre, não revisei a tradução. Acertos, portanto, foram questão de pura "sorte", ou, como diria Firenze, conseqüência do alinhamento de Mercúrio com Júpiter na Casa Três. ;-)
Bueno, aí está o capítulo 13 e com isso faltam apenas mais cinco para o término da fic. Não prometerei me adiantar na tradução, e agora mais que nunca, devido ao período de agenda cheia, com prazos a cumprir "pra ontem". Mas vocês têm a minha promessa de que não abandonarei a tradução. Isso nunca-jamé.
Vou-me, deixando beijos, abraços, cheiros e amassos a todos vocês, leitores e leitores-resenhadores, agradecendo o fato de estarem acompanhando pacientemente o desenrolar desta despretensiosa tradução, e manifestando seu carinho e reconhecimento à história de Anasazi através dos 'hits' e reviews deixadas.
Mucho thank you very much a todos, em meu nome e em nome da autora.
Hasta!
Inna
