- Não precisa se preocupar, meu amor, eu estou bem. - A voz da mãe soava estridente e pouco convincente, enquanto se aproximava da filha com uma expressão transtornada no rosto.

- A senhora está doente? O que a senhora tem? – Sarah parecia confusa, a cena parecia tão irreal, como se estivesse vivendo momentos de uma vida que não era a sua.

Amélia se aproximava da garota parecendo terrivelmente contrariada. –Sua mãe está com câncer. – A mão da tia levantada em direção a Agatha a silenciara, como se não aceitasse contestação.

- Algumas coisas não podem ser ocultadas de Sarah, por mais que você queira Agatha, e essa é uma delas. - Agatha mantinha o rosto lívido, enquanto abria e fechava a boca, incerta quanto a melhor forma de agir.

Encostada ainda na porta da cozinha, Sarah observou quando a mãe sentou, apoiou os cotovelos na mesa e segurou a própria cabeça, conformada.

-Descobri há algum tempo atrás, mais ou menos um ano. Não há muito que se possa fazer. Seu pai, que Merlim o abençoe, tentou até recorrer ao mundo trouxa, mas não foi encontrado nada que possa me curar de verdade. - Ela levantava a cabeça fitando Sarah, que se aproximava devagar da mãe, receosa.

Por um momento elas apenas se olharam. Sarah podia finalmente ver como o tempo tinha passado para a sua mãe. A garota, por alguns instantes, ficou se questionando quando isso realmente acontecera, parecia que o tempo havia passado incrivelmente rápido, era um vira-tempo maluco e sentia que não tivera nenhum controle sobre isso.

Antes que pudesse voltar à realidade, ouviu a cadeira sendo arrastada e a mãe levantando. Sentiu-se enlaçada em um abraço apertado, como nunca tinha experimentado da mãe. Sarah a abraçou com força, sentindo a respiração dela próxima a sua, um abraço como nunca havia recebido dela. Naquele momento, Agatha não era a pessoa alheia que vagava pela vida como um fantasma, ela estava ali, presente.

Queria que o mundo parasse naquele momento, queria poder ficar eternamente ali, com a sua mãe, sentindo-a verdadeiramente viva.

-Escute, não quero piedade, não quero pena. - Agatha se afastava um pouco da filha enquanto a encarava, os olhos cintilantes. – Semana que vem você volta a Paris e começa o seu curso. Vida normal. – Ela balançava a cabeça frente ao murmúrio de protesto que Sarah ameaçava esboçar. – Seu pai vai estar comigo, ele me basta. Não quero você comigo e espero que respeite a minha vontade.- A bruxa se desvencilhava do abraço e Sarah sentia as suas entranhas gritando para que ela não se afastasse, queria tanto o contato com a mãe, precisava tanto daquilo.

-Algumas coisas foram acertadas com a sua tia Amélia. Você herda uma boa quantia em ouro e a casa na França que já está em seu nome desde que você nasceu. Algumas propriedades aqui na Inglaterra também são suas, não é muita coisa, mas tenho certeza que vai te deixar amparada no seu futuro. – A voz da mãe parecia tão gélida, tão sob controle que Sarah tinha vontade de gritar. Ela estava morrendo! Ela deveria estar discutindo opções, falando de quanto a amava e não isso! - A casa em Hogsmead também lhe pertence. Por um contrato mágico feito pelo seu avô, a casa passaria ao neto mais velho. Como você bem sabe, seus primos, filhos de Edgar morreram, então a casa é sua. É uma propriedade da família muito bonita, eu nunca tive interesse em voltar lá. - O rosto da sua mãe esboçava um sorriso triste, contrariado. – Não tenho lembranças boas de lá. Obviamente, essa é a residência dos Bones e um dia abrigará você, seu marido e seus filhos. Esse era o interesse do seu avô. Ela não pode ser vendida, no máximo repassada para alguém que possua o sobrenome Bones.- Sarah parecia cada vez mais incrédula, não entendia como, naquelas circunstâncias, sua mãe pudesse pensar em bens. – Isso tudo vai ser comentado novamente com você quando fizerem a leitura do testamento, mas não vejo mal algum em você já estar a par das questões legais e mágicas envolvidas.- A mãe direcionava o olhar para o pescoço da menina, arqueando as sobrancelhas, como se tivesse dado por falta de algo. – O medalhão dos Bones deveria estar em seu pescoço. Ele mostra quem você é e mostra mais que isso, mostra o seu caráter.

- Desculpa, mas é que ele é tão lindo que eu tenho medo de perder... - a garota parecia incerta quanto a melhor forma de agir naquele momento, não acreditava que estavam discutindo sobre bens e uma jóia enquanto tantas incertezas em relação ao tempo que a mãe ainda teria estava em jogo. -Mãe, esse não é o momento para conversarmos sobre essas coisas. –Sarah se aproximava da mãe, suplicante. - Vamos ao St Mungus, talvez eles descubram alguma coisa que possa ser feita, uma opção, qualquer coisa...

Amélia parecia prestes a explodir. Sua cabeça balançava vez ou outra enquanto os olhos, crivados de lágrimas prestes a rolar por sua face, se mantinham em Agatha. Essa, no entanto, parecia estranhamente mais alheia, a mulher chorosa novamente se fora, dando lugar a alguém que parecia incapaz de qualquer reação mais humana.

-Tem certas coisas que eu não quero que você fique sabendo. Tempos difíceis estão por vir, Sarah. –Ela olhava para Sarah com compaixão, como se a menina fosse alguém em estado terminal e não ela. – Sua tia Amélia cuidará de você. Meu desejo, como você já sabe, seria tê-la comigo na França, e não vagando por aí. – Ela olhava para a irmã de relance, enquanto largava uma xícara vazia na pia. – Sua tia Amélia sempre foi mais parecida com você do que eu, e isso me assusta. – Ela olhava para as duas, irmã e filha, de um jeito apreensivo e inseguro.

-Acho que tenho direito a um último desejo, não? – ela sorria, um sorriso tão inapropriado para a ocasião que parecia muito mais uma careta. – Quero que prometam que não se arriscarão e que, se preciso, fugirão de Londres. Podem me prometer isso? – Amélia olhou para Sarah, como se esperasse que ela tomasse a decisão pelas duas.

- Não é hora para isso, mãe... Vamos ao St Mungus, por favor? – a garota se aproximava da mãe, suplicando, os olhos cobertos de lágrimas e a respiração arquejante. –Por favor, mãe... Eu te imploro. - A garota tomava as mãos da mãe entre as suas, enquanto encarava o rosto de Agatha, tomada por um desespero que a consumia.

-Eu já fiz isso, criança. Ajude-me a partir em paz, me ajude a ir embora com a certeza de que vocês tomarão conta uma da outra.

Antes que Sarah abrisse a boca para responder, ouviu-se uma batida na porta, capaz de sobressaltar Amélia, que correu em direção da porta. Momentos depois um homem, com um aspecto imponente entrou na cozinha. Amélia vinha atrás dele, com uma expressão culpada no rosto, como se aquela não fosse uma visita surpresa.

-Agatha, sabia que você viria. – O homem lançava um sorriso bondoso a sua mãe, que bufava em silêncio, enquanto ele caminhava devagar em direção a Sarah. – E você deve ser a pequena Sarah, nem tão pequena assim, obviamente. – Sentiu um movimento às suas costas e se virou a tempo de ver a mãe avançando em direção ao homem, mantendo um olhar gélido e cortante, o rosto contraído em um ódio profundo.

-Vá embora agora! O que pensa que está fazendo? – os olhos da mãe pareciam saltar das órbitas, enquanto o homem, parecendo plácido e tranqüilo, sorriu. – Eu estou morrendo e nem em um momento desses o senhor é capaz de me respeitar?

Havia algo condescendente na expressão do homem, que escutava a mãe berrando com uma atenção quase polida, cortês.

- Naturalmente que eu sei. Sua irmã Amélia sempre fez questão de me deixar a par quanto ao que acontecia com a sua família, talvez uma forma de tranqüilizar um pobre velho. – Ele sentava em uma cadeira, parecendo natural, confortável, ignorando a sua mãe que deixava a cada momento mais claro que ele não era uma pessoa bem-vinda.

-Agatha, tem algumas informações que ele queria discutir com você. Acho que esse é o momento mais propício de todos, para que velhas desavenças sejam deixadas no passado. – Amélia falava de uma forma quase ensaiada, parecia estar treinando para esse encontro já há algum tempo. – Ouça o que ele tem a dizer, filtre o que quiser acreditar, mas, por favor, o escute.

Sarah sentia o seu coração pulsando quase na sua garganta pela probabilidade de finalmente conhecer os mistérios que assolavam a história da sua mãe. Sentia-se estranha, anestesiada. Tantas informações foram despejadas tão rapidamente sobre a sua cabeça que ela mal tivera tempo de raciocinar. Encarava a sua mãe, que parecia inflar mais de raiva a cada palavra proferida por eles, não era a máscara usual que a sua mãe usava, a da indiferença, era uma máscara diferente, a do ódio, a do ressentimento. Sentia-se compadecida por ela. Parecia se esforçar a cada instante para manter-se forte, uma clara demonstração de que não admitiria ninguém sofrendo pela sua doença, sofrendo pela certeza de que em pouco tempo ela partiria.

-Você esperava o meu perdão? Isso é remorso? É o sentimento de culpa por pensar que eu poderei morrer sem dizer que eu perdôo as suas falhas para com a minha família, que eu perdôo o descaso que o senhor teve com a minha dor?- a mãe se aproximava perigosamente do homem, os olhos de Sarah fixos na varinha dela que soltavam fagulhas involuntárias a cada palavra que ela dizia. – Não quero Sarah no meio disso, nem agora, nem nunca. O senhor nunca deu atenção às minhas vontades, pelo menos respeite essa. - O rosto de Agatha parecia expressar uma dor profunda. Quando ela voltou a olhar para a irmã, Sarah reparou que havia certo entendimento entre elas, como se naquele momento não precisava haver palavras. Amélia parecia fraca, derrotada.

-Respeite a minha vontade de manter Sarah longe dessa imundície. Ela viverá melhor sem isso. - Sem rodeios, puxou a irmã para um breve abraço antes de se aproximar da filha.

Por um momento, Sarah achou que ela fosse desabar. Os olhos se tornaram opacos, ofuscados. Quando abraçou a filha, Sarah sentiu a umidade do seu rosto, lágrimas grossas que caíam pela sua face e que eram amparadas pelo ombro da filha.

-Um dia você vai entender. Eu te amo mais do que tudo. Perdoe os meus erros, espero que um dia você possa compreender ou pelo menos aceitar que não fui perfeita. – as palavras eram sussurros suficientemente baixos para que os outros não a ouvissem com clareza. – Você foi tudo que eu sempre sonhei minha menina... - Ela se afastava de Sarah e tomava o seu rosto com ambas as mãos enquanto continuava. – Você foi o meu sonho mais lindo. – Ela amparava com a ponta dos dedos uma lágrima que escorria devagar pelo rosto da garota. – Eu já fui muito parecida com você, tenho certeza que seu pai e sua tia já te disseram isso milhares de vezes, não é? – Um sorriso tímido estampou o seu rosto antes de congelar e ser substituído por uma expressão desagradável ao ouvir novamente a voz de Dumbledore.

- A Ordem da Fênix está de volta... - A voz do homem era baixa, se mostrando imune a raiva cada vez mais evidente nos modos da mulher.

Agatha soltou a filha e caminhou lentamente em direção a porta. Com a mão na maçaneta, tornou a se virar para o homem.

- E presumo que tenha resolvido me contar isso porque o assassino do meu irmão agora é parte integrante dela. – o olhar lançado ao bruxo era tão cortante quanto uma espada. – Todos estão fadados a morrer. E rezo para que ele seja o primeiro.

Sem mais uma palavra, Agatha foi embora, deixando a cozinha extremamente silenciosa por vários minutos.

- Esqueci de me apresentar a Sarah. Meu nome é Albus Dumbledore. – Um sorriso singelo passava pelos lábios do homem, no momento em que Sarah ainda encarava a porta, com uma certeza quase mórbida de saber que aquela, provavelmente, fora a última vez que tinha visto a sua mãe viva.