Adeus Hogwarts

Foi no quinto ano que Agatha decidiu sobre a sua profissão. A irmã Amélia mais uma vez fora o seu suporte. Em um momento em que a maioria dos seus colegas estava mais preocupada com festas, namoros e diversão, Agatha era a aluna estudiosa que passava horas na biblioteca tentando aprender o máximo que podia, estimulada pela irmã, que enviava panfletos sobre profissões e marcava encontros com profissionais para que Agatha pudesse pensar melhor sobre cada uma. Cada encontro, brindado por maravilhosos fins-de-semana na companhia da irmã, regados a muita conversa, chocolate e risadas. Era estranho ver a irmã tão à vontade, a funcionária do alto escalão do Departamento de Execução de Leis Mágicas, de pijama na sala, comendo chocolate e falando bobagem até o amanhecer.

Agatha se tornara alvo constante das brincadeiras de James, que jurava para quem quisesse ouvir que Agatha era descendente direta da Dama Cinzenta, o fantasma da Corvinal. Diversas vezes ela o pegara pregando peças nos colegas, ele roubava o antigo relicário de Agatha, um presente dado pela sua avó, e afirmava que quem estava no retrato era a própria Rovena Corvinal. Em uma das vezes, James até ganhara alguns galeões de alunos do primeiro ano, ele cobrava para que os alunos encostassem no seu relicário, dizendo que o simples toque dariam poderes para que os alunos se saíssem bem em qualquer teste.

Após um bom tempo, Agatha decidira-se. Queria ser auror. A irmã Amélia ficara feliz, seu irmão Ed, receoso, não queria a irmã arriscando-se, já que a guerra era cada vez mais iminente. Mas para Agatha, esse fora o fato que a fizera decidir pela profissão. Queria combater as injustiças, tinha uma idéia romântica da profissão, queria ser útil de alguma maneira.

Com a decisão tomada, vieram os primeiros problemas. Agatha precisava de NOMs, alguns seriam fáceis, outros, nem tanto. Ela tinha certeza que conseguiria as notas exigidas em Feitiços, Transfiguração e Defesa contra as artes das trevas. Mas era em Poções que pairava seu verdadeiro medo.

Mais uma vez, Lily viera em seu socorro. Lily era extraordinária em Poções, algumas vezes Agatha sentia uma inveja secreta da amiga, frente aos elogios rasgados dados pelo professor Slughorn. Pela falta de talento para a matéria, Agatha teria que se desdobrar para aprender.

Passava a maior parte do seu tempo livre na biblioteca, perdida em meio aos livros.

Para evitar os alunos ruidosos que sempre havia no local, optava por sentar-se mais ao fundo da biblioteca, onde os raios da luz do sol não a alcançavam, um lugar opressivo e frio.

Nessa época, sempre havia na biblioteca outro companheiro solitário de estudos, Snape. Desde o episódio com Lily, houvera uma piora em sua aparência. Enquanto Lily parecia se tornar cada dia mais espirituosa e alegre, Snape se tornara mais pálido, arredio, cascatas de um cabelo sem vida e negros encobriam sua face. Mas a mudança era apenas física, seus modos intratáveis continuavam os mesmos. Agatha gelava ao pensar no tipo de pessoa que ele vinha se tornando, calafrios percorriam o seu corpo ao pensar que talvez, quando se tornasse uma auror, era exatamente Snape e seus amigos quem ela combateria.

Lembrava-se claramente de certa vez, ao chegar na biblioteca lotada, fora obrigada a sentar na mesma mesa ocupada por Snape. Ele levantara os olhos, puro ódio no olhar. Agatha fora perfurada por um olhar que mostrava uma ira genuína e pura.

- As outras mesas estão ocupadas, desculpa, vai ter que me suportar – desviando os olhos dele, puxando uma cadeira e sentando-se.

- Não fico no mesmo lugar que uma amante de sangues-ruins se puder evitar -a resposta veio cortante como uma navalha.

Agatha, naquele momento, fora impulsionada por uma força invisível que a fez levantar derrubando a cadeira, puxar rapidamente a varinha de dentro do bolso do casaco e aponta-la para Snape

-Aqua Erupto! – Um jato forte de água irrompeu de sua varinha atingindo Snape na face. – Para lavar a sua boca suja e seu cabelo seboso, seu nojento miserável!

Apenas uma fração de tempo se passou, para que Snape estivesse na frente dela, varinha apontada para o seu peito, uma expressão de ódio no rosto.

-Cruc...-Ele parara no meio da palavra, arrependido.

Sua hesitação fora suficiente para que Agatha se lançasse sobre o colega, esquecendo que era uma bruxa e que tinha uma varinha, derrubando Snape no chão e socando cada parte do seu corpo que podia alcançar.

-Você ia lançar uma imperdoável em mim, Snape? Seus punhos se fechavam em um soco, atingindo a face do colega.

Snape, ainda chocado, tentava se desvencilhar de Agatha, puxando a garota pelo colarinho da blusa.

- Como ousa encostar em mim, sua suja?- com um movimento violento, Snape afasta a garota dele e levanta-se.

Naquele momento, Agatha se dá conta que o delicado fio do seu relicário havia se partido.

-Você quebrou o meu relicário! – Lágrimas surgiam em sua face enquanto ela encarava o seu bem mais precioso, sua face contraída de ódio e dor. Snape parara para observar o objeto partido nas mãos de Agatha, com os olhos contraídos.

- Ótimo, isso é para que aprenda a não encostar em mim, sua adoradora de sangues-ruins. – Snape se vira em direção a mesa, para recolher os seus livros, quando a figura de Lily surge na sua frente.

Lily mantinha-se quieta, uma expressão de repulsa no rosto ao olhar para Snape, seu rosto ficando tão vermelho quanto os seus cabelos.

Mas Snape não se assustara, parecia estar pressentindo que Lily poderia chegar. Continuou a guardar seus livros dentro da mochila, lançando um olhar para as duas garotas, Agatha sentada no chão, roupa rasgada, com o seu relicário entre os seus dedos e Lily de joelhos, consolando a amiga. Com desprezo, Snape coloca a mochila nos ombros e sussura antes de partir:

- Tome cuidado, Bones. Você e os seus amigos não estão livres de...acidentes...- usando propositalmente um tom mais pausado ao pronunciar a última palavra, enquanto caminhava para fora da biblioteca.

Agatha e Lily ficaram lá, sentadas no chão da biblioteca, Lily consertando o relicário, assistida, de perto, por estudantes do primeiro ano que pareciam achar o episódio muito mais divertido do que estudar para a prova de História da Magia que teriam no dia seguinte.

Depois desse episódio, Agatha sentia o seu ódio por Snape aumentar a cada dia. Sentia certo estímulo vindo de Sirius e James, que pareciam se divertir pensando no momento em que Agatha se tornasse uma auror e que poderia então, levar Snape a Azkaban.

-Prometa-me Agatha, querida, que se houver oportunidade você lançará um Avada no Ranhoso? – James pedia, enquanto estavam sentados no pátio, à sombra de uma grande árvore.

- Não, Agatha, não seja egoísta, prometa que se, houver tal oportunidade, você me chamará para que eu mesmo possa dar cabo dele. – Sirius emendava, entre risos, deitado na grama, sua cabeça apoiada no colo de Marlene.

Agatha lembrava-se do dia da sua formatura, um dos dias mais felizes da sua vida, a cara de felicidade da sua família, Amélia mal cabendo em si mesma de felicidade por ter sido a emissária das boas novas: Agatha fora aceita para o treinamento no Quartel General dos Aurores do Ministério da Magia. A festa, o dia amanhecido em Hogsmead bebendo, Sirius fazendo um discurso, de pé em cima de uma mesa dentro do Três Vassouras, Lily radiante, exibindo um anel de noivado posto naquela mesma noite em seu dedo, Marlene rindo, verdadeiramente feliz, fazendo brindes à amizade verdadeira.

-Queria agradecer a vocês, por fazerem a minha vida tão maravilhosa. Queria brindar às melhores amigas que alguém poderia ter, aos meninos, por fazerem de Hogwarts a melhor época da minha vida e a Sirius, por me fazer acreditar que a vida é realmente melhor depois de algumas cervejas amanteigadas – Marlene levantava o copo, seguido por todos, em meio a risadas de aprovação.

Lembrava do dia, após o começo do namoro com Edward, que ela resolvera que estava na hora de revelar que era uma bruxa. Treinara por dias a fio com Lily as palavras certas que iria usar, mas não estava preparada realmente. Fora um momento confuso e engraçado.

-Edward, eu preciso te contar uma coisa...- ela não tinha muito tato, era a primeira vez que ela se sentia na obrigação de fazer uma revelação dessas para alguém.

-Você está grávida! Tudo bem, nós podemos casar, vai ser uma alegria ter um bebê, olha eu te amo, tenho certeza que te quero na minha vida para sempre. – puxando Agatha para um abraço apertado.

-Não, Edward eu sou uma bruxa – o som de suas palavras abafadas pelo abraço

-Agatha, você é linda, não se parece nem um pouco com uma bruxa! De onde você tirou isso?- Edward ria, como se ela estivesse fazendo gracinhas, enquanto acariciava os seus cabelos em um gesto delicado.

Agatha se afastava dele e puxava a sua varinha.

-Olhe! – Sarah conjurou um copo de água com açúcar e entregou para que ele bebesse. – Acho que você vai precisar disso.

Agatha lembrava rindo do que se seguiu. Edward tomava o copo da sua mão, com uma expressão confusa e estarrecida, bebia a água de um só gole, como se tivesse visto um fantasma.

-Vem, a gente tem muito a conversar. – Agatha estendia a mão, que foi pega por um Edward ainda trêmulo conduzindo-o até o sofá.

Vinha a sua cabeça, as lembranças da comemoração particular com Edward, após ele ser nomeado o curador do museu em que trabalhava. Passaram um fim-de-semana inteiro em um hotel aconchegante no campo, fazer amor com Edward sempre fora delicioso, uma sensação única. Seus modos gentis, o som da risada que iluminava o seu coração, sua conversa agradável, tudo em Edward era maravilhoso.

Fora uma surpresa para a família quando , dias após terminar Hogwarts, decidiram se casar. Todos achavam que era muito precipitado, que o treinamento para auror consumiria suas energias, que ela deveria estar focada nisso. Mas para ela não importava, o essencial era ter Edward ao seu lado, se ele estivesse, ela poderia dar um jeito em todo o resto.

Mais espantoso ainda, fora quando alguns meses após casados, Agatha engravidara. No início ela se desesperara. Não conseguia imaginar como poderia conciliar o casamento, a profissão e um bebê. Lily e Marlene mais uma vez, se mostraram leais, mostrando um lado positivo que Agatha não conseguia ver a princípio.

-Vai ser muito legal. Imagina você chegar em casa e ver uma cópia de Edward pulando por aí?- Lily dizia, dando risadas excitadas acompanhada por Marlene.

-Ah, e se tudo der certo, também providenciarei um mini James em pouco tempo, para sair com o mini Edward, ou namorar a mini Agatha, quando eles crescerem! – Lily sonhava, enquanto acariciava a sua aliança.

A pequena Sarah nascera, mais um presente para uma Agatha que se achava afortunada demais pela vida que tinha.

A vinda da pequena Sarah fora o elo para todos em sua volta. Nos primeiros meses de vida, Lily e Marlene passavam a maior parte do dia na sua casa, cuidando da criança, Lily parecia sonhar acordada, planejando os detalhes do seu casamento, enquanto embalava uma pequena Sarah para que pegasse no sono.

O casamento de James e Lily fora um evento emocionante, porém triste. Lembrava-se de Lily, olhando a todo instante para a porta do salão, esperando ver surgir a sua irmã trouxa. Mas ela não fora, o que deixara seu semblante triste e um James preocupado.

Mas outra pessoa aparecera. Mesmo coberta por uma capa que escondia boa parte do seu rosto e ficando na porta do salão, Agatha o reconhecera enquanto atravessava o ambiente a procura de um banheiro para a pequena Sarah.

Rapidamente, largara Sarah no colo de Marlene e fora até a porta, apertando a varinha com força dentro de seu casaco, o coração disparado.

- Está cheio de aurores aqui, vá embora!- Agatha sussurrava as palavras, tentando se controlar para não azara-lo.

Não precisou de uma resposta dele, seu olhar expressava o mais completo ódio. Fitou Agatha como se quisesse matá-la ali mesmo, apenas com a ferocidade com que a encarava. Sem dizer uma palavra ele virou as costas e sumiu em meio aos arbustos que ornavam o exterior do salão.

E por dois longos anos, Agatha não o vira mais, mesmo sendo procurado pelos aurores, durante esse tempo, jamais se soubera do seu paradeiro.