Traga-me a dor
Por duas semanas seguidas, Agatha chorou. Seus dias se resumiam entre o tempo entre o cair de uma lágrima e outra. Por 15 dias Agatha ficou em casa, alheia a tudo, sem querer ver o seu marido e a pequena Sarah. Pensamentos de vingança assolavam os seus dias e suas noites. Era a vingança quem a mantinha viva. A fome por justiça era o propulsor de sua existência.
Se nos primeiros dias, a dor da perda e as saudades foram a sua companhia, nos dias seguintes, foi o desejo de vingança. Agatha usava de sadismo, tentando imaginar de que forma cada um deles fora morto. Elaborava reconstituições mentais de como tudo havia acontecido, as palavras de Ed em seu último encontro ecoavam em sua mente: " E você sabe que Mulciber e Snape estão me caçando, como você acha que eu me sentiria se colocasse você nisso?"Mulciber...Snape...Agatha frequentemente fechava os olhos, delirante, sonhando com o momento em que encontraria ambos e o que viria em seguida, a tentativa de amortecer a dor pela perda de seu irmão, cunhada e sobrinhos através da vingança.
Por diversas vezes Dumbledore esteve em sua casa, pedindo que fugisse com o seu marido e filha. Nesses encontros, Dumbledore olhava nos olhos dela, não com pena ou simpatia, mas com medo, como se pudesse ler o que se passava em sua cabeça.
Edward não agüentava mais a ausência dela. Mesmo presente em corpo, era o seu espírito que estava ausente, Agatha já não era a mesma.
Aconselhado por Dumbledore, Edward resolve aceitar o convite para um cargo em um museu em Paris, Edward via essa decisão como a única capaz de salvar sua esposa da loucura de seus pensamentos. Por muitos dias, Edward era quem cuidava da pequena Sarah, que chorava de saudades da mãe carinhosa a quem estava acostumada.
Edward nesse tempo, começa a programar a mudança da família para a França enquanto Agatha decide que era tempo de voltar ao trabalho.
Somente Alastor via a volta de Agatha com bons olhos, os demais colegas olhavam para ela com medo e pena, eram capazes de desviar o olhar do dela, como se ficassem envergonhados por não sentirem nem uma pequena quantidade da dor que ela sentia.
Em pouco tempo, Agatha torna-se a auror com mais capturas de comensais, atrás apenas de Moody. Ela vinha se tornando uma desconhecida para os seus colegas e amigos. Agatha não era mais uma pessoa agradável, não ria, se irritava com facilidade e parecia sempre prestes a explodir com todos.
Os pensamentos vinham em turbilhão até ela, sentada na cama, lembrando do que ocorrera.
" Venha para o Ministério agora, capturamos uma infinidade de objetos impregnados com artes das Trevas e precisamos de um auror" Agatha recebera uma coruja do Ministério e mais do que rapidamente colocara uma capa sobre os ombros e saíra.
Fora uma noite trabalhosa em que ela passara diversas horas sozinha, tentando reverter todas as maldições que havia nos artefatos. Mas na madrugada, após o término do trabalho, as suas preces mais secretas foram atendidas, sob a forma de uma coruja anônima enviada ao Esquadrão:
" Mulciber e Snape estão nesse momento na Sevent Square, número 15".
Agatha conseguia lembrar com exatidão toda a horda de sentimentos que estavam guardados dentro dela e que, com essa coruja, foram libertos. Rasgara o bilhete em mil pedaços e jogara no fogo da lareira de uma das salas do Ministério, não queria que ninguém interferisse no que estava prestes a acontecer.
Seus passos ecoavam no piso de mármore dos corredores do Ministério, era muito cedo e ninguém estava lá naquela hora da manhã.
Ela saíra do Ministério até a frente da cabine de telefone, andando rapidamente até um beco isolado, onde aparatara até a frente do endereço enviado pela coruja.
Agatha sabia exatamente o que estava prestes a acontecer e a excitação pelo que estava prestes a fazer fazia com que ela respirasse profusamente, ondas de frio e de calor misturadas chocavam-se contra o seu corpo.
A auror avança até a frente da casa, puxa o capuz da sua capa para que cobrisse o seu rosto, mantendo a varinha empunhada dentro de seu bolso.
Não havia amanhecido ainda, a luz da lua deixavam a pequena parte do seu rosto aparente atrás da capa com um aspecto fantasmagórico. Menos os olhos, esses refletiam um brilho assassino. Devagar e cautelosamente, Agatha avança até a soleira da porta, ansiosa, com o peito arfando.
Com o punho cerrado, dá uma leve batida na porta da casa, puxando ainda mais o capuz para que cobrisse o seu rosto, mantendo a outra mão dentro do bolso, dedos apertando com força a varinha dentro dele.
Uma fração de tempo depois, Agatha ouve passos e vê a porta abrir um pouco, o suficiente para ver o rosto de quem a recebia. Mulciber. O ódio tomava conta do seu corpo, ela perdera todo o pouco controle que tinha.
Mesmo quando Agatha lembrava do que havia acontecido naquele dia, era preciso apertar os seus olhos para sufocar o ódio que ainda se apossava dela. Não havia arrependimento ou tristeza, apenas a certeza de que se pudesse voltar atrás faria tudo de novo.
-Avada Kedavra!- o feitiço saiu como um urro, de raiva e dor, enquanto observava o raio verde conectando a sua varinha ao peito do comensal, ficara parada, saboreando a vingança ao ver o brilho vital deixar os olhos de Mulciber, enquanto ele caía no chão, aos seus pés.
Agatha escancarara totalmente a porta e avançara para dentro da casa, a procura de sua outra presa. Tomada de ódio, lágrimas acariciavam o seu rosto, ouvia seus passos leves dentro do aposento que parecia abandonado, a mão trêmula e suada que ainda empunha a varinha. Foi encontrá-lo em um quarto no andar de cima da casa, adormecido sobre um velho sofá. Ao se aproximar dele, diversas lembranças vem à tona, estava prestes a matar um velho conhecido. Calmamente, Agatha usa a varinha para cutucá-lo, desperta-lo de um sono leve. Assim que os seus olhos ameaçam abrir-se, Agatha empunha a sua varinha no peito dele, que aterrorizado não esboça qualquer reação.
Devagar, Agatha tira o capuz, cascatas de um cabelo castanho caindo pelos seus ombros, a face dele cada vez mais chocada ao reconhecer quem era ela.
- Sempre sonhei que seria eu a matá-lo. Você não sabe o quanto eu rezei para que fosse eu a encontrá-lo.
Tomada de uma fúria intensa, Agatha o esbofeteia na face, sua aliança deixando uma marca e um filete de sangue que escorria de sua face.
Com um brilho assassino no olhar, Agatha aponta a varinha até seu peito:
-Crucius – tomada de nojo fica observando enquanto ele se contorcia de dor, urrando, a face contraída de ódio pelo que ela fazia.
Agatha avança lentamente até ele, seu corpo extendido no chão, arfando, de olhos fechados, ela nunca odiara tanto alguém quanto odiava ele. Queria estar com o rosto próximo ao dele quando o matasse, queria assistir tudo, queria absorver tudo o que estava prestes a fazer. Lentamente, ela se abaixa sobre seu corpo, colocando a varinha em seu peito.
Em uma fração de tempo que não durara mais que um segundo, ela tem uma surpresa. Sente seu rosto batendo contra o chão imundo, uma pancada tão violenta capaz de deixá-la tonta pela dor. Quando consegue abrir seus olhos, vê Snape apontando a sua própria varinha, roubada enquanto acertava o golpe em sua mão. Ele tinha um sorriso cruel no rosto, os olhos faiscavam com um brilho sádico.
-E agora, Bones? Foi covarde o bastante para me agredir enquanto eu estava vulnerável, estou desapontado com você. Esperava que fosse mais justa com os seus inimigos- ele cuspia as palavras, com aquele tom de voz baixo tão característico.- mas não pouparei a sua vida, vejo que está ansiosa para se juntar ao seu irmão, jamais negaria algo a uma velha colega de Hogwarts.
Agatha permanecia deitada, o rosto contraído em uma expressão dolorosa, lágrimas teimavam em cair, lágrimas que molhavam o seu rosto. Snape apontara a varinha para o seu peito, mas a voz não saiu com a frieza rotineira, era em um tom mais brando, como se estivesse cansado.
-Avada ...-mas Snape não continuara. Agatha apertara os olhos em espera, jamais daria a ele o prazer de ver o terror em seus olhos. Ou talvez continuara? Talvez ela estivesse morta, talvez era isso que acontecia após morrer. Passou algum tempo antes que ela tivesse coragem suficiente para abrir os olhos. Encontrava-se no mesmo lugar, deitada no chão sujo, a cabeça latejante. Levantou rapidamente, preparada para o próximo golpe, mas ele não viera.
Ao olhar para os lados, Agatha se depara com um Snape próximo a janela, olhando para o amanhecer, a claridade do dia banhando o seu semblante, deixando-o com feições fantasmagóricas, semi-humanas.
Vê a sua varinha caída no chão e parte rapidamente para pega-la, antes que ele pudesse fazer alguma coisa. Na verdade, Agatha poderia jurar que ele deixara a varinha no chão de propósito para que ela apanhasse. Antes que pudesse apontar a varinha para ele, a voz que ecoou no aposento fez o pêlo dos braços de Agatha se eriçar.
-Como vai Lílian? – as palavras saíam roucas, um tom de voz baixo, o corpo de costas para ela, o rosto fixo na janela, como se estivesse presenciando uma cena muito interessante que ocorria na rua lá embaixo.
-Está grávida e feliz- Agatha sentia um mórbido prazer em contar a grande novidade a ele, queria atingi-lo de todas as formas possíveis.
Quando Snape se virou e voltou a mostrar o seu rosto, Agatha tinha certeza que a notícia o tinha machucado mais do que se tivesse simplesmente matado-o. Mantinha uma expressão agonizante no rosto quando avançou até ela .
- A senhora não iria me matar? – parando na frente dela, erguendo os braços, mostrando que não faria qualquer objeção. - vejo que é covarde até para isso-, ele avançara perigosamente até ela, mantendo o seu rosto alguns centímetros de distância do dela- caso não se oponha, estou indo, aconselho que fuja se tiver alguma sanidade, da próxima vez que a senhora encontrar algum comensal, provavelmente não terá a mesma sorte de hoje.
Ele caminhava calmamente até a porta , antes de desaparecer, porém, virou-se para ela, varinha em punho:
- Crucius - o corpo de Agatha parece que iria explodir de tanta dor, sentia que iria enlouquecer a qualquer momento, lágrimas descontroladas caíam pelo seu rosto, misturando-se ao seu suor. Da mesma forma que começou, a dor cessou. Fora suficiente para que o ódio de Agatha voltasse a emergir, para que apanhasse a sua varinha e apontasse para ele, ainda ajoelhada no chão, com a respiração ofegante. Antes que Agatha pudesse matá-lo, ele havia desaparatado, deixando uma auror frustrada e ainda mais raivosa.
-Nós ainda vamos nos encontrar, Snape, e eu vou te matar!
