Céu e Inferno
Chuva e frio. Um clima atípico para setembro. Em meio ao nevoeiro pesado daquele e dos dias subseqüentes, Sarah chegou a Beauxbatons e o tempo corria lento e tedioso.
Sarah, desde o princípio, odiou tudo o que dizia respeito a nova escola.
O castelo era frio e sem graça. Não havia trasgos dançando em quadros pelas paredes, não tinha um lago com uma grande lula e muito menos um diretor louco de barba branca. Por mais que as únicas informações que tivesse sobre Hogwarts foram passadas pela tia Amélia, era o que ela tinha. Disposta a odiar a escola, Sarah enxergava motivos para isso em tudo e todos.
O uniforme era horroroso e delicado demais. Mal podia acreditar nas colegas de quarto que colocavam a saia e a blusa de um azul claro e delicado e desfilavam pelo quarto, combinando sapatos, presilhas, arrumando o cabelo uma da outra. Enquanto isso, Sarah ficava no seu canto, deitada na sua cama, lendo algum livro sobre História da Arte ou qualquer literatura trouxa em geral. Não tardou para que as próprias colegas de quarto começassem a excluí-la dos programas que faziam, a garota era deixada no seu canto e frequentemente se referiam a ela como "a esquisita filha do trouxa".
Para agravar ainda a péssima fama que a menina possuía, algumas semanas após o início das aulas, os estudantes foram levados até Nice a passeio. Seu pai, por aqueles dias estava nas redondezas fazendo um curso de arte moderna e combinaram de se encontrar em um dos cafés das redondezas.
A menina, ao avistá-lo, mal pôde controlar o impulso de gargalhar. Seu pai caminhava em sua direção com aquele sorriso que só ele possuía, os cabelos e a roupa cobertas por uma tinta colorida que salpicavam-no por completo.
-Pai, está trabalhando como pintor de casas agora? – a menina ria com vontade enquanto enlaçava-o com os braços, deixando que ele a levantasse do chão.
- Nossa, faz apenas algumas semanas que não te vejo, mas como você está grande, Sarah!- o pai tornava a colocá-la no chão, enquanto avaliava a menina. – E está tão linda com esse uniforme azul, uma mocinha!
-Ah, eu não gosto dessa roupa não, é esquisita! – Um burburinho atrás dela fez com que se virasse, se deparando com três colegas que assistiam a cena, encarando Edward com uma curiosidade que chegava a ser incômoda.
- Então ele é trouxa mesmo? – uma das meninas comentava para outra, uma loira com cara azeda e nariz fino.
- Ele é esquisito, agora sabemos porque ela é assim. – e assim seguiram-se mais alguns burburinhos entre elas. Pareciam se divertir enquanto faziam comentários que chegavam a ser grosseiros, sem se importar que os dois pudessem ouvi-las.
Edward, atento a cena, fingiu não se importar e, dando de ombros, levou a filha para mostrar alguns quadros que ele tinha pintado naqueles dias de curso.
Algumas telas eram bonitas, outras, no entanto, eram esquisitas, pinceladas escuras e sombreadas, que davam uma sensação de escuridão, de coisas ocultas, figuras assimétricas que despertavam o interesse de quem as observava, divagando quanto ao quê exatamente o pai queria mostrar com aquilo.
-Gosta desse? – o pai levantava a tela e observava atentamente a expressão da menina.
-Não muito, é estranho demais. – A garota completava a afirmação com uma careta.
- Aí que está a beleza dele, Sarah, - ele dava uma gargalhada, - pelo menos para mim. Nem sempre a beleza está visível aos olhos, por vezes o diferente também pode ser fascinante.
- É, pelo menos ele desperta a minha imaginação. – A garota inclinava a cabeça para o lado enquanto franzia a testa e estreitava os olhos, em uma clara tentativa de tentar interpretar o que eram as figuras.
- Fique com ele, guarde com você, quem sabe em um futuro, quando descobrirem o meu talento, você não pode vender e ficar rica?
Sarah riu com vontade, de forma espontânea e só então se deu conta de que fazia muitos dias que ela não ria daquela maneira despreocupada.
- E mamãe? Continua dócil como sempre? – Sarah piscava um olho, enquanto tomava a tela das mãos do pai.- Ela não quis vir junto com você?
- Não leve tão a sério a sua mãe, Sarah. Eu conheço os motivos dela, e te garanto, eu a apóio completamente. – o pai passava os dedos pelos cabelos da filha, antes de puxá-la para um abraço apertado – Um dia você vai ter idade suficiente para entender tudo, daí você vai ver que ela passou por... más experiências na vida.- Edward levantava o rosto da filha, encarando os olhos. O homem ainda se espantava com a incrível semelhança entre mãe e filha.
-Quando conheci a sua mãe ela era exatamente igualzinha a você. Não estou falando só desse sorriso lindo que vocês possuem e que foi capaz de roubar o meu sono e a minha paz, mas de todo o resto também. - o pai sorria ainda timidamente enquanto completava - Embora às vezes te desagrade, você tem muito de sua mãe. Ela não ficou daquele jeito, criança. Ela já foi muito parecida com você, alegre, espirituosa, esperta sabe?
Sarah, por um momento, acreditou que os olhos do pai, que sempre exibiam aquele brilho tão intenso, ficaram mornos, como se naquele momento más recordações o assombrasse.
-Sua mãe tem uma qualidade que eu vejo muito em você, Sarah, que é a lealdade. Com vocês duas não existem meio termos, é tudo ou nada. Sua mãe é capaz de se entregar totalmente ao que ela acredita. Você também é assim. Vocês possuem almas tão cristalinas quanto um espelho. Essa é a redenção de vocês, mas também o purgatório.
Embora Sarah não tivesse certeza do que seria um purgatório, achou melhor não perguntar. Essa era uma daquelas raras ocasiões em que ele se permitia falar sobre o que tinha acontecido, mesmo que indiretamente, e a menina queria tanto respostas, de uma forma que às vezes chegava a doer.
A visão de sua mãe vagando dias e mais dias, como um fantasma, carregando uma caixa ou fotos secretas ainda a atordoava. E uma daquelas visões, a da sua mãe sendo carregada no colo pelo seu pai, enquanto chorava de uma forma incontrolável era a pior lembrança que Sarah tinha de sua vida. Sabia que poderia viver cem anos e, no entanto, aquela imagem jamais sairia de sua memória.
-Você é uma menina legal, Sarah, apenas não é igual às outras, mas o diferente é bom também. Deixe os outros verem como você é bacana. Se depois disso eles não quiserem a sua companhia, esse é um problema deles, não seu – o pai olhava o relógio, assustado. – Não está na hora de você se encontrar com os outros e voltar à Escola?
No caminho de volta até a praça aonde iria se encontrar com os outros colegas para regressar ao castelo, a menina andou de mãos dadas com o pai, orgulhosa. Após se despedir dele e voltar a escola, se encontrou com alguns colegas do segundo ano, que pediram para ver a tela que ela carregava.
- Irado! – um dos meninos comentava ao outro, enquanto passava os dedos pelo que até pouco tempo atrás, eram pinceladas de tinta fresca.
- E não é? O diferente pode ser bacana também. – Sarah mordia os lábios, segurando a vontade de rir enquanto caminhava para o seu quarto, onde a tela foi pendurada na parede atrás de sua cama.
Com o tempo, ela aprendeu a não ligar. Começou a conviver bem com a diferença e encontrou colegas que pensavam exatamente como ela.
Formaram o grupo das pessoas mais estranhas que já havia passado por Beauxbatons, ou, como eles se denominavam, eram os renegados.
Os Renegados foram os responsáveis por alguns dos episódios mais turbulentos da história de Beauxbatons, como o do Pieds et paquets, em que os estudantes invadiram a cozinha, comandados por Sarah, querendo coibir a preparação do Pieds et paquets, basicamente uma comida feita a base de pés e tripas de cabritos.
Considerado um escândalo por Madame Maxime, a diretora de mais de dois metros e meio de altura, que chamou os pais de Sarah até a escola, para que tentassem mostrar à garota que ela não poderia alterar as tradições da escola.
- Eu não quero comer aquilo, é horrível demais. Semana passada Mary Curdeou passou mal e foi levada a enfermaria, depois que quebrou um dos dentes com um pedaço do casco do animal! – a menina falava indignada, sem se importar com a face eqüina da diretora que parecia cada vez mais contrariada e não conseguia refrear o ódio que sentia ao ver que o pai da garota parecia mal se controlar para não gargalhar.
-Me desculpe diretora, mas comer os pés do cabrito não é um pouco demais? – Edward gargalhava enquanto Agatha cotovelava as costelas do homem, em uma franca tentativa de refrear a língua do marido.
-São as nossas tradições, como ousa caçoar delas?- a diretora batia a pena no pergaminho que tinha em frente com força, furando-o em vários lugares. - Ela precisa entender que existem normas em Beauxbatons e não admitirei essa falta de respeito! – A mulher levantava de sua cadeira enfurecida, parecendo ainda maior.
Após uma dezena de reprendas e ameaças que se estenderam não só a garota, mas também ao seu pai, Sarah foi liberada.
Ao contrário do que poderia parecer, o episódio apenas contribuiu para que Sarah se tornasse mais espirituosa, além do que, daquele dia em diante, foi dada mais opções para os alunos, que puderam optar por outros pratos e pararam de ter os seus dentes quebrados durante as refeições.
E vários movimentos foram encabeçados pela garota.
Outro, importante de ser citado, foi o "calças para quem tem frio". A bruxa não achava correto passar frio, acreditava que obrigar as meninas a usar saia em pleno inverno era um abuso de poder. Mais uma vez, Os Renegados vieram ao seu auxílio, confeccionando bottons e camisetas que falavam sobre a causa. Houve uma verdadeira guerra pelos corredores da Escola. Enquanto Sarah e algumas amigas passaram a vestir tranqüilamente calças compridas, outras as caçoavam, acusando-as de contribuírem para a "masculinização" do sexo feminino.
E a garota aproveitando a ocasião, começou a usar o seu tempo vago em um de seus passatempos prediletos, o de azarar as meninas no corredor, lançando feitiços para que suas saias encolhessem.
-Ah, Celeste, se elas querem tanto usar saia, pelo menos que seja algo que esteja na moda, e não essas coisas cafonas e bufantes! – Sarah gargalhava com a amiga, no intervalo de uma aula, após ter azarado uma colega.
Mas nas aulas, Sarah se transformava. Não era a menina brincalhona e por vezes irresponsável dos intervalos, era alguém compenetrado e afoito por aprender. Decepcionava-se, com freqüência, por perceber que lhe faltava habilidade para algumas matérias, mas, em compensação, desde o primeiro dia de aula, na sala mais alta de uma das torres do castelo, viu-se envolta com o que seria a maior paixão de toda a sua vida: Poções.
Não eram apenas movimentos tolos com uma varinha, era algo muito mais profundo e arrebatador.
Libatius Borage, seu professor, fora, de início um grande estímulo para que se interessasse pelo assunto. O homem era um profundo conhecedor da matéria, tão diferente dos outros professores que mal disfarçavam o tédio e a indiferença que os consumiam pela obrigação de lecionar.
Em pouco tempo, Sarah passou a consumir todos os livros da biblioteca sobre o assunto, usando o seu tempo livre para tentar preparar Poções diferentes, extraídas dos mais variados livros da biblioteca, com técnicas cada vez mais trabalhosas. Sentia-se plena com aquilo, concentração absoluta, perícia e paciência. Ofereceu-se para ajudar a enfermeira da Escola em seus horários vagos, e, após algum tempo, os estoques de Poções curativas da escola estavam cheios e, antes de terminar o quinto ano, Sarah já dominava completamente a preparação de todas as poções constantes nos livros do Curso Básico e Regular.
E assim o tempo foi passando e antes que pudesse se dar conta, já estava entrando no quinto ano em Beauxbatons.
Períodos letivos que eram divididos pelas férias que tinha em sua casa e na casa de sua tia Amélia em Londres, capazes de surpreendê-la cada vez mais, tanto pela diversão quanto pelos alertas constantes de que algo estranho e ruim estava prestes a se iniciar. Agatha ficava visivelmente contrariada cada vez que Sarah arrumava a sua mochila para ficar na casa da tia, mas a garota fingia não perceber. O fato de se negarem a contar o que tinha acontecido com os seus tios deixava a garota aborrecida, e enquanto se recusassem a expor algum motivo que a fizesse mudar de idéia, vários dias na companhia da tia ainda era uma oportunidade tentadora.
Amélia nem sempre estava disponível para passear com ela, o alto cargo ocupado no Ministério da Magia preenchia boa parte dos seus dias, mas Sarah não ligava, ficar quanto tempo quisesse no Beco Diagonal ou pelas ruas de Londres era legal demais.
Munida de sua máquina fotográfica, ela explorava paisagens, prédios e até pessoas. Para a garota, fotografar cenas era uma forma de poder penetrar na vida dos habitantes e do lugar.
Não tardou para que ganhasse do pai, espantando com a naturalidade e beleza que ela conseguia ver nas cenas mais corriqueiras do dia-a-dia, um curso de férias de fotografia em Paris. Em pouco tempo a sua habilidade se tornou tão famosa em Beauxbatons, que era comum os colegas correrem até ela quando quisessem dar um presente para alguém. As fotos de paisagens e cenários urbanos que a garota fazia, depois de um tempo, já estavam sendo transformadas em pequenos quadros que enfeitavam as casas de inúmeros colegas da Escola. As paredes do quarto em Beauxbatons abrigavam agora, não somente inúmeras gravuras de Van Gogh, Rembrandt e a tela dada pelo pai no primeiro ano de Escola, elas dividiam o espaço com as muitas fotos que a garota fazia.
Costumava brincar com o seu pai dizendo que até podia não ser boa com pincéis e telas, mas tinha finalmente encontrado a sua forma de se expressar.
A Esgrima era sua outra paixão, que se revelara ao longo dos anos. Acostumada a acompanhar os duelos entre o pai e seus amigos, que marcavam disputas na sua casa, regadas a muito vinho, conversas sobre objetos de arte e exposições, em pouco tempo Sarah fez do florete o seu companheiro mais leal, mais até que sua varinha.
Durante as férias, a menina aproveitava para ir a um clube local, fazer aulas e treinar com algumas meninas trouxas da sua idade.
Entretanto, a paixão mesmo pelo esporte dava vazão quando ela ia para a casa da tia Amélia em Londres. Achava os franceses formais demais, os ingleses desenvolviam técnicas diferentes, faziam um duelo muito mais solto, o que agradava imensamente a menina.
E os cinco primeiros anos de escola e férias transcorreram dessa forma, com uma Sarah que mostrava possuir um espírito livre e que, a cada dia que passava, tinha a sensação de que a sua vida futura estaria bem longe do mundo bruxo.
Até que vieram as férias do seu sexto ano, com acontecimentos que serviriam para mostrar que, por mais que quisesse, o mundo mágico faria parte de sua vida, para sempre.
O dia começou tarde para Sarah. Tinha ficado até tarde conversando com o pai sobre o trabalho de Tarsila do Amaral, uma mulher ousada para a sua época, que fascinou tanto o seu pai que ele decidira escrever a um dos principais colecionadores particulares das obras da artista, com o pedido de que ele autorizasse o empréstimo das telas para uma exposição no museu.
Se espreguiçando na cama, mal pôde conter a felicidade por estar novamente em férias, em sua casa. Beauxabatons já não era tão ruim, depois de seis anos na escola, encontrara o seu lugar.
Os seus pés tocaram o chão frio do quarto, dando um arrepio na sua espinha. Pela janela, a menina avistava a paisagem que se descortinava a sua frente, um misto de vales de um verde intenso. Um sorriso brotava-lhe nos lábios, ela tinha tanta saudade daquele lugar que só quando chegava em casa nas férias ela conseguia medir com exatidão o tamanho desse sentimento.
Saindo do quarto, quase trombou com a sua mochila, estrategicamente preparada desde o dia anterior, para a viagem que faria a Londres naquela tarde.
De camisola, desceu correndo os degraus que levavam ao hall de entrada, apanhando no trajeto, o Profeta Diário da pata de uma coruja que parecia irritada com a demora para ser atendida.
Os olhos da menina corriam pelas matérias, enquanto o seu nariz sentia o aroma do café que vinha da cozinha. Até que uma matéria chamou a sua atenção.
-Olha mãe, houve uma fuga de Azkaban! – Agatha descia as escadas naquele momento e pareceu estacar em um dos degraus com a notícia. – Que estranho, sempre achei que ninguém nunca tinha fugido de lá. – Sarah estreitava as sobrancelhas em dúvida, enquanto Agatha, ainda parada nos degraus, parecia se segurar com força no corrimão para não cair.
- Sirius Black é o nome do fugitivo, ele é medonho mesmo, tem até uma foto dele aqui, veja! – A menina estendia o jornal para a mãe que, com uma expressão lívida, caminhava em disparada passando por ela, até a sala, apanhando um pouco de pó de flú de um pote ao lado da lareira e jogava no fogo.
-Uau, ele é terrível mesmo, matou mais de dez pessoas e a única coisa que ficou inteira foi um dos dedos de uma das vítimas. – Sarah parecia indiferente quanto ao que acontecia Imediatamente, as chamas se tornaram verde-esmeraldas, que se refletiam no rosto de Agatha que se inclinava em direção ao fogo, com uma expressão mais terrificada do que nunca.
-Amélia, você está aí? – Sarah cruzava os braços, observando a cena, parada na entrada da sala. Não poderia ouvir o que Amélia responderia, mas queria entender o súbito interesse da mãe, que sempre fora tão alheia e desinteressada com o que acontecia ao seu redor, ter esse repentino assombro de interesse por um fugitivo.
Há um tempo atrás ficara sabendo que a mãe era uma auror. Tinha achado o máximo aquilo, pensar em sua mãe, uma especialista em capturar bruxos das trevas dava-lhe entusiasmo e orgulho. Entretanto, como tantas vezes já acontecera antes daquilo, novamente suas perguntas ficaram sem respostas ou com explicações pouco completas do porquê a mãe tinha aberto mão de sua vida. A mudança para a França parecia tão pouco, a menina não entendia o que levava alguém a abrir mão dos seus sonhos daquela forma.
Por tantas vezes ouvira o seu pai falando sobre como a sua mãe era quando se conheceram e, mesmo assim, não parecia ser o suficiente para convencê-la de que Agatha já fora diferente do que era hoje, alguém tão distante, isolada em seu próprio mundo e descrente de tudo.
-Então é verdade, Amélia? Sirius conseguiu escapar? – a voz da mãe despertou a menina de seus pensamentos. Não fora propriamente o som da voz, mas a entonação que a mãe dava às palavras, triste, acuada.
-Não, ela não vai mais. Nos falamos outra hora. – A mãe rapidamente levantava de frente da lareira com outro ânimo. Puxando a varinha de dentro do seu roupão, caminhava pela casa, sussurrando enquanto apontava a varinha para as janelas, que pareciam inflar levemente e ganhar uma proteção de algo semitransparente. Jamais tinha visto a mãe fazer aquilo com a sua varinha, caminhando pela casa fazendo movimentos displicentes enquanto encantamentos poderosos eram lançados.
- O que está acontecendo, mãe? – Sarah observava a mulher, parada próxima a uma janela, de costas para a garota, tremendo por completo enquanto abraçava o próprio corpo.
- Você não vai a Londres. – Agatha suspirava de forma profunda, parecendo cansada. - Nunca concordei que você fosse a Inglaterra, você não precisa de nada de lá, tudo o que você precisa está aqui.
- Com todo respeito, mãe, mas será que dá para a senhora não se comportar feito uma louca e me contar o que está acontecendo? – A garota mal podia acreditar que tinha falado daquela forma com a mãe, parecia incapaz de refrear as palavras que saíam da sua boca.
Mas o mais inesperado veio em seguida. Agatha se virava em direção a ela, o contraste da luz que banhava as janelas incidindo contra o seu rosto e a deixando mais pálida do que o habitual. Quando tornou a falar, o som saiu rouco, como se viesse das profundezas dela, da sua alma:
- Qual história quer primeiro? A da sensação de como é ter um irmão assassinado? Ou quem sabe prefira a de como é ser traída por amigos? –ela avançava em direção a menina de forma perigosa, sua mão trêmula empunhando uma varinha que disparava faíscas involuntárias - Ou quem sabe eu resuma e conte apenas uma, a que engloba todas, a história de como o ser humano é mau por natureza e como, no final das contas, não podemos confiar em ninguém. Qual quer primeiro, criança? – O rosto da mulher ficava a centímetros de distância dos de Sarah e pareciam feri-la, apenas com a insanidade do olhar.
-Eu quero entender, apenas isso. – A jovem parecia encolher, na medida em que a ira da mãe parecia preencher e tomar todo o ar do ambiente, sufocando-a.
-Não tem nada para entender, não seja mal agradecida e me obedeça, você não vai a Londres e essa é a minha decisão final. – Agatha dava às costas a garota e saía da sala, deixando para trás uma Sarah indignada.
-Veremos então. – A menina sussurrava baixinho enquanto voltava ao quarto e se arrumava.
Há muito tempo sentia que o clima naquela casa estava se tornando insuportável. Mesmo que agora só ficasse em casa uns poucos meses por ano, sentia de forma intensa o quanto tudo havia desmoronado. Ou nem desmoronado, como desmoronar algo que nunca havia sido construído? Com uma satisfação amarga, naquele dia Sarah se deu conta de que jamais obteria respostas da sua mãe, por mais simples que fossem.
Seus pais viviam um casamento que parecia tranqüilo, embora a cada dia que passava e quanto mais próxima à fase adulta Sarah chegava, sabia que o casamento dos seus pais já tinha afundado há muitos anos atrás. Ela via a forma saudosista que o pai se referia à Agatha do passado, como se internamente quisesse que aquela mulher viesse à tona novamente. Teve pena do seu pai, compreendeu como devia ser frustrante ficar em um relacionamento na eterna espera que a pessoa mude. Sua mãe não iria mudar, seria assim para sempre.
Naquele instante, Sarah teve a certeza: não deixaria a mãe ser o seu carrasco, não seria aprisionada, privada de seus sonhos por conta de alguém que se deixava dominar por frustrações do passado. Não era justo. Não era correto.
Lançando um último olhar a seu quarto, colocou a sua mochila nas costas e fechou a porta. Tão cedo Sarah não retornaria aquele lugar.
A cada degrau que descia, cenas felizes de sua infância vinham à tona. Estranhamente, em todas elas, era o seu pai quem vinha a sua memória e não a sua mãe. Seu pai. Tinha consciência de que um dia, talvez, entenderia e até aceitaria os motivos da sua mãe. Só não aceitava o descaso, não entendia o que era tão terrível em seu passado que havia deixado nela seqüelas que impediam que ela amasse, que ela fosse um ser humano completo. Não duvidava do amor da mãe, sentia que era amada, mas Sarah não queria mais o fantasma da mãe sendo carregada no colo pelo seu pai, aos prantos, como acontecera por diversas vezes. Não queria aquilo para a sua vida. Não queria sombras, não queria culpas, queria ser feliz.
-Abre a porta, estou indo embora. – Seu pai já tinha chegado em casa, ele e sua mãe estavam sentados no sofá da sala, seu pai de frente para ela, com uma expressão terrificada no rosto. A garota teve a nítida impressão de que estavam conversando sobre algo assustador, provavelmente sobre o tal do Sirius Black. Edward olhou para a menina abobalhado, parecia não acreditar na visão que estava tendo, da garota postada próxima a porta da entrada, com a mochila nas costas, pedindo para sair.
- Sarah, querida, sua mãe já conversou com você, achamos melhor que não viaje. Podemos deixar essa viagem para outra hora. – Ele levantava do sofá, e se aproximava da garota. Sarah se assustou de como o pai parecia abatido e velho. Nem parecia mais aquele homem sujo de tinta e de rosto traquina que foi se encontrar com ela em um vilarejo em seu primeiro ano de escola.
- Estou indo para a casa da tia Amélia, mas não é apenas uma viagem, vou morar com ela. – A bruxa desviou o olhar para o abajur da sala, incapaz de encarar o pai, como se o objeto fosse mais interessante do que os olhos do homem. Sentia que se visse tristeza ou desapontamento nos olhos dele seria capaz de morrer. Edward permaneceu em silêncio por alguns segundos, sem reação. Até que a voz da mãe voltou a se fazer presente.
- Você é tola, ingênua. Volte para o seu quarto agora! – Pela segunda vez naquele dia a mãe avançava em direção à garota parecendo transtornada. Mas agora havia algo diferente. Lágrimas rolavam pelo rosto da mulher, lágrimas que, ao contrário de entristecê-la, deixavam-na irritada. –Você é uma menina, não entende nada do mundo, não entende o sofrimento pelo qual já passamos e não compreende que não queremos que aquilo se repita. Nós te protegemos, nós fazemos as escolhas certas para te deixar distante de tudo o que não presta, você não é capaz de entender o quanto eu te amo, o quanto eu amo o seu pai!
As palavras da mãe pareciam golpes que a atingiam em cheio. Lágrimas de raiva brotavam dos olhos da menina, enquanto ela levava as mãos aos ouvidos e fechava os olhos, não queria ouvir mais nada que a mãe pudesse lhe dizer, ela só queria fugir, queria sair daquele lugar o mais depressa possível. Sarah tinha vontade de gritar, tinha vontade de urrar de dor e de raiva.
- Se o que sente é amor, não faça eu te odiar, tira esses malditos feitiços que lançou e me deixa ir embora. – Respirando com dificuldade e tentando controlar o ódio que sentia naquele momento por sua mãe, se virou para o pai. – Por favor, eu não agüento mais. Deixem-me ir embora para que eu sinta amor por vocês, para que eu volte a ter respeito.
-Agatha, abre essa porta. – A voz de Edward era dura, carregada de dor e incisiva. Nem Agatha nem Sarah estavam preparadas para aquilo, quando o som metálico da porta se abriu, por um momento, Sarah olhou em direção ao seu pai, antes de sair para a noite escura, ouvindo atrás de si o pranto de sua mãe e o único comentário do seu pai:
-Ela precisa viver e fazer as suas escolhas.
Quando o ar da noite, frio e leve, encheram os seus pulmões, a menina sorriu. Aquela era a melhor definição para liberdade que a garota tinha conhecimento.
Amélia mal podia conter a felicidade em ter Sarah a seu lado. Ela nunca escondeu a sua opinião de que Sarah precisava viver, nunca concordou com a ida de Sarah a Beauxbatons e, por conta das tais desavenças que a garota não entendia bem quais eram, Amélia não se importava se Agatha iria ficar com raiva dela por Sarah ter se mudado para Londres.
A garota sentia-se em casa em Londres, como se estivesse resgatando parte de sua família. Depois de quase dezessete anos pôde conhecer sua prima Susan, uma garota dois anos mais nova que Sarah, que só tinha visto por foto.
A mãe e o pai escreviam à garota com freqüência. O pai perguntando como tinham sido os seus dias, se estava gostando da nova moradia e querendo saber quando iria a Mont St Michel visita-los. A mãe, como sempre, acusando a menina de ser relapsa, falando sobre evitar sofrimento, sobre proteção e, quanto mais ela tocava nesse assunto, mais Sarah tinha a sensação de que tinha tomado a atitude correta em relação à mudança.
Os últimos dias de férias da menina foram perfeitos. Enquanto a tia tinha dias cheios no Ministério por conta da fuga do tal Black, Sarah, munida de sua máquina fotográfica e de muita sola de tênis para que pudesse gastar, passava dias inteiros vagando a esmo pelo Beco Diagonal e pela região central de Londres.
Em um dos dias, desbravando o Beco, avistou uma pequena sala, onde um tatuador trabalhava. Tomada de curiosidade, entrou no lugar, no momento em que ele terminava de tatuar uma borboleta nas costas de uma jovem bruxa de cabelos rosa choque espetados.
Como se aquele fosse um ritual de libertação, Sarah saiu do lugar, sete horas depois e já tarde da noite, com cinco tatuagens espalhadas pelo corpo. Sentia a sua pele ardendo em vários lugares e, embora o tatuador tivesse garantido que uma solução de murtisco resolveria o problema, ela já não estava tão certa disso.
Entrou em casa rindo baixinho, curiosa em saber qual a reação da tia quando a visse. Só não contava com a face lívida de fúria que a tia esboçaria ao enxerga-la.
-Sabe que horas são? – a tia estava sentada no sofá da sala, segurando uma xícara de chá fumegante.
Sarah, mordendo os lábios para não rir, tirou a sua blusa e se virou de costas e estendeu os braços, para que a tia enxergasse o que ela tinha feito.
- Por Merlim, criança! – Embora não tivesse visto a expressão da tia, tinha certeza que não deveria ter sido algo aprobatório, pelo som da xícara que se estilhaçava ao chão. - Você é menor de idade, seus pais vão achar que eu não cuido de você direito! – A mulher se aproximava da garota, sua boca tremendo de descontentamento. – Além do que, com a minha experiência, tatuagens nem sempre são vistas com bons olhos. – A tia mantinha um olhar confuso e aflito para a garota, enquanto Sarah tornava a vestir a blusa.
-Ah tia, são legais demais!- Sarah via o olhar aflito da sua tia em sua direção. – Além do que, se gostam de mim, não vão deixar de gostar por causa de uma bobagem dessas, a senhora não acha?
-Bobagem, Sarah? Nem tudo são bobagens. - O rosto da tia parecia inchar de raiva enquanto ela falava, o tom de voz aumentando a cada palavra dita. – Black foi avistado hoje a tarde em Hogsmead! – ela encarava a menina com uma angústia mal disfarçada.
- Eu não concordo com a forma que a sua mãe age, mas Black é realmente perigoso. Tem coisas no passado de nossa família que você desconhece, Sarah, mas acredite nela. Por vezes ela tem razão em estar daquele jeito, de ser como ela é – Sarah não sabia o que dizer, aproveitando a sua nova liberdade, nem sequer se dera conta de que andar pelas ruas a noite era perigoso, jamais havia visto a tia comentar sobre o passado daquela maneira, o que a deixou ainda mais envergonhada por ter agido daquela forma – Então eu recomendo que comece a ser mais responsável e não me desaponte.
E assim as suas férias chegaram ao fim. E com o fim das férias se iniciou mais um ano em Beauxbatons, o último em que ela ficaria na escola. A nova moradia e a nova liberdade recém adquirida pareciam despertar o bom humor da menina, que se tornava mais espirituosa e alegre a cada dia que passava. Com o tempo, ficava cada vez mais distante aquela menina que se sentia excluída por ser diferente, Sarah passou a se assumir, do jeito que era, sem se importar se estava agradando as pessoas ao seu redor ou não.
Beauxbatons era apenas razoável como Escola preparatória. Mais de uma vez destilou a sua raiva contra a mãe pela péssima escolha que fizera para a garota. Planos sobre o futuro começaram a ser elaborados. Sarah tomou a decisão que achava ser a mais correta e a que mais a agradava: terminando Beauxbatons iria a Paris, estudar História da Arte. O contentamento do seu pai, a felicidade que ele expressava por sua decisão era algo contagiante. Ele via nessa escolha a certeza de que a filha seguiria os seus passos e, em pouco tempo, viria a trabalhar no museu, junto com ele.
Apenas uma coisa a colocava em dúvida quanto as suas convicções: o crescente interesse e aptidão que parecia possuir para Poções.
Desde a primeira aula, em que abrira o seu estojo de preparação de Poções, ficou fascinada. Não eram apenas movimentos bobos com uma varinha, era muito mais do que exclamar palavras mágicas, era uma seção totalmente diferente da Magia. Técnica, desprendimento, paciência e concentração: esses eram os requisitos mínimos para se obter sucesso nessa matéria. A capacidade de transformação, de extrair a essência mais sublime dos ingredientes, levando a preparações mágicas a fascinava por completo.
Sarah já não se contentava com as poções contidas nos livros da biblioteca e foi com grande alegria que ela celebrou o início do seu sétimo ano e a possibilidade de se embrenhar em um curso avançado na matéria.
Disposta a aprender o maior número de Poções e técnicas de preparo, assinou diversas revistas sobre o tema, entre as quais " O preparador de Poções". Em pouco tempo, cansada de fazer dezenas de vezes as mesmas poções, passou a preparar as que eram descritas nas revistas, testando as adaptações que os autores sugeriam. Charles Levin, Peter Kirwick e Severus Snape se tornaram os seus autores prediletos, principalmente o último, que além de novas Poções sugeria pequenas alterações nas Poções clássicas, simplificando as técnicas e melhorando absurdamente o rendimento delas.
Em contrapartida, parecia que na medida em que o seu amor pela matéria aumentava, um sentimento próximo a mesquinhez assolava o seu professor da disciplina, que se tornava, a cada dia, mais inclinado a não dividir seu conhecimento e nem discutir técnicas novas, como se a garota simbolizasse uma espécie de ameaça que ele queria, a muito custo, extinguir.
- A senhorita não pode alterar a técnica clássica, eu não dei autorização para isso! – o professor berrava com a garota durante uma das aulas, fazendo que ela tivesse tanta vergonha do ridículo da situação, que uma vontade imensa de enfiar o rosto dentro do caldeirão a tomava.
-Me desculpe, eu usei um artigo que li, que dizia que se acrescentássemos um pouco de ditamno a poção chegaria no ponto mais rapidamente. – a voz da garota era baixa, quase um sussuro, enquanto o professor parecia, a cada instante, inflar mais de raiva, como um grande sapo gordo.
-Eu sou o seu professor, eu dito as regras, eu estabeleço como a aula deve ser conduzida! – Avançando em direção a garota, o homem erguia a varinha em um movimento indulgente, enquanto o seu caldeirão se esvaziava, os olhos da garota faiscando de raiva em direção a ele.
-Faça de novo, do meu jeito! – o homem virava de costas e se afastava, deixando para trás uma Sarah Clavell irritada a ponto de cogitar o tamanho do estrago que causaria se atirasse o caldeirão na cabeça dele.
Há muito a menina observava a falta de interesse do professor em sanear as suas dúvidas, em partilhar conhecimento, como se considerasse que Sarah pudesse ser uma ameaça. Depois daquele episódio, unido ao desapontamento, aliou-se outro sentimento, uma furiosa obstinação em readaptar técnicas clássicas, essa seria a vingança da menina contra a presunção do homem. A cada aula de Poções, somava-se a ira do professor um novo comentário depreciativo quanto às habilidades da garota. O homem, a cada dia que passava, se mostrava mais ansioso em tentar estrangular as convicções e as crenças da bruxa.
Nesses momentos era impossível não pensar em Severus Snape, o professor de Poções em Hogwarts. Imaginava-se como seria se pudesse ter tido o prazer de ter aulas com ele. Pelo extenso conhecimento em Poções, Snape provavelmente seria um daqueles velhinhos bondosos, que dividia o seu conhecimento extenso e as suas descobertas fascinantes com todo o mundo bruxo, sem qualquer indício de tirania sobre as suas tão preciosas obras.
Esses pensamentos sobre como teria sido em Hogwarts eram cada vez mais constantes, Borage parecia decidido a assombrá-la cada vez mais. E a cada nova investida, mais Sarah permanecia fiel a sua determinação, usava qualquer tempo livre em seu quarto, onde, ilegalmente, tinha feito um pequeno espaço para estudo. Uma fina cortina separava o caldeirão e a estante onde pousavam os ingredientes do resto do ambiente. Suas companheiras de quarto, por vezes pareciam irritadas com o fato de dormirem sentindo cheiros que provinham de caldeirões fumegantes, que nem sempre exalavam odores agradáveis, o que Sarah imediatamente compensava com pequenos presentes, em sua maioria pequenos frascos contendo Amortentia.
Mas isso nem sempre parecia compensar o descontentamento que frequentemente assolava as suas amigas. Enquanto elas pensavam em festas, em diversão, em namoros, Sarah se mostrava alguém um pouco indiferente a isso. Freqüentava algumas festas organizadas pelos colegas, ficava com alguns garotos, mas não ia além. Muitos rapazes pareciam atraídos pela garota engraçada, estudiosa, que possuía inúmeras tatuagens espalhadas pelo corpo. Ela se destacava em meio a uma multidão de garotas de cabelos longos, rostos angelicais e modos delicados. Sarah era diferente. Seu bom humor era inabalável, mesmo em tempos estranhos como os que estavam vindo, em que rumores sobre uma possível volta Daquele-que-não-deve-ser-nomeado ficavam mais intensos.
Disposta a ficar na escola se aprofundando em Poções, não pertenceu a delegação da Escola que foi a Hogwarts participar do torneio tribruxo.
Notas eram divulgadas pelos murais da escola todos os dias, que atualizavam quem tinha decidido ficar quanto à pontuação no torneio e a classificação da representante da escola.
Não refreava o sorriso debochado quando seu dedo corria pelo mural e via que a descendente de veela estava em último lugar.
-Se fosse um concurso de beleza aposto que estaria em primeiro. Ou um concurso sobre futilidades...- Sarah gargalhava sozinha andando pelos corredores da escola, momentos antes da última atualização sobre o torneio, a mais terrível, a que contava sobre a última prova e o garoto que morrera durante a competição. Pressentimentos estranhos a assolavam e a punham de alerta para que, talvez, os rumores cada vez mais absurdos que corriam pelo mundo, contados com cada vez mais pessimismo pela cartas enviadas pela mãe pudessem estar corretos. O mundo bruxo parecia prestes a reviver um velho pesadelo.
Seus anos de escola terminaram sem festa de formatura, sem abraços calorosos, sem comemoração. Beauxbatons, em respeito a morte do menino no torneio, optara por uma cerimônia discreta e íntima.
A carta de aceitação em uma Universidade trouxa para estudar História da Arte foi o único acontecimento do período capaz de trazer um pouco de alegria para um universo que se tornava mais nebuloso na medida em que o tempo passava.
Possuía apenas alguns dias de férias entre o fim das aulas em Beauxbatons e o início do curso de História da Arte em Paris. Sua mudança para um pequeno apartamento próximo a Praça da Bastille, graças ao uso de um pouco de magia foi feita em tempo recorde. Estava ansiosa por rever seus pais e voltar a Londres, passar os seus poucos dias de folga com aquela que se tornara bem mais do que um membro da família, mas uma das pessoas mais importantes de sua vida, quem, com naturalidade, ocupava bem mais do que o papel de tia, mas também o de uma amiga e confidente, e sem sombra de dúvida o papel de seu anjo da guarda.
A intenção era fazer uma surpresa, chegar sem aviso. A primeira coisa que ouviu ao abrir a porta foi uma voz estridente que vinha da cozinha.
- Você sabe que ele voltou! Eu não preciso estar na Inglaterra para saber o que se passa por aqui. O filho de James carregou o corpo do garoto de dentro de um labirinto. Ele voltou! – reconhecera a voz da mãe de imediato, achava que deveria realmente estar acontecendo algo muito terrível para que ela decidisse vir a Londres depois de tanto tempo. Recostada na parede, apurando os ouvidos, tentava captar o máximo que podia da conversa.
- O Profeta Diário, com todas aquelas mentiras, não me convence. Voldemort está de volta e dessa vez, se ele puder, vai matar o menino e quem mais ele conseguir! – Um barulho surdo de uma cadeira arrastada fez com que Sarah chegasse mais próximo a porta, assustada.
- Não temos certeza disso, Agatha, o Ministério está alerta, mas não temos certeza de nada. – A voz da sua tia parecia cansada, pesada, naquele tom que Sarah reconhecia estar presente quando ela ficava vários dias sem dormir, entregue ao extenso trabalho que possuía no Ministério, que por vezes Sarah suspeitava que roubavam muito além de sua capacidade física, mas tirava-lhe a paz.
- Black vai entregar o seu próprio
afilhado a morte, se tiver chance! A guerra já começou
e eu não vou estar aqui para assistir o final dela...– a voz
da mãe parecia cada vez mais acuada, sem controle. - Não
quero que Sarah saiba que eu estou doente. Prometam cuidar dela
quando eu me for, prometa, Amélia! Prometa protegê-la
dos tempos difíceis que estão por vir– Ela se
aproximava mais da irmã, os modos descontrolados e o rosto
contorcido em uma expressão agonizante, descontrolada. – Me
prometa!
-Acho que ela já sabe, Agatha...- os olhos da tia
se encontravam com os de Sarah, que, encostada na porta da cozinha,
assistia a cena estarrecida. – E sim, eu prometo cuidar de Sarah. –
A frase era dita enquanto Amélia fixava o seu olhar em Sarah e
Agatha, parecendo momentaneamente chocada com a presença da
garota, tornava a virar o corpo em direção a garota, a
face avermelhada e os olhos inchados, tomados pelo desespero.
