2. Velho álbum de fotos

Às vezes, Agatha tomava nos braços o álbum de fotos de quando estivera em Hogwarts. Era impossível não acolhe-lo, deslizar a ponta dos seus dedos pela sua capa e sentir quando as lembranças vinham à tona.

Seus 7 anos em Hogwarts foram inesquecíveis. Seus pais e sua irmã Amélia podiam jurar que Agatha seria Corvinal. Dona de uma inteligência aguda, tudo, para Agatha, eram os seus livros. Estar entre eles, explora-los, absorver tudo o que eles poderiam lhe ensinar estava entre as coisas mais agradáveis que Agatha costumava fazer. Fora uma surpresa, para todos, quando o velho chapéu a selecionou na Grifinória. Nem Agatha esperava por isso, quando o velho chapéu tocou os seus cabelos ondulados e escuros, ele fez uma pergunta:

- Corvinal? Não, Bones, você não seria feliz lá

Mesmo frente aos insistentes pedidos da menina, o chapéu não hesitou ao bradar:

-Grifinória!

Agatha lembrava com uma ponta de alegria a cara do seu irmão Edgar, que estava no sétimo ano e era monitor-chefe enquanto ela se encaminhava para a mesa da Grifinória. Ele ficou lá, olhando-a, chocado, enquanto as pessoas, na mesa da Corvinal, davam tapinhas nas suas costas tentando consola-lo.

Fora uma alegria, nessa mesma noite, ver sua amiga Marlene ser selecionada para a Grifinória. A lembrança do abraço apertado trocado pelas duas nessa mesma noite era algo capaz de aquecer o seu coração. Foi ainda no primeiro ano que Agatha conheceu os seus amigos mais leais e que levaria para o resto de sua vida: Lílian, Sirius, James, Remus e Peter. Todos no primeiro ano, felizes e excitados quanto às aventuras que estavam por vir.

Houve certa resistência por parte dela, a princípio, em aceitar Sirius como um amigo. Ela conhecia a fama da família Black e por conta disso, sempre ficava meio receosa esperando o momento em que alguns traços sinistros que por ventura, pudessem ser passados geneticamente, aflorariam nele. Mas esse momento não houve. Ao contrário do que pudesse esperar, Sirius mostrava-se alegre, cativante, dono de uma personalidade marcante, leal.

Marlene era uma velha conhecida de sua família. Os McKinnon sempre foram muito próximos dos Bones. Agatha, constantemente, era convidada para passar as férias em um pequeno chalé da família. Os melhores momentos de sua infância foram passados ao lado de Marlene. E os melhores anos de Hogwarts também.

James era simplesmente James. Único, bagunceiro, divertido, de alma rebelde mas com um coração do tamanho do mundo. Agatha lembrava das inúmeras vezes que os dois haviam brigado. James era do tipo popular, famoso na escola pela sua imensa capacidade de alegrar a todos. Mas injusto, muitas vezes. Não por mal, mas ele era um especialista em fazer piadinhas com todos a sua volta, Agatha fora, inúmeras vezes, alvo delas, o que a desapontava.

Lílian era um enigma a ser desvendado. Agatha sorria pensando que talvez, Lílian, nunca fosse desvendada. Nascida-trouxa, muito curiosa e justa, não era raro a ver em companhia de gente pouco óbvia para se relacionar.

Em pouco tempo, Lílian, Marlene e Agatha tornaram-se inseparáveis.

Em inúmeras noites frias e chuvosas, as três dividiam bem mais do que o quarto, dividiam suas expectativas, seus sonhos, os primeiros relatos de beijos trocados às escondidas.

Marlene era a mais meiga das três. Agatha comentava, com ironia, que suas intenções por Sirius ficaram claras desde o primeiro olhar lançado por ela sobre ele.

Agatha era a menos óbvia. Tinha certeza que, se fosse para encontrar alguém ideal, a pessoa não estaria dentre os portões de Hogwarts.

E Lílian, essa era sempre um enigma.

As lembranças vinham em cascata enquanto folheava o velho álbum de fotos, e foram até uma aula, a primeira de Poções que tiveram. Agatha chegara atrasada, entrou ofegante na aula, enfrentando os olhares de sarcasmo dos amigos, que apontavam para o próprio relógio. Ela sentou-se, pegou o seu livro e lançou um olhar de esguelha para o colega ao lado:

- Pode me dizer qual a página?

A primeira impressão foi chocante. Aquele menino magro, rosto com feições duras, pele pálida e cabelos negros, lançando um olhar de repulsa para ela, exclamando:

-Se vira, chega no horário da próxima vez.

Mais chocante ainda fora o momento após a aula, em que Agatha relatava o que Snape tinha dito, os meninos bolavam planos infantis e estúpidos de como se vingar e Lílian se enfurecia, calada, a cor subindo a sua face, deixando as suas feições rubras.

-Deixem-no em paz, tá legal?

Ela lembrava da amiga, caminhando mais rápido, se afastando, deixando para trás um Sirius, Peter, Remus, James, Marlene e ela própria sem entender.

A cena se repetia com freqüência. Muitas vezes Lílian deixava-os de lado para passar seu tempo livre na companhia de Snape.

E por diversas vezes, Agatha tentou ser agradável com Snape, não levando, outra coisa, a não ser respostas desaforadas e ofensas, que por vezes, chegavam a ser bastante pesadas.

Agatha, folheando o álbum, chegara até uma das fotos que mostrava Lily, Snape e ela, em um dos passeios por Hogsmeade, em que ela chamara os dois e os abraçara para tirar a foto, talvez na tentativa de reduzir a animosidade entre eles. A foto chegava a ser patética, mostrava uma Lily sorridente ao meio, tentando, meio que a força, abraçar os dois amigos para a foto. Agatha tentava se esquivar e sair daí, enquanto Snape parecia um pouco hipnotizado, mostrava para Lily, algo que parecia esboçar um sorriso, mas sem deixar de, às vezes, olhar feio para Agatha.

Mais um rodopio de lembranças e uma delas veio à tona

-Ele me chamou de amante de sangues-ruins, Lílian! – Agatha sacudia a amiga pelos ombros, tentando puxa-la a razão.

Agatha dava uma risada amarga e debochada, mesmo que isso fosse doloroso à amiga

- E ele, provavelmente, também esteja se referindo à você! Você é uma das minhas melhores amigas, você é a nascida-trouxa, como você fica ao lado de alguém como ele!

- Ele...ele...não, você não deve ter entendido direito...- Lílian murmurava, sempre confusa, cabisbaixa e parecendo triste, todas as vezes que esse tipo de história chegava aos seus ouvidos.

-Por Merlin, Lílian, ele é maquiavélico! Outro dia mesmo ele foi pego na parte reservada da biblioteca, consultando um livro horroroso sobre Arte das Trevas. E ele estava junto com o Mulciber quando ele machucou a McDonald, como você consegue fechar os olhos a isso? – Agatha falava, em um tom de voz bastante alterado, ainda segurando os braços da amiga.

A verdade se chocou contra ela, como um soco. Agatha largou Lílian momentos após fazer a pergunta, como se tivesse levado um choque, a face da amiga revelava uma resposta, a verdade que Agatha não estava preparada para ouvir.

-Tudo bem, vai dar tudo certo. – Agatha puxava Lílian para um abraço apertado, sem se importar com as lágrimas da amiga que molhavam as suas vestes.

As lembranças novamente ricocheteavam até Agatha. James gritava com Lílian, à beira do Lago Negro, Sirius puxava Marlene por uma das mãos para longe, a amiga caminhava olhando para trás, receosa. Agatha chegava, atraída pelos gritos, varinha em punho.

- Dessa vez James está passando dos limites- Agatha mostrava uma ferocidade no olhar, ao tentar avançar para os dois, sendo segura por um Remus, enfraquecido após uma lua cheia.

- Deixa, você sabe tão bem quanto eu que está na hora de Lílian ouvir um pouco da verdade.

Agatha ficara parada, ao lado de um Lupin também estarrecido, enquanto eram obrigados a ouvir os gritos de James

- Comensais da morte, é assim que eles se intitulam. Você não é tola, Lily, você sabe muito bem quais são os propósitos dessa gente. Como você pode ignorar o que eu sinto e ainda assim, preferir alguém como ele? Alguém que não vê a hora de sair daqui e se juntar a Você-Sabe-Quem? Alguém que fora daqui poderia até mesmo te matar?

Agatha fechava os olhos e mesmo assim conseguia se lembrar da cara de infelicidade da amiga quando passou por ela, a expressão triste, seus olhos verdes opacos, marejados com lágrimas, tão diferentes do brilho usual.

Todas as lembranças que tinha sobre Snape ajudavam a aumentar e alimentar o ódio que sentia dele.

Mais uma tempestade de memórias e novamente uma delas aterrissa sobre Agatha.

Agatha deitada, lendo um livro, se preparando para o NOM de Feitiços que teria no dia seguinte. Cercada de fotos dela das últimas férias. Muitas delas, mostrando Edward, ela, James, Sirius, Lily e Marlene, durante passeios feitos durante as férias. Lily chega no quarto com uma expressão sinistra e senta-se na cama, suspirando e passando a mão pelos cabelos. Momentos depois se ouve uma batida na porta.

-Lily, Snape está lá na entrada da Sala Comunal, ele disse que não vai embora enquanto você não for falar com ele. Está gritando que se for preciso, vai passar a noite lá.

Lily levanta da cama, olha para Agatha com um sorriso triste e vacilante nos lábios

- Vocês sempre tiveram razão – enquanto baixava a cabeça e saía do quarto.

Alguns momentos depois ela volta, coração despedaçado, lágrimas rolavam pela sua face pálida, um choro descontrolado incapaz de ser abafado por um travesseiro. Por diversas noites, fora assim. Marlene dormia, ou pelo menos, assim como ela, fingia dormir, para que Lily pudesse chorar livremente.

Agatha lembrava com alegria do que viera a seguir. Lily voltava, aos poucos, a ser como era quando se conheceram. Alegre, engraçada, espirituosa. Apesar do perigo mais iminente de uma guerra, a felicidade que todos sentiam por estar um na companhia do outro não poderia ser mais evidente. Laços de uma amizade indestrutível foram criados.

Marlene não podia mais esconder o amor que sentia por Sirius. Ele, apesar de um pouco constrangido frente a demonstrações tão entusiásticas mostradas por Marlene, começava a assumir o seu romance. James e Lily fora um pouco mais demorado. James sempre mostrara abertamente que era apaixonado por Lily, fazendo inúmeras piadinhas engraçadas mas ridículas sobre os seus sentimentos.

Agatha lembrara de uma aula de poções no sexto ano, sobre a Amortentia

-Ei, Evans, agora todos vão descobrir o que você fez comigo!

Agatha se lembra, claramente, do riso geral da turma, da tonalidade vermelha que o rosto de Lily tomou e do olhar gélido e assassino que Snape lançara aos dois.

E por dois anos fora assim. Os dois casaizinhos, Remus, Peter e Agatha, sempre juntos.

Noites e mais noites em claro, Agatha pensava no que Edward estaria fazendo, se estaria pensando nela como ela estava pensando nele.

Em pouco tempo, como se acordasse de um transe, Agatha volta a realidade, o choro estridente de Sarah que acordara, antes que pudesse pegar o outro álbum, o mais precioso, o que mostrava as fotos dela e Edward.