Preso em uma Rede
Tradução da Fic "Atrapado en una Red"
Link: w w w . f a n f i c t i o n . n e t / s / 1829890 / 1 /
Autoria: Anasazi
Tradução: Inna Puchkin Ievitich
Capitulo 17
Danse Macabre
----------------------
Enquanto Hermione conduzia-o pela mão de volta ao Salão Principal, Harry se perguntava o porquê de ter tido tanto medo de revelar seus sentimentos em primeiro lugar. Agora que havia passado por isso – qual seja, o passo que ele e sua amiga acabavam de tomar – sabia simplesmente que isso era o próximo passo natural na evolução de sua amizade.
Já se amavam como apenas os melhores amigos podiam faze-lo... agora havia chegado o momento de estar apaixonados.
De volta ao salão, Harry mal notou que todos os alunos haviam se levantado de suas cadeiras e agora estavam apinhados na pista do baile, com os olhares fixos no palco. O último espetáculo da noite estava a ponto de começar, e era algo que ninguém queria perder. Os cinco amigos seguiram Ginny, enquanto ela tentava encontrar um espaço na pista o suficientemente grande para eles aproximarem-se do palco. Provava ser uma tarefa impossível.
- Já era hora de chegarem! Levam uma hora fora! – Harry ouviu uma voz chamar de algum lugar à sua direita. Hermione e ele procuraram simultaneamente para deparar-se com Roger aproximando-se deles.
- Perdão. – disse Hermione, com um gesto um pouco envergonhado e um rubor em suas bochechas que não estivera ali um momento antes. – O tempo voa.
- Sei. – respondeu Roger com um sorriso travesso, seus olhos pulando das mãos entrelaçadas de Harry e Hermione para seus lábios inchados. – Especialmente quando você está se divertindo. – Dando uma palmada amistosa no ombro de um surpreso Harry, Roger continuou brincando: - Ora, Potter! Quando disse a Mione que cedo ou tarde você estava destinado a tirar a cabeça de seu traseiro para dar-se conta de que ela era a garota, nunca pensei que você agiria tão rápido.
Oh, os tranqüilizantes efeitos secundários de se estar apaixonado! – não sentia a necessidade de partir cada um dos ossos de Roger, quando o ouvia chamar-lhe por seu sobrenome.
- Levou tempo suficiente. – acrescentou Hermione. Ao ver a facilidade com a qual eles dois se tratavam, Harry percebeu que havia desestimado o fato de que Hermione podia fazer boas amizades com pessoas, fora de seu círculo. Roger verdadeiramente era seu amigo. – E falando em agir rápido. – continuou a garota com um sorriso brincalhão. – Que tal você se saiu com as jovens de Hufflepuff?
- Já tenho dois encontros para o fim de semana. – o Ravenclaw respondeu, erguendo as sobrancelhas de forma pícara. – Seria uma pena se o fato de que você partiu meu coração me impedisse de me confraternizar com todas as belas garotas lá fora.
Foram interrompidos antes que Hermione pudesse responder isso da forma que merecia. – Tocaram alguma canção? – Luna disse casualmente, apontando para o palco.
Roger sacudiu a cabeça cansadamente. – Não. Acabam de subir no palco – estão sendo muito dramáticas para meu gosto. Deveriam começar e deixar de drama. É uma banda, não um grupo de teatro! – gritou para ninguém em particular. Harry olhou para o palco sem prestar atenção. Três figuras encapuchadas encontravam-se ali, suas cabeças inclinadas, suas costas para a platéia, vestidas com longas túnicas negras que lhes chegavam aos tornozelos, enquanto um coro invisível cantava o verso central do clássico trouxa Fortuna Imperatrix Mundi.
- Teremos que ficar aqui. – disse Ginny mal-humorada, cruzando os braços sobre o peito e olhando com desprezo para a abarrotada pista de dança. – Não há forma de passar.
- Não se preocupe... prometo a você que para o próximo show conseguirei lugares na primeira fila. – Neville ofereceu, com um sorriso cálido. Sua namorada soltou um gritinho, deu a volta, envolveu os braços ao redor de seu pescoço, e começou a mover-se ao ritmo da música.
- Estarei mais que feliz na última fila, se você conseguir um lugar escuro onde possamos... – a pequena ruiva disse, concluindo o pensamento ao plantar um suave beijo no canto da boca de seu namorado.
Neville se ruborizou, mas não tão violentamente quanto Ron, que parecia estar lutando contra o desejo de retirar as mãos de sua irmã de sobre Neville. – Pelo amor de Merlin, Ginny! Deixe de tentar corromper o pobre homem!
- Seus amigos estão loucos. – disse Roger a Hermione, sem rodeios. Hermione apenas lhe respondeu com um olhar que gritava "Eu sei", antes que seus olhos começassem a recorrer a multidão. Harry notou como o cenho dela franziu imperceptivelmente, enquanto continuava registrando o lugar. Justamente quando lhe perguntaria se acontecia algo, ela falou.
- Onde estão os professores?
- Se foram há dez minutos... aparentemente havia algo estragado em suas bebidas, e tiveram que ir à Senhora Pomfrey na enfermaria. Você devia ter visto Snape! Já não estava tão pálido como antes... mas sim verde!
- Que encantador.
- Bom, McGonagall disse que voltariam dentro em breve. – continuou Roger. – Então... você fica com o lado direito e eu com o esquerdo?
- De acordo. – respondeu Hermione, apertando seu agarre sobre a mão de Harry. Harry apertou de volta como resposta, suprimindo o desejo de sorrir como um maníaco; o fato de que Hermione tinha trabalho a fazer não significava que ele não poderia roubar-lhe um beijo... ou dez.
- Está bem. – concordou Roger. – Só não me deixe descobrir que você está se descuidando de suas responsabilidade para ir a um canto se amassar com Potter. – piscando o olho brincalhonamente, o Monitor deu a volta e começou a caminhar para o outro lado.
- Sabe, Hermione? Este convencido começa a me agradar. – brincou Harry, rodeando-lhe a cintura e aproximando-a ainda mais. – Embora, digo que devamos nos arriscar e ir conversar no corredor.
- Talvez, em breve. – ronronou Hermione, parando na ponta dos pés e deixando que seus lábios roçassem a bochecha de seu amigo. Quando ela se afastou para trás, Harry teve que conter a vontade de beija-la novamente; seus lábios já estavam inchados e avermelhados pelos seus beijos...
Seus beijos... somente a idéia disso parecia ser um sonho... um maravilhoso sonho que ainda dava trabalho em acreditar que havia se convertido em realidade.
- Mas agora, quero ver o espetáculo. – acrescentou, torcendo-se sob os braços dele até ficar de frente para o palco. Harry agarrou-a com mais força, descansando o queixo sobre o suave ombro, com a cabeça ladeada apenas o suficiente para que o nariz roçasse no pescoço da garota, imergindo em sensações as quais já haviam se convertido em vício.
Ele beijou suavemente a pele que ficara exposta; um gemido escapou por entre os lábios entreabertos de Hermione. – Você está me distraindo. – ela sussurrou, descansando suas mãos sobre os braços de Harry.
- Não posso evitar... aqui não há nada melhor a fazer. – ele respondeu, seus lábios deslizando-se distraidamente para o ombro da garota. Estava decidido a continuar com sua doce tortura até que sentiu um forte beliscão no braço. – Ai! E eu o que fiz? – queixou-se, pondo cara de cachorrinho triste, esperando que ela se compadecesse dele.
Hermione lançou um olhar cruzado por sobre o ombro e sugeriu: - Assista o espetáculo. – Então, esboçando o que de agora em diante ele conheceria como o sorriso pícaro, acrescentou: - Veremos o que acontece depois.
E, com esse tipo de promessa do que estava por vir, Harry decidiu que não era tão má idéia desfrutar da apresentação.
Seus olhos seguiram os de Hermione para o palco, mas o que viu foi verdadeiramente inesperado.
As três figuras encapuchadas encontravam-se em formação triangular, os dois de ambos lados a uns metros da figura central, que ainda estava parada de costas para o público, erguendo os braços no momento em que a música chegou a seu ponto culminante.
E ali estava... flutuando exatamente acima dessa figura – o objeto proeminente de seus sonhos... de seus pesadelos... durante a última semana.
A esfera.
Sua cicatriz ardeu em chamas. Imagens do que havia experimentado durante os últimos dias assaltaram-se a mente: a esfera vermelha e pulsante que engolia a escuridão, a pálida e fria neblina, as vozes, a lua carmesim, a chuva de sangue, a terra que o tragou, o orbe que o consumia, os corpos de seus amigos pendendo do teto...
Sua amada presa na teia de aranha.
Sem vida.
As palavras de Firenze fizeram eco em sua cabeça.
"É um presságio muito poderoso... o que os céus decidiram mostrar a você, Harry."
Seu coração congelou-se; tudo agora fazia sentido.
Não foram pesadelos.
Foram advertências.
- Há algo errado aqui. Temos que ir. Temos que sair. – ele sussurrou apressadamente, empurrando Hermione com desespero para poder alcançar a varinha que guardara no bolso do casaco.
Ela apenas o fitava, a surpresa marcada na expressão de seu rosto. Imediatamente reconheceu o medo que se escondia por trás dos olhos verdes, e isso foi o suficiente para fazer com que o estômago se lhe retorcesse como o fazia cada vez que enfrentavam um problema.
- Harry, o que ocorre? O que se passa? – perguntou, sentindo-se incapaz de ajudar enquanto o via desesperar-se procurando em seus bolsos e regressando com as mãos vazias.
- Onde, demônios, está minha varinha? – Harry resmungou entre dentes, mantendo os olhos sobre o palco, ao tempo em que pensava no caminho mais rápido para sair do salão. Estava seguro de que havia guardado sua varinha no bolso da jaqueta antes de vir ao baile. Como, raios, pode tê-la perdido?
- HARRY, O QUE ESTÁ ACONTECENDO? – perguntou Hermione, começando a sentir o medo em sua própria carne. Fazia muito tempo que não via tanto pânico refletido nesses olhos cor esmeralda.
A música parou.
Não havia professores para ajudar, nem espadas para atacar, nem escudos para proteger, nem varinhas para atentar.
Seus instintos de sobrevivência tomaram o controle.
- VAMOS! – Harry murmurou, segurando-a pelo braço ao tempo em que começava a marchar em direção contrária, dirigindo-se diretamente para a saída. Não havia tempo a perder, nem muito menos para dar explicações.
Sua prioridade era Hermione. Depois que ela estivesse sã e salva, se preocuparia com todos os demais.
- Harry! Pare! O que ocorre? O que está acontecendo? – sua companheira perguntou, lutando para safar-se de seu agarre em um intento para detê-lo e tentar acalma-lo. O que se passava em sua cabeça para fazê-lo temer tanto?
- Ouçam! Aonde vão? O baile ainda não terminou.
Harry reconheceu a voz de Ron, mas não perdeu tempo em tentar explicar-lhe. Hermione, contudo, tinha outra idéia.
- Ron! Algo se passa com Harry! – disse, tentando encontrar seu amigo, enquanto Harry continuava puxando-a em direção oposta.
Viu o ruivo compartir um olhar de confusão com sua irmã, e ambos tomaram a mão de seus respectivos acompanhantes e começaram a correr atrás de Hermione e Harry.
- O que há com Harry? O que está acontecendo? – perguntou Ginny com preocupação, quando os quatro alcançaram Hermione.
- Não está me dizendo...
- NÃO HÁ TEMPO! – finalmente reagiu Harry. Parou por um momento, sua voz mal um sussurro, enquanto dizia: - Eu vi isto, Hermione... essa... essa esfera... ela só trará problemas.
Haviam alcançado as portas. Harry apenas tinha que empurra-las e leva-la para fora, e ela estaria a salvo.
Ou, isso pensou.
Um som silenciador retumbou pelo salão.
Ele talvez não fosse o aluno mais inteligente de Hogwarts, mas era o suficientemente esperto para saber o que significava esse som.
Contudo, uma parte dele se recusava a acreditar – essa mesma parte que lhe fazia pensar que podia mudar o que o futuro lhe preparava. Obstinadamente, empurrou a porta, primeiro com sua mão, depois utilizando todo seu corpo, engolindo os gritos que desejava liberar.
Foi em vão; foram encerrados magicamente.
E foi nesse momento que ele a ouviu...
E Ela ria.
E seu riso não falhou em provocar nele os mesmos sentimentos que surgiram na primeira vez que lhe ouvira rir.
Fúria. Repugnância. Ódio. Terror.
Harry, Hermione e o restante de seus amigos se voltaram ao mesmo tempo, todos procurando a origem desse riso e rezando para estar equivocados.
Seus olhos repousaram sobre o palco a tempo de ver a cantora principal abaixar os braços enquanto girava, finalmente erguendo o capuz de seu rosto.
Os alunos congregados na pista do baile gritaram de assombro e horror, já que também reconheceram a mulher que se havia revelado a eles.
Depois de tudo, quem poderia esquecer o rosto de uma Bellatrix Lestrange?
- Aonde vão todos? A festa apenas começou.
Não havia forma de não perceber que ela estava brincando com uma varinha em sua ossuda mão, nem de ignorar o fato de que, quando seus companheiros ergueram seus capuzes, se revelaram os rostos de seus companheiros favoritos: seu esposo Rodolphus, e seu cunhado, Rabastan.
- Doce ou travessura.
Pandemônio.
Os alunos que ocuparam a pista saíram correndo para as portas, pisoteando-se uns aos outros como gado; os músicos saltaram do palco, dirigindo-se para a saída ao ritmo das gargalhadas dos Comensais da Morte.
O frio que nascera do ventre de Harry havia se espalhado por todas as suas extremidades. Puxou Hermione violentamente para ele e lhe sussurrou ao ouvido: - Tem a sua varinha consigo?
- Não. – ela respondeu sem fôlego. – Não pude... não com este vestido... não havia maneira de... Ron?
- Nem sequer tenho bolsos! Sou um tapete andante! – respondeu Ron, enquanto fazia o muito cavalheiresco, porém completamente insignificante gesto de colocar-se entre Luna e o palco. – Alguém mais?
Os outros apenas sacudiram as cabeças. Bellatrix e seus companheiros os pegaram de calças curtas. – Onde está a sua, Harry? – perguntou Luna.
- Sei que a trouxe comigo, mas agora não a encontro. – replicou Harry. Os demais alunos passavam por eles, tentando empurrar as portas com suas mãos ou com todo o peso de seus corpos. Como peixes presos em uma rede, empurravam e puxavam, lutando para escapar, recusando aceitar seu destino.
- Não podemos fazer accio à nossas varinhas? – sugeriu Neville. Harry não registrou o fato de que a voz de Neville era a única que não tremia, e se estivesse em pleno uso de seus sentidos para olhar para seu amigo, teria visto um homem muito diferente do que conhecia.
- Isso não vai funcionar. – explicou Hermione. – O encantamento que selou as portas... foi um feitiço impenetrável. Selou toda a sala. Nada, nem ninguém pode sair ou entrar até que se dissipe.
Harry mal podia ouvi-la acima dos gritos e prantos dos alunos ao seu redor, os quais estavam contagiando uns aos outros com seu pânico.
- SILÊNCIO!
Bellatrix não utilizara um feitiço, mas sua ordem foi tão efetiva quanto qualquer encantamento, porque um silêncio sobrenatural caiu sobre o salão. Os gritos se converteram em sussurros, o pranto não mais que uma respiração sufocada. Alguns já compreendiam que era impossível fugir, a menos que a própria maligna lhes concedesse.
O olhar frio e morto da Comensal rebuscou o salão lentamente e com propósito, até que finalmente pousou sobre Harry. Então, esboçou esse sorriso que alguns brindam enquanto compartem chá e bolachinhas, e disse: - Ninguém vai sair ferido sempre e quando se comportem. Quero apenas uma coisa... e vou obtê-la.
- O que você quer? – uma voz de algum lugar à esquerda de Harry perguntou. Todos giraram a cabeça para olhar quem havia se atrevido a erguer a voz. Harry foi o primeiro a surpreender-se ao deparar-se com Roger. Estava olhando para Bellatrix desafiadoramente, como somente alguém que nunca tivera o 'prazer' de cruzar seu caminho podia fazê-lo.
- Querido, pensei que era óbvio. – ela respondeu, agora sorrindo como o proverbial gato que comeu o canário. Apontando com um esquálido dedo para a porta, esclareceu: - Quero. ele.
Não era preciso ser um ganhador do Prêmio Nobel para saber que ela viera para acertar as contas com um tal de Harry James Potter.
- Ron. – sussurrou Harry com urgência. – Cuide de Hermione por mim. Assegure-se de que...
- NÃO! VOCÊ NÃO VAI SE ENTREGAR! – gritou Hermione, segurando-o pelos braços com tanta força que seguramente deixaria uma marca. Por um segundo, Harry se permitiu perder-se nesses formosos olhos, desejando nada mais que poder dizer-lhe que tudo ficaria bem, que era apenas mais outro de seus pesadelos, e que logo acordaria para constatar que tudo voltara ao normal.
Seria, claro, uma mentira.
- Ela tem a vantagem, Mione. – disse Harry, segurando-a pelas bochechas com ternura, apesar da grave situação. – Tenho que jogar segundo as regras dela. – Viu de relance quando Crabbe parou detrás de Ron, e Goyle fez o mesmo com Neville. A diferença entre eles era que Crabbe e Goyle tinham suas varinhas na mão e preparados para atacar, enquanto que Neville e Ron estavam indefesos.
- Anda, Potter.
A fria voz que pertencia a Draco Malfoy ouviu-se às suas costas. Harry girou a cabeça para olhar o Slytherin por sobre o ombro. – Você! – grunhiu entre dentes.
- Eu disse que fosse embora. Ou está surdo, Potty? – Malfoy sussurrou, seus olhos grises refletindo uma emoção que Harry nunca vira no olhar de seu inimigo. Malfoy continuou sem mostrar a menor indicação de que achava engraçada a situação. – Ela quer apenas você... desde que sua sangue-ruim e os demais não se metam, estarão a salvos.
Hermione aferrou-se à cintura de Harry, ocultando o rosto sobre seu peito, murmurando uma e outra vez, "Harry, por favor... não... eu lhe peço... não...".
- Draco... - Bellatrix cantou de uma forma que soava a tudo menos amistosa – Não tenho a noite toda. Traga-o aqui.
- Você a ouviu, Potter. Anda! – cuspiu Malfoy, cutucando Harry nas costas com sua varinha.
- Hermione. – sussurrou Harry, com suavidade. – Tenho que fazer isto. – Tomou-a pelo queixo e inclinou sua cabeça para cima com delicadeza, deixando que seus lábios roçassem contra a testa da jovem. – Não intervenha. – continuou, roubando-lhe um pequeno beijo nos lábios. – Tudo ficará bem.
- NINGUÉM VAI A LUGAR NENHUM!
Harry soltou Hermione e deu a volta, para dar-se conta de que Roger havia se aproximado sigilosamente atrás de Malfoy e agora pressionava a cabeça do Slytherin com a ponta de sua varinha mágica. Sem tirar os olhos de cima de seu refém, Roger dirigiu-se a Bellatrix: - Entreguem suas varinhas ou seu sobrinho levará a pior.
A única resposta que recebeu foi uma sonora gargalhada.
- Falo sério! Entreguem suas varinhas ou logo verão! – gritou Roger. Harry não sabia se os demais estavam se dando conta, mas a determinação de Roger diminuía a cada instante que passava, já que percebera que havia se metido em águas profundas.
- É sério? E o que planeja fazer, querido? Aturdi-lo? Meu sobrinho se levantaria para encontrá-lo morto. Amarra-lo? Talvez, uma Imperdoável? Oh... me encantaria ver isso... - Bellatrix disse com mórbida alegria. Positivamente excitada por antecipação, disse: - Faça.
Malfoy respirava com dificuldade, a raiva claramente marcada em seu rosto, mas não baixara a varinha que ainda apontava para o peito de Harry. O braço de Roger começou a tremer enquanto exercia mais pressão sobre o crânio de Malfoy, tentando evidenciar a seriedade de sua ameaça.
- Faça-o.
- Crucio... – murmurou Roger por entre os dentes. Como era de se esperar, nada aconteceu. Pressionou com mais força sua varinha sobre o couro cabeludo do Slytherin e repetiu com mais força: - Crucio. Nada se passou. Respirando profundamente, seus olhos azuis adquirindo uma intensidade primitiva, o Monitor gritou a todo pulmão: - CRUCIO!
E, novamente, nada aconteceu.
- Rapazes... – disse Bellatrix, sua cabeça inclinada para os dois Comensais da Morte que a acompanhavam - ... vamos ensina-lo como se faz.
- CRUCIO!
Três raios de luz saíram das varinhas dos Comensais e se agruparam em um precisamente antes de fulminar Roger, erguendo-o do chão e fazendo-o voar para um lado, gritando dolorosamente até que seu corpo se chocou de cara contra a borda de uma das mesas. Caiu perto de Seamus e Lavender, que começou a chorar e a murmurar: - Está morto... está morto... está morto...
- Qualquer um que decida bancar o herói receberá o mesmo castigo. - anunciou Rodolphus com incompreensível calma.
Harry pensara que não era possível odiar Bellatrix mais do que a odiava depois do que aconteceu com Sirius.
Estava equivocado.
Os olhos de Hermione pareciam congelados em uma expressão de incredulidade, olhando para o lugar onde jazia o corpo de Roger, incapaz de vê-lo, mas ainda temendo o pior. Tremia da cabeça aos pés, a respiração irregular escapando por entre seus lábios entreabertos, e estava muito desorientada para dar-se conta de que Harry havia se desenredado de seus braços até que ele começou a afastar-se. – HARRY, NÃO! – gritou, pondo-se a correr atrás dele. Não dera dois passos antes que Goyle a golpeasse viciosamente na boca do estômago. Hermione caiu de joelhos no chão, tomando grandes bocadas de ar para tentar recuperar o fôlego.
Harry rugiu, voltando-se para golpear Goyle até convertê-lo em nada mais que uma polpa sangrenta. E teria conseguido se não fosse por Malfoy, que agora apontava para Hermione com sua varinha. – Não nos dê uma desculpa, Potter. – o loiro sussurrou.
Os pulmões de Hermione ainda ardiam pela falta de oxigênio, quando sentiu os braços de Ron rodeando-a. Ele a ergueu, recostando seu corpo sobre o dele antes de sussurrar-lhe ao ouvido: - Encontraremos um modo de sairmos desta... encontraremos.
- Ela está bem, Ron? – perguntou Harry, seu olhar pulando de Malfoy para Goyle e vice-versa. Estava seguro de que, se saísse com vida desta, estes dois pagariam caro.
- Estou bem. – respondeu Hermione, seus olhos sobre a imutável varinha de Malfoy. Prometendo-se mentalmente que torturaria Goyle por pôr as mãos em cima de sua amiga, Harry deu a volta e continuou em sua trajetória rumo ao palco.
Intrigava-lhe a expressão nos rostos de seus companheiros, ao tempo em que estes lhe abriam caminho para o palco. Alguns estavam surpresos, outros aterrorizados, outros tristes, perdidos, outros encolerizados, e outros... olhavam para Harry como se ele já fosse um homem morto.
Estava na metade do caminho quando ouviu a voz de Dean romper o silêncio.
- Está vivo! Ainda está vivo!
Harry se deteve e, falando diretamente para Bellatrix, disse: - Deixe que alguém o ajude.
Os olhos de Bellatrix tornaram-se pequenos de ódio. – Você não está em posição de dar ordens, mestiço.
- Sim, eu estou, caso não queira ter problemas. – ele respondeu, soando muito mais seguro do que se sentia.
O rosto de Bellatrix parecia visivelmente amargo devido a petição, mas finalmente assentiu levemente com a cabeça. No instante seguinte, Harry ouviu Malfoy dizer: - Você... ajude-o. Olhando por sobre seu ombro, viu como Hermione abria passagem por entre os alunos para Roger, seguida de Ron, Neville, Ginny e Luna, com Malfoy, Crabble e Goyle em seu encalço.
- Não me deixe esperando, pequeno. – comandou Bellatrix. – Draco, vigie bem os amigos de Potter.
E Harry continuou seu caminho.
Hermione e Ginny se ajoelharam ao lado do corpo, uma de cada lado do Monitor. Dean estava certo, Roger ainda estava vivo.
Seu corpo estava retorcido em uma posição inverossímil; uma de suas pernas estava presa sob seu tronco, sua mão esquerda dando espasmos em uma resposta automática do corpo. Um som úmido, como de gorgulho, saía de sua garganta a cada subida e descida de seu peito.
Hermione, que aprendera primeiros-socorros por insistência de seu pai, tomou-lhe o pulso. Rapidamente notou que estava se enfraquecendo a cada batida de seu coração.
- Nós o perdemos. – choramingou Ginny.
- Ron, Neville... me ajudem a move-lo.
Lentamente Harry subia as escadarias. Precisava de tempo para pensar, para tentar formular um plano de fuga.
Não lhe ocorria nada.
A cada passo que dava, lhe parecia que se fazia mais difícil respirar, como se um imensurável peso houvesse pousado sobre seu peito e se recusasse a sair. Tirou a máscara que ainda cobria parcialmente seu rosto em um intento de combater a sensação opressiva, mas apenas a fez pior.
Hermione abaixou a cabeça até que seu ouvido flutuava acima da boca de Roger. Podia ouvir o horrível som de gorgulho ainda mais alto. Com cuidado para não mover sua cabeça por medo de piorar suas feridas, inspecionou o que podia ver de seu corpo fraturado, até que encontrou uma marca cor púrpura no lado direito de seu pescoço. O que acontecia a Roger subitamente se fez claro.
- Ele está com a traquéia triturada. – explicou. – Precisamos abrir um caminho para o ar ou ele vai se sufocar.
- E como se supõe que façamos isso? – perguntou Ron, olhando para o Ravenclaw com compaixão. Ele e os demais haviam se ajoelhado ao redor do corpo, enquanto que Malfoy e seus cúmplices lhes circundavam.
- Preciso de uma faca. – confirmou Hermione, enquanto Ginny e Luna lutavam para tirar a armadura romana de Roger, que ele havia escolhido como fantasia.
- Use isto.
Harry alcançou o chão do palco sem a menor idéia de qual seria seu próximo passo. Estava desarmado, indefeso, e eram três contra um. Parecia que a única coisa que podia fazer era jogar o jogo de Lestrange até que chegasse a cavalaria.
Podia ver Bellatrix muito melhor agora – o cabelo negro e fino, a pele pálida e transparente, as faces ocas, os olhos... fundos de tal modo que lhe dava aspecto cadavérico, os lábios retorcidos numa perpétua careta de desprezo...
Como a odiava... como a odiava pelo que fizera e pelo que iria fazer.
Só então, Harry percebeu que ela não tinha somente uma varinha na mão, mas sim duas, e que a que levava na mão esquerda era de onze polegadas, com uma pluma de fênix em seu interior.
Sua varinha.
- Cortesia de Gregory Goyle. - disse Bellatrix, brincando com a varinha de Harry. – O qual provou ser um pouco mais inteligente que seu pai... embora isso não diga muito.
Ele recordou como Goyle se chocara contra si enquanto dançava com Hermione, precisamente antes de sair para a sacada. Aquele ranhoso filho da puta deve ter roubado a varinha nesse momento.
Bellatrix moveu sua varinha no ar, e uma cadeira apareceu no meio do palco, justamente sob a esfera flutuante. Mas não era como as demais cadeiras que se encontravam no Salão Principal, porque era de metal, com largas tiras de couro nos pés dianteiros, braços, e no encosto, presas com espessas fivelas de aço. De fato, em qualquer outro momento, a cadeira teria lhe recordado uma daquelas que vira nos filmes trouxas de prisão, onde fritavam os condenados à morte.
- Você é o convidado de honra em nossa pequena festa. – sussurrou Bellatrix. – De forma que reservamos o melhor lugar para você.
As coisas iam de mal a pior.
Hermione olhava por sobre o ombro o objeto que Draco Malfoy estava lhe oferecendo. Era uma adaga de prata. Não podia acreditar no que estava vendo; o mesmo jovem que havia conspirado para introduzir os Comensais no castelo – o mesmo sádico que não deixara passar uma só oportunidade de torturá-la à ela e à suas amigas – era a mesma pessoa oferecendo ajuda.
- Por que está fazendo isto? – perguntou Hermione, a fúria ardendo em seus olhos. Acaso era outro de seus jogos? Como se atreve a brincar com a vida de Roger?! Com a vida dos todos!
- Olha, sangue ruim, - Draco disse em tom repugnante, - quer salva-lo ou não? – Sem esperar resposta, arremessou a faca.
Ela a agarrou no ar e, sem perder nem um momento mais, voltou-se para Roger e disse: - Preciso de um tubo.
- Um tubo?
- Sim... algo estreito, mas oco... como um canudinho, ou...
- Eu tenho. – assentiu Ron, enquanto se reincorporava. Ignorando a ordem de Crabbe que se mantivesse quieto, correu diretamente para a mesa dos doces de Honeydukes, pegou um pirulito de caramelo, e retornou depressa, mordendo o doce até que apenas restou um fino tubo de plástico.
- Bom idéia. – Hermione murmurou com tanto orgulho quanto podia sentir na gris situação, quando Ron entregou-lhe o tubo. A garota fechou os olhos e respirou profundamente, tentando convencer a si mesma de que esta era a única forma.
Abrindo os olhos e olhando para Roger, Hermione instruiu: - Luna, preciso que o mantenha imóvel... Neville, Ron... vocês, agarrem os braços... assegurem-se de que não se mova nem um milímetro. Ginny, segure isto. – passou à ruiva o pequeno tubo, ao tempo em que os outros se punham em posição.
- Eu sinto, Roger. – disse, enquanto tirava a adaga de Malfoy de sua bainha. – Mas não há outra opção. – Ignorando o medo e a agitação que sentia, pressionou a ponta do canudo contra o oco da garganta de Roger. A navalha penetrou pele e carne até que o sangue começou a brotar da ferida aberta.
- Ginny! – a trêmula Ginny imediatamente entregou o tubo à sua amiga, que penetrou a ferida do Ravenclaw com o próprio. Ouviu-se um distinto silvo, e ela alcançou com seus dedos a parte superior do canudo, e soltou uma exalação de alívio quando confirmou que saía e entrava ar nos pulmões de Roger.
Porém, sabia que era muito cedo para cantar vitória; Roger precisava ir a St. Mungus, e rápido.
Olhou por sobre o ombro para Malfoy, que observava a ferida de Roger com uma mescla de repulsa e admiração, e disse: - Ele precisa de atenção médica. Se planejam manter-nos aqui por muito tempo, você precisará encontrar uma forma de enviá-lo a St. Mungus.
- Não se preocupe, Granger... – respondeu Malfoy, apontando com sua cabeça para o palco. – Isto não levará muito tempo.
Era algo irônico que, enquanto Rodolphus e Rabastan amarravam as grossas tiras de couro em suas pernas, braços e cabeça, Harry pensava em como, demônios, o dia mais mágico de sua vida pode desintregar-se até chegar a isto. Acaso o destino não lhe podia permitir nem um só dia de verdadeira felicidade?
Inconscientemente, seus pensamentos retornaram para a imagem que vira em seus sonhos – Hermione presa na terrível teia de aranha.
Foi ele quem caíra nas garras de Bellatrix. Como era que Hermione era a figura central de seus pesadelos? Por que era ela que estava em perigo?
Acaso tinha a ver com o descobrimento de seus sentimentos para com ela?
Ou havia algo mais... algo muito mais terrível?
- Não podemos fazer mais nada por Roger. – sussurrou Hermione a seus companheiros. – A pergunta é, o que vamos fazer por Harry?
Estavam conglomerados sobre o corpo do Monitor; Malfoy, Crabbe e Goyle estavam tão distraídos com o espetáculo de Bellatrix que não pareciam prestar-lhes atenção. A adaga permanecia no chão, esquecida tanto por seu dono como pela garota que o havia utilizado momentos antes para salvar uma vida.
- Não podemos fazer nada sem nossas varinhas. – replicou Neville, sem uma ponta de medo em seus olhos escuros.
Uma ansiosa Ginny começou a dizer: - Por que não esperamos pelos professores? Talvez a Ordem já ouviu...
- Não há modo de saber que algo de ruim está acontecendo. – respondeu Hermione. – Dumbledore está fora do castelo, o restante dos professores está na enfermaria, – não me surpreenderia saber que foram envenenados por Bellatrix – e pensando que estamos desfrutando do último ato musical da noite... – com sua voz tremendo quase imperceptivelmente, concluiu: - A realidade é que estamos sozinhos nisto.
- Não há outro jeito. – Ron finalmente falou, deixando que seus olhos se conectassem com os de sua melhor amiga. – Temos que tirar as varinhas deles.
- Sabe por que você está aqui? – perguntou Bellatrix em um tom que indicava que em realidade não esperava uma resposta.
- Presumi que era pelo meu magnetismo animal. – respondeu Harry com secura, sua mente momentaneamente distraída pelo incômodo que causava a fivela de aço que se fundia em sua testa.
- Se eu estivesse aí, não estaria brincando. – respondeu Bellatrix. – De fato, se eu estivesse aí, começaria a suplicar pela minha vida... exatamente agora.
Ela sorriu. Ele não.
Lentamente, ela começou a caminhar em círculo ao redor dele, enquanto prosseguia: - Você foi um espinho na carne do Senhor das Trevas desde que nasceu. Por um retorcido instante de sorte, você quase o destruiu quando era apenas uma criança. – Seu sorriso se expandiu, sua voz carregada de prazer. – Mas agora, Ele retornou, mais poderoso do que fora um dia, para converter em realidade a utopia do nobre Salazar, onde os impuros e seus amantes se unirão a seus queridos trouxas para tomar seu verdadeiro lugar no mundo... como nossos escravos.
Era como uma dessas cenas tão comuns nos filmes de má qualidade, onde o inimigo revelava seu maléfico plano, dando tempo ao herói para arquitetar uma estratégia para deter o nefasto vilão.
Mas este não era um filme, nem Harry era um herói. Aqui não havia um plano mestre para detê-la, e duvidava que houvesse um final feliz reservado para ele.
- E estou aqui para garantir que a história não se repita. – Bellatrix concluiu.
- Percebo, por este desvairado discurso, que Voldemort a enviou para me matar.
- Como se atreve a dizer o nome dele! – gritou Bellatrix, dando um passo adiante e abaixando a cabeça até que seu rosto estava a uma polegada do de Harry.
Ele viu muitas coisas por detrás desses olhos escuros: inteligência, poder, devoção, loucura... e maldade.
Respondeu com tranqüilidade: - Não tenho medo dele.
- Deveria. – ela grunhiu entre dentes. Ela precisou de muito esforço para se segurar e não ataca-lo nesse momento. Finalmente, respirou profundamente e deu um passo para trás antes de prosseguir: - Mas, para responder sua pergunta... não, Ele não me enviou para mata-lo.
- Que generoso da parte dele. – murmurou Harry, com sarcasmo.
- Você já deveria saber, jovem Potter... há coisas muito piores que a morte. – Ela olhou para cima, para o objeto que flutuava sobre suas cabeças, e perguntou: - Sabe o que é isso?
Ele pensou em perguntá-la se era o último acessório da moda ditado pelos deuses para as bruxas paranóicas e psicóticas, mas decidiu que era muito mais sábio manter a boca fechada.
- Você deveria se considerar afortunado. – continuou Bellatrix, sua voz cheia de impassível curiosidade. – Não muitos estiveram na presença do Cancer Lamentatio Anima.
Ron soube que havia algo maligno com aquele objeto quando Hermione e Luna soltaram um grito abafado de angústia. – O que?
- Sabe o que é isso? – perguntou Luna, apontando para a esfera que flutuava sobre a cabeça de Harry.
- Se eu soubesse não perguntaria!
- O Cancer Lamentatio Anima é... – sussurrou Hermione, com inconfundível temor na voz. – O Orbe das Almas em Agonia.
Harry... seu Harry... Deus, isto não estava acontecendo! Não podia estar acontecendo!
- Temo que a dramática revelação não fez sentido para mim. – respondeu Harry, incômodo com a expressão de prazer no rosto da Comensal.
- Não se preocupe... – disse Bellatrix com voz doce, erguendo uma de suas mãos e traçando a cicatriz na testa de Harry, com uma unha afiada. – Você entenderá em breve.
- Isso... isso existe? – Neville perguntou, em um sussurro.
- Acaso alguém pode me dizer que caralho significa isso? – Ron grunhiu, cansado de que aparentemente todo o mundo conhecesse a resposta, exceto ele.
- Quando os bruxos morrem, suas almas... sua anima... transcende. – Luna começou a explicar. – Mas alguns... alguns escolhem ficar para trás... e se convertem em fantasmas.
Ginny interrompeu. – Essa parte já sabemos, Luna.
Mas o que não sabem, - a Ravenclaw continuou, - é que alguns não têm mais remédio que ficar para trás. Eles são as almas cujo ódio e rancor e dor eram tão fortes no momento da morte que não puderam transcender. Eles são os malditos... almas perdidas, cujo único prazer é infligir sofrimento sobre os que ainda têm vida.
- E você está nos dizendo isso porque... – Ron disse, não gostando do rumo a que esta viagem metafísica os estava levando.
- Porque, segundo dizem os velhos contos, o bruxo Grindewald encontrou uma maneira de capturar as milhares de almas que caíram por sua mão. – Olhando para o orbe, cujo reflexo se fazia evidente em seus olhos azul pálido, Luna concluiu: - E isso é o que o Cancer Lamentatio Anima é... a prisão dos malditos.
- Bellatrix. – chamou Rodolphus, interrompendo as contemplações de sua esposa. – O feitiço selador... não durará muito mais...
- Eu já sei! – ela se voltou para gritar com ele, furiosa. – Não me estrague este momento! – Esticando a mão para seu cunhado, ordenou: - Rabastan!
Seu seguidor meteu a mão no bolso de sua túnica negra e sacou uma escura adaga, feita de pedra obsidiana.
Olhando pela periferia de seus olhos a faca que havia aparecido, Harry disse: - Pensei que você havia dito que não iria me matar.
- Não eu. - Bellatrix respondeu, olhando-o com excitação perversa. – Mas não respondo por meus convidados.
- Mas... como? Por quê? – murmurou Ginny assustada.
- E o que ela fará a Harry com isso? – Neville acrescentou.
Não foi uma surpresa que Hermione desse uma resposta. – Dizem que as almas respondem ao chamado do sangue. Se são convocadas, e se derrama-se sangue, então elas engolirão sua vítima... O resultado final é que os sacrificados também terminam como as almas em agonia.
- Pensei que era um mito. – disse Neville, sacudindo a cabeça, como se quisesse libertar sua mente da loucura que ocorria ao seu redor.
- Pensou mal. – disse Hermione, antes de voltar-se para Ron e sussurrar: - Temos que agir agora!
Ron não podia estar mais de acordo com ela. – Certo... isto é o que faremos. Ginny, Hermione, vocês se encarregam de Malfoy. Neville, Luna... lhes competirá Crabbe... eu me encarregarei de Goyle. Esperem meu sinal.
Bellatrix ergueu a adaga sobre sua cabeça. Harry observou com uma mescla de ansiedade e fascinação como a ponta da adaga tocou a esfera flutuante. Para sua surpresa, o material que cobria a superfície do orbe cedeu, e distraidamente deu-se conta de que não era feito de cristal, mas sim que estava coberta por uma membrana orgânica, como as das asas de um morcego. Começou a pulsar, quando Bellatrix abaixou a adaga.
Só então, Harry percebeu que esse objeto estava vivo.
- Como se sente, pequenino? – sussurrou a Comensal da Morte, com um sorriso que podia causar calafrios até em um homem morto. – Como se sente diante do fato de que – depois de 17 anos de miserável existência – finalmente se reunirá com mamãe e papai?
Apertando a adaga fortemente em sua mão esquerda, a Comensal alcançou com a direta o torso de Harry, rasgando violentamente sua jaqueta e sua camisa, expondo seu peito e seu abdômen diante de seus penetrantes olhos. Uma expressão que apenas pode ser descrita de pervertida luxúria surgiu em seu rosto.
- Que pena. – ela sussurrou, suas unhas raspando os tensos músculos do abdômen de Harry. – Tudo isto desperdiçado em um mestiço.
Em algum lugar de sua cabeça, ele fez a conexão com Hermione, e como sentira suas unhas sobre sua pele. As sensações ocupavam lugares diametralmente opostos no espectro das emoções, porque o que uma vez o consumiu com desejo e paixão, agora o enfermava de repulsa.
Queria fazer Bellatrix se sentir tão profanada como ele se sentia.
Harry cuspiu-lhe diretamente no rosto, a babosa saliva resvalando sobre a pálpebra direita de Bellatrix. Seu sorriso obsceno se transformou em uma expressão de desprezo não muito diferente da de seu sobrinho.
- Imbecil. – sussurrou com raiva. – Vou lhe ensinar o que acontece com os meninos travessos.
E, com isso, a adaga começou a descender.
Bellatrix e a faca em sua mão haviam capturado a total atenção de Malfoy e de seus companheiros, e não havia melhor momento para uma ofensiva que este.
- AGORA!
Tudo aconteceu em um instante. Antes que os Comensais percebessem o que estava ocorrendo, Neville havia agarrado Crabbe pelo pescoço, permitindo a Luna dar-lhe um soco na boca do estômago, antes de arrancar-lhe a varinha da mão. Ron fez o mesmo com Goyle, golpeando o Slytherin com ambas as mãos na nuca, fazendo com que caísse ao chão, inconsciente.
Já Malfoy havia se voltado para eles e apontava com sua varinha diretamente para Hermione, mas Ginny jogou-se sobre ele com fúria, empurrando-o para o chão. Hermione chutou a varinha de sua mão para retirá-la, antes de deslizar para o chão a fim de apossar-se dela. Sem levantar-se do chão, voltou-se e apontou com ela para o palco.
- INCARCEROUS!
- DESMAIUS!
- PETRIFICUS TOTALLUS!
Três feitiços diferentes saíram das varinhas capturadas e viajaram para o palco. Ron teve êxito com o que lançou sobre Rabastan, que logo encontrou-se envolto em cordas dos pés à cabeça. O Comensal perdeu o equilíbrio e caiu ao chão. Rodolphus teve mais sorte, já que escondeu-se atrás do piano. O instrumento musical foi destruído pela maldição de Luna, mas Lestrange saiu ileso.
Dos três seguidores de Voldemort, apenas Bellatrix reagiu como somente poderia fazer a mão direita do Senhor das Trevas. Antes que a maldição de Hermione chegasse, gritou "Protego" e um escudo mágico de pálida cor azul apareceu na frente dela. O feitiço da Gryffindor golpeou o escudo, dando oportunidade a Bellatrix de contra-atacar com um Crucio.
Harry gritou a todo pulmão ao ver como a maldição golpeava Hermione exatamente no peito. Ela caiu ao chão de joelhos, soltando um grito de dor, a varinha que havia apertado em sua mão com tanta força deslizando para o chão, esquecida. – NÃO! PARE! – gritou o rapaz, sentindo-se mais inservível que nunca quando viu Malfoy recobrar sua varinha.
- Hermione! – clamou Ron, levantando a varinha de Goyle para atacar Bellatrix. Não se deu conta de que Rodolphus já tinha Luna na mira, até que ouviu um "Accio varita". A varinha que Luna tinha rapidamente voou pelo ar, terminando nas mãos de Lestrange.
Bellatrix provou ser mais veloz que Ron, gritando "INCARCEROUS" e aplicando-o ao ruivo antes que este pudesse atacar. Como Rabastan momentos antes, largas cordas o cobriram dos pés à cabeça, como um casulo artificial. Neville e Goyle se jogaram simultaneamente sobre a varinha de Ron, mas Crabbe interrompeu o plano de Neville ao chutar-lhe perversamente o joelho.
- ESTÚPIDOS GAROTOS! – cuspiu Bellatrix, olhando para os alunos no salão com tal malícia que foi suficiente para fazer com que retrocedessem ainda mais para a saída. Enquanto isso, Rodolphus libertou seu irmão do feitiço atador. – Eu os adverti que se comportassem! – gritou. – Por que não podem ser bons uma só vez? Agora verão! DRACO!
- Sim? – respondeu Malfoy em voz baixa, sua varinha apontando diretamente para Hermione. O tom de sua voz soava abandonado, frio, ainda mais do que era normal para ele, como se tentasse distanciar-se emocionalmente da situação ao seu redor.
- Sabe? Você é o primeiro que merecer ser castigado... eu lhe disse que os mantivesse quietos e você falhou... o Senhor das Trevas ficará muito descontente com você... deixarei que Ele se encarregue de seu castigo. – disse Bellatrix, soando criminalmente feliz com o prospecto da tortura de seu sobrinho. – Prossigamos... essa cadela a seus pés... essa é a amiga de Potter? A impura? – perguntou.
Draco assentiu como resposta. A expressão de seu rosto mostrava uma fúria mal contida, mas a quem estava dirigido tal ódio não era algo que ficava muito claro nesse momento. Luna tentou aproximar-se de Hermione, que soltava pequenos gemidos do chão, até que Goyle apontou-lhe com sua varinha, e ela recuou, escolhendo ajoelhar-se ao lado de Ron. Intercambiou olhares com Ginny, que ajudava Neville a levantar-se do chão.
Bellatrix devolveu toda a sua atenção ao seu prisioneiro.
- Acaso ela lhe importa? – perguntou a Harry. Ele tentou manter seu rosto sem expressão alguma, seus olhos verdes sem emoção enquanto tentava recordar o que havia aprendido nas lições de Oclumência com Snape. Sabia que seria um grande erro mostrar à essa mulher exatamente o quanto sua melhor amiga lhe importava.
No entanto, tudo foi em vão. – Ah! – Os cantos da boca de Bellatrix levantaram-se em um sorriso torcido. – Nem se incomode em responder... posso ver em seus olhos. Você não apenas se importa com ela... – Seu rosto demonstrou algo de surpresa ao concluir - ... Você a ama.
Como se a situação não estivesse o suficientemente má, Bellatrix encontrou seu tendão de Aquiles.
- E todos sabemos o que acontece com quem se ama, pequenino. – Bellatrix acrescentou. Trocou um olhar cheio de significado com Rodolphus e Rabastan e, simultaneamente, os três ergueram suas varinhas e apontaram diretamente para Hermione.
- DEIXEM-NA EM PA...!
- CRUCIO!
- CRUCIO!
- CRUCIO!
Hermione foi golpeada cruelmente pelas maldições dos Comensais, uma vez atrás outra. Ela gritou de pura agonia, mas seus gritos ficaram abafados pelos gritos de Harry, Ron e seus amigos, que não podiam fazer nada mais que olhar horrorizados como sua companheira caía ao chão, convulsionando, tentando lutar contra a insuportável dor que agora percorria cada extremidade e órgão de seu corpo.
- NÃO! PARE! VAI MATÁ-LA!
Harry gritava uma e outra vez, mas ninguém parecia ouvi-lo. Lutava contra as mordaças, sentindo como o áspero material cortava a pele de suas mãos e de suas pernas. O sangue começava a jorrar de suas feridas enquanto as lágrimas rolavam por sua face.
Sentia-se como havia se sentido no sonho, como se a própria terra estivesse engolindo seus gritos de ajuda. Chamou a todos: Dumbledore, Remus, Sirius, Buda, Jesus, Deus... mas ninguém interveio.
- PÁRA! FAREI O FOR!
- O que for? – cuspiu Bellatrix, o raio de energia maligna que emanava de sua varinha ainda golpeando o corpo de Hermione. – Não há nada que possa fazer! Está acabado! Você é nada! Esta será sua última noite! E será uma para se recordar!
E nesse estado de total desesperança, uma idéia penetrou a escuridão dos pensamentos de Harry; ele conhecia algo que o Senhor das Trevas morria para saber.
- EU LHE DAREI A PROFECIA!
Os olhares dos três Comensais da Morte pousaram imediatamente sobre Harry. – Você mente! – respondeu Rabastan.
- NÃO! DIREI TUDO A VOCÊS! APENAS DEIXEM-NA!
Funcionou.
Bellatrix lentamente abaixou a varinha, e seu esposo e cunhado lhe seguiram. Harry viu como o corpo de Hermione parou de convulsionar, e finalmente esteve quieta, um corpo retorcido sobre o chão. Ginny correu para ela, ajoelhando-se ao lado do corpo de sua amiga e acariciando seu rosto com ternura. Não obteve resposta. Neville correu para elas enquanto que Luna lutava para ajudar Ron a alcançar sua companheira. Ginny havia começado a chorar, temendo o pior, mas decidiu aproximar-se ainda mais de Hermione e sussurrar-lhe-Deus-sabe-o-que ao ouvido.
Harry finalmente respirou quando viu os olhos cor caramelo abrir-se debilmente, aparentemente incapaz de enfocar o olhar. Mas estava consciente.
- Bom? – Bellatrix disse impacientemente para atrair a atenção de Harry. Ele sabia que nesse momento tinha uma vantagem, mas pensamentos conflitantes sobre a racionalidade de sua atitude surgiram em sua cabeça.
- Você tem que me dar a sua palavra. – Harry falou. – De que deixará meus amigos... todos que estão no salão... em paz. Pode fazer o que quiser comigo e ir embora... mas a eles não. Entendido?
- Draco, vigie os pirralhos. E, desta vez, assegure-se de que não nos causem mais problemas. – Bellatrix ordenou, sua voz tão doce como o veneno. Devolvendo a atenção a seu prisioneiro novamente, perguntou: - E você... acreditaria na minha palavra? – Parecia-lhe divertido que Harry fosse tão ingênuo.
E tinha razão; ele não confiava nela. Contudo, sabia que uma coisa estava se acabando para esses três intrusos: tempo. Se podia distraí-los durante suficiente tempo, talvez o feitiço selador sobre o Salão Principal se dispersa-se, e o socorro finalmente chegasse.
- Não tenho outra opção. Ou sim?
- Em realidade... não. – disse Bellatrix, caminhando para ele. – Mas eu estava naquela sala há dois anos, Potter... sei que a esfera da profecia foi destruída.
- Sei o que dizia. – ele respondeu. Obrigando-se a esboçar um sorriso desafiante, adicionou: - Vamos, Lestrange... é algo que é muito interessante para seu Senhor... algo que Voldemort precisa saber. Então... temos um trato?
- Por Merlin! Diga logo!
Harry mal abrira a boca para responder quando ouviu um fraco "Não" que vinha do meio do salão. Seu olhar foi capturado por Hermione, que havia se reincorporado um pouco graças à ajuda de Ginny e de Luna, e se encontrava atualmente ajoelhada entre elas. Sua amiga sacudia a cabeça lentamente, murmurando a palavra "Não" uma e outra vez.
"Perdoe-me. Não posso permitir que a machuquem mais."
Em algum lugar de sua mente, Harry registrou o fato de que dizer a Voldemort o segredo da Profecia seria dizer-lhe que a única forma que o Senhor das Trevas teria para garantir sua sobrevivência seria pondo Harry a seis metros sob a terra. Contudo, não estava em melhor posição agora. Cedo ou tarde morreria, mas não permitiria que uma só pessoa mais se sacrificasse em seu nome.
- O único com poder para derrotar o Senhor das Trevas...
- HARRY! NÃO!
Todos se surpreenderam ao ver que quem havia gritado com tanta autoridade não era o melhor amigo de Harry, Ron, nem sua namorada, Hermione, mas sim o rapaz de temperamento gentil e calmo chamado Neville. Bellatrix girou para ver quem havia se atrevido a interromper.
- Neville. – rogou Harry, sentindo uma nova onda de calafrios em seu corpo, ao ver o sorriso retorcido no rosto da Comensal. – Não se meta. Isto não lhe...
- Ah! - Bellatrix exclamou com fingida alegria. – Entendo... face rechonchuda, olhar desfocado... voz trêmula... sem um pingo de coragem. Deve ser um Longbottom!
Neville ignorou o doloroso ataque verbal. – Harry, não pode fazer isto... não pode deixar que Quem-Você-Sabe conheça a Profecia!
- Sabe? Eu conhecia sua mamãe e seu papai... como estão?
- Se você fizer isso, tudo chegará ao fim.
- Neville, cale-se! – gritou Harry, ao mesmo tempo em que Ginny segurava Neville pela mão e o puxava para o chão, suplicando-lhe que voltasse a se sentar.
- Deveria ter visto Alice gritando "Meu bebê! Meu bebê!, uma vez e outra, enquanto se retorcia de dor, jogada no chão como uma cadela ferida naquela pulguenta casa que usaram como esconderijo. – continuou Bellatrix. – E Frank... pobre Frank... tão iludido... pensou que podia lutar contra todos nós, simplesmente porque pensava que estava do lado da justiça.
- Preferimos morrer agora que deixa-lo ganhar. Você me ouve, Harry? – gritou Neville, seu corpo tremendo de determinação. – Escolhemos morrer se isso significa que Ele será detido!
- Com os Potter foi muito rápido... mas não com seus pais. Nós desfrutamos nosso tempo... conversando com eles...
- Meus pais deram sua vida para proteger o segredo, Harry. Não deixe que seu sacrifício seja em vão.
- Eu deveria ir a St. Mungus e visita-los. Sabe? Para recordar os bons tempos.
- VÁ PARA O INFERNO, PUTA!
Se os presentes haviam se surpreendido antes, não era nada comparado com o assombro que sentiam agora ao tornar-se testemunhas deste intercâmbio entre Neville e Bellatrix. Até ela mesma parecia ter-se quedado muda de assombro. Um silêncio sepulcral caiu sobre o Salão Principal, e não foi quebrado até que a própria Bellatrix sussurrou entre dentes: - O que disse?
- Você me ouviu. – replicou Neville com fúria acalmada. – Você nada mais é que a cadela de Voldemort.
Harry nunca ouvira Neville chamar o Senhor das Trevas pelo seu nome, mas sabia que nunca ouvira esse nome ser pronunciado com tanta fúria na voz. Não se havia ocorrido a Harry que, se existia alguém que tinha direito a odiar Voldemort e Bellatrix tanto quanto ele, este alguém era Neville.
- Verme patético! – Bellatrix gritou, sua voz tremendo de fúria. – Vou lhe ensinar alguns modos! CRUCIO!
Os outros Comensais se uniram à ela na maldição e Neville, assim como Hermione momentos antes, foi golpeado com as Imperdoáveis com tal força que foi literalmente erguido do chão. Voou para trás sobre as cabeças dos alunos uns dois metros, até que seu corpo impactou contra as portas de carvalho e deslizou para o chão.
Seus amigos gritaram.
Neville não.
- Ajudem-no! – Ron ordenou a seus assombrados companheiros. Luna ajudou a agora histérica Ginny a levantar-se do chão, e as duas abriram caminho entre os alunos até chegar a Neville.
- Viu isso? - Goyle exclamou com alegria infantil.
- Como uma marionete! - Crabbe acrescentou.
- Calem-se! – Malfoy grunhiu por entre os dentes, seu olhar alternando de Ron, para Hermione e o palco, mordendo o lábio superior com pouca característica ansiedade, seu único consolo o de saber que logo tudo terminaria.
- Agora, onde paramos? – disse Bellatrix de forma tão casual como se houvesse esbofeteado uma impertinente mosca.
Harry mal podia respirar; primeiro Roger, depois Hermione, e agora Neville. Quantos mais poderiam sair feridos antes que ela decida parar?
- Mione. – Ron murmurou. Arrastou-se pelo piso como um verme para aproximar-se de sua amiga. – Diga-me que tem um plano.
Hermione obrigou seus olhos a enfocar-se no Menino-A-Quem-Amava. Sim, podia vê-lo por trás de seus olhos verdes... ele estava perdido. As palavras de Neville haviam deixado uma marca em seu interior. Nesse mesmo instante, ele voltou-se para ela, e seus olhares se cruzaram, e ela viu como a idéia de que alguém mais saísse ferido em seu nome o estava consumindo.
Ele permitiria que as mortes que vieram antes fossem em vão a deixar que uma alma mais se somasse aos que haviam se perdido.
Era um peso que nunca deveria cair sobre os ombros de um garoto de 17 anos de idade.
- O que vamos fazer? – sussurrou Ron.
E foi então quando ela viu... a menos de um metro de sua mão. A superfície resplandecente brilhava com a luz procedente da esfera, como um farol em uma noite de tempestade.
- Mione... fale comigo... diga-me que vamos...
Ela não respondeu ao seu amigo, mas obrigou seu corpo a volta-se para ficar de bruços, e começou a arrastar-se para o brilhante objeto. Malfoy e seus companheiros novamente haviam se distraído com o espetáculo dos Comensais, e Hermione percebeu que não havia nenhum obstáculo entre ela e seu objetivo, como se o próprio universo estivesse de acordo com seu plano.
Tinha apenas um pensamento em mente: dois anos atrás, havia jurado que protegeria Harry a todo custo.
A. Todo. Custo.
Para sua própria surpresa, não tinha medo, nem ansiedade, nem insegurança. A única coisa que realmente sentia era pesar; pesar porque a alegria que Harry e ela compartilharam durara tão pouco.
Esperava apenas que seu amado a perdoasse – por novamente tirar-lhe a decisão de suas mãos.
- Querida, temos que nos apressar. - Rodolphus mencionou. – O feitiço selador... terminará em alguns minutos. Temos que agir agora.
- Não é minha culpa que os amigos de Potter continuem metendo os narizes onde não são chamados! – respondeu mal humorada, dando um olhar que faria com que outros homens corressem para suas mães chorando.
Devolvendo sua atenção a Harry, Bellatrix prosseguiu: - Você tem uma última oportunidade... faça rápido!
Harry abriu a boca para falar, mas antes que uma só palavra pudesse escapar por entre seus lábios, foi interrompido por um forte som de explosão proveniente do outro lado do salão. Simultaneamente, olharam na direção das portas para ver que se dobravam levemente antes de retornar à sua posição normal. Fizeram isto uma, duas, três vezes, ocasionando que Rabastan gritasse: - Vem alguém!
Enquanto olhava para Hermione afastar-se dele, Ron deu-se conta de que em realidade não havia nada que se pudesse fazer. Aqui se encontravam em uma situação cada vez mais desesperadora: seu melhor amigo estava atado à uma cadeira, ameaçado pela mão direita de seu adversário; sua melhor amiga parecia incapaz de responder; seu companheiro de quarto se encontrava seriamente ferido, talvez morto; e ele próprio se encontrava preso de tal maneira que nem sequer podia se levantar para examinar a situação.
A forte explosão proveniente das portas alcançou seus ouvidos no exato momento em que o último resplendor de esperança se desvanecia de sua mente. O som, junto com a expressão de ansiedade no rosto do Comensal da Morte, só podia significar uma coisa.
Chegara a cavalaria.
"Agüenta firme, Harry... apenas agüente".
Girou o rosto, procurando Hermione com o olhar. – Chegaram! Chega...
O que viu foi completamente inesperado.
Hermione conseguira reincorpora-se, embora suas pernas parecessem mal suportar seu peso, e erguera os braços sobre a cabeça em uma posição quase impossível em seu estado debilitado. Porém, o mais inesperado foi que, agarrado entre suas pequenas mãos, encontrava-se o punhal de Malfoy.
Mas o que pensava fazer com isso? Malfoy e seus primatas estavam muito distantes dela, e de qualquer modo, duvidava que Bellatrix se importasse se Hermione fosse fazer um deles de refém para tentar negociar a vida de Harry. Pelo contrário, dava a impressão de que a Comensal mataria seu sobrinho com suas próprias mãos a deixar que o Menino-Que-Sobreviveu lhe escapasse uma vez mais.
Só então, Ron deu-se conta de um pequeníssimo detalhe: a lâmina da faca apontava para baixo.
E nesse instante, Ron percebeu o que Hermione planejava fazer.
- Eu sinto muito, Potter, mas nossa conversa terá que acabar aqui.
Harry já não sentia medo; ao menos, com a ajuda que já estava esperando do outro da porta, os alunos estariam a salvo. Seus amigos estariam a salvo.
Hermione estaria a salvo.
Não sabia o que Bellatrix tinha preparado para ele, mas sabia que não seria nada comparado com a culpa que teria sentido se outra vida se perdia em seu nome.
Bellatrix novamente ergueu as mãos sobre sua cabeça e, olhando a esfera que flutuava acima deles, começou a entoar:
- O mors aeterna, me audi, sanguinem que vivum sapi quem in nomine tuo profundo!
Um uivo começou a se ouvir, procedente da esfera. Um trovejante coro de vozes incorpóreas retumbou pelo salão de tal modo que os alunos que haviam se convertido em reféns taparam os ouvidos com as mãos e caíram no chão de joelhos, tentando aproximar-se mais uns dos outros, em um vão intento para sentir-se mais seguros.
- Et veni et adroga hunc animum miserum...
A expressão nos olhos de Bellatrix era uma de pura e indescritível loucura. Sim, finalmente iria se cumprir seu maior desejo durante os transatos dezesseis anos: acabar com quem quase destruiu seu Senhor.
- "...totum devorarent!
A adaga começou sua descida, seu destino final o ponto sobre o coração de Harry.
Mas não alcançou seu objetivo.
Em seu lugar, Harry ouviu um grito lancinante de "NÃÃÃO!", que superava os gritos das vozes do orbe, antes que um cegante resplendor de luz inundasse o salão.
Levou alguns segundos para abrir os olhos novamente. Piscava erraticamente, observando nada exceto formas sem definição e sombras irregulares, tentando enfocar e perguntando-se distraidamente porque não sentira a faca penetrando seu torso.
Para sua surpresa, encontrou Bellatrix no mesmo estado de confusão em que ele se encontrava, enquanto olhavam para a esfera com expressão de ansiedade em seus rostos.
Finalmente, Harry conseguiu enfocar seu olhar sobre a esfera, apenas para dar-se conta de que agora pulsava em um ritmo frenético, ao passo em que uma neblina gris e sem forma se desprendia de sua superfície e começava a descender na direção deles.
- ESTÃO VINDO! – gritou Rodolphus.
- Ma-ma-mas... o sangue de Potter! Não... não... está... – titubeou Rabastan, seu olhar alternando entre a esfera e a adaga que ainda se encontrava na mão de Bellatrix.
- Não... não entendo... – Harry mal ouviu a bruxa balbuciar. – O feitiço... não se supõe que... não antes de que...
Uma quarta voz uniu-se a dos Comensais com um quase imperceptível "Deus... por quê?". Mas, à diferença das vozes dos seguidores de Voldemort, Harry pode sentir a imensa dor nessa voz, as lágrimas que mal podiam ser contidas, e a angústia que estar por explodir.
E, para seu horror, Harry soube que a voz pertencia a Ron.
- A sangue-ruim... – Rodolphus apontou com um dedo acusador para a pista do baile. – A SANGUE-RUIM! FOI ELA! VEJAM!
"Hermione."
O olhar de Harry imediatamente pulou para o centro do salão, onde uma figura solitária se encontrava parada a menos de um metro de Malfoy, Ron, e os demais alunos. Era Hermione, com uma expressão de imensa dor no rosto, ao mesmo tempo em que olhava para Bellatrix desafiadoramente. Tinha as mãos sobre o abdômen, tão fraca que suas pernas mal a sustinham, mas com olhos que resplandeciam determinação.
Sem medo.
E então, a garota cruzou seu olhar com o dele. E a expressão em seu rosto suavizou-se.
Tanta devoção. Tanto amor. Por que não vira antes?
Tanto tempo perdido.
Seus lábios se moveram lentamente para transmitir uma mensagem cujo único receptor era ele.
Eu. Sinto.
- Hermione... Hermione... - Ron continuava murmurando.
A neblina cinza havia alcançado o chão e, como a água de uma cascata, resvalava pela borda do palco para a pista de dança.
Para ela.
E só então Harry compreendeu o que saíra tão errado desta vez.
Sentiu como se estivesse engolindo uma escuridão absoluta da qual nunca poderia libertar-se.
Isto não podia estar acontecendo. Isto não... jamais... jamais...
Hermione devolveu a atenção à torturadora de seu amado antes de dizer.
- Estão aqui... por mim.
E antes que Harry pudesse gritar, Hermione deslizou a faca com a qual apunhalara seu abdômen até o lado oposto. O sangue começou a jorrar imediatamente, manchando seu vestido branco e chegando até o chão, mas ela prosseguiu com a sua missão, desgarrando a pele, carne e órgãos, ainda quando Harry gritou para que parasse, ainda quando Ron lhe rogou que desistisse, ainda quando Ginny e Luna clamaram a um deus que parecia tê-los abandonado.
Até que... finalmente... ela retirou a faca de seu abdômen, salpicando sua essência em Ron, em Malfoy e em todos que estavam próximos. Seus joelhos não puderam mais e Hermione colapsou no chão no exato momento em que a neblina a alcançou, rodeando-a ao ritmo do trovão das vozes incorpóreas.
As portas novamente começaram a ceder, um fulgor branco transparecendo pelos cantos do marco. Mas o feitiço selador ainda não fora penetrado.
Os alunos começaram a gritar e a retroceder para as portas, tratando de afastar-se o máximo possível da neblina quando viram como mãos translúcidas e espectrais se materializavam do nada. Estas mãos começaram a tocar Hermione, rasgando seu vestido, puxando-lhe o cabelo, fazendo um círculo ao redor dela tão denso que Harry mal a via.
E ela nada fazia. Permitiu que a tocassem, a maltratassem e a castigassem, sofrendo tudo sem uma só palavra. Nunca gritou, nem suplicou, nem pediu misericórdia. Permaneceu apenas ajoelhada no meio do salão, os olhos mal abertos, as ondulações de seu peito tornando-se mais erráticas a cada respiração que dava, o sangue jorrando da ferida e do canto de sua boca, gotejando suavemente até cair em suas brancas mãos.
As mesmas mãos que ele agarrara em inúmeras ocasiões desde que eram crianças. As mesmas mãos que o haviam protegido, aliviado, abraçado, parado, ferido e acariciado.
Agora, manchadas de sangue... seu sangre.
Lutando para manter-se consciente, o olhar de sua amiga o procurou. E quando seus olhos finalmente o encontraram, Hermione sussurrou um inconfundível "Te amo" antes de deixar-se cair na escuridão.
E Harry soube que, não importando como acabasse essa noite, ele estaria junto dela.
- NÃO! TOMEM A HARRY! É ELE! – Bellatrix gritou para os espectros, tremendo de cólera. Porém, as vozes não a ouviam, julgando pela forma como tomavam Hermione em suas mãos e a erguiam sobre eles. A neblina começou a carregar o corpo de Hermione enquanto lentamente percorria o caminho de volta a seu lugar.
Mas, aconteceu algo inesperado.
Harry sentiu uma explosão de energia dentro de si, um poder como nunca sentira antes, originando-se de seu peito e trasladando-se para todas as extremidades de seu corpo até que finalmente teve que ser expulso.
Antes que alguém percebesse o que estava acontecendo, as amarras que mantinham Harry cativo pegaram fogo, instantaneamente convertendo-se em cinzas. Ergueu-se com um rugido primitivo precisamente antes que Rabastan, que estava parado atrás da cadeira, se desse conta de que ele havia se libertado. Harry girou e tirou a varinha das mãos de Rabastan, antes de desferir um forte soco contra o rosto do Comensal que o deixou inconsciente.
Bellatrix ergueu sua varinha e apontou-a para Harry, mas mal pudera pronunciar "AVA..." antes que Harry utilizasse a varinha de Rabastan para aplicar-lhe um Desmaius, que a fez voar pelo ar até arrebentar-se contra as cadeiras da orquestra.
- TARANTALLEGRA! – gritou Harry, sua varinha agora sobre Rodolphus, cujas pernas começaram a saltitar descontroladamente. Colapsou no chão, convulsionando como uma barata que fora borrifada com veneno.
Os olhos de Harry buscaram novamente Hermione. A neblina ainda a carregava, com as pernas unidas e os braços perpendiculares ao corpo.
Tão bela. Tão pálida... tão serena... tão perfeita.
E sem vida.
Não era o momento de ceder às lágrimas. Era o momento de reclamar o que era seu. Era o momento de obrigar-se a pensar no instante mais feliz de sua curta vida.
Não foi difícil encontra-lo. Havia acontecido há apenas meia hora antes.
Fechou seus verdes olhos e respirou profundamente. Em sua mente, viu sua Hermione momentos antes na sacada... diminuindo a distância entre eles, quebrando a última barreira de sua amizade ao retirar-lhe a máscara do rosto. Sentiu a ponta de seus pequenos dedos enquanto gentilmente acariciavam sua pele, traçando a cicatriz em sua testa, seu nariz, suas pálpebras... sentiu essas mãos enredando-se em seu cabelo e puxando-o com ternura... e sentiu a sombra desses lábios suaves sobre os seus, enviando divinas sensações a cada ponto de seu corpo.
Fazendo-o sentir-se amado.
Fazendo-o sentir-se vivo.
Sim. Esta era uma memória que nunca esqueceria.
Abriu os olhos, ergueu a varinha e gritou a todo pulmão.
- EXPECTO PATRONUM!
O cervo de cor prata materializou-se diante dele, e imediatamente colocou-se entre Hermione e a esfera. Os espectros uniram suas vozes em um grito infernal que fez tremer os presentes, mas que não produziu efeito algum sobre o Patronus.
Com sua poderosa galhada, o cervo abriu caminho por entre a neblina, imune aos ataques das almas em agonia. Era notável o fato de que os espectros estavam perdendo o controle sobre o corpo de Hermione. Finalmente, o Patronus a alcançou e, ao destruir aqueles que a estavam carregando, permitiu que ela descansasse sobre suas costas.
As almas restantes retornaram à sua prisão. A esfera liberou um forte lampejo antes de cair no chão com um incongruente clink.
Lentamente, o cervo voltou-se e, com cuidado para não deixar a garota cair, começou a dirigir-se para Harry. Quando encontrou-se parado diante do rapaz, dobrou suas patas dianteiras. O corpo da jovem gentilmente rolou para o chão, parando aos pés de seu amado.
Os olhos de Harry nunca abandonaram o rosto de Hermione.
Nunca deu-se conta de que Bellatrix havia se erguido, nem de que agora lhe apontava com sua varinha. Nunca ouviu o grito de advertência da parte de Ron. E nunca ouviu as últimas palavras da Comensal.
- AVADA KEDAVRA!
Nunca viu o raio de luz verde que golpeou-lhe no centro do peito.
Nunca sentiu como seus pés perderam o contato com o chão e começou a voar pelo ar.
As portas se abriram. Mas Harry nunca ouviu a explosão, porque havia apenas espaço para uma voz em sua cabeça.
"Eu! Livros! Inteligência! Há coisas muito mais importantes, amizade e coragem e..."
E amor. Levou seis anos, mas finalmente compreendeu.
"Você conseguiu! Você conseguiu!"
Não desta vez. Desta vez, falhara.
"Você ficará bem."
E caía.
"Harry, você foi genial! Alucinante! De verdade!"
E caía.
"Sei que você está aí dentro. Quer sair, por favor? Tenho que falar com você."
E continuava caindo.
"Não existe o meu eu sem você, Harry. Já não pode ser diferente... Eu morreria sem você."
Sim. Definitivamente sabia como era sentir isso.
"Te amo."
E caiu...
... na escuridão.
Nota da Autora:
O feitiço em latim que Bellatrix entoa quando está evocando os espíritos traduz o seguinte:
"Escuta-me, eterna morte,
prova o sangue vivente
que em teu nome derramo.
Vem e reclama
esta infeliz alma.
Deixa que a tua escuridão
a engula por completo."
P.S. da Tradutora sobre um P.S. da Autora: O nome do capítulo foi retirado do nome de uma composição clássica de Camille Saint-Saenz. "Danse Macabre" pode ser traduzido literalmente como Dança Macabra ou ainda como Dança da Morte.
Notas Finais da Tradutora:
Quase 30 dias depois da última atualização (precisamente 24 dias), coisa inédita de acontecer, consegui garimpar a tradução do penúltimo capítulo – o que também é um fato inédito, já que nunca tive tantos empecilhos para traduzir um só capítulo das fics que traduzi até aqui. Daí o porquê do "garimpo": com tantas paradas obrigatórias entre uma página e outra das 42 a traduzir (42 páginas usando verdana tamanho 9, frise-se), o trabalho de tradução (sem revisão, é claro!) assemelhou-se ao processo de extração de ouro em garimpo, isto é, lento e cheio de percalços. ¬¬
Mas eu creio que vocês já estavam suficientemente preparados para esse enorme atraso. Eu havia alertado na notinha do capítulo anterior que não sabia se conseguiria terminar a tradução antes do último dia do ano, devido aos deveres e contratempos da vida-como-ela-é, motivo pelo qual não prometi nada – como efetivamente jamais o fiz em nenhuma de minhas traduções.
Enfim, chega de blá-blá e vamos ao penúltimo capítulo! Digo, vamos agora rumo ao último, mas antes disso me digam o que acharam deste. ;-) Bueno, como sempre, espero que tenham gostado da leitura tanto quanto eu gostei. Afinal, eu me amarro em tragédia! ;-) Mas a pergunta é: essa primeira parte da história acabará REALMENTE em tragédia? ;-) Ah, a quem quero enganar?! Vocês certamente já sabem o final! ;-) Vai ver andaram bizoiando a fic em espanhol, pois não? ;-) Bem, seja lá como for, creio que um final feliz deve ser esperado por todos – ou, ao menos, pela maioria -, não? Sim ou não, no próximo capítulo quem não leu a versão original, ficará sabendo, e quem leu... bom... reviverá a lembrança. ;-) Até lá, façam figa para que eu consiga ter um pouco mais de paz e sossego. Sem esses dois ingredientes, a tradução segue em ritmo de garimpo. ;-)
Parando por aqui e me despedindo de todos, agradeço a cada um dos leitores desta fic de Anasazi pela 'preferência', paciência e compreensão para com esta tradutora capenga, e deixo meu agradecimento especial aos resenhadores de plantão (edilma, Renata Kovac, Mayabi Yoruno, Jane Marvollo Malfoy, harryminhavida, Hiorrana e Fê, dora e Monique)! Mucho thank you very much, garotas! O vinho e o absinto ainda estão por minha conta! Especial "Bota fora 2007!" ;-D
A todos, Boas Festas, Feliz Natal e um Iluminado Ano Novo!
Cuidem-se, amem-se, vivam-se, e até o próximo capítulo!
Hasta!
Inna
