Capítulo 3º - Devaneio.
"De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como
a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos
espalmadas fez-se o espanto."
(Vinícius de Morais, "Soneto da Separação")
- Que cara mais deprimente, Pads. Nem parece que você está vivendo uma sexta-feira.
Talvez se James ficasse quieto não teria recebido em sua cabeça um livro grosso, pesado e de folhas amarelas como característica própria – também nomeado Estudo dos Animais Sulistas.
- Ele ainda está pra baixo?!
O primogênito dos Black apenas virou os olhos para encarar Remus. O amigo estava apenas coberto pela toalha de banho e com os cabelos desgrenhados e molhados. Pingavam no chão.
Bem sabia aonde Remus iria. Bem sabia aonde ele mesmo iria. Os dois indo para lugares errados.
- Qual é, Padfoot! É a detenção desta semana!
O peso do corpo de James caiu sobre as costas do moreno – que parecia ter morrido e sido esquecido ali na cama. Apesar do gemido em prol da respiração cortada por segundos quase cruciais, Sirius não se movimentou.
Pensava.
Se a porcaria daquele tinteiro explodiu fora por causa única de Remus. Remus deveria ir à detenção enquanto ele deveria sair para encontrá-la.
Ela.
Aquilo já estava ficando ridículo demais. Ela nem era bonita assim. Não, não era. Era?! Claro que era e sua cabeça, em hipótese alguma, discordaria. Nem o coração, nem os olhos e nem o sangue que percorria o corpo em velocidade estrondosa quando ela mirava o sorriso reluzente concordariam.
- ... e a Lily chegou e usou aquele velho discurso dela. Quer dizer, ela muda as palavras, mas o contexto é o mesmo. Tá, eu sei que eu faço isso só para irritá-la, mas gente, é o Ranhoso. Como é que eu ia descobrir que ela toma as dores dele também?
James falava com tal veemência que Sirius só o escutava atentamente devido às expressões faciais que o amigo de óculos fazia.
- Achei que depois de sete anos convivendo de uma forma muito
estranha com ela, você já soubesse que a sua ruiva é
a defensora dos fracos e oprimidos. – Comentou o moreno, abrindo o
melhor sorriso para algumas meninas que passavam, encantadas.
Seu
charme era indiscutível – e irresistível. No momento
em que quisesse, teria qualquer garota de Hogwarts estirada sobre uma
cama, em qualquer quarto.
- Eu sei disso! Mas Pads,
é o RANHOSO!!!
A indignação do
melhor amigo o fez rir e o distraiu. Segundos depois, pôde
sentir uma pequena massa corporal antecedida por livros chocar-se ao
seu corpo. Em seguida, as dores nas costas devido ao impacto destas
com o chão.
Sentando-se, largado, sem
qualquer decência, passou a mão pelos cotovelos que
também haviam atingido o piso violentamente. Olhou para
frente, pronto para ultrajar a criatura que ousara andar num sentido
contrário ao dele.
O cérebro humano é
uma máquina interessante. Ele é capaz de associar
pequenas coisas com lembranças mínimas que já
quase foram apagadas ou esquecidas.
Apenas
vislumbrou os cachos castanhos à frente dos ombros, por causa
do choque de corpos, e o cheiro de pitanga lhe inundou as narinas.
Até sentia o gosto.
Num salto, quase como se
fosse seu último palpitar, o coração pulsou em
seu interior. Sentia o sangue pulsar em vários pontos do
corpo, principalmente próximo à garganta.
-
Desculpe, Black!
Ao ouvir a voz doce - e agora
aflita -, pensou que já não mais conseguiria puxar o
ar; coisa que fazia apenas para continuar vivo e poder olhar para
ela.
Ela levantou-se em um salto, delicadamente, e
começou a puxar para perto de si todos os livros e folhas que
haviam caído. Ele fez o mesmo e até pôde sentir
as mãos quentes da corvina, o que lhe causou um pequeno
arrepio no braço.
- Desculpe, Black...- Os
olhos encontraram-se com os seus e o arrepio propagou-se até a
espinha. - Obrigada, Remus.
Sirius olhou para uma
quinta mão e a reconheceu. Com os olhos, subiu pelo braço,
ombro, pescoço e realmente viu a cara bonita do amigo lupino.
Engoliu seco. Desgostou quando ela o chamou pelo nome.
-
Pardon, Black.
Pedia desculpas como se soubesse o
que ele pensara antes de descobrir com quem havia se chocado.
-
Tudo bem, Noir.
Por que era tão difícil
encontrar voz para o que queria dizer a ela?! Pensaria nesta resposta
mais tarde, depois de muito apreciar a voz dela pedir desculpas em
sua língua-mãe.
O seu sobrenome, dito
pelos lábios tão bem cobertos pela fina camada do
cosmético labial cor bege, tomava um leve sotaque francês,
porém, quando antecedido por uma palavra dita no idioma,
ficava completamente afrancesado.
Como ela falava
bonito!
Observou um sorriso ascender na face ligeiramente
sardenta.
- Merci, Remus.
Não
gostou daquilo. O mesmo sorriso dado a ele, dirigido a outro, mesmo
que 'o outro' fosse seu amigo. O sorriso que nascera pelas
simples palavras dele, mirando o rosto de um terceiro.
Foi
quando sentiu os olhos acinzentarem-se.
- Não
por isso, Francine. – E amigo retribuiu o sorriso com um outro,
largo. – Precisa de ajuda para levá-los à
biblioteca?!
- Não precisa se incomodar.
Severus me ajudará.
A educação
exalada apenas com palavras e sem alteração de voz...
Severus?! Severus era o Ranhoso! Por que ele a ajudaria?!
Mas
os pensamentos de Sirius – e talvez os de Remus, devido à
sua expressão incompreensível – foram cortados quando
um par de pernas passou por eles, rapidamente a ponto de levantar
algumas folhas que ainda estavam no chão.
-
O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO, POTTER?!
Os
três viraram as cabeças e puderam ver a imagem de um
Severus Snape suspenso no ar e um James Potter sorrindo do jeito
singular que somente ele e seu bando sabiam sorrir.
-
Sinceramente, acho que ele não poderá fazer muito por
você agora... – Falou Sirius, não sabendo se ria de
Snape ou se pulava no pescoço do amigo por atrapalhar o
momento.
Ela abaixou a cabeça e entregou
todos os livros aos braços de Remus:
- Por
favor, Remus, leve-os à biblioteca porque eu tenho que...
Mas
jamais terminaria a frase, pois, naquele momento, levantou-se e
caminhou em direção a James.
- Eu te
ajudo, Moony. – Disse Sirius.
Os dois repartiram
a imensa pilha de livros e começaram a caminhar pelos
corredores – em silêncio.
- Eu até
entendo de uma maneira muito grotesca e de difícil raciocínio
a obsessão de alguns por livros, mas igual a esta garota...! –
Sirius já sentia os braços dormentes quando, por fim,
chegaram ao balcão da biblioteca.
Remus
apenas riu.
- O que foi?! – Black continuou. -
Nem mesmo você anda com vinte e três livros para cima e
para baixo!
- É que, bem, ela é
diferente de alguns aqui dentro.
Percebeu a
felicidade do amigo em dizer aquilo.
- Não
sei... – O moreno assinou um formulário, explicitando estar
ciente da devolução dos livros - Sempre achei que James
e eu éramos os estranhos aqui. Todo mundo lê neste
castelo!!!
- O que é meio estranho, já
que este castelo é uma escola.
Eram raras as
vezes em que Remus utilizava de seu sarcasmo, mas quando o fazia,
Sirius admitia o quão maroto o amigo era.
-
Ela dá aulas, Padfoot.
Quem em sã
consciência daria aulas?! Já não bastavam as que
eles tinham?!
- Ao julgar a sua cara, sei que acha
isso um absurdo. – Remus falou.
- E por acaso não
é?!
- Não!!
Os
olhos castanhos claros de Remus brilharam logo em seguida. Sirius
podia ver de onde surgiam os pontinhos reluzentes dentro de suas
íris; vinham de se interior. A pele de Moony fez-se levemente
avermelhada e fio de sorriso envergonhado surgiu.
-
Ela gosta de ajudar, Pads. Só isso.
Respirou
fundo tentando assimilar o que o amigo estava falando, porém,
não gostava do que o corpo dele lhe dizia.
Falava
em palavras claras que o coração só batia por
causa da francesinha. E ele não gostou.
-
Por que tenho a sensação que há algo a mais
sobre ela que você não nos contou?!
Queria-a
desde então.
Lembrar do dia em que a presença de Remus passou a ser um
fardo para si era desgastante. A rapidez com a qual ele lhe falava
sobre a castanha e de como se conheceram incomodava os ânimos
de Sirius.
Era a primeira vez em que o sentimento traiçoeiro
se acomodava em sua cabeça.
Caminhava pelos corredores
escuros até a sala do professor com os passos pesados. Passou
por um dos tantos retratos de Hogwarts e ouviu o comentário de
um bruxo pintado. Sirius
parecia um vilão minimalista em suas expressões dava
impressão de estar sedento por vingança. Mas não
queria vingança; queria, de certa forma, causa dor.
-
Entre logo, Black.
O espectro sem expressões faciais
adentrou o recinto devagar, deixando com que a voz do professor
animasse-lhe o humor.
- Dê-me sua varinha e qualquer outra
coisa que você possa ter enfeitiçado!
Mas ele nada
continha consigo. Esquecera de tudo no dormitório enquanto
sentia raiva de Remus por passar colônia para vê-la.
Explicou-se, então, o que teria de ser feito. Ouviu a
todas as instruções atentamente, sem ao menos tentar
dissuadir o docente. Terminaria tudo aquilo rapidamente, pois bem
sabia aonde iria depois.
A sofreguidão que sua boca tocava sobre o colo dela não era exasperada, mas necessitada. Correr os dedos pela curva de suas costas era sentir entre as grandes mãos a delicadeza escondida por baixo das vestes de colegial.
Subia pelo pescoço, vendo-a pender a cabeça para trás e deixar escapar entre a garganta um gemido mínimo. As mãos pequenas segurando em seus ombros, largos, e ele a saborear-se com o gosto adocicado da dona.
Os joelhos postos um ao lado do outro, os seios aproximando e roçando-se sobre o peito desnudo dele. A respiração ofegante. O ápice de toda a luxúria que conseguia ter dentro de si.
A cada toque dela, tímido, receoso, em suas costas, sentia os músculos arderem em brasa. Sentia dentro de si cavalos a correr desesperado, querendo espalhar aquela mínima sensação pelo corpo todo.
As bocas grudadas, ávidas, desejosas, exigindo o gosto quente uma da outra; sendo cobiçadas pela busca incessante das línguas. Trilhou beijos ferozes até a orelha e apenas deixou escapar um breve sussurro, som misturado ao timbre de sua voz, rouca e grave, com um toque sensual misturado ao eterno instinto sedutor.
Ele a desejava, devorava-a com as mãos, com a boca. Queria mais dela. Queria poder mais que apenas a tocar e beijar sem pudor algum.
Ele já bem sabia o que era: adorava-a em sua exatidão literária. Ele a venerava.
A pele branca lhe dava o prazer do toque íntimo com a boca, enquanto a dona ria com os arrepios e cosquinhas que ele fazia. Subia pela extensão morna das costas, aos poucos, sem pressa, degustando cada centímetro que tanto desejara. Quando tocou o pescoço, estremeceu e deixou outro riso ecoar-se.
- Eu quero afogar-me em sua boca. – Disse e, assim, a castanha virou-se para ele de frente, encarando os olhos que a possuíam sem consentimento. Fitaram um ao outro por alguns segundos e, então, ele abocanhou a vermelhidão que eram seus lábios.
Um beijo sôfrego, quente, devorador. A língua dele dentro da boca virgem, fazendo o máximo que ela podia para saciar a vontade descontrolada de seu dono. O batom manchando seus rostos, as mãos passeando por suas curvas como se elas já não tivessem explorado cada uma o bastante. O desejo dele na voracidade de seus atos.
Sim, amava-a e não negava.
Acordou embevecido. Tateou a mão grande pela cama e sentiu o
pulso de um ser feminino. Queria olhar, vem quem era e deixar sua
mente deleitar-se com aquele prazer saciado da carne que tanto
cobiçava.
Mas não olhou.
Era melhor imaginar a
doçura da francesa e acreditar consigo de que a teve naquela
noite a virar a cabeça em um breve movimento e acabar com
todos os seus delírios.
Que vivesse daquela singular
ilusão!
Viu, durante toda a necessidade carnal, as longas
madeixas castanhas grudando a pele que já brilhava em fastígio
(?) desejo. Sentiu em seus toques morosos as sardas que se fazem
tímidas no rosto. Saboreou a tepidez de sua língua, em
constante contato com a sua, mortificando tal ato como profano.
Corrompera a pureza da garota que lhe atiçava as veias.
Viveria em seu próprio devaneio, acreditando ter amado uma
vez em lençóis de seda à champanhe.
Sem
olhar, esticou dois dedos, criando um toque mínimo que antes
não havia. Arrependera-se. Com a ponta dos dedos, seu riso
fora trocado por um choro preso em algum lugar. Engoliu seco. As
unhas compridas demais desanuviaram sua felicidade em instantes
rápidos.
Não olhou. Já sabia. Não a
tinha deitada ao seu lado.
Levantou sem expressão alguma.
Talvez o canto de seus lábios estivesse mais caído, e
seu estômago mais encolhido, mas jamais saberia responder isso
a si mesmo com certeza. Nem tinha muita idéia se respirava
porque precisava ou porque ainda não deveria morrer.
Deixou-a
sozinha. Cabelos negros. Tão negros quanto os seus.
Caminhou
pelos corredores, de forma imperceptível para os quadros
fofoqueiros. Pensava em Remus e onde ele estaria agora. Já
teria voltado para o dormitório?! Parou de andar por um
instante. E se fosse atrás deles?!
A idéia era boa,
se não fosse pelo pequeno detalhe de James estar com o Mapa
dos Marotos. Mas quem se importava?! Ele estava sozinho e solto por
Hogwarts e ninguém aparentava se importar com a sua presença.
Iria atrás deles. Precisava vê-los juntos.
A cada
porta entreaberta que encontrava, abria e metia a cabeça para
dentro. Mas em todas, não havia ninguém. Só
havia um lugar para espiar ainda: o jardim. Queria descartar a opção
quando levou em consideração o... Remus.
Engoliu
seco.
Sua cabeça já havia desvinculado o jovem
licantropo. Não podia ser! Aquilo todo era mais perda total de
sanidade: era tortura! Remus era seu amigo. Claro que era. Podia
sentir isso!
Passou a mão pelo rosto e, em seguida, nos
cabelos. Estava mais que desesperado. O que aquela garota fizera com
ele em tão pouco tempo? Conhecia a Remus muito mais do que
ela, conhecia como o garoto pensava e agia, os seus ideais e suas
aversões. O que sabia dela? Que era doce, meiga e afável?
Que era querida por toda a Hogwarts e que era a boa samaritana dos
alunos que não entendiam as matérias e morriam de medo
dos professores?! Que tinha os cabelos mais cheirosos que já
sentira, a pele mais aromática, o sorriso mais branco e todas
aquelas outras características que antes passavam
despercebidas pelos seus olhos?!
Motivos demais, Black pensou.
Tentou se acalmar. Não colocaria em jogo uma amizade por causa
de um fetiche qualquer, certo? Mas se era um fetiche qualquer, porque
estava impregnado em sua cabeça assim como nos pêlos que
nasciam por toda a extensão do corpo?
Preferiu voltar para
a torre de Gryffindor. Ao dormir, os pensamentos esvair-se-iam –
pelo menos assim desejava.
Tentou fazer o mínimo de
barulho possível quando adentrou ao dormitório. Viu
James estirado sobre a cama como se os limites desta fossem
inexistentes e Peter roncando – antes isso do que as flatulências.
E, para sua surpresa, Remus dormia encolhido sobre as cobertas com um
sorriso no rosto.
Algo havia acontecido.
