O começo do fim

Agatha teve que lidar com todo o tipo de situação nos dias que se seguiram. Uma audiência ministerial foi aberta para apurar as causas da morte do comensal. Os jornais e as rádios divulgavam que a morte teria sido por motivos de vingança. Suspeitava-se de que provavelmente algum outro comensal ou Aquele-que-não-deve-ser-nomeado fossem os responsáveis.
Mas algumas pessoas pareciam não se convencer de que essa era realmente a verdade.
Principalmente Moody. Depois do corpo de Mulciber ser encontrado, Alastor já não olhava da mesma maneira para Agatha. O bruxo parecia realmente incomodado com a presença dela, Agatha se sentia alguma espécie de bicho raro que merecesse ser olhado de perto. Após o episódio, não houve um só dia em que ela não se sentisse vigiada por Alastor. Nenhuma missão era designada a ela sem o consentimento do velho auror. Nem os pedidos insistentes dela para, enfim, fazer parte da Ordem eram atendidos. O bruxo sempre dava uma desculpa vaga, de que precisava de uma aprovação direta de Dumbledore para que isso acontecesse. Uma aprovação que nunca viera. E Agatha sentia que não iria conseguir o aceite de Dumbledore, escrevia com insistência ao bruxo, obtendo sempre a mesma resposta, escrita com aquela letra rebuscada tão característica dele: " O que está fazendo aqui ainda? Seu lugar é na França"
Parecia cada vez mais surreal a vida que a auror tinha. De um lado, havia um marido e uma filha amorosos que pediam a sua atenção, Edward parecia encantado em organizar a ida da família para a França. O homem mostrava uma empolgação fascinante enquanto falava sobre a rica vida cultural de Paris, sobre as exposições, sobre a casa que estava sendo reformada, expressando muito mais vezes do que Agatha aguentava, o quanto eles seriam felizes lá.
Agatha sentia-se enjaulada. À noite, ela só fazia chorar, ela queria poder voltar a ser aquela Agatha por quem Edward se apaixonara. Mas isso não era mais possível. Sarah crescia a olhos vistos, se tornava uma menina doce e inteligente, mostrando uma especial vocação para História da Arte. Imagens de obras de Van Gogh pululavam pelo quarto da criança. Se Agatha não tivesse visto a filha, por diversas vezes, fazer coisas mágicas, tão próprias de crianças bruxas, ela juraria que a filha havia nascido trouxa.
Mas por outro lado, havia o desejo íntimo de vingança que assolava a sua alma. Ela sentia que jamais descansaria enquanto não punisse o outro responsável pela morte de seu irmão e sobrinhos. Snape...ela tremia com um ódio verdadeiro ao pensar no último encontro que tiveram, e lamentava a própria má sorte de não poder ter terminado o que começara.
Por fim, fora esquecido a morte de Mulciber. O Ministério, após inúmeras investigações concluíra, por fim, de que o comensal havia sido executado por pessoas do círculo pessoal de Voldemort.
Agatha passava os dias angustiada, e fora com extrema gratidão que ela recebera a notícia de que Edward e Sarah se mudariam imediatamente para a França e lá esperariam por ela.
Dias vazios se arrastavam. Meses que se tornavam infindáveis, sua teimosia a fazia rejeitar qualquer tentativa de se mudar naquele momento. Ela estava grata por Edward, por levar o seu bem mais precioso, Sarah, para longe daquilo. E por meses, Agatha esteve sozinha em Londres. Nem ao menos os seus amigos, com quem havia feito um juramento de nunca se afastarem, pareciam naquele tempo amigos, pareciam apenas estranhos conhecidos, daquele tipo que se conhece, mas que se não é mais suficientemente próximo para ser chamado de amigos. A exceção a isso fora Lilian e James, com quem Agatha mantinha um contato constante.
Por isso, fora com extrema surpresa que Agatha recebera um bilhete escrito as pressas pela amiga:

" Agatha
Preciso te encontrar. Assim que receber a carta, venha ao meu encontro, é importante
Amor
Lilian"

Agatha rasgara o bilhete e apressadamente, pegara a sua capa e varinha. Momentos depois ela aparatava em frente a residência dos Potter. Com urgência, entrava na sala. Se não fossem as atuais circunstâncias aquele poderia ser um encontro de amigos. Faces abatidas e olheiras pronunciadas mostravam que aquele não era um momento de reencontros e alegrias, mas de tristeza, da tragédia que assolava todos e cada um deles, que arrastava-os para um mundo que se mostrava cada vez mais frio e triste. Remus estava encostado em um canto mais afastado da sala, um semblante triste, roupas remendadas. Peter parecia ansioso, seu corpo miúdo no sofá, parecendo assustado. Os olhos da bruxa varriam o ambiente até encontrar Lily.
-Podíamos até comemorar esse dia, finalmente um reencontro! - um sorriso zombeteiro deformava o rosto de Agatha, enquanto ela puxava Lilian para um abraço, olhando com ternura para o pequeno Harry. Quando seus olhos voltaram a analisar o ambiente ela se deu conta de que o local parecia ter sido limpo, não havia mais porta-retratos, nem nada que dava toque pessoal da família à casa.
-Vocês vão viajar?- seus olhos deslizavam de Lilian a James, que parecia triste. James, o eterno piadista, brincalhão, reduzido a alguém deprimido cuja testa mantinha constantemente rugas de preocupação
- Na verdade, vamos nos mudar, resolvemos morar em Godric's Hollow...- os olhos de Lilian, extremamente verde vivos pareciam opacos, tristes, incapazes de encarar os de Agatha por muito tempo.
Mas foi uma voz atrás dela que fez com que os pêlos da nuca da bruxa se arrepiassem. Ela não sabia exatamente de onde Dumbledore surgira.
-É importante que todos entendam o que está acontecendo. Lilian, James e o pequeno Harry precisarão ficar um tempo escondidos em sua própria residência. Voldemort está atrás deles e temo por suas vidas. Por favor, não me interrompam - ele fazia um gesto com a mão para que Remus não fizesse nenhuma pergunta enquanto continuava- Queria que ninguém soubesse do paradeiro deles, James insiste para que vocês, seus grandes amigos, saibam. Tenho informações que dão conta de que é vital que a fuga seja imediata. Achamos melhor que se faça um fiel para o segredo do seu paradeiro. Deixo a encargo de vocês a escolha, mas não esqueçam da conversa que tivemos anteriormente.- Seus olhos passavam de James a Lilian como se a tal conversa que eles tivessem tido anteriormente fosse algo crucial para que eles permanecessem vivos.
O pensamento de Agatha naturalmente caiu sobre Sirius como a pessoa a ser o fiel do segredo, em verdade, Sirius era a escolha óbvia. O melhor amigo da família e padrinho de Harry.
Mas, algo mais intrigava Agatha. Quem seria a fonte que dera as informações para Dumbledore?
A bruxa volta a encarar todos na sala. Seria algum dos presentes? Mas, se um dos presentes fosse uma espécie de espião quem seria? e não seria arriscado confiar o segredo a um dos prováveis contatos de Voldemort? Sua cabeça dava milhares de voltas, até que concluiu, quase com uma gargalhada, que ela conhecia todos naquela sala suficientemente bem para saber que não podia ser nenhum de seus amigos. Todos eram extraordinariamente cristalinos demais para isso. Não tinham manchas em sua alma, ela era a única no local que já havia lançado uma maldição da morte.
-Bom, tenho outros acertos a fazer, se me derem licença. Não posso expressar o quanto, apesar das circunstâncias é bom encontrar cada um de vocês. Permaneçam unidos, isso é o mais importante. - Os olhos de Dumbledore faíscavam por baixo dos óculos de meia lua enquanto ele se afastava, saindo rapidamente da casa. Sem pensar duas vezes Agatha sai da casa no encalço do homem.
-Espera! - Dumbledore voltava a sua atenção para ela, um misto de curiosidade e desaprovação na maneira que ele a olhava.
-Quem é esse contato que passou essas informações? - Agatha sabia que essa não era a maneira correta de abordar um tema daqueles, mas ela parecia incapaz de se controlar, estava genuinamente preocupada.
-Não vejo a importância de revelar informações a respeito dos meus contatos para alguém como você - os olhos do homem pareciam em brasa enquanto a encarava.
- O que quer dizer com "alguém como eu"? - a voz da outra saía alta e descontrolada, ela não entendia o que o diretor queria dizer com aquilo
Dumbledore, por sua vez, se aproximava perigosamente da garota, mantendo uma expressão séria e desafiadora no rosto
-Se me permite dizer, a senhora já deveria estar longe daqui a um bom tempo, junto ao seu marido e filha. Atos impensados levam a consequências desastrosas. Veja, Agatha, não recrimino as suas atitudes, mas acredito que tenha se tornado alguém perigosa para os demais e principalmente, a você mesma. Compreendo o que fez a Mulciber, mas não peça que eu possa justificar. - A expressão do homem se tornara subitamente triste ao virar de costas para a bruxa, ignorando a expressão espantada de Agatha por descobrir que alguém conhecia o seu segredo . O homem volta a andar, sua capa farfalhando com o contato da grama abaixo de seus pés
- Se despeça dos seus amigos e se ainda lhe sobrar um pouco de sensatez, vá para a França sim? - momentos após o último pedido, Dumbledore desaparecia, no meio do gramado
A garota ficara um bom tempo parada, no meio do jardim, encarando o horizonte, pensando no que ele havia falado. Dumbledore sabia que ela tinha matada Mulciber...Mesmo assim, não pôde deixar de se irritar com as palavras do homem. Já fazia muito tempo que os conselhos de Dumbledore, disfarçados com palavras poéticas, não a atingiam mais. Quando volta a encarar a janela, seus olhos encontram Sirius, parado junto a ela, encarando-a, um semblante triste e preocupado, que dava a Agatha vontade de gritar.
Almas despedaçadas, era isso o que eles haviam se tornado. Não eram mais seres humanos íntegros e esperançosos, a guerra os havia transformado em pessoas incompletas, vazias.
Incapaz de voltar e se despedir dos amigos, Agatha caminha devagar pelo gramado, até chegar embaixo de uma árvore onde pudesse aparatar, longe da vista de todos, sentindo as lágrimas rolando pelo seu rosto.
Ao voltar para casa, uma decisão: se daria o prazo de um mês para se mudar para França. Já havia visto horrores demais para uma vida inteira.
Continuava se correspondendo com Lily, que parecia feliz, apesar de estar escondida. Dizia em todas as cartas que Agatha poderia ficar tranquila, que ninguém poderia fazer mal a ela ou a sua família. A bruxa, por diversas vezes, acariciava com carinho a última carta enviada por Lilian, que apesar de gasta de tanto ser lida e pontilhada por lágrimas ressecadas, eram o simbolo de tudo que ela havia vivido:

"Agatha querida

Eu e James gostaríamos muito que viesse nos visitar. Por que você não pede para Edward vir com a pequena Sarah para a Inglaterra? Seria muito bom poder ver gente querida, poderíamos passar um fim-de-semana inteiro juntos, escondidos dentro de casa, mas mesmo assim tenho certeza que seria divertido.

James está bem deprimido, ando preocupada. Depois que Dumbledore pegou emprestada a capa da invisibilidade dele ele não pôde mais sair de casa. Os últimos sons de risada que ouvi dele foram quando Sirius esteve aqui ontem, embora eu não tenha entendido exatamente do que James rira. Sirius anda cada vez mais abatido. Achei que o tempo fosse fazer amenizar a perda, mas ao contrário disso, parece que a acentua. Acho que o ocorrido com os McKinnon o afetou profundamente. Você sabe da dificuldade dele em falar sobre sentimentos, acho que ele se culpa pelo fato de Marlene ter amado ele mais do que ele à ela.

Dumbledore esteve aqui há alguns dias. Perguntou-me se você já tinha se mudado. Ele se nega a deixar com que entre na Ordem, disse que o seu lugar não é aqui. Eu também acho isso. Não sei como você pode ficar tanto tempo longe de Edward e principalmente, de Sarah.

Estou com saudades.

Amor

Lilian"

Era a sua última noite em Londres. Tinha chegado em casa cedo e estava arrumando as últimas coisas para a ida para a França no dia seguinte. Compenetrada, tomou um susto quando ouviu batidas na porta. Saiu em disparada até a porta, se deparando com a figura de Remus na soleira da porta, fraco, abatido, como se tivesse enfrentando uma dezena de noites de lua cheia.
-Acabou, está acabado...-sua voz era fraca e rouca, quase um uivo
- O que está acabado? - Agatha agarrava o bruxo pelas vestes surradas enquanto o trazia para dentro de casa
-Eles estão mortos...Sirius os entregou...ele era o fiel...-a frase, proferida baixa, sussurrada, ecoava na cabeça da bruxa como se estivesse magicamente aumentada um milhão de vezes, rebombava em sua alma. Aquilo não poderia estar acontecendo. Tomada de fúria, a bruxa sai em disparada, aparatando próxima ao Ministério, a tempo de ver Dumbledore caminhando em sua direção, uma expressão consternada tomando a sua face.
-Vá embora, não tem mais nada que você possa fazer aqui, Agatha...vá para casa, a sua verdadeira casa, vá ficar com a sua família. -Ele mantinha um olhar triste, inconformado.
-Sirius, Dumbledore? Sirius? - a bruxa parecia incapaz de acreditar que o amigo de longa data, uma das únicas pessoas que Agatha ainda acreditava podia ser o traidor. Não pôde deixar de pensar que provavelmente ele teria algo a ver com a morte de Marlene...Nem a vida da pessoa que o amava ele fora capaz de poupar. A bruxa sentia ânsia de vômito, ondas de frio e calor passavam pelo seu corpo enquanto ela se agarrava a uma parede, cambaleante.
Nunca mais ela queria voltar a Londres. Nunca mais ela queria ter que passar por isso. Estranhamente, ela se dera conta de que vivera uma vida de mentiras. Uma vida miserável, pontuada por mortes, traições. Imediatamente se dera conta de que as únicas pessoas que ela poderia confiar não estavam mais lá, mas sim, na França.
Partiria para sempre no dia seguinte. Nada nem ninguém a segurava mais naquele lugar.
Pensamentos de toda a vida que levava até aquele momento dominavam a sua mente. Flashes de como tinha sido feliz, de como ela acreditava nos seus amigos pipocavam em sua memória. Lembranças de toda a sua vida em Hogwarts vinham a sua mente, Agatha achava que sabia o que era felicidade. Consistia no que ela havia vivido naquela época. E tudo havia sido uma grande mentira. Sentia-se traída, da forma mais cruel e violenta que poderia ter sido. Tudo até ali havia sido uma farsa. Sua lealdade aos amigos não valera nada nas mãos daquele que ela considerava tão querido, mas que não hesitara em acabar com a vida dos seus próprios amigos, dos seus próprios irmãos. Por que o tipo de sentimento que eles haviam nutrido uns pelos outros era imenso demais para ser definido apenas com a palavra amizade. Por mais que Agatha pensasse, não podia sentir um gosto amargo ao se dar finalmente conta de que provavelmente Sirius estaria por trás da morte dos McKinnon. Nem Marlene?! Nem a garota que o amava incondicinalmente? A notícia de que Harry estava vivo e que Voldemort fora derrotado não lhe trazia nenhum consolo, Agatha achava que todas as mortes que ocorreram era um preço alto demais que fora pago.
Remus permaneceu com ela naquela noite. Enquanto Agatha tinha acessos de um choro convulsivo e descontrolado, Remus permanecia sentado em um sofá, sério, conciso, compenetrado. Em nenhum momento Agatha vira ele despejar uma lágrima sequer. A garota pensava com amargura no tipo de sofrimento pelo qual ele estava passando. Remus se tornara alguém brutalizado e excluído da sociedade bruxa pela sua condição de lobisomem. O mundo havia feito dele alguém duro, não insensível, mas o tipo de desprezo que ele sofria no decorrer de sua vida fazia-no mais amortecido, imune às tragédias. Mas bastava uma olhada de relance em seus olhos, para saber que ele ainda era o mesmo, havia bondade em seus olhos, um brilho inocente e triste.
No dia seguinte, Agatha seria formalmente desligada do Ministério da Magia. Mal o sol havia aparecido, ela sai porta afora, rumo ao Ministério da Magia. Remus, adormecido no sofá, mantinha um semblante tranquilo, e incapaz de acorda-lo, apenas acomodou melhor o cobertor sobre o seu corpo magro antes de aparatar.
O lugar parecia cheio aquela hora da manhã. Jornalistas caminhavam pelos corredores, suas máquinas fotográficas ansiosas por captar qualquer notícia que pudesse alavancar as vendas de seus jornais.
-Malditos urubus! - A frase escapara de sua boca momentos antes de se chocar propositalmente com Rita Skeeter, que mal conseguia controlar um sorriso satisfeito e radiante pelo prenúncio das grandes matérias que poderia escrever a custa do sofrimento alheio.
Mas tinha um lugar onde o mais completo silêncio dominava: o local onde eram realizados os julgamentos bruxos. A garota se encostou em uma das paredes e fechou os olhos, tentando restaurar um pouco de controle antes de rumar ao Quartel General dos aurores, onde iria protocolar o seu desligamento. Passado algum tempo, a porta ao seu lado se abre. Consternada, ela vê Severus Snape saindo da sala, uma face tão miserável que não parecia o mesmo homem, manchas vermelhas contornavam os seus olhos, sua face mais edemaciada do que o habitual, coberta parcialmente por uma cascata de cabelos negros e oleosos. Agatha sentia o seu coração batendo em um ritmo desenfreado quando, descontrolada, avança em direção ao homem que andava de cabeça abaixada, sem mostrar nehum interesse pelo que se passava ao seu redor.
-Você! - fora a única coisa que Agatha conseguira dizer antes de apontar a própria varinha para o homem e avançar em sua direção.
Snape parecia mais derrotado do que nunca quando levantou os olhos e viu a garota avançando perigosamente em sua direção. Seus olhos não mostravam mais aquele tom cintilante e violento, eram desprovidos de qualquer brilho, indiferentes, conformados. Ele apenas se permitia olha-la, baixando os olhos até o pescoço da outra, onde ainda pousava o antigo camafeu da família. Agatha estava próxima a ele, seus olhos tinham um brilho maníaco, suas faces se contraíam de uma forma brutal, desumana, quando ela aproximou mais ainda a varinha do peito do homem, cuspindo na sua face.
-Avada...- o feitiço completo não pudera ser lançado, a bruxa sentiu sua varinha sendo arrancada de sua mão. Exasperada, se vira em direção a pessoa que havia tomado-lhe o objeto, se deparando com Albus, que segurava a sua varinha entre seus dedos finos e compridos, olhando-a através dos seus óculos de meia lua, com uma expressão triste e consternada no rosto
-Já basta, Agatha. Chega de mortes. - ele se virava em direção a Snape. - Nos encontramos amanhã, então, Severus? - ao que o homem de cabelos negros apenas se limitou a acenar afirmativamente com a cabeça. Snape tornou a olhar para Agatha, e fez menção de dizer-lhe alguma coisa, mas antes que as palavras pudessem sair de sua boca, ele se arrependeu, e andou para fora do corredor comprido, até sumir de vista. A bruxa, só então pudera se dar conta do que tinha acontecido, Snape estava deixando o Ministério como um homem livre e a garota sentia uma ira incontrolável dentro dela, como se estivesse possuída por um animal feroz e selvagem que resolvera manifestar a sua presença
-Livre, Dumbledore? Depois de tudo, Severus Snape é um homem livre? - a fúria que ela sentia apossava o seu corpo enquanto ela avançava na direção do diretor. - Que tipo de pessoa é o senhor que ainda o defende? Meu irmão lutou pela Ordem, meu irmão se sacrificou por todos, meu irmão jurou lealdade a todos vocês e como prova de suas intenções teve a sua vida e a de toda a sua família arrancada. - A respiração da garota era descompassada, enquanto o seu tom de voz aumentava propositalmente a cada palavra. Tinha consciência que uma pequena platéia se formava ao seu redor, curiosos e assustados pela forma que ela agia. - Mataram o meu irmão da forma mais brutal que poderia haver e aquele homem lá - ela apontava o dedo na direção em que Snape tinha ido- contou-me inclusive os detalhes de como tudo fora feito. Onde está a sua lealdade Dumbledore, ou melhor, a quem você é leal? - lágrimas grossas rolavam pelo seu rosto enquanto ela arrancava a varinha da mão do bruxo, sôfrega, incapaz de desgrudar os olhos dos do diretor. Até que o que ela não estava esperando acontecera. Lágrimas surgiam na face do diretor enquanto ele a encarava, parecendo incapaz de falar.
-Eu sinto tanto, Agatha...me perdoe...- ele balançava a cabeça, consternado, parecendo incapaz de falar algo além disso.
Mas Agatha tinha visto outra pessoa presenciando a cena, sua irmã Amelia. Estendendo a sua fúria em direção a outra, Agatha se aproxima dela, levantando uma mão, entregando o papel que legalmente a tornava uma ex auror do Ministério da Magia.
-Esperava que lutasse mais para vingar a sua família - Amelia apenas abaixou os olhos, incapaz de competir com a fúria da irmã. - Fico feliz em deixar de participar dessa podridão.
Caminhando em retirada, indiferente aos olhares chocados que atraía, ela se limitava apenas a estender um braço em negativa, quando ouve a voz de Dumbledore chamando-a para uma conversa.
-Por favor Agatha, precisamos conversar...- o tom dele de súplica foi ignorado pela garota que continuava andando pelo corredor. - Já tive todas as explicações que precisava. - A bruxa continuava andando, até encontrar Moody, no final do corredor. Sem saber exatamente como agir puxa o auror para um abraço apertado.
- Se cuide, tudo bem? - lágrimas voltavam a brotar de seus olhos enquanto olhava com ternura para o amigo, para o mestre. Uma expressão triste tomava o rosto do velho auror quando disse: - Cuide-se você, minha menina! - mancando, lentamente Alastor se afastava pelo corredor.

A ruela coberta de árvores fazia uma sombra gigantesca sobre o caminho ladrilhado com pequenas pedras, deixando a temperatura mais gélida do que o seu coração. A passos lentos e hesitantes, a garota caminhava até o cemitério. Virou o rosto ao passar pela casa deles, Godric's Hollow nunca mais seria o lugar agradável e plácido que ela havia conhecido. Era cedo da manhã, os primeiros raios de sol se faziam presentes, e o local estava deserto. Caminhando entre as lápides, ela encontra quais ela estava procurando. Novas, cobertas de flores, parecendo um verdadeiro jardim, as homenagens e coroas pareciam ser em número infinitamente maior do que o pequeno espaço entre as lápides permitia. Seus dedos pálidos acariciavam a lápide, que anunciava quem estava enterrado naquelel local. Novas lágrimas quentes brotavam dos seus olhos, uma carícia suave em seu rosto castigado pelo frio da manhã. A bruxa mordia com força os lábios, tentando sufocar uma dor que teimava em quebrar o seu coração. Até que houve a explosão. Mais do que um choro convulsivo, a bruxa urrava, uma dor que parecia esmaga-la por completo, que despedaçava o seu coração, que fazia migalhas de sua alma. As flores em cima do jazigo estavam salpicadas com a suas lágrimas. Lentamente, após muito tempo, Agatha secou o seu rosto com a palma da mão, tendo a sua atenção atraída até uma das árvores, mais precisamente para trás dela. Um vulto encapuzado pairava, protegido pelo grosso caule da planta. Apesar de semi oculto, aqueles olhos negros não passaram desapercebidos pela outra. Mas, antes que ela pudesse se levantar e caminhar até ele, Severus Snape já tinha sumido em meio as sombras do local.
Voltando novamente a sua atenção para a lápide dos amigos, Agatha se despediu:
-Adeus meus amigos, finalmente vou fazer o que consideravam certo. Lily, estou indo para casa cuidar do meu marido e da minha filha.
Naquele mesmo dia, Agatha parte para a França atrás de sua família, atrás de uma nova vida. Se dependesse da bruxa, nunca mais ela nem ninguém que ela amasse poria novamente os pés na Inglaterra.