O começo do fim
Agatha teve que
lidar com todo o tipo de situação nos dias que se
seguiram. Uma audiência ministerial foi aberta para apurar as
causas da morte do comensal. Os jornais e as rádios divulgavam
que a morte teria sido por motivos de vingança. Suspeitava-se
de que provavelmente algum outro comensal ou
Aquele-que-não-deve-ser-nomeado fossem os responsáveis.
Mas
algumas pessoas pareciam não se convencer de que essa era
realmente a verdade.
Principalmente Moody. Depois do corpo de
Mulciber ser encontrado, Alastor já não olhava da mesma
maneira para Agatha. O bruxo parecia realmente incomodado com a
presença dela, Agatha se sentia alguma espécie de bicho
raro que merecesse ser olhado de perto. Após o episódio,
não houve um só dia em que ela não se sentisse
vigiada por Alastor. Nenhuma missão era designada a ela sem o
consentimento do velho auror. Nem os pedidos insistentes dela para,
enfim, fazer parte da Ordem eram atendidos. O bruxo sempre dava uma
desculpa vaga, de que precisava de uma aprovação direta
de Dumbledore para que isso acontecesse. Uma aprovação
que nunca viera. E Agatha sentia que não iria conseguir o
aceite de Dumbledore, escrevia com insistência ao bruxo,
obtendo sempre a mesma resposta, escrita com aquela letra rebuscada
tão característica dele: " O que está
fazendo aqui ainda? Seu lugar é na França"
Parecia
cada vez mais surreal a vida que a auror tinha. De um lado, havia um
marido e uma filha amorosos que pediam a sua atenção,
Edward parecia encantado em organizar a ida da família para a
França. O homem mostrava uma empolgação
fascinante enquanto falava sobre a rica vida cultural de Paris, sobre
as exposições, sobre a casa que estava sendo reformada,
expressando muito mais vezes do que Agatha aguentava, o quanto eles
seriam felizes lá.
Agatha sentia-se enjaulada. À
noite, ela só fazia chorar, ela queria poder voltar a ser
aquela Agatha por quem Edward se apaixonara. Mas isso não era
mais possível. Sarah crescia a olhos vistos, se tornava uma
menina doce e inteligente, mostrando uma especial vocação
para História da Arte. Imagens de obras de Van Gogh pululavam
pelo quarto da criança. Se Agatha não tivesse visto a
filha, por diversas vezes, fazer coisas mágicas, tão
próprias de crianças bruxas, ela juraria que a filha
havia nascido trouxa.
Mas por outro lado, havia o desejo íntimo
de vingança que assolava a sua alma. Ela sentia que jamais
descansaria enquanto não punisse o outro responsável
pela morte de seu irmão e sobrinhos. Snape...ela tremia com
um ódio verdadeiro ao pensar no último encontro que
tiveram, e lamentava a própria má sorte de não
poder ter terminado o que começara.
Por fim, fora esquecido
a morte de Mulciber. O Ministério, após inúmeras
investigações concluíra, por fim, de que o
comensal havia sido executado por pessoas do círculo pessoal
de Voldemort.
Agatha passava os dias angustiada, e fora com
extrema gratidão que ela recebera a notícia de que
Edward e Sarah se mudariam imediatamente para a França e lá
esperariam por ela.
Dias vazios se arrastavam. Meses que se
tornavam infindáveis, sua teimosia a fazia rejeitar qualquer
tentativa de se mudar naquele momento. Ela estava grata por Edward,
por levar o seu bem mais precioso, Sarah, para longe daquilo. E por
meses, Agatha esteve sozinha em Londres. Nem ao menos os seus amigos,
com quem havia feito um juramento de nunca se afastarem, pareciam
naquele tempo amigos, pareciam apenas estranhos conhecidos, daquele
tipo que se conhece, mas que se não é mais
suficientemente próximo para ser chamado de amigos. A exceção
a isso fora Lilian e James, com quem Agatha mantinha um contato
constante.
Por isso, fora com extrema surpresa que Agatha recebera
um bilhete escrito as pressas pela amiga:
"
Agatha
Preciso te encontrar. Assim que receber a carta, venha ao
meu encontro, é importante
Amor
Lilian"
Agatha
rasgara o bilhete e apressadamente, pegara a sua capa e varinha.
Momentos depois ela aparatava em frente a residência dos
Potter. Com urgência, entrava na sala. Se não fossem as
atuais circunstâncias aquele poderia ser um encontro de amigos.
Faces abatidas e olheiras pronunciadas mostravam que aquele não
era um momento de reencontros e alegrias, mas de tristeza, da
tragédia que assolava todos e cada um deles, que arrastava-os
para um mundo que se mostrava cada vez mais frio e triste. Remus
estava encostado em um canto mais afastado da sala, um semblante
triste, roupas remendadas. Peter parecia ansioso, seu corpo miúdo
no sofá, parecendo assustado. Os olhos da bruxa varriam o
ambiente até encontrar Lily.
-Podíamos até
comemorar esse dia, finalmente um reencontro! - um sorriso zombeteiro
deformava o rosto de Agatha, enquanto ela puxava Lilian para um
abraço, olhando com ternura para o pequeno Harry. Quando seus
olhos voltaram a analisar o ambiente ela se deu conta de que o local
parecia ter sido limpo, não havia mais porta-retratos, nem
nada que dava toque pessoal da família à casa.
-Vocês
vão viajar?- seus olhos deslizavam de Lilian a James, que
parecia triste. James, o eterno piadista, brincalhão, reduzido
a alguém deprimido cuja testa mantinha constantemente rugas de
preocupação
- Na verdade, vamos nos mudar,
resolvemos morar em Godric's Hollow...- os olhos de Lilian,
extremamente verde vivos pareciam opacos, tristes, incapazes de
encarar os de Agatha por muito tempo.
Mas foi uma voz atrás
dela que fez com que os pêlos da nuca da bruxa se arrepiassem.
Ela não sabia exatamente de onde Dumbledore surgira.
-É
importante que todos entendam o que está acontecendo. Lilian,
James e o pequeno Harry precisarão ficar um tempo escondidos
em sua própria residência. Voldemort está atrás
deles e temo por suas vidas. Por favor, não me interrompam -
ele fazia um gesto com a mão para que Remus não fizesse
nenhuma pergunta enquanto continuava- Queria que ninguém
soubesse do paradeiro deles, James insiste para que vocês, seus
grandes amigos, saibam. Tenho informações que dão
conta de que é vital que a fuga seja imediata. Achamos melhor
que se faça um fiel para o segredo do seu paradeiro. Deixo a
encargo de vocês a escolha, mas não esqueçam da
conversa que tivemos anteriormente.- Seus olhos passavam de James a
Lilian como se a tal conversa que eles tivessem tido anteriormente
fosse algo crucial para que eles permanecessem vivos.
O pensamento
de Agatha naturalmente caiu sobre Sirius como a pessoa a ser o fiel
do segredo, em verdade, Sirius era a escolha óbvia. O melhor
amigo da família e padrinho de Harry.
Mas, algo mais
intrigava Agatha. Quem seria a fonte que dera as informações
para Dumbledore?
A bruxa volta a encarar todos na sala. Seria
algum dos presentes? Mas, se um dos presentes fosse uma espécie
de espião quem seria? e não seria arriscado confiar o
segredo a um dos prováveis contatos de Voldemort? Sua cabeça
dava milhares de voltas, até que concluiu, quase com uma
gargalhada, que ela conhecia todos naquela sala suficientemente bem
para saber que não podia ser nenhum de seus amigos. Todos eram
extraordinariamente cristalinos demais para isso. Não tinham
manchas em sua alma, ela era a única no local que já
havia lançado uma maldição da morte.
-Bom,
tenho outros acertos a fazer, se me derem licença. Não
posso expressar o quanto, apesar das circunstâncias é
bom encontrar cada um de vocês. Permaneçam unidos, isso
é o mais importante. - Os olhos de Dumbledore faíscavam
por baixo dos óculos de meia lua enquanto ele se afastava,
saindo rapidamente da casa. Sem pensar duas vezes Agatha sai da casa
no encalço do homem.
-Espera! - Dumbledore voltava a sua
atenção para ela, um misto de curiosidade e
desaprovação na maneira que ele a olhava.
-Quem é
esse contato que passou essas informações? - Agatha
sabia que essa não era a maneira correta de abordar um tema
daqueles, mas ela parecia incapaz de se controlar, estava
genuinamente preocupada.
-Não vejo a importância de
revelar informações a respeito dos meus contatos para
alguém como você - os olhos do homem pareciam em brasa
enquanto a encarava.
- O que quer dizer com "alguém
como eu"? - a voz da outra saía alta e descontrolada, ela
não entendia o que o diretor queria dizer com
aquilo
Dumbledore, por sua vez, se aproximava perigosamente da
garota, mantendo uma expressão séria e desafiadora no
rosto
-Se me permite dizer, a senhora já deveria estar
longe daqui a um bom tempo, junto ao seu marido e filha. Atos
impensados levam a consequências desastrosas. Veja, Agatha, não
recrimino as suas atitudes, mas acredito que tenha se tornado alguém
perigosa para os demais e principalmente, a você mesma.
Compreendo o que fez a Mulciber, mas não peça que eu
possa justificar. - A expressão do homem se tornara
subitamente triste ao virar de costas para a bruxa, ignorando a
expressão espantada de Agatha por descobrir que alguém
conhecia o seu segredo . O homem volta a andar, sua capa farfalhando
com o contato da grama abaixo de seus pés
- Se despeça
dos seus amigos e se ainda lhe sobrar um pouco de sensatez, vá
para a França sim? - momentos após o último
pedido, Dumbledore desaparecia, no meio do gramado
A garota ficara
um bom tempo parada, no meio do jardim, encarando o horizonte,
pensando no que ele havia falado. Dumbledore sabia que ela tinha
matada Mulciber...Mesmo assim, não pôde deixar de se
irritar com as palavras do homem. Já fazia muito tempo que os
conselhos de Dumbledore, disfarçados com palavras poéticas,
não a atingiam mais. Quando volta a encarar a janela, seus
olhos encontram Sirius, parado junto a ela, encarando-a, um semblante
triste e preocupado, que dava a Agatha vontade de gritar.
Almas
despedaçadas, era isso o que eles haviam se tornado. Não
eram mais seres humanos íntegros e esperançosos, a
guerra os havia transformado em pessoas incompletas, vazias.
Incapaz
de voltar e se despedir dos amigos, Agatha caminha devagar pelo
gramado, até chegar embaixo de uma árvore onde pudesse
aparatar, longe da vista de todos, sentindo as lágrimas
rolando pelo seu rosto.
Ao voltar para casa, uma decisão:
se daria o prazo de um mês para se mudar para França. Já
havia visto horrores demais para uma vida inteira.
Continuava se
correspondendo com Lily, que parecia feliz, apesar de estar
escondida. Dizia em todas as cartas que Agatha poderia ficar
tranquila, que ninguém poderia fazer mal a ela ou a sua
família. A bruxa, por diversas vezes, acariciava com carinho a
última carta enviada por Lilian, que apesar de gasta de tanto
ser lida e pontilhada por lágrimas ressecadas, eram o simbolo
de tudo que ela havia vivido:
"Agatha querida
Eu e James gostaríamos muito que viesse nos visitar. Por que você não pede para Edward vir com a pequena Sarah para a Inglaterra? Seria muito bom poder ver gente querida, poderíamos passar um fim-de-semana inteiro juntos, escondidos dentro de casa, mas mesmo assim tenho certeza que seria divertido.
James está bem deprimido, ando preocupada. Depois que Dumbledore pegou emprestada a capa da invisibilidade dele ele não pôde mais sair de casa. Os últimos sons de risada que ouvi dele foram quando Sirius esteve aqui ontem, embora eu não tenha entendido exatamente do que James rira. Sirius anda cada vez mais abatido. Achei que o tempo fosse fazer amenizar a perda, mas ao contrário disso, parece que a acentua. Acho que o ocorrido com os McKinnon o afetou profundamente. Você sabe da dificuldade dele em falar sobre sentimentos, acho que ele se culpa pelo fato de Marlene ter amado ele mais do que ele à ela.
Dumbledore esteve aqui há alguns dias. Perguntou-me se você já tinha se mudado. Ele se nega a deixar com que entre na Ordem, disse que o seu lugar não é aqui. Eu também acho isso. Não sei como você pode ficar tanto tempo longe de Edward e principalmente, de Sarah.
Estou com saudades.
Amor
Lilian"
Era a sua última
noite em Londres. Tinha chegado em casa cedo e estava arrumando as
últimas coisas para a ida para a França no dia
seguinte. Compenetrada, tomou um susto quando ouviu batidas na porta.
Saiu em disparada até a porta, se deparando com a figura de
Remus na soleira da porta, fraco, abatido, como se tivesse
enfrentando uma dezena de noites de lua cheia.
-Acabou, está
acabado...-sua voz era fraca e rouca, quase um uivo
- O que está
acabado? - Agatha agarrava o bruxo pelas vestes surradas enquanto o
trazia para dentro de casa
-Eles estão mortos...Sirius os
entregou...ele era o fiel...-a frase, proferida baixa, sussurrada,
ecoava na cabeça da bruxa como se estivesse magicamente
aumentada um milhão de vezes, rebombava em sua alma. Aquilo
não poderia estar acontecendo. Tomada de fúria, a bruxa
sai em disparada, aparatando próxima ao Ministério, a
tempo de ver Dumbledore caminhando em sua direção, uma
expressão consternada tomando a sua face.
-Vá
embora, não tem mais nada que você possa fazer aqui,
Agatha...vá para casa, a sua verdadeira casa, vá ficar
com a sua família. -Ele mantinha um olhar triste,
inconformado.
-Sirius, Dumbledore? Sirius? - a bruxa parecia
incapaz de acreditar que o amigo de longa data, uma das únicas
pessoas que Agatha ainda acreditava podia ser o traidor. Não
pôde deixar de pensar que provavelmente ele teria algo a ver
com a morte de Marlene...Nem a vida da pessoa que o amava ele fora
capaz de poupar. A bruxa sentia ânsia de vômito, ondas de
frio e calor passavam pelo seu corpo enquanto ela se agarrava a uma
parede, cambaleante.
Nunca mais ela queria voltar a Londres. Nunca
mais ela queria ter que passar por isso. Estranhamente, ela se dera
conta de que vivera uma vida de mentiras. Uma vida miserável,
pontuada por mortes, traições. Imediatamente se dera
conta de que as únicas pessoas que ela poderia confiar não
estavam mais lá, mas sim, na França.
Partiria para
sempre no dia seguinte. Nada nem ninguém a segurava mais
naquele lugar.
Pensamentos de toda a vida que levava até
aquele momento dominavam a sua mente. Flashes de como tinha sido
feliz, de como ela acreditava nos seus amigos pipocavam em sua
memória. Lembranças de toda a sua vida em Hogwarts
vinham a sua mente, Agatha achava que sabia o que era felicidade.
Consistia no que ela havia vivido naquela época. E tudo havia
sido uma grande mentira. Sentia-se traída, da forma mais cruel
e violenta que poderia ter sido. Tudo até ali havia sido uma
farsa. Sua lealdade aos amigos não valera nada nas mãos
daquele que ela considerava tão querido, mas que não
hesitara em acabar com a vida dos seus próprios amigos, dos
seus próprios irmãos. Por que o tipo de sentimento que
eles haviam nutrido uns pelos outros era imenso demais para ser
definido apenas com a palavra amizade. Por mais que Agatha pensasse,
não podia sentir um gosto amargo ao se dar finalmente conta de
que provavelmente Sirius estaria por trás da morte dos
McKinnon. Nem Marlene?! Nem a garota que o amava incondicinalmente? A
notícia de que Harry estava vivo e que Voldemort fora
derrotado não lhe trazia nenhum consolo, Agatha achava que
todas as mortes que ocorreram era um preço alto demais que
fora pago.
Remus permaneceu com ela naquela noite. Enquanto Agatha
tinha acessos de um choro convulsivo e descontrolado, Remus
permanecia sentado em um sofá, sério, conciso,
compenetrado. Em nenhum momento Agatha vira ele despejar uma lágrima
sequer. A garota pensava com amargura no tipo de sofrimento pelo qual
ele estava passando. Remus se tornara alguém brutalizado e
excluído da sociedade bruxa pela sua condição de
lobisomem. O mundo havia feito dele alguém duro, não
insensível, mas o tipo de desprezo que ele sofria no decorrer
de sua vida fazia-no mais amortecido, imune às tragédias.
Mas bastava uma olhada de relance em seus olhos, para saber que ele
ainda era o mesmo, havia bondade em seus olhos, um brilho inocente e
triste.
No dia seguinte, Agatha seria formalmente desligada do
Ministério da Magia. Mal o sol havia aparecido, ela sai porta
afora, rumo ao Ministério da Magia. Remus, adormecido no sofá,
mantinha um semblante tranquilo, e incapaz de acorda-lo, apenas
acomodou melhor o cobertor sobre o seu corpo magro antes de
aparatar.
O lugar parecia cheio aquela hora da manhã.
Jornalistas caminhavam pelos corredores, suas máquinas
fotográficas ansiosas por captar qualquer notícia que
pudesse alavancar as vendas de seus jornais.
-Malditos urubus! - A
frase escapara de sua boca momentos antes de se chocar
propositalmente com Rita Skeeter, que mal conseguia controlar um
sorriso satisfeito e radiante pelo prenúncio das grandes
matérias que poderia escrever a custa do sofrimento
alheio.
Mas tinha um lugar onde o mais completo silêncio
dominava: o local onde eram realizados os julgamentos bruxos. A
garota se encostou em uma das paredes e fechou os olhos, tentando
restaurar um pouco de controle antes de rumar ao Quartel General dos
aurores, onde iria protocolar o seu desligamento. Passado algum
tempo, a porta ao seu lado se abre. Consternada, ela vê Severus
Snape saindo da sala, uma face tão miserável que não
parecia o mesmo homem, manchas vermelhas contornavam os seus olhos,
sua face mais edemaciada do que o habitual, coberta parcialmente por
uma cascata de cabelos negros e oleosos. Agatha sentia o seu coração
batendo em um ritmo desenfreado quando, descontrolada, avança
em direção ao homem que andava de cabeça
abaixada, sem mostrar nehum interesse pelo que se passava ao seu
redor.
-Você! - fora a única coisa que Agatha
conseguira dizer antes de apontar a própria varinha para o
homem e avançar em sua direção.
Snape parecia
mais derrotado do que nunca quando levantou os olhos e viu a garota
avançando perigosamente em sua direção. Seus
olhos não mostravam mais aquele tom cintilante e violento,
eram desprovidos de qualquer brilho, indiferentes, conformados. Ele
apenas se permitia olha-la, baixando os olhos até o pescoço
da outra, onde ainda pousava o antigo camafeu da família.
Agatha estava próxima a ele, seus olhos tinham um brilho
maníaco, suas faces se contraíam de uma forma brutal,
desumana, quando ela aproximou mais ainda a varinha do peito do
homem, cuspindo na sua face.
-Avada...- o feitiço completo
não pudera ser lançado, a bruxa sentiu sua varinha
sendo arrancada de sua mão. Exasperada, se vira em direção
a pessoa que havia tomado-lhe o objeto, se deparando com Albus, que
segurava a sua varinha entre seus dedos finos e compridos, olhando-a
através dos seus óculos de meia lua, com uma expressão
triste e consternada no rosto
-Já basta, Agatha. Chega de
mortes. - ele se virava em direção a Snape. - Nos
encontramos amanhã, então, Severus? - ao que o homem de
cabelos negros apenas se limitou a acenar afirmativamente com a
cabeça. Snape tornou a olhar para Agatha, e fez menção
de dizer-lhe alguma coisa, mas antes que as palavras pudessem sair de
sua boca, ele se arrependeu, e andou para fora do corredor comprido,
até sumir de vista. A bruxa, só então pudera se
dar conta do que tinha acontecido, Snape estava deixando o Ministério
como um homem livre e a garota sentia uma ira incontrolável
dentro dela, como se estivesse possuída por um animal feroz e
selvagem que resolvera manifestar a sua presença
-Livre,
Dumbledore? Depois de tudo, Severus Snape é um homem livre? -
a fúria que ela sentia apossava o seu corpo enquanto ela
avançava na direção do diretor. - Que tipo de
pessoa é o senhor que ainda o defende? Meu irmão lutou
pela Ordem, meu irmão se sacrificou por todos, meu irmão
jurou lealdade a todos vocês e como prova de suas intenções
teve a sua vida e a de toda a sua família arrancada. - A
respiração da garota era descompassada, enquanto o seu
tom de voz aumentava propositalmente a cada palavra. Tinha
consciência que uma pequena platéia se formava ao seu
redor, curiosos e assustados pela forma que ela agia. - Mataram o meu
irmão da forma mais brutal que poderia haver e aquele homem lá
- ela apontava o dedo na direção em que Snape tinha
ido- contou-me inclusive os detalhes de como tudo fora feito. Onde
está a sua lealdade Dumbledore, ou melhor, a quem você é
leal? - lágrimas grossas rolavam pelo seu rosto enquanto ela
arrancava a varinha da mão do bruxo, sôfrega, incapaz de
desgrudar os olhos dos do diretor. Até que o que ela não
estava esperando acontecera. Lágrimas surgiam na face do
diretor enquanto ele a encarava, parecendo incapaz de falar.
-Eu
sinto tanto, Agatha...me perdoe...- ele balançava a cabeça,
consternado, parecendo incapaz de falar algo além disso.
Mas
Agatha tinha visto outra pessoa presenciando a cena, sua irmã
Amelia. Estendendo a sua fúria em direção a
outra, Agatha se aproxima dela, levantando uma mão, entregando
o papel que legalmente a tornava uma ex auror do Ministério da
Magia.
-Esperava que lutasse mais para vingar a sua família
- Amelia apenas abaixou os olhos, incapaz de competir com a fúria
da irmã. - Fico feliz em deixar de participar dessa
podridão.
Caminhando em retirada, indiferente aos olhares
chocados que atraía, ela se limitava apenas a estender um
braço em negativa, quando ouve a voz de Dumbledore chamando-a
para uma conversa.
-Por favor Agatha, precisamos conversar...- o
tom dele de súplica foi ignorado pela garota que continuava
andando pelo corredor. - Já tive todas as explicações
que precisava. - A bruxa continuava andando, até encontrar
Moody, no final do corredor. Sem saber exatamente como agir puxa o
auror para um abraço apertado.
- Se cuide, tudo bem? -
lágrimas voltavam a brotar de seus olhos enquanto olhava com
ternura para o amigo, para o mestre. Uma expressão triste
tomava o rosto do velho auror quando disse: - Cuide-se você,
minha menina! - mancando, lentamente Alastor se afastava pelo
corredor.
A ruela coberta de árvores fazia uma sombra
gigantesca sobre o caminho ladrilhado com pequenas pedras, deixando a
temperatura mais gélida do que o seu coração. A
passos lentos e hesitantes, a garota caminhava até o
cemitério. Virou o rosto ao passar pela casa deles, Godric's
Hollow nunca mais seria o lugar agradável e plácido que
ela havia conhecido. Era cedo da manhã, os primeiros raios de
sol se faziam presentes, e o local estava deserto. Caminhando entre
as lápides, ela encontra quais ela estava procurando. Novas,
cobertas de flores, parecendo um verdadeiro jardim, as homenagens e
coroas pareciam ser em número infinitamente maior do que o
pequeno espaço entre as lápides permitia. Seus dedos
pálidos acariciavam a lápide, que anunciava quem estava
enterrado naquelel local. Novas lágrimas quentes brotavam dos
seus olhos, uma carícia suave em seu rosto castigado pelo frio
da manhã. A bruxa mordia com força os lábios,
tentando sufocar uma dor que teimava em quebrar o seu coração.
Até que houve a explosão. Mais do que um choro
convulsivo, a bruxa urrava, uma dor que parecia esmaga-la por
completo, que despedaçava o seu coração, que
fazia migalhas de sua alma. As flores em cima do jazigo estavam
salpicadas com a suas lágrimas. Lentamente, após muito
tempo, Agatha secou o seu rosto com a palma da mão, tendo a
sua atenção atraída até uma das árvores,
mais precisamente para trás dela. Um vulto encapuzado pairava,
protegido pelo grosso caule da planta. Apesar de semi oculto, aqueles
olhos negros não passaram desapercebidos pela outra. Mas,
antes que ela pudesse se levantar e caminhar até ele, Severus
Snape já tinha sumido em meio as sombras do local.
Voltando
novamente a sua atenção para a lápide dos
amigos, Agatha se despediu:
-Adeus meus amigos, finalmente vou
fazer o que consideravam certo. Lily, estou indo para casa cuidar do
meu marido e da minha filha.
Naquele mesmo dia, Agatha parte para
a França atrás de sua família, atrás de
uma nova vida. Se dependesse da bruxa, nunca mais ela nem ninguém
que ela amasse poria novamente os pés na Inglaterra.
