4. Almas partidas

Agatha já estava com saudades do marido e da filha embora fizesse apenas um dia que os dois haviam viajado. Olhava um pequeno porta-retratos da família enquanto pensava onde eles estariam em uma hora dessas. Edward precisara viajar para Paris, e mesmo com toda a relutância de Agatha em deixar que ele levasse a pequena Sarah, a felicidade estampada na carinha feliz da filha foi suficiente para fazê-la mudar de idéia. Era estranho não ter a filha e o marido quando chegava em casa. Os dois enchiam o ambiente. Agatha ficava mais apavorada ainda ao se dar conta de que a filha, a cada dia que passava, se tornava mais parecida com o pai. Não apenas na aparência física, mas também em personalidade. Os dois eram de espírito livre, brincalhões, riam com facilidade. E era assim, perdida em pensamentos sentada na sua mesa, que ela voltou à realidade.

Não precisava tirar os olhos do porta-retrato para saber que Moody estava chegando ao Quartel General dos Aurores no Ministério da Magia. Foi o seu passo apressado e seus resmungos quem anunciaram a sua chegada.

- Bones, mexa-se! Quer caçar um rato? Essa é a hora.- Moody pegou a sua capa de viagem atrás de sua cadeira e saiu troteando pelo corredor com Agatha em seu encalço.

- Não admito erros, não admito falhas. Localizei Rosier. Parece que ele se acha chegado demais a Voldemort para se preocupar em ser rastreado... é o que eu digo sempre...VIGILÂNCIA CONSTANTE! – Moody berrou, pegando uma Agatha de surpresa que deu um pulo sobresssaltada.

Durante o trajeto, Agatha começou a desconfiar de que aquela manobra deles fosse apenas mais um dos surtos de Moody. Ela odiava o tipo de estratégia que ele usava, mudando o percurso diversas vezes para evitar ser seguido, fazendo até seus ossos rangerem cada vez que ele sugeria uma mudança na direção.

Quando chegaram ao local, Agatha estava mais do que convencida de que aquele lugar não poderia ser o esconderijo de ninguém, talvez apenas dos ratos gigantes que passavam em disparada quando ouviam passos e eram capazes de derrubar as lixeiras da rua imunda.

O local era deserto, imundo, abandonado. Ao longe, se via um pequeno casebre de madeira, tão instável, que poderia apenas se manter em pé pelo uso de feitiços.

Moody apontou o seu dedo em riste para o casebre:

- Lá, é lá que o rato se esconde. Se puder me acompanhar. Você entra pelos fundos, eu vou pela frente.

Moody agarrou Bones pelos ombros

- Você sabe o que fazer, desarme-o, se ele mostrar alguma hostilidade, mate-o. Você está preparada caso precise matá-lo? – o tom de voz usado pelo auror não era propriamente um pedido, os seus olhos fuzilavam Agatha como se a recriminasse por querer o bruxo vivo, mesmo que ela nunca tenha dito o contrário

Agatha respirava pesado e profundamente. Nunca, em seus 2 anos na profissão, precisara matar alguém. Isso era trabalho para os sujos, não para ela. Ela partia da premissa que todos mereciam serem julgados, independente de quem era.

- Estou, eu acho

-Ótimo, boa menina. – o tom de voz dele agora era mais brando, como se estivesse elogiando uma criança por uma boa nota na escola. –Então vamos.

Moody agilmente puxou a sua varinha de dentro do casaco e desceu o pequeno monte, velozmente, como se deslizasse.

Agatha, com um suspiro pesado, o seguiu.

Ela nunca conseguiu estabelecer uma seqüência lógica para o que se passou em seguida, quando os dois adentraram a casa, um barulho surdo de algo pesado caindo, os gritos horríveis que veio em seguida de dentro da casa, um Moody caído e ensangüentado e ela, atingindo Rosier no peito e estuporando-o, usando os seus escassos conhecimentos em feitiços curativos para reanimar um Moody que se esvaía em sangue com o rosto desfigurado.

-Não se atreva a morrer, não se atreva Alastor!

Ela passava a varinha sobre o rosto do colega, murmurando feitiços, de olhos fechados, temendo que estivesse fazendo algo errado, machucando-o mais.

E por um longo tempo foi assim. Agatha trabalhando febrilmente em cima do amigo, conjurando curativos enquanto continha o nojo pelos ratos que tentavam se aproximar, atraídos pelo cheiro de sangue.

Fizera o melhor que pudera para conter o sangramento de Moody, então, voltara a sua atenção para Rosier. Pega a sua varinha e tomada por uma fúria incontrolável a quebra ao meio.

-Você não vai mais precisar dela, seu nojento.

Rapidamente, Agatha conjura cordas, e certifica-se que ele não poderia se desamarrar. Aponta a varinha para ele

-Enervate!

Lentamente o bruxo abre os olhos. Um vento frio faz-se sentir em todo o corpo de Agatha, como se o olhar do bruxo pudesse congelá-la inteira. Por um momento os dois ficam em silêncio, se encarando. Agatha não queria quebrar o contato visual, como se isso pudesse atestar de alguma maneira que ela era mais fraca. Lentamente, o comensal parece reconhecer o rosto de Agatha e dá uma gargalhada.

-Ora, ora, se não é a irmãzinha de Edgar! Acha que está brincando de quê, sua tola? A uma hora dessas já era para você e toda a sua família imunda estarem mortos.

Agatha sente o seu coração disparar

-Está falando do que seu nojento? – aos berros, sem conseguir se manter impassível

Mas o bruxo nada respondeu. Limitava-se a ficar olhando para ela, com um olhar debochado percorrendo a sua face.

Foram os gemidos de um Moody que voltava a sangrar que chamaram a sua atenção. Não havia muito tempo para ele, Agatha resolve sair da casa e enviar um sinal para que fossem localizados. Um patrono emergiu da ponta de sua varinha, um grande cachorro. Não tinha como ela aparatar carregando duas pessoas, era perigoso, poderia haver uma fuga, ou até pior, poderia perder Moody no caminho.

Agatha foi tomada de susto, quando apenas alguns momentos depois de enviar o sinal, aparata dentro da cabana Kingsley, seguido por outros 3 aurores. Ele tinha um semblante triste quando se aproximou dela.

- Moody está muito machucado, conseguimos pegar Rosier, mas Moody está muito ferido, ele precisa ser levado ao hospital imediatamente!

Kingsley a encarava com medo, acuado, como se ela oferecesse algum tipo de perigo.

-Kin, acorda, estou falando com você!

Kingsley, sem deixar de encará-la, exclama para os outros aurores.

-Levem-nos, eu vou com Agatha.

Alguma coisa estava muito errada. Nunca tinha visto Kingsley agir dessa forma, como se tivesse medo dela.

- Venha comigo- Kingsley agarrava o braço de Agatha, enquanto aparatava com ela.

Sem fôlego, Agatha deixou-se levar, até a entrada de uma casa nos arredores de Londres, uma casa conhecida, a casa onde morava James e Lílian.

-Entre – a voz rouca e ressonante de Kingsley soava bem mais como uma ordem do que um pedido.

Com o coração em disparada, girou a maçaneta. O contraste entre a claridade de fora e a semi-penumbra que se encontrava no interior do aposento, obrigaram-na a espremer os olhos para que acostumasse com a diferença de luz. . Aos poucos foi conseguindo ter uma noção do que se passava lá dentro.

Sentados em um sofá estavam Lílian e James. Lílian chorava abraçada a James que se conformava em sussurar baixinho em seu ouvido e embala-la como se fosse um bebê. Ao seu lado, estava Remus, pálido, com suas roupas rotas e um semblante triste. Peter estava lá, parecendo curioso, assustando-se a cada movimento no interior da sala.

Em um canto, Agatha viu Aberforth, Doge e mais um outro senhor, que pararam de cochichar no momento em que a avistaram.

Mas o mais doloroso, o que fez o seu corpo inteiro tremer, foi ouvir o choro alto e convulsivo que vinha do andar superior do aposento. Os lamentos do homem perturbavam-na, como se nele houvesse uma dor que jamais seria apartada. Seu coração parecia que ia quebrar de tristeza, mesmo sem saber até então o que estava acontecendo, dor por ter reconhecido quem chorava. Era Sirius.

Uma presença surgiu no alto da escada. Dumbledore, imponente, sua face emitia uma aura de poder, como Agatha jamais havia visto na vida.

- O que está havendo aqui?

Agatha olhava para todos esperando uma resposta, mas as pessoas pareciam não conseguir encara-la nos olhos, baixavam as cabeças. Lily era mais apertada contra o peito de James, lágrimas sendo sufocadas.

-Agatha, tivemos uma tragédia terrível. – Dumbledore descia as escadas enquanto falava.

Apenas a menção da palavra tragédia foi suficiente para que Agatha corresse em direção a escada.

-Não a Marlene...não...não...! – a garota ia sussurrando, enquanto subia os degraus querendo ver Sirius. A única coisa que passava pela sua cabeça naquele momento era abraçá-lo.

-Não perdemos apenas Marlene hoje – Dumbledore sussurrava, um tom de voz triste, fraco.

Agatha se vira em direção a ele do alto das escadas.

-Como assim não apenas Marlene? – ver o corpo de Lily contorcendo-se em um tremor triste e o rosto contraído de Remus foi suficiente para que a verdade a deixasse tonta, enjoada. "A uma hora dessas já era para você e toda a sua família imunda estarem mortos". Parada no alto das escadas, Agatha agarra-se no corrimão sentindo que poderia desmaiar a qualquer momento. Fecha os olhos, segurando as lágrimas e lentamente, volta a caminhar até o aposento onde Sirius se encontrava.

Alguns momentos depois, um urro de dor foi ouvido por quem estava no andar debaixo.